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Full text of "Decadas da Asia"

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DA ASIA 

de" 
DIOGO DE COUTO 

Dos PEiroS , QtTE OS PoRl^UGÜEZES FKERAM 
. HA COKQinSTA , B DESCÜBÉIMENTO 
DAS TÉRRAS, E MARES DO OrIENTE# 

DECADA OITAVA. 



i 




LISBOA ^<ÍJ^yJ)^ 
Na Regia Officina Typogkapica, 

^s AKNO M«DCC*LXXXy r. 
Cm lUetifé iñ Rut Mtm dnfiriá» aVrhíiUgh Rfn/. 




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. AO MÜITO CATHOLICO, 

MUITO PODEROSO 
M ÓNARCA DAS HESPANHAS 

D. FILIPPE 

REY DE PORTUGAL 
bSEGÜNDODO NOME 
'' NOSSO SENHOR. 



A 



. QvELLA cruel ^ e deshumana bar- 
pia da inveja , muito CathoHco , Podero- 
fo Monarca , e Senhor noffo , he tño an^ 
tigaj e too levantada^ que cmDeos nojfb 

Se* 



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Sensor creando osAnjof^ logo entra pela 
Gloria , e dejlroe aquella foberana Mo-^ 
narquiaj com Ihestnetter émcabefaj que 
podiam Jer femelbantes 'ao JhiJ/iníó^ €óm 
que do mais alto fez dar com elles na 
niais baixo do Inferno ; e depoit que no 
Ceo nao teve quefazer , defeco^ d térra ; 
e tanto que Déos nojfo Sénior formou os 
homens , entre os primeiros dous que ba* 
via fe mette cruel embaidora ^ e faz com 
que Caim mate feu irmSo Abel ; e ajjim 
como foram crejcendo as gerafoes ^ ajpm 
foi ella fazendo feus eflragos ; porque em 
fe alevantando a primeira Monarquia^ 
que foram os Affyrios , logo trabalbou de 
a derrubar , até que o fez ; e fuccedenda 
a fegunda dos Medos , e Perfas , foi en-- 
trando por ella até a desbaratar ; e cres- 
cendo a dos Gregos , ella a derrubou em 
pouco tempo ; e depois de fe alevantar a 
dos Romanos , nao confentio que perma- 
necejfe , porque logo a confumio , e aJJim 
foi fubindo buns ^ e alevantando outros , e 
jogando a cboca {como Id dizem) com os 
Senborios , EJlados , e Reinos , em qtíe 
femprefez feu officio j e ajjlim como come* 

fOU 



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fou no mais alto ejlado y que fot o doCeOy 
ajjim defeco ao mais baixo da térra ; tan^. 
to 9 que veto a entender contigo y que nao 
podefer ntaior defpropofitú ; porque ven^ 
do ella as ntercés que V. MAGESTADE 
me faz a mim , e a todos os Portuguezes. 
em mandar imprimir as minbas Decadas 
da Hifioria da India , que eu com tanto 
trabalbo , e gofio compuz por mandado do 
muito Catbolico , e Prudente Rey D. Fi-- 
lippe nojfb Pai , e pelo de V. MAGES- 
TADE ^ que muitos annos viva^y e que 
andava tao acreditada pelo Mundo y on- 
de fe tratava traduzirem-fe em Francez^ 
e Alemao , o que me fez alevantar tanto 
o animo que em breves tempos acabei a 
oitavay e novena Dtecadasy que jd o amo 
paffadó pertendia mdhdar a F. MAGES-^ 
TADE. Mas ejla dejlroidora de tudo 
cruel y e inhumana inveja parece que fe 
metteo em algum peito diabólico y e dd 
ordem com que me furtem ejles dous vo- 
lumes y havendo que ijlo fez que como eu 
era velhOy e por razao da natureza nSo 
podia viver muito y e imprimirem-na em 
nome de quem quer que fojfe y e fkarem- 

fe. 



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fe logrando do rneu trahaJho , ejíior. Mas^ 
Deós noJpD Senbor , Author de todos os 
bens 9 que nao confente bum tao mani^ 
fejlo roubo , quiz que me flcajfem alguns 
fragmentos ^ e lembranfas , das quaes com 
o que me ficou ná memoria das coufas 
que vi y que aquellas duas Decadas con^ 
iém , o tempo de D. Antao de Noronba y 
de D. Luiz de Ataide , de D. Antonio de 
Noronba , de Antonio Moniz Barrete , 
de D. Diogo de Menezes , efegunda vez 
do Conde D. Luiz de Ata/de y em que eu 
fnilitei nefte EJlado , ejlava prefente ñas 
ntais das coufas j em que me acbei. Per^ 
' mittio Déos nojfo Senbor encaminbar-me 
de fei(ao , que tornei a recopilar ejlas 
duas Decadas a modo de Epilogo , em 
que refumi as coufas mais notaveis , e 
fubjlanciaes que fuccedéram , e fiquei af^ 
Jim fupprindo o melbor que pude o furto 
que me fizeram ; e quando alguma bora 
apparecerem , lego fe conbecerdS ajjim 
felo meu eftilo , como pela materia. Dejie 
naufragio efcapdram a décima , deci-' 
tna primeira , e parte da duodécima , que 
tinha jd nejfe Reino a falvamento ; e pois 



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a obra toda he de V. MAGIESTADE^ 
que a mandou fazer , e imprimir y a K 
MAGESTADE a offerefo , e humilde- 
mente pefo a receba com a benignidade y 
com que recebeo as mais ; porque quando 
virem o como V. MAGESTADE favo- 
rece ejle meu trabalho , fe alevantem de^ 
pois de mim novos engenhos , a continuar 
ejia Obra , pois dijfo redunda tanta glo-^ 
ria a Déos , e aF. MAGESTADE , e 
tanta honra a feus Vaffallos , que a tro^ 
€0 das vidas trabaíbdo por dilatar o Im-- 
perio y que V. MAGESTADE tem nejle 
Oriente y até que de todo o tragao aojugo 
de Chrijlo y e ao de V. MAGESTADE y 
a quem nojfo Senhor dé o que a toda a 
Cbrijiandade Ihe he necejfario. Goa a 8, 
de Janeiro de 1616. 



Diogo do Couto. 



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índice 

DOS capítulos, QPE SE CONTEM 
N E S T A 

DÉCADA VIH. 



CAP. I. D. Antonio de Noronba eleito 
Fi/o'Rey da India. Pag. li 

CAP. 11. Da grande batalha que D. 
Paulo de Lima teve com o Qanatale. 9. 
CAP.IIL Torna a continuar o grande cer^ 
co da Cota. i^. 

CAP. IV. Mogores entrados ñas térras de 
Damao. 39. 

CAP. V. Antonio Teixeira com recado ao 
Grao Turco , e vai com a refpojla ao 
Reyno. ' 4:^. 

CAP. VI. Em que fe continúa o cerca de 
Cananor , e fuccejfos , que nelle hou^ 
w. 46. 

CAP. VIL Do defpejo da Cidade da Cota 
pera Columbo. c6r 

CAP. VIH. Da ida de D. Fernando de 
Monrqy ao eftreito de Meca , e do que 
Id Ihe fuccedeo. 60. 

CAP. IX. Profegue a guerra do Cana- 
ñor. 63. 

CAP. X. Dos provimentos que ejle anno fe 
fizeram pera a Portaleña de Ceilao. 67. 

CAP. 



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I K D I C B 

CAP. XL De como D. Diog0 Pereira fot 
com huma Armada grojfa ao ejireito de 
Meca y e o que Ihe fuccedeo na viagemí 
e como fe perdeo com a maior parte deU- 
la. 68. 

CAP. XIL He como mandou o Rey do Pegú 
pedir huma filba ao Rey de Ceilao pera 
cafar com ella. 74» 

CAP. XIII. Da grandeza , e riaue&a com 
que ejle dente fii recebido em Pegú. 83. 

CAP. XIV. JDe como fe conjuraram os 

- Reys do Decdo contra o Rey de Bijna-- 
gdy em que Ibe deram batalha , na aual 
o desbaratdram , matdram , e tomar am 
o Reyno. 88. 

CAP.XV. Do encontró deftes Reys , rompió 
mentó , e batalba , em que o Rey de Bif 
nagd ficou morto , e desbaratado. 89. 

CAP. XVI. De como Gonfalo Pereira Mar- 
ramaque foi a Amboino y e a caufa ds 
fuá ida. 95'. 

CAR XVII. Da ida de D. Jorge de Mene- 
zes Baroche ao ejireito de Meca , e do 
que Ihe fuccedeo. 102. 

CAP. XVIIÍ. Da ida deD. Francifco MaJ- 
carenbas Palha ao Malavar. 103. 

CAP. XIX. De como o Fifo-Rey D. Antao 
parte pera Mamgalor em 8. de Déseme 
bro de I5'67. e Itvou ejla Armada. 106. 

CAP. XX- Cbega o Fifo^Rey a Mangalor y e 

comr 



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DOS Capitulo^. 

tmmeite m térra : e v étjfalt$ ^ue $s M$9h 
ros deram nosnojfos y tinque b$uve mar^ 
tos , e feriaos , e grande confusSo. 1 1 u 

Cap. XXL Do grande y fs mentor aneljerco 

' que po% fobre a Fortaleza de Malaca 
Sultüo Alabar adi Rey do Jchém : e da 
fotencia som que appareceo fobre aquella 
Gdade j e recados que bouve entre elle^ 
e D. Leéniz Pereira , Capitdo daquella 
Fortaleza* . 130. 

CAP. XXII. Da poderoja Armada eomque 
o Acbém appareceo Jobre' Malaca. 133. 

CAP. XXIII. Das novas que cbegdram ao 
PípnRey dos apercebintentos queoAcbéní 
fazia contra Malaca , e dos foccorfos 
que defpedio^ 163. 

CAP. XXIV.» De como fe apercebeo ElRey 
de ViantaHa pera ir contra o Achém , 
que jd acha recolhido , evifita o Capi* 
tío D. Leoniz. 166. 

CAP, XXV. Do que acoñteceo a GonfaJa 
Pereira Marramaque depots que partió 

' de Malaca. - 172. 

CAP. XXVL Da morte que Diogo de Mef 

Jmita fez a ElRey de Maiuco^ e acau^ 
a de^ fuá ntortt^ 106. 

CAP. XXVIL Z)^ que fuctedeo a D. Luiz 
de AJmeida^ no rio de Súrtate com duas 
naos de Meca. o.\^. 

CAP. XXVIll. Entra tempo éo Vifo^ 

Rey 



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Índice 

Rey D. Luiz dt Ataide^ que he iamU 
nbd oitava De cada. 217. 

CAP. XXIX. Das duvidas que fe tnavéram 
em Goa fobre fe venderem cavallos O) 
Mauros^ 235'^ 

CAE. XXX. Dá grande , e famofa Vitoria 
que Mem Lopes Carrafco alcanfou de 
huma poderafa Armada do Acbém. 246. 

CAP. XXXL J)as,€oufas qw^ fuícedéram 

. ejle anno em Maluco a óonjalo Pereira 

Marramaqtte. 26t^ 

CAP. XXXII. Da ida do Fifo-Rey D. Luiss 
de At ai de a Bsrcelor. ijti 

CAP. XXXIII. Da conjurando dos Reys 
todos da India contra o Eftado^ 2Í3* 

CAP. XXXIV. Do modo com que fe forti- 

ficou o Vtfo^Rey D. Luiz de' Ata/de ent^ 

Goa : e de como proveo os pajfos contra 

o poder da Idalxá : e do poder , e modo 

com que elle defeco o Gatte. 309. 

CAP* XXXV. Da refolufSo que o Idalxd 
tomou fobre q Mceommettimento da Cida* 
de de Goa : e da pr ática que Norticbao 
fez a ElRey fobre a guerra de Goa. ^27 J 

CAP. XXX VI. Dofuccejfo que bouve nejie 
tempo em Chaul : e de alguns grandes 
feitos que és noffos fizeram. 341^ 

CAP. XXXVIL Ém que fe torna a conti- 
nuar com a guerra de Goa' ^ e o que os 

• noffos nellajizeramn 374^- 



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. DOS Capítulos. 

CAP. XXXVin. Do que füccedea no cere^- 
de Chaul no tempo de D. Jorge de Me-* 
nezes. 41 1* 

CAP. XXXIX. Do que fuccedeo na guerra 
de Goa , e do levantamento da Rainba 
de Onór contra a nofí^a Fortaleza : e do 
foccorro que oVif^Key Ibemandou. 455'. 

CAp. XL. Do cerco que o C^amori poz d 

nojfa Fortaleza de Chalé ^ e do que nelk 

fuccedeo. 4y5, 



DE. 



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¡} f •• \ .Vv* ^^^^' \.^\y* ^«-^V' V V»*w* •^^'•^•** \>^^- V<ff. <^\ »' . 




íí¿^^^:^«^s^^=^^=^^^^:^^^^^B^^3^^s^:^¿^ 



DECADA OITAVA. 

Da Hiftoria da India. 



CAPITULO I. 

Dom Antao de Noronba eleito Vifih 
Rey da India. 

AvENDo tres annos que os Tu- 
tores de ElRey D. Scbaftiáo, 
a Rainha fuá Avó , e o Car- 
deal D. Henriquc fcu Tio , ti^ 

nham mandado por Vifo-Rey 

da India o Conde do Redondo D, Francil* 
co Coutinho , tratáram de o mandar vir^ 
fem faberem aínda de fuá morte ; e tratan- 
do na eIeÍ9áo da peífoa^ que Ihe havia de 
ir fucceder , dizem que por efcufarem def^ 
pezas, quizeram eleger num dos Fidalgos^ 
que eítayam na India , que havia muitos pa<» 
ra efte lugar y e Ihe tinham apontado hum ; 
Couto.TQm.F.T.L A a 




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a A S I A DE DioGo de Cotrro 

a' qücrn dlcs eftavam affeijoados , por tér 
muttae partes pera iíTo ; mas porque era ca- 
fado em Goa, deixáram de o eleger; por- 
que naquelle tempo eftranhava ElRey mui- 
tp cafarem na India os Fidalgos : pela mef- 
ma razáo que os Romanos nao elegiam Le- 
gados pera os exercitos paren tes dos Con- 
fules y porque nao queriam que andaíTe a- 
quelle governo de permeio : o que he mais 
prejudicial na India, conforme aquelleada- 
gÍQ : Muitas maos , e poucos cabellos , de-* 
frejfa fam depennados: como eu vi depen- 
nar muitos mhos , e parentes de alguns 
Vifo-Reys, e Governadores efte pobre Efta« 
do 9 até o deixarem em calva ; e o que mais 
monta que tudo , he darem alguns as Ar- 
m^das de importancia a fílhos , irmáos , e 
parentes, pera asquaes muiros náotinham 
partes : e ouvi queixar a efte Vifo-Rei , de 
que come9o tratar , que algumas fem-jufti« 
^as que fizera , parentes Ihe tiveram diíTo 
a culpa^ Em fim , efte inconveniente deíTe 
Fidalgo , que eftava apontado para o Go* 
rerno, teve tanta foi^a no Confelho, que 
tratáram xie outra coufa; e por ter, havia 
pouco, chegado da India D. Antáo deNo-> 
ronha , que acabara de fer Capitáo de Or» 
(nuz , de que levava quarenta mil xerafins i 
como deixoa declarado em feu teftamen* 
to por fiía mprte , que naquelle tsmpo nÍo 

.f> :- ... _ U 



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DÉCADA VIH. Cap. I. 5 

fe' tirara mais daquella Fortaleza , e da de 
Cofala, e Malaca ; porqué aquelles Capi^ 
raes guardavam juftija , mteireza, ehuma- 
nidade com os moradores , e eílrangeiros : 
o que tudo depoís faltou em alguns , pelo 
que tiráram daquellas fortalezas duzentos, 
. e trezentos mil cruzados- Tinha elle Dom 
Antáo de Noronha chegado ao Rey no ñas 
naos paíTadas táo acreditado com as cou« 
fas, que na India fez, porque eraFidalgo 
de grande confelho , governo , e pruden* 
cia, que tratáram os Tutores deElRey de 
o mandar outra vez á India ' fucceder ao Con- 
de do Redondo , e Ihe mandáram ordenar 
quatro naos , com que partió do Reyno neA 
te Marjo de 64 , em que andamos , como 
fe verá no meu Epilogo , na prímeira par- 
te , que trata das Armadas que foram a In*^ 
dia i e tendo boa viagem , veio furgir na 
barra de Goa a tres de Setembro , e dahi a 
poucos dias defembarcou , porque efperou 
em quanto Ihe ordenáram o recebimento; 
e deíembarcando no caes dos Pajos dos Vi- 
fo-Reys , o eíberou o Arcebifpo D. Gafpar , 
Capitáo da (Jidade , Vereadores , e mais 
povo , que o recebéram com muitas feftas : 
ealli fem fe mudar oVifo-Rey, vendo que 
o Governador Joáo de Mendoza o nao fo- 
raefperar aocaes , como era coíhmie, por 
eftar doente, mandou fazer pelo Secretario 

A íi hum 



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\\^ 



4 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

hum aíTento, de como o Capitáo daCida- 
de Ihefazia entrega doEftado da India em 
nome do Governador Joáo de Mendoja: 
depois de aprefentar fuá Patente, e Provi- 
«áo , por que fe mandava ao Vifo-Rey D. 
Francifco, Coutinho , Conde do Redondo , 
ou a quem eftiveíTe em feu lugar , que lo- 
go Ihe fizeífe entrega do Eftado da India , 
do qual p havia por defobrigado delle : que 
tudo dalli fe foi moftrar ao Governador Joáo 
de Mendoja , que aílignou nos Termos , e 
Autos , que fe fizeram. Acabada efta fole- 
mnidade , entrou o Vifo-Rey na Cidade com 
grande al voroco , eapplauío de todos, por 
íer muito amado delles pelo conhecimen- 
to que tinham de fuas partes , e qualida- 
des, pelas quaes efperavam grande proce- 
dimento; poreftar averiguado entre osve- 
Ihos, que o íjue houver de governar a In- 
dia 5 ha de ter aprendido nella , como os 
bons Pilotos 5 que comejáram de pagens da 
nao , e vam lubindo por todos os graos ^ 
até fubirem ao de Piloto , como efte Vifo- 
, Rey fez. 

Das primeiras coufas , em que efte Vi- 
fo-Rey intendeo , foi foccorrer Cananor, 
pera onde logo defpedio D. Antonio de 
Noronha , cafado em Cochim , por Capitáo 
da gente de guerra , com alguns Capitáes , 
que partió no mefmo Setembro i e em vin- 

te 



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Decada VIH. Cap. I. f 

te de Outubro defpedio Gonfalo Pereira 
Marramaque , que tinha vindo com elle por 
Capitáo mor do mar, com huma boa Ar- 
mada pera o Malavar , porque apertavam 
os Mouros muito com a nolla Fortaleza; 

{jorque D. Francifco Mafcarenhas , que já 
á andava , fe havía de vir , pera entrar na 
Capitanía de (Roíala , e Mozambique , de 

Sue era próvido , por fer falecido Fernáo 
lartins Freiré , que lá eftava. OsCapitáes 
oue acompanhavam Gonfalo Pereira , sao os 
jLeguintes : Heitor da Silveira o Drago , Je* 
Tonymo Correa Baharem , Joáo Gomes de 
Cauro , Jeronymo Teixeira de Macado , D. 
Diogo de Souza, que depois foi Balío de 
Acre , que faleceo na dous annos , D. Dio- 
go Fernand es deVafconcellos, Joáo Lopes 
Leitáo , Ayres Gonfalves de Miranda*, que 
eftá hoje nefta Cidade , Joáo de Mendoja , 
filho de Chriftováo de Mendoza , D. Jero- 
nymo de Menezes , Joáo Gomes de Abreu 
de Lima , Alexandre de Souza , que foi Ca-^ 
pitáo de Chaul , depois D. Francifco Hen-. 
riques , que morreo fendo Capitáo de Ma^ 
laca, D. Diogo deAlmeida, D.Luiz Maf- 
carenhas , Fernáo de Miranda de Azeve- 
do, Francifco Vas de Siqueira , GafparVe- 
llio , Manoel de Brito o Coxo , D. Pedro 
de Caftro , irmáo do Conde do Bafto , Ay-» 
re^ de Síildaulxa, que depois foi Vifo-Rey 

4a 



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NT 



\ 



6 ASIA DE DiOGO DÉ CóüTO 

da India , Manael de Saldanha feu irmáó , 
Antonio Botelho , Diogo Lopes de Azeve- 
do , Fernáo Gomes da Gram , que depois 
foi Guarda Mor das naos em Portugal , Je- 
ronymo Nunes de Menezes , Simáo Reinel , 
D. Alvaro Manoel, filho de D.Jorge Ma- 
noel , hum dos formofos mancebos que en- 
tráram na India , que faleceo andando nef- 
ta Armada , muitos dos outros , que já lá 
andavam com D. Francifco Mafcarcnhas. 
Gonfalo Pereira Marramaaue foi feguindo 
fuá viagem ; e fendo táo avante , como os 
Híleos deAngediva, encontrón D. Francif- 
co Mafcarenhas , que IJiefez entrega de to- 
da a Armada , e fe foi pera Goa , donde 
paitio pera Mofambique em Janeiro feguin- 
fe de 565'. e o Gonfalo Pereira Marrama- 
aue fefoíperaCananor, onde acjiou os nol^ 
ios cercados dos Mouros, fazendo em fuá 
defensáo maravilhas ñas armas ; e nao fe 
contentando com iflb , Ihes fahiam muitas 
vezes , e Ihes davam aífaltos repentinos , 
em que Ihes matáram muitos Mouros ; e 
Com a chegada da Armada eram mais ali- 
viados , e os Mouros ficavam mais enfrea- 
dos ; mas nao deíiftíram do cerco. 

Havia em Goa falta de mantimentos ; 
é querendo o Vifo-Rey fupprir a iíTo , ele- 
geo a Pedro da Silva de Menezes comfete 
navios p(fra levar ás cáfilas , o qual partió 

cn- 



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Decada VIH. Cap; I. 7 

entrada de Janeiro , e foi viíitando a cófta 
do Cañará , deixando por aquelles porto$ 
os navios de cáfila pera carrégarém de ar- 
roz : levou fete navios , dé que j a fóra elle , 
cram Capiráes Gomes Eannes de Freirás 
hum Fidalgo das Ilhas Terceirás , Vicenta 
Paes, Diogo Femandes PareUiáo , Rujr de 
Mello, Simáo Cfildeiraj e Vafeo daSiíVa; 
e tanto avante como o rio Barcelar , IJiedeo 
hum tempo rijo , com que nao pode aturar 
fobre a amarra , e foi correndo toda a noite 
com hum pequeño de traquete ; e tanto que 
amanheceo , fe achou tanto avante com ó 
río Canharoto , com tres navios menos , e 
voltou até Mangalor embufca.delles, eos 
achou com tres paraos de Malavares torna- 
dos ; porque em Ihes paíFando a tormenta 
ao outro dia , indo em büfca do feü Capi- 
tac Mor , encontráram eftes paraos , que ti- 
nham fahido de hum rio ; e commettendo* 
os , os abordáram cada hum feu ; porque 
naquelle tempo tinham os homens outro 
brio , e perdido o medo aos Malavares ; e 
depois da refrega durar bom efpayo , ficá- 
ram osinimigos rendidos com a maior par- 
te dos Mouros mortos á efpada : dosmais 
alguns fe cativái-am , e outros fe lahfárain 
ao mar; equandó Pedro da Silva os encon- 
trón , vinham com os paraos á toa , e elle os 
feílejou muito > e voltando Pedro da Silva 

pe- 



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8 A S í A DE DiOGO DE COÜTO 

pela cofta abaixo , encontrou outro parao > 
c qual foram fe^indo até fe Ihe metter no 
rio da Marabia junto de monte Deli; epor 
os fcus Capitáes IJieirem á máo deixou de 
entrar dentro, ondeeftavam outrosfete pa- 
raos , de que elles nao fabiam ; e andando 
correndo a cofta tanto avante como o rio 
Canharoto entre os Uheos , e a térra , en-^ 
controu dezefete paraos de Coflairos , de que 
era Capitáo Mor Murimufa , hum valente 
Moüro ; o qual vendo os noflbs navios que 
jábiam em armas, logo oscommetteo com 
grande determinajáo ; e paíTada a falva de 
artilheria, e arcabuzeria , que fez algumda-* 
no 5 fe abordáram , e os em que os noíFod 
fete navios puzeram as proas , logo os axo» 
ráram com panelas de pólvora , e á efpa-^ 
da , e dous mettéram no fundo ; e os finco , 
que cram galeotas de cubertas mui fermo-» 
fas 5 Ules ficáram ñas máos , e os mais do^ 
Mouros foram mortós ; e alguns que efca-? 
páram , fe fálváram a nado nos outros na^ 
Vios , ficando ñas galeotas vinte pejas de 
artilheria de bronze. Entre as galeotas foi 
a de feu Capitao Mor , que foi mórto na 
briga ; os mais , vendo aquelle deftrojo, 
tomáram o remo, eforam-fe acolhendo, e 
os noíTos após elles, até os encerrarem no 
rio de Pudepatáo , donde Ihes fahíram mais 
fres paraos^ e mais de fincQenta glmadias, 

car-^ 



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Decada VIIL Cap, I. 9 

carregados de Mouros , que Ihes vinham 
acudir ; os noíTos os esbombardeáram de 
feijáo , que huns , e outrás fe acolhéram 
aorio. Morréram nefta batalha quinhentos 
Mouros ; da noíTa parte tres Portuguezes , 
c ficáram oitenta feridos , que fe curáram o 
melhor que pode fer ; e dando á vela pera 
Goa, entráram por aquella barra com as ga- 
leotas á toa. 

O Vifo-Rey recebeo Pedro da Silva 
com muitas honras , e aos mais Capitáes , 
e Ihes fez mercés ; a todos os feridos man- 
dou curar no Hofpital com muito recado > 
e lá Ihes mandou pagar feus quarteis. En- 
trou emGoa a 3. de Fevereiro dejTóf. em 
que fe Ihes tinham acabado os provimentos. 

CAPITULO IL 

Ha grande batalha que D. Paulo de Lima 
teve com o Canatale. 

SAbendo o Vifo-Rey o eftado , em que a 
guerra de Cananor eftava , ordenou de 
mandar mais alguns navios a Gonfalo Pe- 
reira Marra|3iaqu£ , e mandou negociar qua- 
tro 5 de que fez Capitáo Mor D. Paulo de 
Lima , que tinha ficado em Goa da perdi- 
fáo quediíTe que teve emAgoílo na barra; 
O .^ual pvtiQ em fim die Feyereíro de óf, 

el- 



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fO ASIA Í)E DiOGO Dt CCtJTO 

elle embarcado na galeota S.JoáoBaptifta', 
íia qual fe embartfou tres vezes , e feurpre pe* 
lejou com Malavares , ie os desbarifou , por- 
que parece que tinhanclla afuagentci üos 
outros tres navios foram por Capitáe^uBen- 
to Caldeira natural de Aunada , Pedralve» 
de Cananor, e outro; é indo tanto avante 
como Batecala já perto da noite , tiveram 
villa de feis navios ; e parecendo a huns , e 
a outros fcrem paraos , prepararam-fe pera 
fe commetterem ; e fendo já perto, fe co- 
nhecéram, e os feis navios eram da Arma- 
da de Gonfalo Pereira , dos quaes eram Ca- 
pitáes Manoel de Brito , Ayres Gonfalves 
de Miranda 5 Manoel de Sáldanha, Fernáo 
Gomes da Gram , Mem Dornellas , e Nuno 
Velho Pereira , os quaes mandava Gonfalo 
Pereira bufcar o mefmo D. Paulo , que já 
fabia ficar-fe aviando em Goa , por ter re- 
cado de ter fahido hum grande (JoíTairo db 
Malavar, chamado Canatale, comfete na- 
vios. Chegados os navios huns aos outros , 
vendo os da Armada de Gonfalo Pereira, 
que D. Paulo trazia bandeira de Chrifto pe- 
la quadfa, eque a nao enrolava, tomajam- 
fe tanto diíTo , que. Ihe diíFeram , que fe 
queria ir peraond.e eftáva Gonfalo Pereira , 
lenáo que fe iriáo elles logo , porque nao 

Eodiam aguardar : ao que Ihes refpondeo 
)• Paulo, que os foldadps levavam a rou- 

pa 



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Decada VIIL Cap. II. ii 

pa cuja 5 e que a gueriam ir lavar a Bate* 
cala , que ficava derronte meia legua , e que 
ao outro dia partiriam \ mas elles como ef- 
tavam pejados com a fuá bandeira , femte* 
rem mais cumprimenros com elle , deram 
á vela , e fe foram. Vede a quanto chega- 
va huma defconfiarija , e em quanto riíco 
póe multas vezes jiuma Fortaleza, ehuma 
Armada entre nos : digo que entre os Ca- 
pitáes eftrangeiros nao ha ifto ; e fe o ha , 
pagam-no logo. EHes Capitáes puzeram ef- 
ta de D. Paulo , e mais nao foram caftiga- 
dos ; porque ao outro dia , eftando D. Pau- 
lo furto na bahia , appareceo a Armada, de 
Canatale , o qual vinha já da cofta do Nor- 
te carregado de prezas que nella fez , e foi 
ó primeiro que a ella palTou : o qual vendo 
os noíTos navios , virou logo a elles. D.Pau- 
lo eftava já preftes ; porque tanto que oal 
vio 5 logo fe preparou , e chegou os outros 
afije quiz lúa boa fortuna que tinha ain^ 
da toda a gente dentro nos navios , por fer 
manhá cedo ; porque fe tardáram huma ho- 
ra, nao faziam mais que chegar, e dar toa 
aos navios , porque ja os foldados haviam 
de fer defembarcados : e certo que fegun- 
do a pouca difciplina da foldadefca da In- 
dia , he mais trabalhofo a feus Capitáes 
domar-lhes feus appetites y que desbaratar 
feus inimigos , porque eftes vencem-fe com 

.as 



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12 ASI A DE DiOGO DE CoüTO 

as armas ; e aos Toldados nem com ellas ^ 
nem cora a razáo fe podem doman O. Pao^ 
lo , tanto que cfteve preparado , fahio <io 
inimigo , porque nao quiz dar-lhe animo , 
e cuidarem que o receava ; chegando perto 
huns dos outros , deram a primeira falva 
de artilheria , de que os inimigos recebé^ 
ram a peior , porque D. Paulo levava hum 
fermofo camalete com huma roca de feixos 
na boca , o qual difparando-fe , efpalhou- 
fe a roca pelos navios que vinham juntos, 
nos quaes fez táo grande deftroco , e ma- 
tanza , que logo os noíFos o fentiram no 
como ficáram divididos , e embarajados ; e 
todavía o Canatale , como era esforjado, 
virou aos noíTos , e elle , e outros dous a- 
bordáram á galeota de D.Paulo, e osmais 
aos tres navios , dos quaes hum fó aturou , 
que foi o de Bento Caldeira , que logo foi 
abrazado , e todos os noíTos mortos ; e os 
outros dous puzeram o remedio no remo, 
e fe foram acolhendo , e tambera nao fo- 
ram depois caítigados , fenáo com quatro 
di as de prizáo , o que tem feito na India 
grandes males ; porque o nao temerem o 
caftigo , Ihcs faz temer tanto a morte. O 
Canatale , que abordou D. Paulo , cuidou 
que ñas primeiras pancadas o levaíTe , mas 
cnganou-fe ; porque como elle , e todos os 
feus víram que os remedios de fuas vidas. 

ef. 



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Decada Vin. Cap. IT. tj 

cftavam em fcus hragos , tantas maravilhas 
fizeratn ñas armas os noíTos fincoenta fol- 
dados , ou Hedores , que com morte de 
mais de duzeiltos Mouros os fizeram apar- 
tar , tendo elles já derrubado dos noíTos mais 
de trinta de eípingardadas , e de outras fe- 
ridas ; e ao afauar-fe deram huma bombar- 
dada a D. Paulo por huma coxa , que Ihe 
foi forjado affentar-fe nacoxia, por fe nao 

Í)oder ter em pé , tendo recebiao quatro 
rechadas em íeu corpo ; e vendo os Mou- 
ros afaftados , nao fez termo algum , era 
que os inimigos fentiflem que os receava , 
antes fempre Ihes foi virando o rofto , co- 
mo quem efperava por elles. O Ganatale 
afaftou-fe com os feus navios bem deftroca- 
dos ; c fallando com os Capitaes , Ihes cliC- 
fe, que parecería coyardia irem-fe íem le- 
varem aquella galeota , que já nao eftava 
pera fe defender : que elle voltaria a ella , 
que quem o quizelle feguir , o fizeíTe , e af- 
nm viráram todos com elle. D. Paulo de 
Lima bem tinha entendido , que os inimi- 
gos haviam de tornar a elle ; pelo que fe 
preparóu , e esforjou os feus , e prometteo 
muito dinheiro aos marinheiros , pera que 
nao largaífem os remos das máos: e man- 
dou repartir as langas por alguns efcravos' 
que havia na galeota ^ e pollos em ordem 
pelas perchas , pera que rlífem os inimigos 

que 



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14 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

que ainda havia gente pera fe defender: c 
mandou aos marinheiros quQ foírem reman- 
do contra os inimigos , e que elles , e os 
Cafres deíTem grandes gritas ; e ao feu Tam- 
bor que tinha apar de fi , mandou que tor' 
caíTe a batallia , como fez : e allim com ef- 
tas carrancas , e eftrondos foi commetten* 
do os inimigos , que vendo aquella deter-f 
minacáo, voltáramlogo, náooufando aéí^ 
perar aquella furia ; e o mais jcerto he , que 
o permittio Déos aífim , por ter guardado 
efte Fidalgo pera outras coufas maiores : e 
affim fe foram acolhendo , . ficando os nofr 
fos com a viáloria , e curando-fe. D. Pau- 
lo , e os mais y o melhor que puderam , de* 
ram á vela pera Goa , onde entráram ao ou- 
tro dia : e foi D. Paulo tirado nos bra9oa 
de todos os Fidalgos que acudíram , e le- 
vando-o a cafa deMartim Aífonfo de Mel- 
lo , aonde o Vifo-Rey o foi vilítar , e Ihe 
diíTe palavras de muitas honras , e depois 
acudió com obras , mandando-lhe muito di- 
nheiro : e foi viíitar os foldados , que fe re- 
colhéram ao Hofpital a curar , e a cada hum 
per fi diífe muitos louvores , e Ihes mandou 
dar dinheiro ; porque na guerra o Capitáa 
ha de ter palavras , e obras ^ que he o que 
anima aos homens mais que tudo.^ 



CA^ 



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Decada VIII. Car III.' $f 

capí tu lo III. 
Tít^na á continuar o grande cerco da Cota, 

NAo aquietava o tyranno Rajú com o 
intento em concluir com a Cota y oti 
com Columbo ; que qualquer delies que to^ 
maíTe , logo o outro íelhe entregaría ^ eha* 
vería ElRey D. Joáo ás máos , pera íicar 
Senhor de toda aquella Uha; eafltm fazeni 
do feus dlfcurfos , e dando fuas tra(a$ j de^ 
terminpu fazer por ardis o que nao podía 
por for^a ; e pera efte eíFeito ajuntou hum 
grande ciercíto com multa artilhería , e mu-> 
ni0es , e deitou fama que hia fobre. a Co« 
ta, porque fe dcícuidaíTem os noíTos de Co« 
lumbo, para o tomar deíapercebido, eha^ 
vello ás mao$: e aíEm com aquella maqui* 
na appareceo fobre a Cota ^os 5 días de 
Outubro , e fe aíTentou com todo O exerci«> 
to no mefmo lugar , em que da outra vea 
^fteve, por Ihe ncar Columbo mais perro. 
Efiava ao tempo que elle appareceo fobre. 
aquella Fortalleza, Pedro deAtaíde nellaj^ 
que tlnha já ido a vifitar ERey, deizando> 
em feu lugar porCapitao de Columbo IX 
Pio^o deAtaide. Vendo Pedro de Ataíde a 
inimigo , e achando^fe defapercebído , e fem 
mantimentoa baiboites pera oeerco/ que c^ 
. - pe- 



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tá ASIA Dfi DiOGO DK COVTO 

perava , ordenou-fe na melhor forma qus 
pode pera orecehér, efefortíficoü poron* 
de Ihe pareceo neceííario , e defpedio reca- 
do pelo mato a D* Diogo de Ataíde , que a 
proveíTe cada vez que pudeíTe de mantimen- 
tos , porque Ihc haviam de fer neceíTarios ; 
efnzendo alardo da gente quetinha, achou 
trezentos Toldados entre velhos , e enfer- 
mos) e nenhuma gente de ElRei, por Ihe 
ter toda fúgido pera os inímigos , por ar- 
dil que pera iffo teve o Rajú : e repartió 
oe lugares de maior rifco pelos Fidalgos , 
t Capitáes , que allí havia , por efta manei- 
ra : Gafpar Pereira de Lacerda á entrada 
da Coca com trinta homens , Antonio Car- 
dofo Soeiro emhum paflb defronte de hu- 
ma Ilheta , que alli fazia o rio , que fe chá- 
mara dos Dcfafios , porque pera ella fe deí^ 
afiavam os foldados , Manoel Louren^o em 
hum palio que chamam dos Mofquitos , Joáo 
de Mello de Ataíde no paflb deAndré Fer- 
íiandes , Ayres Ferreira , fobrinho de Pedro 
Ferreira deSampayo, no paflb dos Pachas, 
Henrique Moniz Barrero no muro da pri-- 
meira Cota, ondeeftava porCapit^o Fran* 
cifco Gomes Leitáo , Joao Correa de Brito 
no paflo dos Mainatos : com o Capitáo ñ^ 
eáram alguns Fidalgos , eCavalleiros,^pera 
acudirem com elle , e com ElRey , onde 
íoSc mais neceífanQ : eftes focam hum IX 

Fran- 



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cDecada VIIL Cap- in> '. 17 

Francilco de Noronha, que menáa foabe^ 
ram dlzer inais delle , Rodrigo Fmtado , ir^ 
x&ao do Govsrnador André Furtado ^ hum 
fpáo de Ataide Lerma , Francifco de Ma^ 
cedo, que aindálioje vive em Cochim Friar 
de daOrdem Terceira de S. Francifco , ho»^ 
mem muito honrado , e que nefte cerco fes 
glandes cavallarias > e Gafpar Gonfalves 
Meftre Capitáo dos Inhames muito conhe^ 
cido, eoutros de que nao tive noticia» O 
Rajú foi continuando o cerco com toda a 
fuá potencia , e dcfendcndo que nao yieí«> 
fem mantimentos aos noíTos , que já eftar 
vam em extrema neceflídade. O Capitác^ do 
campo do Rajú , que por fuá linguagem Ihe 
chamavam Bicarnaíinga , de algumas vezes 
que D. Diogo de Ataide mandou manti- 
mentos á Cota ) fempre fe encontrón com 
fuá gente , que o desbaratou , de que elle 
eítava táo defconfiado , que mandou defc^ 
fiar D. Diogo perafeverem ambos noAm- 
boláo y que he o meio do caminho de Go-** 
lumbo pera a Cota : o que D. Diogo Ih^ 
acceitou , e aprazou o tempo pera dalli á 
tres dias , do que mandou avilar a Pedro 
de Ataide Inferno , o qual no dia limitado 
fahio da Cota com cento e ñncoenta hor 
mens p e mapdou dous Pachas homens dos 
mztoSy pei'a que foflem defcubrir oinimí-» 
go , e faberem a gente que tinha , pera o 
Coujo. fom. F. rÍL B tor- 



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l8 ASIA D£ DiOGO DÉ COUTO 

tornarem a avifáf ; e que nao achando o Bt- 
camafinga, paíTaíTem a Columbo, e diíTeP- 
fem a D^Diogo deAtaíde, que feabalaíTé 
com os mantim^ntos que pudeíTe , porque 
elle o efperava no Outeirinho das Pedras y 
fneia legua da Cota. Eftes Pachas paíTáram 
a O>luinbo , e diíTeram a D. Diogo que o 
Bicarnafinga nao apparecia , nem havia gen- 
te alguma no caminho. Com eftas novas fa- 
hio de Columbo hum cafado Capitáo de 
vinte homens fem ordem de Capitáo , o qual 
fe chamara Joáo Rodrigues ré furado , e 
trouxe comfigo hum Arache chamado Fran- 
cifco de Almeida comvinfe e finco Láfca- 
rins , e levou comfigo alguns mantimentos 
pera deixar na Cota ; e rázendo feu cami- 
nho tanto avante como huma arvore , que 
chamam Carcapuleira , encontráram coníi to- 
do o poder do Rajú , que efperava por D. 
Diogo , e deram nelle , e o cercáram , e 
mataram o Pé furado comdezPortuguezes, 
€ ao Arache, e Lafcarins , e Ihes tomáram 
a fardagem-; pelo que fempre fufpeitou D. 
Diogo , e Pedro de Ataíde que os Pachas 
foram peitádos do Raju. 

Pedro de Ataíde. teve onde eftava aviíb 
do que paíTava , pelo que fe foi recolhen- 
do pera a Cota quafi por fórca, porque ó 
fizeram recolher os Capitáes <}ue levava^ 
porque defejou ir dar no Rajú. Éftando ád 

coií- 



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Decada VIIl- Cap. IIL 17 

confas uefte eftadq , como o Kajú eftava 
com o oliio emColumbo, dalli a cito días 
que iftopaíTou^ levantou huma noitc o ex- 
ercitp , e foi marchando contra Columbo , 

Sorque havia que o tomariam defcuidado^ 
e que logo Pedro de Ataíde foi aviíado ^ 
€ defpedio com muita prefla a Nuno Fer* 
nandes de Ataíde , e a Pedro Juzarte Ti- 
fáo com quarenta Toldados , pera por ca- 
níiinhos defviados fe irem raetter em Co- 
lumbo. O Rajú chegou íení fer fentido á- 
quella fortaleza , e logo acercou, eacom- 
metteo toda á roda com muitas efcadas , que 
pera iffo levóu , e fe puzeram em íima da 
terca mais de dous mil ; mas D. Diogo de 
Ataíde , que nao eftava defcuidado , acudió 
com D* Martinho de Caftelío-branco , e ou- 
tros Fidalgos , e Cavalleiros j e dando nos 
inimigós , matáram muitos , e outros íize- 
ram lanzar dos muros abailco ; mas o Rajú 
acudió alli , e tofnou-oá a commetter com 
grande determinacáo , fobre o que metteo 
toda a fuá potencia , andando elle em pef- 
foa fazendo chegar os feus , qu^ trabalhá- 
ram tudo quanto puderam por tomar a ga- 
nhar os muros , que os noífos Ihe defen- 
déram com muito valor j e taes cavallarias 
fizeram , que obrígáram ao Rajú a retirar- 
fe , por vir amanhecendo , ficando-lhe de 
redor dos muros mais dequinhentos mor^ 

B ü to$y 



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"ío ASIA ídé4>ioqo dk Coüto 

tos 5 afora grande fomma dos feridos qué 
levou comfigdé Os que hiam da Cota de 
•foccorro,chegárani aquella Fortaleza a tem- 
po que já o Rajú fe hia recolhendo , e fe 
mettéram dentro. 

Vendo-fe o inimigo táo contraftado , c 
com tanta perda , e atfronta obrigado a a- 
faftar-fe daquelles muros , ficou como dou- 
<io, e poz emlua vontade de levar aquella 
guerra por outro rigor , que era matar os 
noíros a fome , e pera iíTo fe tornou contra 
a Cota , e cercou todo o caminho de mar 
a mar defde Mapano até o Matual , com 
o que os noífos ncáram de todo defconfia- 
dos de foccorro , nem Nuno Fcrnandes de 
Ataíde com os mais puderam tornar-fe de 
•Columbo. O Rajú andava doudo ; e traban- 
do modos 5 com que pudeíTe concluir aquel- 
le negocio , aífentou que o melhor feria , 
ainda que foíTe a puro trabalho , divertir o 
rio , que cercava a Cidade por multas par- 
tes , pera allím a pé enxuto poder entrar 
-nella , e pera iífo mandou ajuntar hura gran- 
de numero de ganadores , com que come- 
■cou a por as máos á obra , coufa que aca- 
rón de defconfiar os nolTos. Os foldados , 
que eftavam daquella banda , que eram trin- 
óla , fentindo o rumor da obra , deram nos 
inimigos , e matáram huma grande fomma 
dos ganadores., e Ihes tomáram huma em- 
\; .. bar^ 



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DíicADA VIH. Cap. IIL 21 

barcagSo chifimada Catapancl ; e acudindo 
Pedro de Ataíde Inferno , mandou metter 
nella fincoenta Toldados de cfpingardas , 
com os quaes fe embarcou o Padre Fr. Si- 
máo da Nazareth de S. Francifco , pera os 
animar, e confolar, os quaes chegáram á 
parte, por onde os inimigos comefavam a 
abrir , e ás efpingardadas derrubáram hum 
grande numero , e tornáram a entupir a* 
quelia parte. 

Acjui aconteceo hum grande milagre, 
que foi em quanto psnoífos andáram nefta 
obra , os cercou hum ncvoeiro múi efpef- 
fo , que totalmente os encubrió todos aos 
inimigos , ficando elles muito defcubertos 
aos noflbs ,. que nelles fizeram grande det» 
truifáo , derrubando-lhcs trezentos , que alli 
ficáram , afora muitos que fe recolhéram fe- 
ridos. Ifto durou até ao meló dia , que fe 
acabou de entupir aquelle lugar , e que ó3 
BoíFos fe recolhéram fem recebercm perdá 
alguma , nem ainda de huma pequeña ferí* 
da. Cuftou ifto tanto ao Rajú , que nunca 
maís quiz commetter aquelle negocio , e fi- 
cóu aílim no mefmo íitio , defendendo os 
mantimentos , que os noffos , por totalmen- 
te carecerem ddles , mandou o Capitáo ma- 
tar dous elefantes de ElRey , com que fe 
foi entretendo alguns dias , e iífo mefmo fez 
a hum cgvalla^ é comiíTo deram os noífo^ 

nos 



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0^3^ ASIA DÉ Droóó 0e Cowo 

sos caes, e gatos daCidade, enáo Ihes et- 
capou hum fó , nem ainda outras fevandi-» 
Ihas da térra y de maneira que efgotáram 
tudo. Os noíTos que eftavam^ no baluarte do 
paíTo da térra , vendo-fe em extrema neceA 
íidade, mandáram alguns fervidores ao ma- 
to a fazer Icnha , e bufcaí' hervas pera co- 
merém : eftes fouberam que eftavam mui-? 
tos inimigos com alguns elefantes embre-^ 
nhados junto de huma aiTore, que fede á 
yugidade de gente , e táo medicinal pera o 
ar y que cm breve efpajo faz grandes effei-r 
tos moida , e untada ñas partes lefas : e 
em minba cafa fe experimentou Uto multas 
vezes; e pofto que tambem ha eftas ai-vo- 
res ñas térras vizinhas a Goa , todavía efta 
de Ceiláo tem mais virtude, 

Defta gente avifáram os fervidores ao 
Capítáo , o qual fahio da Cota com oitenta 
foldados , etoi-fe metter na cava yelha , que 
nao tinha mais que hum fó paíío muito ef- 
treitp, e de ambos oslados era tudo alaga» 
dijo , com o que o lugar ficava muito forte , 
e fcguro a todo o poder que vieífe. Dallí 
mandou Balthafar Pajanha com trinta fól-. 
dados , pera ir pelo mato a defcubrir os ini- 
migos j e fendo a tiro de efpingarda , deo 
com o poder do Rajú, que eftava embof-r 
cado , com intento de tomar o noflb balu- 
»te, que eftava pera aquella parte , porfer 



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Decada VIH. Cap. III. aj 

o mais importante de toda a Cota. Os no& 
fos que fe acháram no meió. daquella muí-» 
tidao de inimigos , voltáram pera o Capí- 
táo , indo já o inimigo fobre, elles , perfe- 
guindo-os ccmi a íua arcabuzaiia , e chegá* 
rao ao Capitáo com hum foldado menos , 
chamado Antonio Martina , natural de Ar« 
ronches, muito bqm cavalleiro^ ejáquan-* 
do fe recolhéram na cava , hiam. táo aper^ 
tados dos inimigos , que quaíi eftiveram en- 
trados devolta com elles. Oque vifto pe- 
los noífos foldados , fem ordem do Capi- 
táo, íahiram a elles com hum furor efpan- 
tofo ; e dando nos inimigos , íizeram nel- 
les hum muito grande eftrago; e com nao 
ferem mais que oito os que Ihes fahíram , 
es foram lerando diante de íi como carnei- 
ros' até ao corpo do exercito , donde fe tor- 
náram a recolher em muito boa ordem ; mas 
nao tanto afeufalvo, que nao vieífem to- 
dos feridos , ficando4hes morto hum com- 
panheiro chamado Diogo deMefquita, os 
mais, que fe chamavam Gafpar Fernandes 
de Aguiar , Pedro de Soufa , Antonio Louv 
renjo, Pedro Ribeiro, Antonio Dias, Pe- 
dro Pires o Rume , pelo fer de najáo , e 
Cofmo Gonfalves. Pedro de Ataíde ficou 
alli até oRajú fe retirar para o feu arraial y 
}á ás quatro da tarde. Succedeo ifto (lous., 
ou tres dias an^te; do Natal ^ e que já na 

Co- 



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24 ASIA DE DioQo DE CoxTro 

Cota nao havia nem hervas do mato, qua 
até eíTas nao podiam ir bufcar ; pelo que 
defpedio o Capitáo dous Toldados , Anto-» 
nio da Silva , e Joáo Fernandes o Desbar- 
bado com recado a D. Diogo de Ataíde da 
fumma mifería , em que eílava , os quaes 
foram pelos matos ter a Columbo ; efaben-^ 
do D. Diogo o eftado , em que íicavam, 
defpedio hum Pacha com recado a Pedro de 
Ataíde , que pela cofta do mar , pela ban-« 
da.de fóra mandarla algumas emQarca96es 
de arroz até ao palmar de ElRejr , que fe- 
rá de Columbo tres leguas , que mandaíTe 
lá bufcar ifto* 

E logo defpedio os mefmos foldados 
com hum batel , e dous tones com dea can-, 
dís de arroz, evefpera de Natal pelama-» 
jihá teve oCapitáo o recado deD.Diogo^ 
c no mefmo dia no quarjo da Prima den)e^ 
dio Francifco Gomes Leitáo com cem lol-^ 
dados , e:com alguns Lafcarins pratieos na 
térra , pera irem recolher aquelle mantl-^ 
mentó : o que elle* fez com muito rifco, e 
trabalho , e logo voltou com o arroz , e aa 
quarto da alva chegou meia legua d^ Co^ 
ta , onde achou o Capitao com toda a gen^ 
te da Cidade y que o eftava efperando , e 
(fom grande alvorojo fe recolhéram á Ci^ 
¿ade ; e cuidando o Capitao que tinha ar^ 
l^oz ^ achou-ie com muito pouco^ porque os 



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Década VIII. Cap. ni- i^ 

jbldados odeixáram efcondido pelo mato» 
pera depois o irem bufcar , do que fe in** 
dignou tanto o Capitáo , ^ue arrancou da 
efpada, eremetteo a Francifco Gomes Lei- 
táo pera o matar ; e o íizera , fe o Padre 
Fr. Simao de Nazareth fe nao mettéra no 
meio: epor aquella diligencia entregáram 
osfoldados o arroz que tinham efcondido. 
Com efte pobre mantimento , e provimen- 
to paífáram alguns dias com multa regra; 
e acabado elle , pela gente fer muita , tor- 
náram ás fomes mortaes , pelas quaes al- 
guns foldados detennináram de fe paíTar ao 
Rajú , porque a fome , e frío , diz o rifao , 
te fará metter com teu inimigo. 

Ifto era fim de Janeiro de iS^S* guian- 
do os noíTos fevíram no extremo das ne- 
ceílidades ; e paifando por huma rúa hum 
Francifco deMacedo, encontrou com ou- 
tro foldado , chamado Luiz Carvalho , da 
obriga^áo do Conde do Prado , que andava 
paíTeando muito penfativo ; e cJiegando-fe 
o Macedo a elle , Ihe perguntou , que pen- 
lamentos eram aquelles , com que andava ? 
O Carvalho , olhando pera elle mui infla- 
do , Ihe refpondeo , que ou Déos fallava 
delle, ou o demonio: o Macedo Ihe tor» 
nou a dizer , que fe Ihc defcubriffe , por- 
que bem entendía os cuidados, emqueañ- 
om. Tornou-lhe ajü^er o Carvalho /gue 



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26 ASIA DE DiOGO DE Coüto 

já Ihe havia dedefcubrir tüdo: e logo Ihe 
contou, como humfoldado filho da India ,- 
chamado Fernáo Caldeira , andava convo- 
cando alguns hómens pera fe paíTarem ao 
Rajú : e que já tinha quarenta negociados , 
pera huma noite fe paíTarém pelo paífo de 
Antonio Cardozo Soeiro : eque fe haviam 
de paíTar á outra banda , e levarém hum 
camelete' de metal que eftava no paíTo í e 
que elle eftava aportado a fe ir com elles ; 
porque o Rajú mandara lanjar naquelle paf- 
íb 5 e nos outros olas , pera que quem fe 
quizeíFe paífar pera elle , o recolheria , e 
teria comfigo muito mimofo; eque os qué 
fe Quizeflem paflar á Fortaleza de Manar, 
os aeixaria ir livremente , e os provena do 
neceíTario : e deftes ardís ufou fempre efte 
Tyranno , e por elles fez paíTar toda a gen- 
te de ElRey pera o feu exercito. 

O Francifco de Macedo , que era mui- 
to bom homem, tomou Luiz Carvalho, e 
olevou comíígo, epelo caminho ofoideí- 
viando daquelle propoíito , c dando-lhe mul- 
tas razóes ^ pera hum homem ¿táo honrado 
náohaver decommetter hum cafo táoabo- 
minavel , e diabólico ; porque indo com o 
penfamento por diante , logo aquella Fóí* 
taleza era perdida, e daría detamanbomal 
muito larga corita a Déos : edepratica cm 
pr^tica olevbu até onde eftava o Padre Fr. 

Si* 



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Década VIII. Cap. HI. 17 

Simáo da Nazareth , e oerante elle Ihe deo 
conta do cafo , <jue o Padre ouvio com gran- 
de dor , e fentimento ; e tomando a Luiz 
Carvalho pela mao , o abracou multas ve- 
nces 5 e confolou , e animou ; e tantas cou- 
fas IhediíTe, movendo-lhe Déos a lingua, 
3ue o rendeo, econfeflbu feu peccado; e 
eixando Francifco de Macedo com Ma- 
noel Lourenyo , Capitáo do feu baluarte, 
fefoi ao Capitáo com Luiz Carvalho , elhe 
relatou o cafo todo , e o que eftava orde-» 
nado entre aauelles foldados. Pedro de Ataí- 
de poz os olhos nos Ceos , e deo grandes 
louvores a Déos noíTo Senhor de le defcu-» 
brir aquelle negocio , no qual eftava a per- 
dÍ9áo daquella Fortaleza , fe fe nao defcu- 
bríra : e abracou multas vezes a Luiz Car- 
valho , dizendo-lhe palavras de muita hon- 
ra , e fazendo-lhe muitos cumprimentcs : e 
logo allí mandou chamar a Fernáo Caldei- 
ra, cabeja do negocio ; e apartando-fe com 
elle , o avifou do cafo que tinha ordena- 
do , e fobre elle Ihe fez huma falJa , em 
que Ihe lembrou a obrigacáo que tinha a 
morrer pela Santa Fé Catholica , pois era 
Chriftáo velho , creado , e fuftentado com 
o leite da Santa Igreja Catholica : que ella 
obrigajáo era fobre todas , e a de feu fan-» 
gue: bcm entendía que Ihe havía de repu-e 
gnar ir em aquella íua defefperajáo ávanr 

te: 



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i8 ASIA üE Dio(io DÉ CóüTo 

te: que Déos era grande, eque nosmaíó- 
res trabalhos foccorria os feus : e tantas cou- 
fas Ihe diíTe deftas , que fe lanjou a feus 
pés com grandes moftras de arrependimen- 
to ; e levantando-o o Capitáo , o abrajou , 
e confolou , e Ihe prometteo , que fe efca- 
paífe dálli , que havia de trabalhar pelo fa- 
zer honrado : e allim ficáram táo amigos , 
que fempre o trazia o Capitáo apar deíi; 
e por nao fazer rebolijo naquelle cafo , nao 
quiz fallar com os mais Toldados da par- 
cialidade, antes fez que o nao fabia. E por- 
que nao havia dinheiro na Fortaleza , cha- 
mou o Capitáo dos Inhames , que era ami- 
go de todos os foldados , e Ihe deo huma 
efpada fuá de prata , eádaga, e talabarte, 
pera que o desfizeíCe em larins , por haver 
alli omciaes diífo , e que déíTe a Fernáo Cal- 
deira a maior parte , e que o mais repar- 
tifle pelos foldados; etodavia mandou ter 
grande guarda nos paíTos em fegredo , por 
jiáo entenderem que fe ficava receando ael- 
las , pelos nao metter em defconfianjas , 
nem entre elles houve mais algum movi- 
mcnto. 

Jorge de Mello oPunho, queeftavapor 
Capitáo em Manar , fabendo o aperto , em 
que eftavam os da Cota , perfuadio ao Rey 
de Candia, que já era Chriftáo, e f e cha-' 
máva tambem D.Joao como o da Gota, 

pe- 



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Década Vni. Cap. III. 19 

pera que mandaíTe gente , que entraffe pelaj . 
térras do Rajú , que tambem era feu inimi- 
go , pera o obrigar a acudir ás fuas térras y 
e que aílim defapreflaria a Cota. Fácil foi 
de acabar iíTo com elle , porque erain ini- 
migos mortalilfimos elle, e oKajú: elogo 
com brevidade defpedio o feu Capitáo de 
campo , que fe chamava D. AíFonlo , com 
finco mil homens , e com elle foi Belchior 
de Soufa , o qual o Vifo-Rey mandou com 
D. AfFonío áquelIeRey, como pareceo ao 
Guarda Mor. 

Eftes Capitáes entráram pelas térras do 
Rajü, e as foram pondo a ferro, eafogo, 
até chegarem á Cidade deChiláo, que era 
multo grande , e a deftmíram de todo. Ef- 
tas novas chegáram ao Rajú , que as fentio 
muíto , e determinou de apertar com os noír 
fos , e concluir aquelle negocio com todo o 
rifco feu que pucfelTe , e mandou preparar 
fuas gentes , e elefantes , e maquinas , pera 
dar o derradeiro aíFalto pela banda da pri- 
meira Cota : e o dia de antes mandou o Raja 
huma carta aoCapitáo, na qual Ihe pedia, 
c aconfelhavja , que Ihedefpejaífe a Cidade 
da Cota; e elle com ElRey, fatoy earti- 
Iheria fe paílaíTem livremente a Columbo : 
e que nao infiftilfem a morrerém todos de 
fome , porque bem fabia o eftado , em que 
dUvam por falta dcmantimentos^ fobroro 

que 



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30 A S I A DE DiOGO DE GÓÜTO 

que Uie tinha já de antes efcrito duas re^ 
•zes , ou tres ; mas defta foi com mais liber- 
dade , e offerecimento. A efta refpondeo ao 
Rajú , que em quanto elle ouviue foar os 
feus tambores , e eljes tiveffem pelles , e os 
janatos folas pera comerem , fe havia de 
luuentar j mas depois que fe acabaflem , c 
as neceílídades apertaflem com todos , que 
iriam bufcar mantimentos ao feu arraial , e 
que Ihe nao vinha bem ter taes hofpedes 
em fuá cafa. 

Ficáram os noíTos affim no derradeiror 
extremo , fem haver que comer , até aos on- 
ze dias de Fevereiro , que foi hum Domiu^ 

fo ; e fendo tres horas da tarde , chegou 
urna mulher Chíngala ao baluarte da pri- 
meira Cota , e bradou que Ihe abrlíFem , 
que relevava fallar com o Capitáo, aqual 
foi recolhida dentro ; e levada a elle , Ihe 
diíTe , que fe preparaífe , porque aquella 
noite Ihe havia de dar o Raja o derradei-- 
ro aíFalto por todas as partes da prímeira 
Cota , no qual havia de metter toda a fuá 
potencia» Houveram todos que a chegada 
defta mulher fora do Anjo da guarda da- 
quella Fortaleza , que os veio avilar daquel- 
le negocio. Ifto conta Francifco de Mace- 
do na relacao que me mandou ; mas o Ca- 
pitáo dos Inhames mediíFe multas vezes^ 
queaqueila mulher eftava^ qu eíliveja.aman^ 



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Decada VIIL Cap. III. 31 

cebada com fauin Toldado noíTo , a quem 
quería hem ; a qual vendo o rifco , em que 
a Fortaleza eftava , o fora avifar , com de- 
terminajao de ver fe o podia falvar , acon- 
tecendo algum defallre á Fortaleza , e que 
efte foldado a levara ao Capitáo : em fim ^ 
como quer que foíTe , ella pareceo encami- 
nhada por Déos pera vir dar aquelle avifo. 

O Capitáo logo defpedio pera Colum- 
bo a Antonio da Silva , que ja lá fora al- 

gimas vezes , pelo qual mandou dizer a D. 
logo de Ataíde , que aquella noite , tan- 
to-que ouviíTe bombardadas , fe abalafle de 
Columbo com toda a gente , e foíTe dar 
peías coilas ao inimigo , que havia de eftar 
embebido no affalto , que pertendia dar per- 
la primeira Cota , o qual logo mandou pro- 
ver de muitas munijóes , armas dobradas i 
e elle em peífoa com os que o acompanhá- 
ram , e com ElRey , fe mettéi^am em hum 
dos baluartes da primeira Cota , por onde 
fe podiam mais recean 

O Antonio da Silva chegou a Columr 
bo ainda de dia^ e achou alli já Jorge de 
Mello Capitáo de Manar , que com cem 
foldados tinha chegado o dia de antes pe- 
ra fóccorrerem os jioíTos ; e ouvindo o re^ 
cado , logo todos fe puzeram em campo , 
pera fe partirem de noite ; cD.Diogoman^ 
oott 4i^parar hum camelete 9 ^que era o ílr- 

nal. 



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32 A S I A DE DiOGO M Cc/ÜTO 

nal > que Pedro de Ataíde Ihe mandou <p¡M 
üzeíTe , pera faber fe diegára lá Antonio da 
Silva , o qual fe ouvio muito bcm em Co- 
ta, e ficou Pedro de Ataíde alguma coufa 
aliviado ; porque fabia muito bem , que ha- 
vía de fer foccorrido , fem faber ainda da 
chegada de Jorge de Mello. 

Entrando ooutro dia oquarto daalva, 
commettco o Rajú a Cidade toda em roda. 
Elle em peífoa com o maior poder remetr 
teo coní a primeira Cota , levando diante^ 
de íi os elefantes , pera porem as teñas nos 
baluartes , que eram de madeira ; mas achá^ • 
ram tanto fogo, e tantos iníhimientos mof-^ 
taes , e nos poucos homens , que os defen- 
diam , tantas cavallarias , que pafmáram do 
que víram. O mais poder , com que coní* 
metteo a Cidade emroda, foi paflar agen- 
te o rio por feis partes em lima de efteir 
roes mui ctoíFos de bambús ; mas da outra 
parte acharam os noíFos tao preftes , vivos , 
e expertos , que a feu pezar os detiveram 
com morte de mui tos , porque fizeram o 
emprego da arcabuzaria muito á fuá von»f 
tade ; e todavía hum paíTo foi entrado com 
moite de parte dos noffos ; e correndo a 
nova 5 acudió o Capitáo com ElRejr , e al- 
guns dos feus continuos , e adiando q& ini^ 
migos dentro no palTo , remettéram a el- 
ks y e traváram 'de rollo, a. roílp huma, crue]:, 

c 



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Década VIH. Gap; líl. ^ i^ ; 

t fefpantofa batalha ,. em que Pedro de Ataf 
de andou fempre diante de todos fazendo 
tantas cavallanas por feu braf o , que pode-" 
filos dizer que elle fó fez mais que todos; 
é andando na inaior forja do furor 3 felhe 
defencabou a efpada , e Ihe faltóu fóra da 
ínáo y depois de ter muitos iñiinigos mor- 
tos ; e remettendo com hum foldado , Ihe. 
tomou huma alabarda das máos , com que 
fe metteo entre os inimigos , fazendo bar-; 
baridades 5 -até os lancar outravez fóra do; 
paíTo; e pofto que elle fez muito, epele-, 
jou como val ente Capitáo que era, os que ^ 
ó acompanháram nao fizéram menos Iralen^. 
tías; antes tantas coufas, que de cádá hum 
fepuderam encher muitos capítulos; enáo 
os nómeio , porque tudo o que poíTo di- 
¿er de hum , poíTo dizer de todos , porque^ 
nao fei couía em que algum fe avantajaíTe; 
dos outros* Nos outros paíTos havia bem 
de neceílidades ; mas ós noíTos , rotos , eí 
famintos , é os mais delles fem nóme, fi-^ 
2eram em fuá defensáo tantas proezas , ca-' 
vallarías , e eftfagos nos inimigos , que foi 
cfpanto. Em hum paífo , em que hóuve mais 
ileceflídade ^ f e aoiou ElRéy, qué aCudió 
alli pela grita , e brados que ouvió , e oi^ 
fez como rtíúitó bom catálleiro ; e o queí 
nefte paflb mais fine2:as f ez , foi Efteváo^; 
Gonfalves^, Meftré, e Capitáo dos Inhames ^ 
Couh. Tom. K F. L C pe- 



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34 A S I A DE DiOGO DE COUTO 

{)era o que ao chegar dos efteiróes , pera 
anfarem gente em térra, felanjou elle em 
o rio , ate fe envafay á meia perna , e dalli 
fez coufas como hum leao , eíbndo-o El- 
Rey vendo pafmado do que acuelle homem 
fazia : em fim elle , e a efpmgardaria fi- 
zeram recolher aos inimigos com grande 
perda , porque ficou o rio naquella par- 
te , e em todas cheio de corpos mortos, 
€ elle tomado em fangue, O Capitáo dos 
Inhames , como vio os inimigos idos , fu- 
bio-fe alTima feito hum alarve ; e vendo-o 
ElRey , remetteo a elle , e o abrajou mui- 
tas vezes , e defpio huma roupeta de gram 
que trazia toda abotoada de ouro , e Iha 
lancou ñas coilas. Efte paíTo chama-fe o dos 
Pacnas , em que eftavam derredor vinte ho- 
mens , pelo qual commettéram tres mil , e 

f)odemos dizer quefóquatro foldados ode- 
endéram a todos , o Capitáo dos Inhames , 
3ue fe avantajou , os mais foram Ignacio 
e Gamboa Falcáo , Pedro Pires o Kume , 
c outro 5 de que nao me fouberam dizer o 
nome , e cada hum delles fez coufas em de- 
fensáo do paíTo , que nem Manlio na de- 
fensáo do ¿apitolio , que era diíFerente em 
fortaleza, as fez maiores. 

Em todos os paíTos havia trabalho ; e 
pofto que em todos fe ouviam clamores , e 
gritas, efefentiabradar porfoccorro, nin* 

gueni 



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Decada VIIL Caí. IÍI. g^ 

guetti fe movía de feu lugar , que guarda- 
Va , porque Iho tinlia aífim mandado o Ca- 
pitáo. 

Eftando á coufa nefte conflifto , chegá- 
ram os dousCapitáes DéDiogo deAtaíde, 
€ Jorge de Mello comtoda agente de Cch 
lumbo a Cota pela parte , onde eftava o ar- 
raial doRajú; eacnando-o defpejado, de- 
ram-lhefogo, eíedeixáram ficaralli, por- 
que nao fabiam onde o inimigo eftaria , por- 
que era muito efcuro* Os noíTos na pri- 
meiraCota tiveram muito trabalho , porque 
ao tempo que acudió o Capitáo ao paíTo 
que eftava entrado , carregou o Rajú com 
todo feu poder , traballiando tudo o que 
pode pela entrar ; mas foi41ie muito bem 
defendida de fíncóenta foldados que havia 
naquella parte , que fobre iíTo fizeram al- 
tiílunas cavallarias , e úo grande eftrago 
nos inimigos , que fenáo foram ajudacfos 
do brájo Divino , nao puderam efcapar á- 
quella furia , e poder : e os mefmos mimí- 

§os diíTeram depois , que víram huma mú- 
ler fermoliífíma , que com hum manto a- 
2ul chegára aquella ñora , e o eftendéra fo- 
bre os noíTos , e os amparava daquellas nu- 
vens de frechas , e pelouros que cahiam fo- 
bre elles : e que a mefma mulher tomava 
no ar as fettas dos inimigos , e as tornava 
SL lanjar fobre elles : e que tambem víram 

C ü hum 



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36 ASI A DE DiOGO DE COUTO 

hum homem velho veítído de ventiellio, 

3ue com hum baftáo que trazia , fizera gran- 
es eftragos nos Chíngalas : e afErmáram y 
que aiqüella Senhora com a fuá vifta, eda- 

3uelle veneravel velho Ihes caufára a to- 
os tamanho terror, que logo fe deshará- 
táram per íi ; e piedofamente podemos crer 
que eííe velho era o bemaventurado , e caP 
to S. Jofé , que naquelle tranfe acorapa- 
nharia fuá Santiffima Efpofa a Virgem San- 
lillima noíTa Senhora. 

O Rajú , vendo o desbarate dos feus y 
e que vinha já efclarecendo a manha , afaf- 
tou-fe donde eftava , e fez final aos feus , 
que eftavam em outros paflbs , os quaes lo- 
go fe recolhéram defordenados por diíFe- 
r entes caminhos ; e o Rajú , fem tomar o 
dofeu arraíal, fe foi recolhendo peraCei- 
tavaca : e fem duvida que fe D, Diogo de 
Ataíde, e Jorge de Mello Ihe fahíram ñas 
coilas , que o acabáram de desbaratar de 
todo ; mas elles , como fouberam de fuá. 
fúgida , temendo-fe que foífe fobre Colum- 
bo , que fícava fó , fem fe verem com Pe- 
dro de Ataíde, fe foram com muita pref- 
fa acudir á fuá Cidade* O Capítáo Pedro, 
de Ataíde , como fe vio defalivado , lan- 
50U efpias afaber dos inimigos, que já ti- 
nham paflado o rio Calane , e foi correr 
todas as elUncias ^ e achou que nenhum fol-^ 

da* 



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Decada VIII. Cap. IIL 37 

dado morréra em todo aquelle combate., 
fenáo hurn chamado Francifco Fernandes 
Gameiro : pelo que fahio fóra ao campp , 
e achou aquelle eftrago nos inimigos , e fe 
juigou paffarem de dous mil , afora mor 
copia que fe recolhéram feridos , de que 
morréram muitos ; e vendo que na Forta- 
leza nao havia <]ue comer naquelle dia, 
mandou aos foldados que recolheflem os 
mortos , pera os falgarem em talhas , por- 
que fe o inimigo voltaíFe , fe vaieíTem da- 
quella matalotagem : e aífim fe recolhéram 
em breve efpago quatrocentos , os mais gor- 
dos y fenáo quando hum mulato chamado 
Fernáo Nunes abrió logo alli hum , e Ihe 
tirou os figados , e os aflbu , e comeo. O 
Padre Fr. Simao da Nazareth , vendo re- 
colher aquelles corpos, acudió com muita 

Í^reílk ao Capitáo , e Ihe requereo , que nao 
e recolheífem os mortos , porque era cou- 
fa prohibida aos Chriftáos comer carne hu- 
mana ; Pedro de Ataíde Ihe diíTe , que em 
«xtrema neceffidade , como a em que elles 
eftavam , fe permittia aquillo ; e eftando 
neftes debates , chegou ao Capitáo hum Ca- 
fre Chriftáo , que vinha do arraial do Ra- 
jú , e Ihe contou como fora desbaratado , 
€ que já o deixava em Ceitavaca , com o 
que deliftio daquella caiiiija , e mandou por 
o fogo a todos aquelles corpos. 

Dal- 



■-üigitizé'cíby Vj o OQ le 



38 A S I A DE DiOGO PE COÜTO 

Dalli a duas horas Ihe chegáram de Có* 
lumbo alguns mantimentos , e após elles 
D. Diogo de Ataíde , e Jorge de Mello , 
com todos os mais que puderam ajuntar, 
aos quaes rodos fahírám a receber com tan- 
ta alegría , e alvorojo , como homens que 
aquella hora cuidavam que refufcitavam ; e 
entre tantas alegrías nao faltáram invejas 
nos deCoIumbo deverem aquelles homens 
táo debilitados , e fracos , terem obrado 
todas as cav aliarías : e aífim rotos, e dejf- 
figurados eftavam táo gentxs-homens , que 
os puderam invejar todos os do mundo. 
Pedro de Ataíde foi-fe logo pera Colum- 
bo a reformar, e deixou na Cota Francis- 
co de Miranda Henriques com alguns Tol- 
dados dos que foram aeColumbo, porque 
os da Cota foram tambem como Pedro de 
Ataíde a refazer-fe. Durou efte cerco qua- 
tro mezes ; e os quarenta dias foram das 
fomes crueis , em que nao coméram mais 
que hervas , e ainda eíTas faltáram alguns 
dias , pela qual razáo fe pode contar efte 
cerco pelo mais fainofo de todos os do 
mundo. 



CA- 



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Decada VIII. Cap. IV.' 39 
C A PITUL O IV. 
Mugares entrados ñas térras deDamao. 

NA entrada defte anno de 1565'. fen- 
do Capitáo de Damáo Joáo de Sou- 
fa , entráram pelas térras tres mil de ca- 
vallo , a maior parte de Mogotes , dos quaes 
era Capitao Mir Mahamed , primo com- 
irmáo doTrecbar, eoutros doze comAb- 
dulacan , que fora Rey do Mandare , que 
ambos andavam fúgidos do Grao Mogor, 
porque Ihes tomou o Reino do pai , e re- 
ceava-fe que tambem os mataíle. Atenjáo 
de virem fobre Damáo foi pera fe fazerem 
fenhores daquella Cidade , pera nella fe for* 
tificarem contra o Mogor , porque o fea 
rendimento baftava pera fuftentar tres , e 
quatro mil de cavallo. Joáo de Soufa Ca- 
pitao daquella Fortaleza , tanto que teve 
avifo de fuá entrada pela gente que vinha 
fiígida deiles , logo defpedio recado a Goa , 
e ás Fortalezas do Norte á pedir foccor- 
ro ; e elle fe ficou fortificando o melhor 
que pode , porque entao nao havia muros 
mais que huns entulhos groíTos , e metti- 
dos nelles groíTos paos de teca , que efta- 
vam encadeados com hervas leiteiras , que 
fazem multo bom tapigo , e fe nao podeni, 

ba- 



-^, U..Ú úy Google 



4P ASI A DE DiOGO DE Coüto 

báter com artilheria , nem chegarem a fe 
cortar com machados , porque qualquer go^ 
ta do feu leite que faltar nos olhos , logo 
cega. Os recados fe deram em Ba^aim , e 
Chaul , onde eftava por Capitáo Triftao de 
JVIendoja , que logo negociou feis , ou fete 
navios com duzentos homens , que Ihe ro- 
gáram pera os levar: ehoiejájiaohaquem 
es faja embarcar pera eftas neceffidades, 
nem com penas, nem com dadivas, OVi^ 
fo-Rey 5 tanto que teve o recado , foi-fe 
por no caes, e nao fe fahio dell^, aténcs- 
gociar quatro navios , de que foram por 
"Capitáes D. Fernando de Akrcáo , D, Dio^ 

fo Pereira , filho baftardo do Conde da 
eirá , Ayres de Saldanha , que foi Vifo^ 
Rey , e D. Antonio de Caítello-branco , 
baltardo daquella Cafa do Meirinho Mórj 
e defpedidos com muita preíTa , em breves 
dias chegáram a Damáo , adiando já. lá 
Triftao de Mendo9a , e alguns navios de 
Bajaim , e o Capitáo Joáo de Soufa prefí- 
tes pera ir bufcar os inimigos. Deftes Ca?» 
pitaes fez logo feifcentos loldados de es- 
pingardas, ecento evinte de cavallos Ara- 
bios. Com toda efta fabrica fe paíTou á ou- 
ti'a banda do rio; e chegando á povoajáo 
de Coulaca , teve avifo que os inimigos eA 
tavam em Parnel , que feria diante tres le- 
guas j e ordpn^ndp-fe ^ foi (fii^ fuá bufqa^ 

dan- 



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t Decada VIII. Cap. IV. ^í 

4ando a dianteira a Triftáo de Mendoza , 
'Gapitáo de Chaul , com trezentos homens , 
e algumas pejas de campo ; e chegando 
meia legua de Parnel de noite , defcanjá- 
ram com grandes vigías , e no quarto da 
alva tornái-am a marchar , e ao romper da 
alva houveram vifta dos inimigos , que ef- 
taváo ao longo de hum fermofo tanque. 
Triftáo de Mendoja mandou logo recado 
m Joáo de Soufa a Ihe pedir licenja pera 
romper logo com elles , porque fe nao or- 
deñaíTem melhor : ao que Ihe mandou di- 
zer , que le foíTe detendo , porque a arti- 
Iheria ficava atrás : e difto fez Triftáo de 
Mendoza alto. Os inimigos tanto que ví^ 
4-am os noíTos , como eftavam feguros de 
cuidar que os podiam ir bufcar , foi tal O 
feu medo , que nao fizeram mais que fal- 
tar ños cavallos , e acolherem-fe , deixan- 
do oarraial com todo o feu reqheio. Hum 
gentío da noíFa parte chamado Mapanoca, 
quando vio o defconcerto , com que os ini- 
migos fe levantáram , adiantourfe , e fubior 
fe ao alto do tanque j e vendoK)s ir der- 
ramados , capeou aos noíFos, do quq Trif- 
táo de Mendoja fe abalou; e chegando ao 
tanque, logo fe fenhoreou doarraial, que 
era muito grande, e rico ; e porque pare- 
ceo a Joáo de Soufa que podía aquillo fer 
pllratag§mg dos inimigos^ porque nao pen- 
día 



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4* A S I A DE DiOGO DE CÓUTO 

dia imaginar que lium poder táo groíTo fe 
desbaratafle por li fem golpe de efpada , é 
que faria aquillo pera voltarem fobre Da- 
xnáo , que ficava fó , fem tomar defcan- 
50 voltou com toda a prefla que pode , e 
chegou aquella Cidade ao outro dia. Os 
inimigos Foram-fe por caminhos defvia- 
dos , e fe recoihéram a Cámbala , e alguns 

Íera o Balagate ; e porque efte cafo nao 
e bem que fique elquecido , o contarei 
brevemente. 

Parece aue eftes Capitáes Mogores dei- 
Xáram em ¿urrate tres , ou quatro criados 
fazendo alguns negocios , aos quaes cn- 
commendáram partiíTem logo , porque den- 
tro em Damáo os achariam } e partmdo el- 
les ao outro dia , nao encontrando a fuá 
gente , que fe recolheo por outros cami- 
nhos , chegáram até ao no de Damáo ; e 
achando da outra banda a barca da pafla- 

Íjem 5 na qual andava hum Chriftáo muito 
adino , Ihe perguntáram fe já lá eftavam 
os Mogores na Cidade : o barqueiro , en- 
tendendo-os , diíTe que já eftavam na For- 
taleza. Com aquelle alvorojo fem mais con- 
liderajáo fe mettéram na barca , e defem- 
barcáram da outra banda commuita confi- 
anca. O barqueiro deo rebate aosdapraia, 
que logo lanfáram máo delles , e os levá- 
Tam ao Capitáo , que fabendo o cafo , os 

man- 



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Decada VIII. Cap, V. 45 

inandou entregar aos rapazes, quetiveram 
com elles hum arrazoado regozijo , e aílim 
acabáram com fuá iandice. 

CAPITULO V. 

Antonio Teixeira com recado ao GrUo Tur^ 
co y e vai com a refpojía ao Rey no. 

SEndo Govemador da India o Conde do 
Redondo, eCapitao deOrmuz D.Jo^o 
de Ataíde , eftava por Baxá em Ba^orá hum 
Turco da obriga9ao deAliBaxá, odapri- 
meira porta do Turco Solimáo. Efte Baxá 
chegando a Ba^orá novamente , como era 
fagaz , e ardilofo , deitou ollio á térra , e 
ao commercio , e trato dos noíTos de. Or- 
muz com aquella Cidade , que eftava qualí 
roto , e perdido : quiz tornar a renovallo y 
pelo proveito que delle elperava , e com 
eftc intento efcreveo a Ali Baxá , reprefen- 
tando-lhe o muíto que fe perdia emtcrem 
guerra comnofco , porque além da grolH* 
dáo do proveito que fe podia elperar da- 
quelle commercio , podia vir a reíultar ou- 
tro maior ao Eftado do Grao Senhor ; por- 
que como os Turcos . comejalTem a tratar 
em Ormuz , pelo tempo em diante fe Ihe 

Íjodia abrir huma boa occaíiáo , com que 
an^aííem máo daquella Fortaleza , pelo 

. def- 



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44 ASIA DE DiOGO DE COTJTO 

defcuido que havia entre nos , e ainda fe 
podía coniiderar poder-lhe vir todo o fe^ 
nhorio do Reyno de Ormuz , donde me- 
ihor poderiam confeguir a con quilla do Rey- 
no da Perfia. 

OAli Baxá fez aquelle negocio táo fá- 
cil ao Turco , que Ihe diíTe o tratafle co- 
mo Ihe pareceíTe , e alfim o efcreveo ao Ca- 
pitáo de Bacorá , o qual comecou logo de 
apalpar o Capitáo de Ormuz , que Ihe reC- 

E ondeo , que fem ordem do Vifo-Rey da 
idia nao podia elle fazer coufa alguma na- 
quelle negocio : que mandaíTe efíe huma 
peífoa á Cidade de Goa tratar nefta mate- 
ria , e o que fe refolvefle , cumpriria in- 
teiramente : e com ifto defpedio o Baxá 
hum Arabio , o qual chegando a Goa , te- 
ve entrada com o Vifo-Rey , e Ihe propoz 
X) negocio defeijáo, e tanto em noíTo pro- 
veito , e utilidade do commercio , que Ihe 
nao pareceo mal ; com tudo Ihe refpon- 
deó , que nao aíTentaria coufa alguma na- 
quelle negocio fem faber a vontade do Grao 
Turco : que elle Ihe mandarla huma peífoa 
grave de authoridade , com poderes pera 
aífentar o que fe determinaíTe ; e pera efta 
jomada elegeo Antonio Teixeira , homem 
Fidalgo 5 que fabia a lingua Perlia , e parte 
da Turquefca , e efcreveo huma carta ao 
Grao Turco fobre aquellas coufás. Efte An- 

to- 



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Decada VÍIL Cap. V. * 45? 

tonió Teixeira partió de Ormuz efte ve^ 
rao , em que andamos , fendo já Capitaa 
D» Pedro de Soufa , e levou comfigo qua* 
tro Portuguezes de cav'allo muito bém ne- 

{^ociados , e elle muito apparatofo , e po- 
ido dé fuá peíToa , e foi dar a Bajorá , e 
de ahí pelo Eufrates até Babylonia , onde 
tomou cavalgaduras , em que foi até o mar 
maior , onde fe embarcou ^ e foi aportar 
na Cidade de Calata- da outra parte de Conf* 
tantinopla , donde mandou recado a Ali 
Baxá , que ficou fobrefaltado , porque fora 
aquelle negocio tratado fem ordem do Graa 
Turco ; e foi neceflario dizer-lhe , que era 
chegado hum Embaixador de ElRey de 
Portugal por via da India a Ihe pedir pa- 
2es. Pelo que diíTeRs.^^ o que AliBaxáfez 
com outros Baxás : e o dia que o havia de 
levar ao Turco, ometteo em fuá camera, 
onde entrou levado por ambos os brajos, 
e foi por ella efpalhando algumas moedas 
de ouro , como he coftume dos Embaixa- 
dores. Eftava o TuYco fentado em hum eC- 
ti-ado cozendo humas carapucinhas a mo- 
do de efcofias de quartos , como os Mou- 
ros trazem debaixo das toucas , coftume 
muito antigo dos Senhores da Cafa Otto- 
ihana , ganharem por fuas máos o que háa 
de comer , e os Baxás , e Grandes da Coi^ 
te as comprág por multo dinheiro , de que 



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46 A S I A DE DioGo Dfi Coirf o 

fe fazem as defpezas da fuá meza ; e dan« 
do-lhe o Turco audiencia , Ihe diíTe elle , 
como o feu Baxá mandara pedir pazes ao 
Vifo-Rey da India , pera le contimiar o 
commercio de Bajorá pera Ormuz : ao que 
o Turco Ihe refpondeo , que elle nao pe- 
dia pazes a ninguem j c f e ElRey de Por^ 
tugal as quizeffe delle , mandaíTe hum ho- 
mem grande da fuá Corte a tratallas : e aC* 
lim oefcreveo emhuma carta quelhedeo, 
e o mandou defpedir : e dalli íe paíTou ef- 
tehomem aoRejno, edeo a carta aoCar-* 
deal que governara , e fez relajáo do que 
paífou com o Turco ; e achou-fe a carta 
táo íecca y que fe caláram todos , e nao 
quizeram mais bulír niífo. 

CAPITULO VL 

JEm que fe continua o cerca de Cananor^ 
efucceJfoSy que nelle bouve. 

CHegadas as novas da morte deAndré 
de Soufa aGoa, que foi muito fenti-^ 
da , defpedio logo o Vifo-Rey D. Antáo 
a D. Antonio de Noronha , jpera ir alliftir 
alli em lugar de André de ¿oufa , coma 
atrás temos dito. Os Mouros fóram con- 
tinuando na guerra com grande importuna-* 
jáo ; e mor cabedal , achando fempre em 

to* 



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Decada VIH. Cap. VI. 47 

todos os commettimentos em D. Antonioi 
de Noronha grande relíftencia , o qual nao 
fe contentando de fe defender dentro da» 
cercas ^ fez multas fahidas aos ininúgos, 
nos quaes por vezes Ihes matou mais de 
dous mil Mouros , e Ihes cortou mais de 
quarentamil palmeiras, que era toda a fuá 
íubftancia, e a mor guerra que fe Ihes po- 
dia fazer : do que elcandalizados os Mou-* 
ros convocáram todo o Maiavar pera aquel- 
la guerra , e aílim fe ajuntáram de redor 
de cem mil delles , com ten9áo de efcala- 
tem a Fortaleza , e fizeram efcadas, man- 
tas , e outros petrechos , e alTím tinham por 
certo que a haviam de tomar , de que hou- 
ve entre os Mouros grandes repaitijóes das 
coufas della ; porque o Aderaja refervou 
pera li a artilheria , outros a prata das Igre- 
jas , outros as cafas principaes dos cafados 
mais ricos com feus movéis : de man eirá 
que nao ficou coufa , que nao tiveíTe dono. 
Nicoriguarípo , Jangada da Fortaleza , Nai- 
re da melJior bondade que houve outro , e 
íidelillímo aos Portuguezes , em toda efta 
guerra avifou ao Capuao de tudo o que fe 
movia entre os Mouros , o qual vendo a 
guerra , e grolTo poder que traziam , e as 
maquinas , e petrechos pera efcalarem as 
tranqueiras , teve modo com que mandou 
avifar fi Df Payo de Noronha , dando-lhc 

con- 



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4* ASIA DE PlOQO 1>E CoiíTo 

conta por carta do que eftava aflentado en- 
tre elles , e aconfelnando-lhe que fe reco- 
IheíTe tudo na Fortaleza , e nao pertendeíTe 
defender as tranqueiras , porque fe arril^ 
cava a perder huma couía, e outra. 

Com ^fta carta chamóu a confelho os 
Capitáes , e peífoas principaes , e Iha leo , 
c mes pedio deíTem livremente feus pare- 
ceres. Entre todos houve muitos diflteren- 
tes , convem a faber : o Capitáo diífe , que 
o bom feria tomar o coníelho de Nicori- 
goaripo , porque já fabiam delle fuá ver- 
dade , e lealdade , e que nao havia de acon-^ 
felhar aquillo , fenao pelo que via : e que 
elle era de parecer que todos fe recolhef-*' 
íem na Fortaleza, que era a que fe havia 
de fegurar; que ñas tranqueiras de taipa,' 
que cercavam a povoajao de fóra , hia pou- 
co y porque elle fó da Fortaleza tinha da- 
do homenagem , e que eífa havia de traba-^ 
Ihar pela defender. 

D» Antonio deNoronha Iherefpondeo, 
que a Fortaleza , roupa , e moradores da 
povoajáo podia mandar recolher ; mas que* 
elle, eosloldados, que o quizeíTem acom-, 
panhar , haviam de ficar de fóra defenden-\ 
do as tranqueiras , porque nao era elle ho- 
mem que de medo largaífe a que Ihe era^ 
ericommendado^ nan aquelles íoldados , e^ 
cavallekos hayiaca de querer outra coufa^ • 

Vea-- 



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' decíaüa viií: ca*. vi: ' 4^ 

Vendo D* Payo de Noronha aquella fe* 
iblu^áo , diffe , que fizeíle o que Ihe pare^ 
cefle naquella parte : e logo mandou reco* 
Iher dentro alguns Cafados , que moravam 
fóra, com toda aroüpa, efaaienda queha-* 
via na poroa^ao* D. Antonio de Noronha 
fez preUes municóes , petrechos , e coufas 
oue Ihe parecéram neceírarias pera fuá de-» 
tensáo 5 e tambem tratou da ahila ^ coma 
fizeram todos , que fe confefsáram C6ní osr 
Padres de S¿ Francifco i que entre élles ah-» 
davam exercitándo aquelle oíiicio com mui^ 
ta caridadei O Capitáo fe deixóú ficar en-* 
tre aá portas da guarda com os mais mo^ 
radorés , pera recolher aos de fóra , fe foíT» 
neceífario , e pera dahi 6s bróver de mu-* 
nicóes que mándou ter preítes : e toda a- 
qiiella noite p^afsáram todos em grandeva 
gia 5 cdm a^ armas fempre ñas máos até Co* 
mejar a claridade da manhá, que appare-» 
céram fobre aquellas tranqueii'as aquellas 
nuvens de Mouros como de gafanhotos j 

3ue cubriam toda a térra ^ e com grande 
eterminacao remettéram com as tranquei- 
ras, easrodeáram de efcádas, pelas quaes? 
muitos fubiam muito oufadamente j fegun-- 
do a grita , e labyrintho , a qttef elles ch^ 
mam coqueadais ^ tal que iíTd íó pudera met-» 
ter temor , e efpanto em todo o mtindo. 
Nefte primeiro impeto fe puzerant emíimaf 
Couta, Tom. K F.L D mai» 



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^Q ASIA DE DroGO de CotrrD 

mais de dous mil , e deram comíigo em 
baixo nos quintaes das cafas y que guardan 
v^ Manoel rravaíTos , que tinha trinta fol- 
dados, e dentro teve com os inimigos hur 
ma afperillíma batalha , em que matáram 
os nolTos a muitos delles. D. Antonio de 
Noronha com a gente , que trazia de fuá 
guarda , foi correndo as eftancias das tran-^ 
queiras , onde os noíTos andavam a bra9os 
cpm os inimigos ; e esforyou , e animou a 
todos de feijáo , que pofto que elles fa- 
zlam maraviíhas , a vifta do feu Capitáo os 
aíFervorou tanto , que pareciam leóes famin- 
tos ; e houve alguns loldados , que liados 
com os inimigos , com os dentes ferravam 
nelles , e os efcalavravam muito. 

D.Antonio chegou ás eftancias quede* 
fendiam Thomé de Soufa Coutinho , GaC* 
par de Brito , e os dous irmáos Betanco- 
res , e achou a todos táo encarnizados com 
os inimigos , que nao houve pera que Ihes 
fazerlembrangas, feníío metter-fe entre el* 
les , e em cada eftancia fazer maraviíhas 
ñas armas : e o eftrago' que fe fez nos Mou- 
ros , foi grandiífimo , porque affim os eí^ 
candalizár^m , e feríram , que muitos fe 
lanjáram das tranqueiras abaixo ; e como 
os Mouros cubriam os campos , fizeram 
nelles tal emprego com a efpingardaria , 
que pafmavam eíies ^ e nao oulayam a che« 
gar a. tiro. Q 



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Década VIÍL Ga^. VI- * ft 

OAdeRajao da parte donde eftava fe- 
guro , vendo afracar os feus , mandou dous 
Cacizes yelhos aos animar, o que elles ñ- 
zeram , mettehdo-fe entre elles , e lembran- 
do-lhes que pelejavam por honra de Ma* 
famede , íegurando a todos que fe ahí mor- 
reílem , iriam defcanjar com elle na outra 
vida , onde teriam muítás recreajóes , e 
paífatempos > com as quaes palavras os fi* 
zeram tornar com aquella confusáo 5 e bar- 
baridade que elles coíhimam , porque cui- 
dam que efpantam mais com os gritos , e 
vo2:erias , que com o eíFeito , e valor das 
armas« 

Dentro na Fortaleza fe ouvía aquella 
vozeria, e confufos gritos ^ e andavam as 
mulheres pelas rúas defcabelladas de Igre- 
ja em Igreía , pedindo mifericordia a Déos 
noíTo Senhor. Os Frades de S. Francifco 
tinham o Senhor expofto , e fe nao afafta- 
vam nunca de ante o Santiílímo Sacramen- 
to , pedindo-lhe com muitas lagrimas que 
fe lembrafle daquella Fortaleza. 

Coufa maravilhofa ! que eítando o ne* 

focio no maior rifco , e perigo , víram osi 
radinhos encher-fe a Igreja de hum res- 
plandor táo fermofo , e claro , que os alu- 
miou como na forca do meío dia , nao fen-' 
do ainda manhá clara ; e entendendo que 
aquillo era íavov do Ceo , levantárám-f^r 

D ii dous^ 



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ya ASTA DÉ DiOGo de Cooto 

dous , a quem Déos deo aquelle eípiríto ; 
e tomando Crucifixos ñas maos , íahíram 
da Fortaleza , e fubindo-fe ás cercas , em 
oue os noflbs eftavam com grande confli- 
cto 5 e levantando' Chrifto crucificado nos 
ares , e com grandes vozes , que todos ou- 
viíTem , Ihes diíTeram ; Eia , cavalleiros de 
Chrifto 5 aqui o tendes comvofco , que vem 
em voíTa ajuda : nao temáis , esforjados Tol- 
dados , que o Senhor eftá em voíTa com- 
panhia : da fuá parte vos promettemos hu- 
ma grande viftoria deftes inimigos de fuá 
fanta Fé , por iíTo maneáis as maos : ef- 
forjai-vos , e nao queirais mor galardao , 
que faber que os que aqui morrerdes , ides 

fozar aquella gloria , que perpetuamente 
a de durar j e fe aqui ha alguns com as 
confciencias pejadas , cheguem-fe a nos , e 
aliviallos-hemos , para que pelejem com 
mais animo , e feguranca. 

Com eftas palavras que ouvíram , e com 
a figura de Chrifto que víram , foi tama- 
nho o furor que deo em todos , que rom- 
pendo nos Mouros , os deitáram das cer- 
cas em baixo , ficando os quintaes , as ca- 
fas , e as rúas cheas de corpos mortos , e 
efpedacados. Durou ifto até mais de meio 
dia, em que fe recolliéram os Mouros tao 
desbaratados , e quebrantados , que deter- 
anináram nao commetter mais as tranquei- 

ras, 



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Decada VIIL Gap. VI. yj 

tas, mas continuar a gueiTa até canjar os 
noíTos* 

D. Antonio de Noronha , que andava 
feito hum leao , e aflim mefmo os Capi-^ 
taes , e Toldados , vendo aquella mercé ta- 
manha, que Ihes Déos fizera , allim como 
eftavam em companhia dos Padres com os 
Crucifixos levantados , entráram na Forta* 
leza , onde D. Payo recebeo a todos com 

frandes louvores , e foram á Igreja de S. 
rancifco dar as gracas a Déos nolTo Se- 
nhor pela grande miíericordia que com el- 
les ufara , e mercés que Ihes fizera , indo 
após eiles todas as mulheres , e meninos 
com grandes gritos de prazer , deitando^ 
Ihes multas bencóes , e dizendo-lhes mil 
louvores. A certeza dos Mouros que moi- 
réram , nunca a pude averiguar , porque os 
de Cananor variam niflb : huns dizem que 
finco mil , outros menos , outros muitos 
mais , em fim a visoria foi huma das gran- 
des que na India fe alcancáram. O Capitao 
mandou queimar os mortos, por nao cau- 
farem corrupjáo : dos noffos morréram pou- 
eos , mas muitos feridos que faráram lo* 
go. Poneos dias depois chegou Gonfalo Pe- 
reirá Marramaque com toda a fuá Armada , 
com oque os da Fortaleza ficáram muidef- 
aliviados ; e fabendo da guerra que os noí- 
ios htíüveram , deo multas grajas a Déos, 

c 



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5^4 A S I A DE DiOGO DE COUTO 

c a todos grandes louvores de feus áni- 
mos. Gonfalo Pereira foi continuando na 
guerra contra o Rey de Cananor , toman- 
do-lhe os ríos , porque nao fahiffem os na- 
vios a roubar , e dando-lhes em algumas 
povoajóes que deftruio : e D. Airtonib de 
Koronha tambem por fuá parte fez muitas 
fahidas aos inimigos , ñas quaes Ihes quei- 
mou muitas fazendas , e matou muitos : e 
em hum encontró que teve com elles en- 
tre a Fortaleza , e a povoajáo de íima , que 
foi muito crefpa , fahio D. Antonio ferido 
de huma elpingardada ; c mandando novas 
a Goa , deípedio o Viíb-Rey Alvaro Paes 
Soto-maior por Capitáo da Fortaleza , e que 
fe foíTe D. rayo pera Goa , o qual partió 
cmMaio de is6^. em que andamos; eto-» 
mando polTe da Fortaleza, tratou da guer- 
ra que le havia de fazer ao Reyno de Ca-* 
nanor , e communicou com Gonfalo Perei- 
ra Marramaque darem napovoafáo do Ra- 
ja pera o quebrantarem. AíTentado ifto en- 
tre elles , fizeram-fe preftes pera huma ma- 
drugada y e que a hum íinai havia de def* 
embarcar Gonfalo Pereira Marramaque na 
praia , e fahir da Fortaleza Alvaro Paes 
eom toda a gente , como fizeram com mui- 
to boa ordem , entrando pelo Bazar, que 
áffim chamam as Cidades, Ihe foram pon-» 
do fogo por huma, eoutra parte, que co- 
me- 



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f Decada VIIL Cap. VL ^f 

mecou a arder com grande eftroncjo. O Ade 
Raja com todos os Mouros acudió a de- 
fender a Cidade , que eftava recheada de 
mmta fazenda , e no meio della tiveram hu- 
ma grande batalha , indo já iuntos os Ca- 
pitáes ambos , e a noíTa arcabuzaria fazen- 
do nos Mouros grandes danos , e tambem 
dos noíTos houve feridos , e nao fe achou 
quehouveffe mortos aqui. No meio do Ba- 
zar , indo -D. Jorge de Menezes , que de- 
pois foi Alferes Mor , que fe achou alli 
acaíb, por ir peraCochim embarcar-fe pe- 
ra o Reyno , Ihe deram huma efpingarda- 
da por a borda do peito em baixo junto 
das virilhas , e.lhe cahio o pelouro aos 
pés ; e Gonlalo Pereira , ouvindo dizer que 
o D. Jorge eftava mal ferido , chegou a 
elle, e Iheperguntou o que era; o D.Jor- 
ge Ihe refpondeo com fuas bizarrices cof- 
turnadas , que era hum pelourinho , que 
tanto* que tocara em fuá carne , que achou 
em feu contrai-io , logo Ihecahíra aospés: 
cm fim o negocio ficou feito como os nof- 
fos queriam , e a povoajao queimada , e 
cortado hum fermofo palmar , fem daña 
mais que de alguns feridos , e fe recolhé- 
jram muito a feu falvo. 



CA- 



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f6 A SI A DE DiOGÓ DE CotíTo 

C A P I T U i;, o VIL 

Z)^ defpeJQ ¿4 Cidade 44 Cofa pera 
CoIum^Q* 

VEndo o Vifo-Rey o grande trabalho 
que deo ao Eftado o cerco da Cota, 
c o que daria fe tornaíTe oRajú fobre el-t 
la , aíTentou com os do Confelho , que fe 
deípejaffe , e fe paíTaíTe ElRey a Colum^ 
bo : pera a qual execujáo mandou Diogo 
4e Mello , pera ficar por Capitáo naquella 
Fortaleza, o qual levou os navios feguin-t 
tes: elle em huma galeota , Manoeljuzarte 
TÍ9áo, FernáoVas Pinto, Antonio Froes , 
Fernáo Trineháo , Antonio da Coftft Tra^^ 
vaíFos 5 que tii;ha vindo de Columbo. Che^ 
gada efta Araiada aquella Fortaleza , logo 
Diogo de Mello poz o negocio Qm execu-» 
§áo , e foi bufcar ElRejr , e recolheo os 
Frades , e dernibou o Templo que lá ti? 
Bliam ; e em fim deixou tudo deferto , e paÁ 
fou aquellas coufas a Columbp , onde fe fi-í 
zeram apofentos pera ElRey , a quem o 
Boflb de Poraigal mandou que fe tratafle 
muito bem : e Ihe ordenou que do. muito 
dinheiro que Ihe deviam, Ihe deíTem cada 
?nno dous mil xerafins pera feu entreteni-t 
{Rento 3 pprcjue fic?ya desherdadp ^ e fem 



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Pecada VIIL Cak VIL ^7 

térras , de que coraefle , fó algumas aldeas 
^ue poíTuia alli ñas térras de Columbo j e 
pelo tempo adiante foram os Capitaes da^ 
quella Fortaleza , e outrx)s alguna , que a 
ella foram de foccorro , esbulhando efte po- 
bre Rey atédaquillo quefelhedevia, por- 
que hum Ihe pedia dous nul cruzados de 
mercé , outro mil , outro quinhentos , e af* 
fim o foram confumindo , o que tudo pa- 
gavam os Vifo^Reys : o que fabido por El- 
Rey D. Sebaftiáo , mandou que fe tornaíTe 
a arrecadar o dinheiro que je dera a eftas 

Íiartes , e que nunca mais ElRey pudeífe 
ázer mercés do dinheiro que devia , no 
que 5 cuido , fe nao fez execujáo. 

Depois de Diogo de Mello partido, 
logo D. Antonio de Noronha mandou al-i- 
gumas fiíftas de partes com eftes provimen-^ 
tos : dez mil xerafins em dinheiro , treze^i- 
tos candís de trigo , oitocentos de arroz , 
duzentos quintaes de bifcouto , multas mu- 
nijóes , cotonías , e outras coufas deftas. 
Nefte Abril de lyóy. foi JoáoGago de An^ 
drade fezer huma viagem de Maluco , e 1er 
vou muitos provimentos pera aquellas For- 
talezas. Gonfalo Pereira Marramaque dei- 
xou-fe andar no Malavar todo o refto do 
yeráo , em que tomou muitos paraos aos 
Mouros : e em Fevereiro defpedio Manoel 
de Britp ; que er^ feu ÜQ , com dez , ou 

do- 



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y 8 ASIA DE DioGó de Goutq 

doze navios , de cujos Capiraes háo achei 
os nomes , pera ir ao Gapo Comorim re- 
colher as cáfilas dos navios , que haviam 
de vir de Malaca , China , Maluco , Pegü , 
Bengala , e de toda a cofta de Coromán- 
del 5 onde efteve até x\bril , em que ajun- 
tou mais de oitenta , entre grandes , e pe- 

auenas , com as quaes fe partió , vinao7 
les dando muito Doa guarda , e muito dé 
vagar por caula dos Noroeftes , que naqueW 
les mezes curfam muito rijos ; e por ir to- 
da a Armada , e cáfila falta de agua , foi 
furgir a Monte Deli , onde a mandou fa- 
zer 5 lanzando em térra guarda de folda- 
dos , pera favorecerem os marinheiros que 
a iíTo roram ; e como aquella térra he de El- 
Rey de Cananor , com que eftava em cita- 
do de guerra , fahíram muitos Mouros a 
defender a agua , fobre o<jue fetravoucom 
os HoíTos huma grande batalha , aqueMa- 
noel de Brito mandou acudir com amaior 
parte da Armada , e ainda foi neceíTario 
defembarcar elle , por crefcer o numero, 
em que os noíTos fizeram grande matanza , 
até os arrancarem do campo , e os irem fe- 
guindo até á fuá povoacáo , a que puzeram 
fogo 5 e a hum navio que tinham no efta- 
leiro 5 e Ihes cortáram grande quantidade 
de palmeiras ; e com ifto feito , fe recolhé- 
ram os noíTos depoiá de fazerem a aguada 



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^ Decada VIIL Cap. VII. 5^9 

á fuá vontade , e forain feu caminho pera 
Goa , fendo já Gonfalo Pereira Marrama- 
cjue recolhido , por fer muito tarde ; e a 
cáfila chegou toda a falvamento. 

Recolhido Gonfalo Pereira Marrama- 
que, proveo oVifo-Rey logo agente que 
feavia de ir invernar a Cananor , pera on- 
de defpedio eftes Capitáes , Antonio Bote- 
Iho com huma Companhia de foldados, 
Manoel de Mello, filno deSimáo de Mel- 
lo 5 que foi Capitáo de Malaca , com ou- 
tros tantos , Vicente de Saldanha , e Eíle- 
váo Bobadilha feu irmao com fincoerita ca- 
da hum 5 Heitor da Silveira , D* Lopo de 
Mendoza de alcunha o Caroto , Ruy Vas 
Pereira, irmáo natural de Gonfalo Pereira, 
André de Torquemada , Fidalgo Caftelha- 
no , com D. Luiz Mafcarenhas , e Callifto 
de Siqueira , filho natural de Francifco de 
Siqueira , Efcríváo da cozinha delRey , mu- 
lato mui conhecido por val ente , nomem 
grande efpingardeiro. Efta gente fe repar- 
tió pelas tranqueiras de fóra , donde fize^ 
ram multas fahidas aos Mouros , de que 
üdiante fallarei. Nefte Abril de iS'óy. foi 
Pedro de Mefquita fazer as viagens de Ma* 
luco , e levou provimentos pera aquellas 
Fortalezas. 



CA- 



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66 ASIA DE Diogo.de Couto 

CAPITULO VIH. 

Da ida de D. Fernando de Monroy ao ep 
Areito de Meca ^ e do que la Ihefuccedeo. 

ENtrado o anno de 15*65'. em Feverei-- 
ro defpedio o Vifo-Rey D. Antáo de 
Noronha D. Fernando de Monroy , JFidal- 
go Caftelhano da Cafa de Oropeza , com 
íiuma Armada de dous galeóes , e quatro 
galeotas , pera ir ás lihas de Maldiva ef- 
perar as naos que liaviam de ir pera Me»- 
ca, que naquelle tempo partem doAchém, 
e vam demandar os canaes daquellas par- 
tes 5 e Ilhas 5 por entre as quaes coíhimam 
a paíTar. Foi D. Fernando no gaieáo San- 
ta Cruz primeiro , e Pedro Lopes Rebelio 
no gaieáo S. Sebaftiáo : das galeotas eram 
Capitáes Vafeo Delgado de Brito , Martim 
Pereira de Sá , Diogo Ferreira de Padilha 
com o Principe D. Joáo , e Baftiáo Criado 
de Abreu. Com ella Armada fe foi D. Fer- 
nando de Monroy pelo canal de Cardu , t 
mandou a Pedro Lopes Rebelio com a ga- 
leota de Diogo Ferreira , pera que fe foíTe 
por outro canal ^ que sao os dous ordina- 
rios , por onde as naos paílam. Eítando 
Pedro Lopes no feu canal , veio demandal- 
lo huma fermofa nao do Acliém, que tra- 

zia 



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Decada VIIL Qat. VIIL €i 

2ia mais de quatrocentos liomens brancoí 
Turcos , e de outras najóes , e muita , e 
boa artilheria. Pedro Lopes em havendo 
viíla della , largou a amarra fobre a boia , 
e preparou as velas , e foi commetter a 
nao que vinha muito confiada , a qual diC- 
parou nelle a primeira falva de artilheria , 
de que teve a refpofta arrazoada; e como 
efte Capitáo era homem de refolujao , in- 
yeftio a nao inimiga , e logo Ihe lanjou gen- 
te dentro , que teve com os inimigos hu- 
ma grande , e cruel batalha , aiudando de 
fóra o Capitáo da galeota , que lancou níui- 
to fogo na nao inimiga , e o menno fize- 
ram os das naos huma a outra ; e foi tanto , 

Í[ue fe ateou em ambas de maneira , que 
em remedio ardéram ambas, fem os noC- 
.fos Iho poderem defender. Vendo-fe Pedro 
Lopes perdido , ^náo teve outro remedio 
mais que deitar-fe ao batel com alguns , e 
outros á galeota de Diogo Ferreira , como 
tambem fizeram os Mouros , dos quaes elle 
recolheo> alguns , e os repartió pelos fol- 
dados, como gente de preza. As naos fe 
confumíram em cinza , fem efcapar coufa 
alguma da de Meca , que hía muito rica. 
D. Fernando de Monroy no canal onde ef- 
tava , ouvio a briga da artilheria ; e dando 
á vela , foi lá , e achou as naos já abraza- 
das, c recolheo comfigo a Pedro Lopes Re- 
bel^ 



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6Í A S I A ÜE DiOGO ÜE COUTO 

bello , e o proveo de fato j por efcapár 
com fó o veftido que tinha no corpo , e 
mefmo fez aos feus Toldados ; e jlabendo 
que Diogo Ferreira tomara os Mouros da 
nao , Ihos mandou pedir pelo Feitor da 
Armada , ao que os Ibldados fe alteráram , 
e os nao quizeram entregar , antes toma- 
ram dous , e os enforcáram na verga , e 
comelles foram darvolta por derredor do 
galeáo do Capitao Mor , o que elle teve 

{)or grande defobediencia : e mandou pe- 
os outros navios de remo levar a fufta de 
Diogo Ferreira a bordo , e metteo na bom- 
ba todos os foldados ; e a Diogo Ferreira 
prendeo em hum camarote ; ¿ os Mouros 
que eram de refgate , entregou ao feu Fei- 
tor da Armada , e deixou-fe andar por en- 
tre aquelles , e os mais , até fe acabar a 
monjáo , que fe partió pera Goa. O Vifo- 
Rey caftigou os íbldados com degi'edo, e 
nao fei fe prendeo Diogo Ferreira ; mas 
achei huma Provisao regiftada nos livros 
defta Torre do Tombo, em que Ihehavia 

Í)Orperdoada a culpa que teve naquelleca- 
b 5 fendo julgado crimemente : pelo que 
me parece que fe proceíFáram autos contra 
elle. 



CA- 



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Decada VIIL Cap. IX. ^j 
C A P I T U L O IX. 

Profegue a guerra de Cananor^ 

ENtrado o invernó , ainda que as chu-^ 
vas eram grandes , nao deixavam os 
Mouros de continuar a guerra , dando ca- 
da dia affaltos de huma , e de outra par- 
te ,.em que fempre havia fangue. Callifto 
de Siqueira , que era hum dos maiores ef- 
pingardeiros , que o mundo tinha , veio a 
inventar hum ardil pera matar os Mouros , 
o qual Ihe cuftou tambem a vida. Notou 
a parte mais ordinaria , por onde os Mou- 
ros appareciam , e de noite mandou fazer 
huma cova redonda, em que elle coubeíTe 
de joelhos , e cubrio-fe com folhas de pal* 
meira , e todas as manhans fe mettia nella , 
c dalli nao apparecia Mouro nenhum a ti- 
ro de efpingarda , que o nao derrubaíTe , 
e vinham outros a levar aquelle , que tam-' 
bem ficavam alli huns fobre outros , do que 
todos andavam pafmados , porque deícu- 
briam o campo , e nao viam donde Ihes vi- 
nha aquelle mal. 

Havia alli hum Mouro grande efpin* 
gardeiro , o qual andou vigiando , e notan- 
do donde Ihes fuccedia aquelle daño , até 
Ciahir no que era , pelo que tambem de noi- 
te 



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$4 ASÍ A ÜE DlOGO DE CóÚTCÍ 

te mandou fazer huma cova , e metteo-ftf 
nella. OCallifto pela manhá foi-fe mettei' 
na fuá ^ e della vio bulir naquella paite , 
em que o Mouro eftava ; e entendendo o 
que era , o Mouro tambem della eftava preC- 
tes com fuá efpingarda , de maneira qu'e 
fe^rando-fe hum, e outro em feu ponto ^ 
dilparáram , e ambos foram táo certos , que 
fe tomáram pelos teftos, ccahíram ambos 
logo mortos. Da Fortaleza acudíram a le- 
var o corpo de Callifto , e o enterráram hon-r 
radamente : e certo que foi fuá morte fen- 
tida , porque era multo grande cavalleiro. 

Andavam os noífos muito inquietos com 
os continuos aíTaltos , que os Mouros Ihes 
davam , e ás vezes o tomavam por paífa- 
tempo. Succedeo em hum delles fahir hur- 
ma Gompanhia de foldados , em que en- 
travam alguns Fidalgos , e Cavalleiros , e 
J)aralliáram-fe com os Mouros , peí ej ando 
valerofamente , e fizeram nelles arrazoada 
matanja ; mas nao fem cufto de fangue dos 
noífos , porque fícáram alguns feridos , en-* 
tre os quaes foi D» Lopo de Moura , filho 
de D. Manoel de Moura , de alcunha o 
Carotó, que pouzava a S. Joao da Praja-, 
e fógro ele Ayres de Saldadla ,. mancebo 
com que me criei na efcola , e nos eftudos 
de Santo Antao, ao qual deram huma ef- 
pingardada por huma perna , d£ que nao 

po- 



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Década VIIL Gaf. IX. 6f 

^óde bülir-íe ; e hum Cafre feu, que fem^ 
pre foi á fuá ilharga , o tomoii ás coilas 9 
e o hia levando pera a Fortaleza em com^ 
panhia dos noíTos ^ que fe liiáo recolheiv¿ 
do já enfadadds.' Os Mouros vendo ir os 
noíibs , tornáram á voltar fobre elles com 
grandes coqueadas^ os quaesfizerám rofto* 
aos Mouros, e fetravóu huma moito cref- 
pa , e porfiada briga , até acudir Alvara 
raes Capitao da Fortaleza com o relie da 
gente¿ ó D^ Lopo de Moura , que hia ás 
coilas do Cafre , vendo a briga , gritoü a6' 
Cafre que o largaíTe ^ o que elle nao qui^ 
fazer ; e todavía tanto fez , que ó Cafre a 
largou , é alfim manquejando fe foi metter 
na briga , da dual os rioífos fe recolhéram 
com tanta prefla , e defordem , que houvé 
matarem os Mouros alguns > cirtreosqüae» 
foi D. Lopo de Móura, a queni cortaran^ 
a cabefa , e Iha leváram , porque logo Ihéá 
pareceo peíToa de pre9o peías boas armas 
ouie levava. Alvaro Paes tornou a voltai' 
íobre os Mouros , e os fez recolher con* 
daño feu , e tiveram tempQ de levarem oé 
noflbs o corpo de D. Lopp^^ ab qual dé- 
ram hdni'ada fepultura. 

Aflitft ficou ft guerra contimiañdo por 

eíles aíFaltpií até Sétembro entrada do vé** 

rao , em qué diegáram eíles tíavi^s ^ pera 

Ruy Vas- rereirá andar com elles de Ar- 

Cmif^ Tom.KP.L É m*^ 



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66 AS 1 A DE Drocío dé Coxrro 

mada na cofta do Malavar , Antáó Barre*? 
to , Manoel Nunes de Macedo , Vicente 
Paes , Carlos Pafanha , Francifco Rifcado , 
Baftiáo Vieira , Jacome Viegas , Antonip 
Femandes Malavar ; e em Cananor fe ar- 
máram eftes Capitáes , Gonfalo Pereiraide 
Gaftro 5 Simáo de Mello , Baftiáo de Ma- 
riz , Luiz de Cai-yalho , Jorge da Silva Pe- 
reira. 

Coni a chegada defta Armada ElRey 
de Cananor mandou commetter pazes aa 
Capitáo , dando fuas defcargas da guerra ,^ 
emque moftroü que elle nao tivéra culpa y 
as quaes Ihe elle acceitou ; e deo ouvidos 
a ellas , por ter cómmifsáo do Vifo-Rey 
pera ííTo , e vindo-fe concluir com as con* 
difóes ordinarias 3 que nunca eftes Mouros, 
c gentíos cuTnprem , e mentem , e nada 
dam depois : e dilfimulá-fe com elles nao 
feí por que refpeitos , porque elles cada 
vez que querem tornam a levantar fuá pa- 
lavra , e quebram as pazes , é contratos ju- 
rados com tantas cei-emonias : mas como 
pode vir a fer verdadeoque fe jura fobre 
tanta falíidade / como a de, feus ídolos? 
Eftes contratos , e todos os que fe fizeraiiii 
na India com todos os Reys , tenho eu na 
Torre do Tombo em livro feparado. 

CA^ 



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McAbÁ VÍÍL C¿v/tr ' if 
C Á PI t U L O X* 

iiéi pr&vinieñtoí que ejíe anffo ft fi%eram 
pera a Fertaleza de Cetiaín 

NEfte Setembró de i ^6^. mañdou O 
Vií5>Rev D, Antáo de^Nbrohha huiri 
galeao a Ceilao , por eiltar aínda de guer- 
ra, no qual foi porCapitáo FemáoRodrk 
gües dé Carvalho , que levóü pera aquélla 
Fortaleza duzéntds taiídís dé trigo ^ qua- 
trocentos de arroz ^ é iriuitas müfii^dífs j qué 
deíia man eirá coíiumavam os Vifo-íReys da-* 
queííe tenipo prever as FórráléaJáS j é nó 
mefmo tempo defpedio efté^navios j pera 
com elles , t com outros queeftavam eni 
Cananor ^ andaí* Ruy Vas Pereira por Ca^ 
pitáo na óoftá do Malaváf , dos quáés na*^ 
Vios éram Capiraes Antió Barretó ,' Mánoel 
Nuiieá de Macíedo ^ Vicente Páes^ Carlos 
Pacartha, Diogo Colado ; eem Cananor fe 
armáfam eítés Capítáes , Gonfala , Pereira 
de Caftf o , áimáo déMelíd, Diogtf Nunés 
Pedrozo, Sebaftiáo de Máríz, LüiájCaf-va- 
Iho , Jorge da Silva Peréira 5 Fraricífcó RiC* 
cado ,' ^Sebaftiáo ' Vieirá , é Sebaffiáp Vas,. 
que todos ínveniáraní em Canañon Fói 
mais de Gíoa Ñuño Pereifá dé Laderda pof 
Ca|)Ítáo4e huma earavela Latina ^ p^raaa^ 

E ii daf 



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68 ASIA DE DiOGo DE Coxrro 

dar de Armada no Malavar ; porque na-» 

Suelle tempo Jiavia feis , oú féte dalas na 
lidia , pera andarem nefta cofta , pera irem 
a€>s eítreitos ^ por ferem navios mais ma« 
neaveiS) e de mais proyeito que gales, e 
de menos gaftos. 

C A P I T U L O XL 

J)é como D. Diogo Peréira foi com huma At-k 

mada grojfa ao ejlreito de Meca ^ e oque 

Ihe fuccedeo na viagem : e como fe 

perdeo com a maior parte della. 

NA entrada deíle anno de 1^66. man-^ 
doU o Vifo-Rey D. Antáo de Noro-- 
nha huma Armada ao eftreito de Meca a 
efperar as ftáos que viQÍTem fem cartazesí ^ 
daoual elegeo por Capitáo Mor a D. Dio- 
go Pereira feu cunhado , filho baftardo do 
Conde da Feira , o qual partió de Gda 
com finco galeóes, deque, afora elle que 
hia no galeáo S. Lourenjo , eram Capitáes 
D.Nüno Alvares Pereira, tambem filho do 
Conde da Feirá , no galeáo S. Chriftoyáo , 
Gonfalo Pereira de Caílro , filho baftardo 
de Ruy Vas Pereira , Capitáo que foi de 
Malaca , no galeáo S* Joáo , Joáo da Silva 
Pereira , filho de Ruy Pereira da Silva , em 
Ittima galeota, Manodi Freiré de Andrade 

enj 



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Decada VIH. Cap. XI. 6^ 

«m outro ^al^o : levou mais feis galeotas , 
cujos Capitáes foram Bras Tavares , Die- 
go Nuncs Pedrozo, Manoel deMedeiros, 
meio irmáo de D. Diogo Pereira Capitío 
Mor , filho de fuá mái , Alvaro Fernandes , 
e hum foáo Féntira , do úutro nao foube 
o nome. 

Eíba Armada foi logo ás Uhas daMaI« 
¿iva, por haverem novas eftarem nellas fin- 
co naos carregadas pera Meca , c nove ga- 
les do Achem em íua guarda. Os noflos 
tanto aue chegáram ás Ilhas , foram logo 
viftos aos inimigos , e tiveram recado das 
velas que eram , com a qual nova fe mu- 
<láram do canal doCardum, ondeeftavam, 
pera outro. O Capitáo Mor , fem faber do 

Í[ue paffava , mandou a Gonfalo Peréira qué 
e foíTe com^ o feu gal^o furgir no íneímó 
canal doCardum, onde íurgio bem tarde, 
eachou em térra final de como allí eftivé-í- 
ram os Turcos. Os inimigos fizeram con- 
íídera^ao cjue fe os noflbs foubeflem deU 
les, oshaviam de ir efperar ñas portas do 
Eftreito , e aífim os quizeram divertir , e 
engañar , como fizeram , e foi qué de noi- 
te atiráram multas bombardadas , domo que 
ie levavam , e faziam á vela. O Capitáo 
^ue as ouvio , cuidou que Gonfalo Pereira 
€ficontrára as naos no canal' do Cardum^ 
e que andava com ellas ás bombardadas; 

e 



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yo ASIA. DE DjOGO DE COUTO 

,cievando-fe,j andou toda anoiteávéla de 
Uha em Uha , e de; canal em canal até a^ 
fnanhecen 

Gonfalo Pereira tambem cuidou eipou- 
vindo as bombardádas \ que o Capítáo fe 
(encontrara cpm os inímigos, pelo que et 
tava fem faber o que fizeíTe ; e tanto que 
-amanhÉjcep , chegou o Capítáo Mor ao ca^r 
nal 4o Cardjim, onde acJiou furto Gonfa- 
lo Perei« pofto em armas ; efabendo.que 
^s bombardádas nao eram de huns , neni 
4os putro§ 5 hayendo confelho fobre o que 
faríam ^ aíTeEtáram que fem duvida as naos 
inimigas fe fizeram á vela pera o eftreito 
jie Meca : logo fe leváram todos , e os fe-t 
guífem , e trabalháram por chegarem pri- 
meiro que elles j mas ps inimigos que en-» 
tendjéram o que fora , deixáram-fe ficar furr? 
tos onde eftayam ; porque todos eftos ar^t 
tificios ufáram , por nao lerem táo arremefc 
íados como nos : e parece que tlnha obri-r 
ga^áo o Capítáo Mor de mandar pelos na-r 
Víos ligeiros vigiar todos os canaes , 3Índa 
que ñiíTo fe gaftaíTem dous , ou tres días , 
pera fe fegurar na verdade na bolada, em 
que hia t^nto : em fim os noíTos foram fur- 
gÍF na ponta da Uha Sacotorá , e osga-s 
Íj^s 5 e galeotas fe divid/ram por para-r 
gens' a vigiar os inimigos j ecom tudoiftp 
^i g yigia tal , que huma (iiV P^ps fpi d&? 



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Decada VIIL Cap, XI. 71 

mandar a mefma Uha Sacotorá , em que 
os noíTos eftavam , e foi dar á cofta da ou- 
tra banda da contra^ofta , onde fe fez em 
peda9os. 

Difto tudo teve avifo o Capitáo Mor, 
e que pela térra dentro havia mais de qui- 
nhentos Turcos , que yinham na nao, pelo 
que mandou pedir aoXeqqe da Ilha, que 
Ihe entregaíTe toda aquella gente , como 
«ra obrigado por amigo do Eftado da In* 
dia, fenao que os iría bufcar, e ocaftiga^* 
ria a elle rijamente. O Xeque , que tam- 
bem era fagaz , entendendo que metiendo 
qualquer tempo em meio , o livraria da* 

3UÍII0 , porque os noíTos fe viam enfada* 
os, oü poderla íucceder darMhe alli hum 
tempo , com que multas vezes fe perdéram 
naquella paragem muitos navios , Ihe man* 
dou pedir oito dias de efpera pera fazer 
aquella entrega , porque os Turcos anda-» 
•vam derramados por toda a Ilha , e que 
elles eram muitos , e nao tinha poder pera 
os tomar : e aífim de recado em recado foi 
confumindo o tempo , e por fim fe acó* 
Iheo ás ferras , e nao appareceo mais ; com 
o que o Capitáo Mor aefembarcou em ter-^ 
ra , e faqueou , e quéimou a Cidade , que 
era grande , e com muitas fazendas , man* 
teigas , couramas , e ambolins , fangue de 
Dragáo , zevre , focotorimo, e.outráscout 

fas. 



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71 ASIA DE DiOGODE CoüTO 

fas , de que tambem carregáram os galeSes ; 
e fendo o ícmpo gaftado , deram á vela 
pera Goa em Abril ; e tanto avante como 
a ponta de Dio , felTenta leguas ao mar, 
jcm dezelete do dito mez , que foi a con- 
jun^áo de Lúa nova, quarta feira a derra- 
deira Oitava da Pafcoa , Ihe deo huma tor-r 
menta muito rija , que Ihe durou finco dias , 
nos quaes corréram os ventos da agulha , 
como faizem os tufóes da Qiina , que quan- 
do dam , parece huma reprefentajáo aa ira 
de DeoSf O primeiro dia da tormenta vio 
toda a Armada fubverter o galeáo de Ma- 
noel Freiré de Andrade ; e ao outro dia 
ás oito horas do dia vír:im o galeáo do 
Capitáo Mor a arvore fecca , e o víram 
fumir debaixo do mar : os galeóes de D. 
Nunp Alvares Pereira , e de Joáo da Sil-r 
vg , e de Gonfalp Pereira de Caftro efca- 
páram por novos , que pudéram melhor 
IbíFrer os mares : das galeotas a do Ferrei- 
ra defapparccep* Diogo Nunes Pedrozo , e 
9 Tavares , em vendo os finaes da tormén-^ 
ta 5 fe acolhéram onde melhor puderam: 
p Tavares entrou pela barra de Bajaim , 
íem faber por .pnde hia , Diogo Nunes Pe- 
drozo atinou Gom a barra de Dio, queto-r 
mou meio filagado : Leonardo de Medei* 
ros era ido a Caxem por mandado do Ca-r 
pitáo Mor , e nao Ihe deo a tprinenta ; e 

4?9 



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Década VIIL Cap. XI. 73 

dépbis de fazer o negocio a que o man-* 
d^ram , foi bufcar o Capitao Mor a Saco- 
torá 5 cuidando achallo ainda lá , e á vifta 
da Ilha encontrou huma champaña quefar 
hia do porto carregada dos Mouros da 
nao ; e commettendp-a , peiejou com ella 
tres dias , no fim dos quaes de aberta das 
bombardadas foi ao fundo , e os Mouros 
andando a nado , os matou todos á cfpa- 
da ; e feito ifto , fe paíTou pera Goa , aon«» 
de chegou a falvamento. Perdéram-fe nef- 
ta tormenta nos dous galeóes , e galeotas 
ao redor de quatrocentos homens. Conti-* 
ram-me alguns foldados que fe aqui achá* 
ram , que os Mouros da champaña , tanto 

Íiue víram a noífa galeota , confiados em 
erem mais de duzentos , por fer a cham^ 
pana muito grande , por fegurarem os nof- 
fos 5 fizeram que fugiam , e efcondéram-fc 
debaixo de cubertas , ou das bejas , pera 
que os noffos nao viíTem tantos ; que o ter- 
mo que fizeram de fugir , accendeo mais o 
defejo aos nolTos de chegarem j e aíEm fe 
deram tanta preíFa , que os alcanjáram , e 
Ihes puzeram a proa ; e primeiro que os 
noíFos fe lanjaíTem dentro , fahiram os Mpu^ 
ros debaixo , que fe fe deixáram eftar , fem 
duvida tomáram todos ás maos ; todavia, 
pomo os noílbs eftavam atracados , lanján 
ram-^íe dentro , eos dows primeiros forana 

lo* 



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74 A S I A DE DiOGO DE COUTO 

logo moitos ; mas os mais com grande ani- 
mo, e valor lan9áram dentro muito fogo, 
com que os abrazáram , e fizeram lanjar 
ao mar , onde todos foram mortos. 

CAPITULO XII. 

De como niandou o Rei do Pegtí pedir 

huntafilha ao Rei de Ceilao pera 

cafar com ella. 

Aínda que toda a vida fe gafte em eA 
crever as fuperftijóes deftes Gentíos 
Pegiís , e Bramas , nao fe podcrá acabar de 
dizer ametade dellas , e por iflb quancjo 
trato algumas , fam aílim de paíTagem , co- 
mo farei aqui agora. Na nafcenja defte Rey 
Brama fizeram os Aftrologos grandes ob- 
fervagóes, e levantáram muitas figuras pe^ 
ra faberem fuá boa , ou má fortuna , e as 
eoufas que na vida Ihe haviam de fucceder 
de mal , ou de bem. Entre as coufas que 
efcrevéram do que notáram, foi quehavia 
de cafar com huma filha de EIRey de Cei-» 
láo , e que havia de ter taes , e taes finaes , 
e que as feijóes de feu corpo haviam de 
fer de certas medidas , que logo apontá-^ 
ram ; e querendo o Brama Rey do Pegii 
cumprir ifto que elles tinham como profecia , 
mandou Emoaixadorqs a EIRey D« Joáa 

de 



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.Década VIIL Gap. XII. 75^ 

43e Columbo , que fó elle no fangue , e le» 
gltimidade era o verdadeiro Imperador de 
toda a Uha , a Ihe pedir huma filha per^ 
mulher , e Ihe mandou huma nao carri^ga- 
da de mantimentos , pelos nao haver em 
Ceiláo , e multas pejas , e jolas ricas : e 
chegáram eftjes Embaixadores a Columbo 
no mefmo tempo que efte Rey fe paíTou 
da Cota pera aquella Cidade , os quaes El- 
Rey recebeo com multa honra , e gazalha- 
dos ; e fabendo ao que vinham , dillimulou 
com o negocio, nao negando que nao ti-^ 
nha filha , como de feito nao tinha , nem 
teve , no que já feus Aftrologos mentíram ; 
mas como elle em fuá cafa criava huma fi- 
Jha. do feu Camereiro Mor , que tambem 
jera do fangue Real , ao qual Francifco Bajr- 
reto , fendo Governador , fez Chriftáo , e 
Ihe poz o feu nome , ao qual pelo fangue , 
e partes ihe eftava ElRey mui fujeito , e 
podemos aíErmar que mandava tudo. 

A efta moga, a que elle chamava filha, 
por Ihe querer, grande bem , fazia elle gran- 
de honra como a filha ; e depois que os 
Embíiixadores do Brama Ihe deram fuá em- 
baixada , fempre a poz comfigo á meza , e 
Ihe chamaya filha , e com efte nome a quiz 
conceder ao Brama por fuá mulher ; mas 
temeo-fe que o Capitáo de Columbo Iho 
^rraír^ « ip o meimp fizeüipxp.o^ Padres 

de 



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f6 A S I A DE DiOGO DE COTJTO 

de S. Francifco , pofto que ella era aínda 

fjentia ; porque como tinham aquella ove^ 
ha das portas a dentro , e cada dia a po- 
diam fazer Chriftá , como haVia dous aue 
o pertendiam , eftava certo impedirem-íhe 
a jornada, Eítas coufas todas praticava com 
o feu Camereiro Mor , que era pmdente , 
e de grande artificio , a que ElRey eftava 
entregue de todo : o qual vendo ElRev 
defapoíTado da Cota , e pobre , e que ít; 
abría caminho com efte cafamento pera ter 
muito commercio com o Brama , e a mo- 
ya fer fuá filha , diíTe a ElRey , que elle 
daría ordem pera ella poder ir encuberta* 
mente fem fe fentir em Columbo, 

E aínda fe fez mais em muito fegredo 
com ElRey , da ponta de hum veado fez 
hum dente táo proprio como o do Bogio , 
que D. Conftantino levou , e o engaftou em 
curo , e fez huma charola muito rica , e 
com muíta pedraria , em que o metteo : e 
o Camereiro Mor , que era aínda gentío , 
praticando hum dia com os Erabaixadores 
do Brama, e osTalupÓes, quevieram em 
fuá companhía , que eram íeus Bifpos , e 
Religiofos , que fe vinham oíFerecer á pé* 
gada de Adao que todos adoram , e vene- 
ram , Ihes deo em muito fegredo conta da- 
quelle negocio , e de como ElRev D. joáo 
tínha o^yerdadeiro dente do Bo£Ío , ou da 

fex 



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Decada VIII. Cap. XII. 77 

feu Quiar ; gue o que levara D. Conftan- 
tino , era falío , e fingido : e que elle Ca- 
mereiro Mor o tinha guardado cm fuá ca- 
fa em ff rande fegredo , porElRev ferChri- 
ftáo. Os Bmbaixadores , e TaíupÓes ou* 
vindo aquillo, alegráram-fe muito , e Ihe 
pedíram Iho moftrajTe , o que elle fez com 
tantas cautelas , que os obrigaya mais a 
vello , e afliin os levou huma noite a fuá 
cafa , e Ihes moftrou o dente na charola y 
que dlava pofta fobre hum altar nwito apa- 
ramentado com multas velas, e perfumes^ 
e em elles q vendo , fe baqueáram no chao ^ 
e o adoráram multas vezes com grandes 
ceremonias , e fuperfti^Óes , no que gaftá«> 
ram a maior parte' da noite, edepois pra- 
ticáram com o CanKereiro Mor fobre o den-* 
tfe 5 pedindo-lhe que o mandaífe ao Bra^ 
má com. fuá fílha ; e pera o gofto, e fef" 
tas do cafamento ferem maiores , elles fe 
Ihe obrigariam a Ihe mandar o Brama hum 
milháo de ouro , e todos os annos* huma 
nao carregada de arroz , e mantimentos , 
como fe ihe obrigáram : o que tudo fe tra- 
tpu em tanto fegredo , que fó ElRey , e 
o feu.Camereiro o fouberam. Tanto que 
fe íct tempo de efta mpja fe embarcar, o» 
fez o Camereiro M6r em tanto fegredo v 
que nem Dxogo de Mello. Capitáo de Co- 
limbo >, i\«?in os Pgd]re9::oioventáiam.:. e 

fox 



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7^ ASIA DE DiOGO DE COUTOÍ 

foi naqüélla ¿ompanhia por Embáixádo? i 
de ElRey de Ceiláo André Bayáo Mude-' in 
liar ; e navegando com bom tempo , foram í 
tomar outro porto abaixo de Colini , on- a 
de defembarcáram , e avifáram o Brama de ? 
tudo o paíFado^ e da chegada da Rainha, : 
o que foi pera o Rey , e todos os Gran- 
des de grande alvorojo : e logo ElRey 3 
defpedio todos os Ximes , que fam Duques ^ 
? Grandes 5 pera que afoffem acompanJiar, ; 
€ Ihe mandou joias , e pejas multo ricas : 
etoda eitagente, que era infinita ^ iiia pe-^ s 
V>s ríos abaixo em multas embarcafóes , que i 
chamam Lagoas , que fam como gales, to-»^ ! 
das douradas , toldadas , e embandeiradas i 
de fedas de cores ricas ; e á em que haviá^ i 
de a Rainha fe embarcar , era todo o tol- 
do , e camera forrada de ouro , e ella eP 
quipada de muiheres fermofas , e ricamen-? 
te ataviadas , que remavam melhor , e maií 
a compaíTo que os forjados da Europa , e 
deítas mulJieres tinha ElRey multas em bair- 
ros feparados, e he certo que fe cafavam 
humas com as outras , e viviam de üorta^ 
a dentro de düas em duas como calados: 
c eu fallei com alguns Portuguezes , que 
foram cativos em Siáo ^ princípalmerite com 
tum Antonio Tofcano y que foi meu vizi-' 
nhb , e tem ainda- filhos em Goa^ osquaes 
difieram que foram muitas veze» ver eftes 
^ .'-. bair- 



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Decada VIIL Cap, XII. 7j| 

bairrés das marinheiras , que era verdade 
ferem cafadas humas coin as outras. Nef- 
tas gales que vi)u dizendo , mandou ElRey 
embarcar a mulher do Banha da Gdade 
velha , pera fuá Camereira , e Aia , e ou- 
tras Damas ricas , e fermofas. 

Chegada eíta fabrica , que era coufa 
muito grande , foi a Camereira Mor vilitar 
a Rainha , e fazer-lJie acatamehto , e a co*t 
me^ou a fervir como Rainha : era ella mu- 
lher muito veHia , e de grande refpeito , e 
authoridade, e aflim comoeíTa, a Rainha 
a comejóu a tratar como mái. PaíTados al- 
guns dias , em que a Camereira tinha já 
poíTe della , e que corriam em grande ami- 
zade , Ihe diífe hum dia , aue o Reí Bra- 
ma era avifado dos feus Aítrológos , qué 
havia de cafar com huma Princeza deCei-f 
láo , que teria certas medidas ñas pernas, 
bragos , e pefcojo , como fe declarava na-- 
qüelles livros , que a Camereira Ihe mof- 
trou alli: que por iffo Ihe havia de dar li- 
cen^a , porque alHm importava muito , pe- 
ra Ihe tomar aquellas medidas : que pera 
iífo^ a mandara ÉlRey, por confiar aquillo 
mais ::délla que de outra. A Princeza a ou- 
▼10 muito grave , e com muita authorida- 
de Ihe refpondeo , que no feu corpo nao 
havia de tocar outra peífoa alguma , mals^ 
q^te ElRey feu marido; querría aPegil, q 

el- 



- — 9tgi1 



fee^y Google 



So ASTA DE'DioGo 6e Courtf 

elle Ihe tomaría la as medidas que quizeí^' 
fe. A Camereira nao pode obrigalla a na-^ 
da ; mas logo avifou ElRey do que paíTa- 
va , porque por córrelos tinha todos os días 
avifos de tudo ; e dando4he efte recado da^ 
Camereira do que paíTára com a Rainha y 
o fellejou muito , e fez diíTo muita arte , 
e galantaria , e mandou que logo cami- 
nhaíTe pera lá , como fez : e por todo o qa-- 
minho a foram acompanhando todos os 
principaes das Cidades , e povoa^óes por 
onde paílavam, com. multas feftas, bailes, 
e tangeres , e.ainda com multas dadivas, 
e prefentes ricos , até chegar á Cidade de 
Pegú , onde defembarcou com a maior pom- 
pa , mageftade , e riqueza , que fe podia 
imaginar. O filho herdeiro dcEIRey a foi 
receber á defembarcajao , e por todas as- 
mas por onde paíFou , achou novas inven-- 
jóes de arcos , theatros , riquezas ^ e repi:e-*' 
íentacóes , que os naturaes dos Reynos fu- 
jeitos ao Brama Ihe faziam. ElRey faJiio- 
a recebella á porta dos Pajos , eme que fe 
ella havia.de apofentar , que eftavam ri-- 
quiílimamente aparamentados com todo o* 
fervijo da camera , recamera , e gliarda*- 
roupa , com tudo o mais neceíTario á mu- 
Iher dehum táo rico, e poderofo Mont- 
ea , e depois Ihe applicou groílas rendas 
pera defp^xa de. íiía cafa^, Élles primeirps^ 

di« 



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1 Decada VIIL Cap. XTI- Si 

dlás correo com ella j mandándo-a levar a 
fuá cafa , e a fez Jurar por Raínlia com 
grande jnageílade , mas como elle tinha 
multas Princezas filhas de Reys feus vaíTal- 
los por concubinas , e outras Damas mui« 
to fermofas das fuas portas a dentro , fe- 
chadas mais que em hum Mofteiro , e ella 
veio a faber que corría com ellas , come^ 
jou-lhe a demandar ciumes , e carrancas , 
coufa que nenhuraa Ihe fez nunca , nem elle 
fabia o que aquillo era , e goftara muito 
diíTo, efazia grandes rifos^ e paíTatempos 
deltas coufas todas^ Os capados ^ (][ue ier« 
viam a Rainha , avifavam a Antonio Tof- 
cano y com quem corriam em amizade ^ que 
me contou tudo iílo , e outras coufas que 
deixo ^ por nao fer proluxo* 

E como ahi nao ha coufa que fe nao 
faiba, veio ElRéy Brama a faber que aquel- 
la mulher nao era filha de ElRey de Cei- 
láo, fenáo de feu Camereiro , porque pa* 
rece que o André Bayáo , que la foi com 
ella por Embaixador , veio a dar Com a 
lingua nos dcntes ( como lá dizem , ) pra- 
ticando com alguns Chinas de Pegú , que 
o contáram a ElRey , que fez diílo pouco 
cafo , por Ihe eítar aíFeijoado , .e tambiem 
porque os Talapóes , e Émbaíxadores que 
foram bufcar a Rainha ^ Ihe deram conta 
do dente de Bogio , e da venerajáo , com 
. Couto. Tom.F7P.L F que 



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8¿^ ASTA deDiogo de Cotjto 

que aquelle Rey o tinha , e como ficára 
concertado com elle que o entregaría : o 
que o Brama eíUmou multo , porque aquel* 
le dente o tinham pelo do feu ídolo Qui- 
jay , e eftimava elle fobre todas as coufas da 
vida : e prouvera a Déos que affim eftima- 
tamos nos hum dente de Santa ApoUonia ; 
mas nao digo muito neftc dente :deíta San* 
ta, mas humcravo comqueChrifto foi en- 
cravado , ou hum efpinho que Ihe atravel- 
fou fuá lantiífima cabeja , ou o ferro da 
lan^a^ , que Ihe rafgou feu fagrado peito , 

?ue tudo efteve muitos annos em poder dos 
i'urcos , fem os Reys Qiriftaos os manda- 
rem refgatar , como efte Brama fez ao den- 
te do diabo , ou do veado ; porque logo 
tornou a defpedir os mefmos Emoaixado-* 
res , e Talapóes a pedir aquelle dente , e 
mandou por elle aquelle Rey groíliílimas 
riquezas , e com promeífas de outras maio- 
res. Eftes Embaixadores chegáram a Co- 
lumbo 5 e tratáram o negocio em fegredo 
com aquelle Rey , o qual Ihes entregou o 
dente em fuá charola com muitas ceremo- 
nias , e cautelas , com o qual logo fe em?- 
barcáram com muita preíTa na meíma nao 
que pera iífo leváram. 



CA> 



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rDEGía>A'VIII* Cap. Xllt ' Sjr 

CAP iTü L O xm. 

Da grandeza ^ e riaueza com que ejie den^^ 
tefoi re ce D i do em Pegú. 

POucos dias puzei-am até Cofmi j porto 
de Pegú , onde logo fe deram as no^ 
vas , e acudíram todos os Talapóes ^ « gtri-^ 
íeque por alli pouzava , e foram adorar 
com grande venerajáo ; e pera o defem- 
barcar infinitas jangadas fobre embarcantes 
com meaíTas feitas em fima muito bem la-i 
vradas ^ e aparamentadas ; e a em que fe 
havia de embarcar o maldito dente , era. 
toda fundada de ouro , e prata , e outras 
curiofidades muito cuftofas : defpedio-fe lo-^ 
go recado a Pegú ao Brama , que mandou 
com muita preíla todos os Grandes ao re* 
ceber , e Ihe ficou preparando o lugar , on- 
de fe havia de;depolitar , no quaí o.Bra-^ 
mámoítrou fuá potencia, e riqueza. Oden^ 
te foi pelo rio alfima , que era entulhado 
de embarcajóes cuftofas , e curiofas , cer-^ 
cada a cafa ,. em que hia a charola , de tan-? 
tas luminarias , que efcondiam a claridade 
do dia; ; . ; , 

ElRejr ., como, tevfi tudo preftes , em-» 
barcou-fe em fuas embarcacóes forradas de 
iniro ¿ e apamoientadas de horcado y ^& foi 
, . F ii rer 



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^4 ASIA DE DioGo DfeCotrro 

recebello dous dias de caniinho j e chegan- 
do á vifta das enibarcafóés , em que fe tra- 
2Ía, o dente , fe metteo na camera da fuá 
¿alé , e fe lavou , e purificou com muítas 
aguas cheirofas , e fe veftio dos mais ricos 
veftidos que tinha ; e tanto que entrou na 
jangada , em que o dente vinha , defde a 

8 roa até chegar a elle , foi fempre em joe- 
ios com grandes exteriores de devofáo; 
echegando ao altar, em que a charola ef- 
taya , tomou o dente na cullodia em que 
hia , ñas máos , e o poz multas vezes fo« 
bre fuá cabera , e fez folemniífimas acjóes , 
com exteriores efpantofos , e depois o tor- 
nou a feu lugar ^ e o foi acompanhando 
atéáCidade, recendendo todo aquelle rio 
cm cheiros fuaviílímos , que fe leváram em 
todas aquellas embarcajoes , e ao defem- 
barcar do dente fe lan^áram ao mar os mais 
honrados Talapóes , e Xenis de todos os 
Reynos , e os príncipaes tomáram a cha^ 
Tola fobre feus hombros , e foram cami- 
nhando pera os Pajos com tanto concurfo 
de gente , que nao havia poder romper j e 
os Senhores príncipaes defpíram ftus vef- 
tidos muito ricos , e cuftofos , e os foram 
eftendendo pelo chao , pera por lima del- 
les paíTarem os que levaram aquella ne- 
fknda reliquia. 

Os Portuguezes que fe acháram prefen-» 
. ,. tes. 



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Decaiga VIH. Caf.XIH. \ 8| 

tes , hlam paímados de ver acuella bruta- 
lidade , e mageftade ; e Antonio Toícano , 
que atrás diíTe quefoi humdelles, mecon^» 
£ou coufas notaveis da mageftade^ e gran* 
deza y cota que foi recebido , que o nao 
fei efcrever , e conf eíTo aue me taltam pa- 
lavras , e eftylo pera o aizer : em fim tu^ 
do quanto todos os Emperadores, eReys 
do mundo juntos podiam fazer em huma 
fefta folemniffima , em que todos quizeffem 
moftrar íiía potencia , efte bárbaro fó fez. 
Defembarcando o de;ite , foi pofto no meio 
do terreiro do Pa^o , onde fe Ihe tinha ar-^ 
mado hum riquiíümo tabernáculo , aonde 
aífim ElRey , como todos os Grandes fo- 
ram oíFerecer feus riquiílimos dons , e pre- 
sentes , deciarando-lhe logo de quem eram , 
jC eram efcritos , e receitados porj oíEciaes 
que pera iífo eftavam deputados. 

Alli efteve dous mezes efte dente , até 
que fe mudou a huma várela , que fe acá- 
bou de fazer no lugar , em que venceo , e 
desbaratou o Ximido Satáo , qué fe Ihe le- 
vantou com o Reino , em gratificajáo da- 
quella grande vitoria. E por concluir com 
eftas coufas,- porirem todas enfiadas., tra^ 
tarei das que luccedéram aoRey deCandia 
xom efte Brama arefpeito deÉlReyD.Jolo 
de Ceiláo , pofto que fuccedéram efte annp 
que vein y mas porque cabem aqui , nao quiz 
deixar -pera o díaate. Ef^ 



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íí ASÍA DE í)ioGo DiE Cótrro 

Eftas coufaá , que o Rey de Ceitóo Di 
Joáo tfatou em tanto fegredo com ó Bta- 
iná , aflim do cafamento daquella moja com 
onome de fuá filha, como o do dente do 
Bogio , foram logo ás orelhas de ElRey 
de Candía ; o qual fabendo o cafo como 
paífou , ^ as grandes riquezas , que o Bra- 
ma Ihemandou por o dente que fingió fer 
de Bogio, dando-lhe inveja de tudo, com 
fer muito párente de ElRejr D.Joáo, é ca- 
fado com huma fuá irmá , ainda que nao 
faltou quem difTeífe que era filha , defpe- 
dio logo Embaixadores ao Brama , os quaes 
elle recebeo honradamente ; e quando os 
ouvio , Ihe diíFeram da parte do feu Rey , 
que aquella moja , que Ihe ElRey D, Joáó 
mandara por fuá filha , tinha entendido que 
o nao era , mas que era filha do feu Came* 
reiro Mor: e que O dente que Ihé manda- 
ra com tantas ceremonias, evenerajao, era 
feito da-ponta dehum reado: que elle de- 
fejava muito de fe aparentar com elle , e 
que pera iífo ofFerecia huma filha fuá pof 
mulher nao fingida , fenáo verdadeira : e 
que tambem Ihe fazia a faber , que elle fó 
tiñha 5 e era depofitario do verdadeiro den- 
te de Quijay, porque ném o que D. ConC- 
tantino levara de Jafanapatáo , era verda^ 
tjeiro, fenáo aquelle que elle tinha, como 
faria cértó por efcrituras ', e olaa aiitigas. 



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: Pecada VIII. Cap. XIIL «7 

O Brama informado do qafo ^ deitou fu^ 
contas ; e vendo que tinha já jurado aquel-* 
la moja por Rainh? , e recebido o dente 
com aquella mggeftade , e collocado em 
várela particular , diííimulou com o nego- 
cio , por nao confeffar que fe enganou , 
porque tao máo he enganarem-fe osReys, 
como enganarem*-nos a elles : e aíllm reí-- 
pondeo aos Embaixadores , que elle e^- 
mava muito o parentefco que ElRey de 
Candia quería ter com elle, e o mefmo o 
dente de Bogio : que Ihe fizeíTe mercé man- 
dar-lhe tudo , e que pera o trazerem Ihes 
daría huma nao muito fermofa com coufas 
^eraElRey: e mandou preparar duasnáos, 
que mandou carregar de arroz , e de pe- 
jas ricas , aífim pera o Rey D. Joao 5 co^ 
cno pera o de Candia ; e na de ElRey D. 
Joáo mandou embarcar todos os Portugu^- 
.«es que lá tinha cativos , em que entrou 
Antonio Tofcano, que foi oque mediífe, 
•e contou eftas cóufas multas vezes. 

ChegadaS' eftas naos a Ceilao , a que 
foi, lurgir no porto de Candia , primeiro 
que defcarregalTe Ihe cortáram as amarras, 
-c deram com ella á cofta, onde fe perdeo 
tudo , e fe aíFogáram os Embaixadores : ^e 

Írefumio-fe que fora por ordem deElRejr 
>. Joáo de Ceilao , que eftavam inimigos 
^apitaes.j e fe tal foi^ devia fcv ardil dp 
•. . Ca* 



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S8 ASIA DE DioGo DE Coxrro 

Camereiro Mor, porque ElRey nao tiníia 
artificio pera nada : e com nido ifto ficáram 
eftas coulas nefte cftado , fem mais havcr 
eflPeito, nem fe fallar neílas* 

CAPITULO XIV. 

J>e como fe conjurar am as Reys do Decao 

contra o Rey de Bifnagd , em que Ihe de^ 

ram hataíha , na quaTo desbaratdram , 

e matdram ^ e tomdram o Reyno. 

EM multas partes das minhas Decadas 
tenho efcrito , em como os Reys de 
Bifnagá foram Senhores de todos os Rey- 
jios que fazem de Bengala até o Cinde , 
cuja potencia 5 e riqueza foicoufa incrivel; 
e depois que os Mouros conquiftáram o 
Rey no do Decáo, fempre entre elleshou- 
ve grandes odios , e guerras ; e ainda os 
annos paíTados de quinnentos feíTenta e tres , 
em tempo do Conde-do Redondo , entrou 
Rama Rey do Bifnagá pelos Reynos de Iza- 
maluco hum anno apos outros , e os def- 
tinío, aífolou, e desbaratou de todo, dos 
quaes levou grandes riquezas, O Izamalu- 
co magoado daquelle geral , convocado ó 
Idalxá , e o Hebrahe , e o Cotubixa , e o Ve- 
rido , pera efta liga ficar úo fegura , ( fe en- 
tre Mouros ha feguranja) tratou de fe apa- 
ren* 



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' Decada VIII. Ca?. XIV. ' $f 

Irtsfttaf com todos , como fez por efta ma^í 
neira : ao Idalxá deo huma íilna em cafa- 
mento com grande dote , e a Cidade Sela- 
por, que Ihe tinha tomado, e ao Cotubi- 
xa deo outia ; e elle cafou com huma íi- 
Iha , ou irmá do Idalxá : os quaes cafamen^ 
tos foram celebrados com grandes feftas, 
e firmes juramentos de fe ajuntarem todoa 
contra o Rey de Bifnagá , do que elle lo- 
go foi avifado ; e ajuntando feu poder, e 
convocados feus vaíTallos , fe poz logo em 
campo com feus irmáos Venta Vengata Ra- 
je Capitáo do campo, eTimaraje Veador 
da fazenda, eafiii-ma-íe que tinha cemmil 
cavallos , e mais de feifcentos mil de péé 
Os tres inimigos trariam fincoenta mil caval- 
los , e trezentos mil de pé , e algumas peA 
foas do campo : com elle poder fe foram 
fcufcar huns aos outi*os com grande deter- 
minajáo. 

C A P I T U LO XV. 

' JDo encontró dejies Reys , rotnpimento , e 
batalha , em que o Rey de Bifnagd > 
ficou morto ^ e desbaratado» 

OS tres Reys da conjuradlo chegáram 
ao« extremos do Reyno Bifnagá , e fo- 
ram entrando por últ^ e fazendo grandes 
«danos ^ i^ cruz^as 3 o de Bifnagi tambem foi 

em 



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5^ ASIA D£ DfÓGÓ 0E COUTO 

em bufca delles. Eftando hum día jantan^ 
do , Ihe deram rebate que appareciam os 
Reys inimigos , pelo que com muita preír- 
fa le poz em hum fermofo cavallo , e or* 
dcnou a fuá gente o melhor que entendeos 
Os dous irmáos fe foram a elle , e Ihe pe* 
díram que fe recolhelTe á Cidade de ÉiC- 
nagá que era forte , e que elles ficariam 
dando batalha aos inimigos : e que com fa-- 
berem que o tinham em Bifnagá , cuida- 
riam que fempre os foccorreria : e os ini* 
migos haviam de fazer difcurfo , como fou* 
beílem que elle eftava lá, que tinha com* 
figo mais groflb poder , e fempre o haviam 
de recear. 

O Rey com fer de noventa e feis an- 
nos , com brío de trinta Ihes refpomdeo , 
que fe recolhelTem elles embora , que elle 
ficaria ás máos com os inimigos : e que foC- 
fem elles agazalhar feus filhos , e orincar 
com elles : e que elle era Rey , e havia de 
fazer feu ofEcio , que era andar diante de 
feus vaflallos , defendendó-os , e animándo- 
os. Tinha ElRey mandado diante de feus 
vaíFallos hum Capitáo da cofta Real com 
dez, oudoze mil foldados da cofta Rafes, 
que chamam Rachebidas , como os Janizar 
ros dos Turcos , pera defcubrirem o cam- 
po ; e eftando elle neftas praticas , e dos ir- 
máos , Ihe veio recado , que já os Rache- 

bi- 



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' Décáüa VIII. Cap. XV. ' 9? 

bidas tinham travado com ós inimigos ; pe^ 
lo que voltando o cavallo , tomou duas lan- 
gas 5 em cada mao huma , e mandou dian- 
te feu irmáo Vengata Raje , como Geral do 
tampo 5 pera que foíTe favorecer os Rache- 
bidas. O Vengata Raje chegou aonde os feus 
andavam travados ^ e metteo-fe de envolta 
tom elles , pelejando valerofamente ; mas 
áos primeiros encontros defappareceo lo- 
go •, e acudindo Intima Raje com feu filho 
Raganate Raje , foram dando com muita 
for^a nos inimigos, cujo encontró Ihes ti- 
nfiam fó mil e quinhentos Rachebidas , por 
ferehí os mais mortas-, e feridos ; emettí- 
dos na batalha , pofto que fizeram grandes 
cavallarlas , foram feriaos elle , e o filho 
muito mal , e fe fahíram da batelha. Eñas 
fiovas deram aó Re^ ; e arrancando com o 
tefto do poder , foi dando nos inimigos , 
lippellidando por vezes Gorida , Gorída^ 
que he o feu ídolo das batalhas , como nóa^ 
o fazemos ao Apoftolo Sant-Iago. A van- 
guarda dos conjurados trazia o Idalxá , e 
Cotubixa 5 e a retaguarda o Izamaluco : aos 
primeiros encontros do Rey de Bifnagá, 

3 ue foram muito furiofos, Ihelargáram os 
adianteira o campo; edan^io.^o Rey com 
os Rachebidas no Izamaluco , que tinha 
dez mil de cavallo , o arrancou do cam- 
po y e foi dando nelle por efpajo de meia 

le- 



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9^ A S I A DE DiOGO DE GoüTo 

legua , em oue Ihe matou de vantagem de 
dous mil. Os Rachebidas , como víram o 
feu Rey mettido no perigo , defcéram-fe 
dos cavallos, eapéquedo fizeram nosini* 
migos grande matan9a. O Izamaluco , que 
hia em desbarato, tomou a fe reformar, e 
voltou com algumas pe^as de campo, ea-r 
chou o Rey de Bifnaga mifturado com o 
Idalxá ; e pondo fogo ás bombardas , fez 
nos inimigos tamanna deitrui^ao , que foi 
efpanto , e com o medo dellas íiigíram to 
dos , ficando o pobre Rey velho cativo , e 
muito malferido, eáílim foi levado aoNi^ 
zamexa , que em o yendo , remetteo a el- 
le , e Ihe cortou a cabera , dizendo : Ag(h 
ra que me vinguei de ti , fafa Déos de mim 
o que quizer» ' 

O Idalxá teve logo rebate da prizáo de 
ElRey , e acudió muito depreffa pera o li- 
vrar , porque era tamanho feu amigo , que? 
llie chamava Pai , mas iá o achou, fem car 
beca , o que fentio em extremo. Desbara- 
tado o campo , deixáram-fe eftar os vence- 
dores no lugar da batalha tres dias , nos 
quaes osfilhos dos Rajos fobrinhos deEl- 
Rev entráram em Bifnagá , e carregáram 
mil e quiuhen^os e fincoenta elefantes de 
joias , pedrária ^ dinheiro amoldado , e oxh 
tras coufas defta forte , que fe eftimou em 
xújús de cem milhóes de ouro > e a cadeir 

ra 



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Década VIIL Cap. XV. ^^ 

ta Real , em que ElRey fe fentava em días 
de fuas feilas , que fe affirma fer fem efti-- 
ma , e com tudo ifto fe foram pelo certáo 
dentro, erecolhéram tudo noPajodcTre- 
mil 5 por fer ihuito forte , o qual eftava em 
íima de huma ferra inexpugnavel , dez días 
de caminho deBifnagá; edepois delles re* 
colhidos com eftes thefouros , deram os Be- 
dués , que fam gentes dos mattos , feis ve^ 
zes em Bifnagá , e leváram outras riquezas 
mui grandes , o que tudo perdéram os con- 
jurados, por nao feguirem logo aviétoria. 
Acabados os tres dias , fe foram á Cidade 
de Bifnagá a rabifcar o x]ue ficou , que foi 
tanto , que fe detiveram niíTo finco mezes , 
no cabo dos quaes fe recolhéram todos muí 
ricos: e ainda hoje o Idalxá tem hum dia- 
mante tamanho como hum ovo , que o Rey 
de Bifnagá trazia no pé das plumagens da 
cabera do feu cavallo , e outro por botáo 
das nominas, fóra outras pejas de infinito 
valor. PaíTados os finco mezes , foram^fe 
os conjurados pera feus Reynos ; e os fi- 
Ihos , e íbbrinnos do Rey morto repartí- 
ram entre fi os Reynos , que ainda hoje 
pofluem feus herdeiros. 

Defte desbarato do Rey de Bifnagá fi- 
cou a India , e o noflb Eftado mui quebra- 
do ; porque o maior trato que todos ti- 
xihain> eca o defte Reyno^ aonde kvavam 
t.. ca- 



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94 ASIA DE DioGo DE Goüfd 

caballos , veludos , fetíns , e outras fortes d^ 
mercadorias , em que faziam grandes pro-» 
yeitos : e a Alfandega de Goa o fentio bem 
em feu rendimento , de maneira que de en- 
táo pera cá come^áram os moradores de 
Goa a vir a menos ; porque as beatilhas , 
€ roupas finas , que era hum trato de gran- 
de importancia pera Ormuz , e pera Portu- 
gal y logo eftancou ; e os pagodes de ou- 
ro, deque todos os anno^innam mais de 

Suinhentos mil a empregar ñas naos do 
.eyno , valiam entáo a fete tangas e meia , 
e hoje valem a onze e meia, e aflim aeA 
ta conta todas as mais moedas : alada que 
nifto nos temos a primeira culpa , e a maior ^ 
porqiíe bulimos ñas moedas liquidas y e pu- 
ras, e as fizemos faifas, e de ruim forte ^ 
com que tudo fe alterou. 

Na entrada defte^anno de felTenta e feis 
foi Luiz de Mello entrar na Capitanía de 
Ormuz , por virem novas de fer falecido 
D. Pedro de Souza , o qual foi enterrada 
entre as portas das Fortalezas, e fcus oCr 
fos foram mudados á parede , onde tera 
hum nicho com grades de ferro , e feu le- 
treiro. Foi Fidalgo muíto honrado , bom 
Chriílao , e temente a Déos. Dizem que ti- 
nha Formáo do Grao Turco , pera poder 
ir por térra pera o Reyno , e levar certos 
homens de cavgUo .^ ,pera o que/eíazia 

preP 



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r DtíCAJDA VIII. Gap. XV. \ ^f 

jH^ftes ; mas Déos jiollb Senhor ordenou 

3ue foíTe pera outro melhor Reyno , aon* 
e fe prelume iría* por fuá virtude , e bon-» 
dade. i^"'oram no mefmo tempo pera o ef- 
treito de Meca dous navios de remo , Ca«^ 
pitaes Antonio Cabral , e Pedro Lopes Re- 
oeilo 5 jpera tomarem falla de gales , e avi- 
farem órmuz; epor acharem tudo quieto, 
voltáram a invernar a Goa. 

A finco de Setembro defte anno de I5'66¿ 
feleceo o Turco Solimáo , eftando fobre Se^ 

Sete, lugar nos confins de Ungria , ferido 
e idade de feífenta e feis annos, Succe- 
deo-lhe feu filho Solimáo II • do nome , que 
foi a quem o Senhor D. Joao de Auftria 
désbaratou aquella potente Armada , ■ fendo 
General dos da Liga ; outros dizem que nao 
faleceo fenáo mais adiante em i$6j. Foi efte 
Solimáo coroado por Emperador dos Tur- 
cos o mefmo dia , que o foi o Emperador 
Carlos V, invi>ítilIimo do Imperio de Al^ 
manha. 

CAPITULO XVL 

De como Gonfalo Pereira Marramaque foi 
a Ambotno , e a caufa da fua^da. 

TInham vindo em Abril paíTado dous 
Embaixadores de Amboino chamados 
D. Antonio^ e D. Manoel, Chriílaos natu- 

raes , 



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^6 ASTA DE DiOGO DE COUTO 

raes , da parte de todos , os quaes própu-» 
zeraiTi em fuá embaixada , que as cpufas 
daquellas Ilhas eftavam em eftado de feper- 
clerem , e de retroceder toda aquella Chri- 
ftandade , pelas grandes guerras que os vi-* 
«inhos Ihe faziam. Com iUo trouxeram com- 
ígó hum Padre da Companhia , que quiz 
acompanhallos naquella jornada tanto dd 
fervijo de Déos , o aual com palavras de 
«luita obrigajáo ílgnincou em Confelho o 
•perigofo eftado daquellas Ilhas j e ponda 
o Vilo-Rey aquelle negocio em Confelho 
por algumas vez es , no qual foram ouvidos 
os Embaixadbres , e o radre , aíTentou-fe 
que era neceíTario acudir aquellas coufas, 
me eram de muita importancia ; porque fe 
e perdeife Amboino , eftava certo perde^ 
rem-fe todas as Ilhas de Maluco logo ; e 
aíTentado em fe mandar efte foccorro , poz o 
Vifo-Rey os olhos em Gonfalo Pereira Mar- 
-ramaque , pelo que tinha fuccedido aquelle 
veráo paílado , e vinha-lhe bem achar-fe 
naquella Jornada 5 pera remediar, evir en- 
trar na Fortaleza de Ormuz , de que era 
próvido ; e o feu cafo foí eílíe : 

Sendo Capitáo Mor de Malavar , anda- 
va na Armada hum Caftelhano Fidalgo Ca- 
valleiro , chamado André- deTorquemada, 
com o qual parece que oCapitao Mor te- 
ve algumas razóes 3 de que elle ficou quei-i 

xo- 



l 



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Deoáda VIIL Cap. XVL * 5I7 

xofo •, e vindo o Gonfalo Pereira de cafa 
do Vifo-Rey a pé com alguns foldadofi^ 
entrando pela rúa de Nuno da Gunha , on-» 
de elle poufava , aridava o Caftelhano paC^ 
feando a cavallo com Heitor da Silveira 
Drago. Emparelhando Gonfalo Pereira com 
elles , fallou4he de barrete , e Heitor* da 
Silveira Drago llie tirou o feu ^ mas o Caf- 
telhano nao y do que enfadado o Gonfald 
Pereira ) fez pé atrás ,- e difie ao Caftelha-» 
no : Quando eu fallar , fallai-me ; e fenSo ^ 
€ calou-fe. O Caftelhano ^ opiie era fober-- 
bo , e arrogante ^ tanto que Gonfalo Perei-» 
ra diíTe : E femó ^ refpondeo : Y Juné ^ fea 
luego ; e lanjando^fe do cavallo , apunhóu* 
Os foldados de Gonfalo Pereira arranca-» 
ram ^ t remettérám- a elle ; e Goíifáló Pe* 
reirá, fem tirar efpada , fe metteó'em meio ^ 
bradando : Td , td ; mas nao pode eftorvaí' 
que Ihe deflern huma eftocada em híimá 
máo , e outrá na cabera ^ das quaes o Caf- 
telhano veio a mbiTcr eM pcnicos dias ^ de 
que Gonfalo Pereira tirou Carta de fegu-» 
ro , aílim pera fi ^ como pera os foldados ^ 
ainda que elles eftavam jíeguros emfuaca-' 
fa ) e porque efte negocio havia de ir aa 
Reyno, epodiaifer que fe tomaíTe amál^ 
quiz o Vifo-'Reytirar éfteFidalgó deGoa, 
emandallo naquella jornada, que era mais 
importante .de todas y pera com xSo ficar ^ 
Gáuto. Tom.KP.L G d* 



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98 A S I A DE DioGO DE Coüíb 

aquelle negocio no Reyno apagado , por- 
gue o Torquemada era favorecido da Rai- 
nha : e Ihe ordenou logo huma Armada de 
quatro gaieóes , e oito galeotas , em que 
hiáo mais de mil homens. Os Capitaes dos 
gaieóes , afora Gonfalo Pereira , foram D. 
Duarte deMenezes de Vafconcellos , a que 
cá chamáram o Narigáo , Manoel de tíri- 
to 5 tio de -Gonfalo rereira , e Gomes de 
Brito , que hia no galeáo S. Thomé a fa- 
zer viagem de Maluco , de que era próvi- 
do. Das galeotas hiam por Capitaes Se* 
baíHáo Machado , Antonio Lopes de Si- 

Íueira , Mem Dornellas de Vafconcellos, 
.ourenjo Furtado , meio irmáo de Triftao 
de Mendoja , que foi Capitáo de Chaul , 
Francifco de Mello , e Simáo de Mello, 
filhos de Gafpar de Mello. Partió efta Ar^ 
mada quafi emfim de Abril de 1566. ecom 
Gomes Barreto foi embarcado Gabriel Re- 
bello por Feitor daquella Armada , e que 
O havia de fer da Fortaleza de Terhate, 
que já tinha andado naquellas Uhas, e en- 
tendía as coufas dellas melhor que todos 
os que lá paíTáram , das quaes feznumDia-^ 
logo muito curiofo , que eu tenho em meu 

Í>oder, do qual me ajudei muito ñas cou- 
as que efcrevi de Maluco. FoieAehomenx 
grande Filofofo natural , e de vivo enge- 
iiho i e táo honrado , que quaado ElRey 

\or^ 



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Decíada Vin. Cap. XVI* 99 

erdenou nefte Eftado a Meza da Confcien* 
cía , o elegeo y eítando cá y por Secretaria 
délla. 

Gonfalo Pereira chegou a Malaca, on- 
de eftava D. Diogo de Menexes por Capí-' 
tao , que eram cunhados , e parentes mui'^ 
tas vezes , pelo que Ihe fez grandes gáza« 
Ihados , e recebimeijtos ^ e alli efteve até 
fe partir em Agofto feguinte de i^ójé 

Depois em Setembro feguinte partió pe^ 
ra Banda D. Manoel de Noronha próvida 
daquellas viagens , que partió a vinte e doud 
daauelle mez no galeáo Santa María com 
muí tos pro vimen tos pera Amboino pera á 
Armada de Gonfalo Pereira , o quál D* Ma- 
noel teve humas palavras muitoruíns com 
o Efcriváo da nao , que fe chamava foád 
Boto 5 e dizem que Ihe deo com huma ca-* 
na ; mas o outro , como era muito honra- 
do 5 que o conheci eu , e a tres írmáos que 
cá paífáram, endireítando com oCapitao^ 
matou-o ás adagadas ; e como elle era a 
fegunda peíToa da nao , e levava regimen- 
tó pera íucceder na viagem , nao puderam 
entender com elle , e ámm foí a Banda fa- 
zer fuá carga , e tornotí a Goa ^ onde fe 
livrou do cafo* Elle D* Manoel de Noro- 
nha cuido que era das Ilhas Terceíras , e 
cafado lá , trcáram-lhe dous fílhos , que cá 
paífáram , e hum delles foi D. FranQifco de 

G ü No^ 



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loo AS I A DE DiOGó DE Cox*o 

Noronha , que foi Capitáo de Bajaim , c 
morreo inchado como hum odre. 

Na entrada de Janeiro defte anno de 
15^7. deípedio o Vifo-Rey Alvaro Paes So- 
tómaior Capitáo de Cananor , que veio a 
Goa a negocios , por eftar já aquella For* 
taleza de paz com a de Rajáo , o qual Al'* 
taro Paes foi por Capitáo Mor de Mala-* 
var:.elevou eua Armada de Joáo de Men- 
doza , filho de Triftao de Mendoja, D. Gon- 
falo de Menezes que veio com o Vifo-Rey 
do Reyno , irmáo do Alferes Mor D. Jor- 

Íje de Menezes , Fernáo Gomes da Gra, 
obrinho do mefmo Alvaro Paes , Joáo Ro- 
drigues de Béja, filho de Rodrigo deVaí^ 
conceilós , Veador que foi do Infante D. 
Luiz j Luiz da Silva , cuido que he filho 
de Francifco Barreto , D. Miguel de Me- 
nezes 5 irmáo de D. Joáo Tello , Vicente 
Paes , Pedro Ribeiro , Jeronymo Fernandes, 
Antonio Fernandez de Chale , Antonio Fer- 
nandes de Cananor , Pedro Fernandes , An- 
tonio Froes , Belchior Barboza de Cananor, 
e Sebaíliáo Vaz. Nefta companhia mandou 
o Vifo-Rey Francifco Pereira Coutinho pe- 
ra ficar envernando em Chale, e dar meza 
a todos os foldados- Nefta Armada houve 
pouco que.fazer ,, porque como liavia pa* 
aes no Malavar, nao houve nada. . 

E ppíque. jiOuve atoardas , quQ ainda 
I ." dos 



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Decada VIII. Cap. XVI. lot 

dos rios de Malavar fahíram paraos , com 
eftarem de paz , ordenou lineo navios aven- 
tufeiros 5 mui lijgeiros ^ e efcolhidos , pera 
darem volta pelo mar , a ver fe achavam 
alguns coíTairos. Deftes navios foram por 
Cápitáes D. Duarte Deca 5 Fernáo deMen- 
doca, Manoel de Mello filho deSimáo de 
Mello , que foi Capitáo de Malaca , D. Luiz 
de Caftello-branco filho do Camereiro Mor 
deElRey D.Joáo, D. Francifco de Caftel- 
lo-branco Pai de D.Jorge de Caftello-bran- 
co 5 que agora ha pouco que f aleceo em Or-» 
muz , fendo Capitáo , e Gil de Goes. Partí- 
ram em Margo de 1567. e nao Ihes fucc^ 
deo mais que fazerem aíFugentar alguns lar 
dróes. 

No mefmo tempo partió Diogo Lopes 
de Mefquita pera Capitáo da Fortaleza de 
Ternate , e Maluco , por acabar feu tem- 
po Alvaro de Mendója , que^ lá eftava , o 
qual no galeáo S. Joáo levara mui tos pro- 
vimentos- pera Amboino , e Ternate , e pe- 
ra a Armada de Gonfalo Pereira* Hiam 
mais nefta companhia duas galeotas , de 
que eram Capitaes Duarte de Villalobos, 
e Cofme Faia. Diogo Lopes de Mefquita 
foifazendo fuá viagem; e as duas galeotas 
arribarais a Goa aos tres dias de viagem. 

. - .í 

CA- 



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|0J ASIA DE DioGo DE Coxrfo 

CAPITULO XVII. . 

Daida de D. Jorge de Mene^es Baroche ao 
ejlreito de Meca ^ edo que Ihefuccedeo. 

PArtio D. Jorge de Menezes Baroche 
pera o eftreito de Meca em Janeiro de 
1567. elle nogaleáo Sanfa María daÉfpe- 
ranga , Francilco de Miranda Henriques , 
que depois cafou em Cochim , no galeáo 
S. Chnftováo , Antonio Cabral no galeáo 
S. Vicente , Pedro Lopes Rebello no ga- 
leáo S, Joáo Baptiíla , Antonio Cabral na 
gaié S. Joáo Evangelifta , Balthazar Evan- 
gelho fufta , Gafpar Vas de Mefquita fuC» 
ta , Leonardo de Medeiros fiífta , e Gafpar 
Sueiro outra. Levara regimentó pera ir ef- 
perar as naos do Achém ñas Ilhas de Mal- 
diva , e de ahí ir a Montís de Feliz efpe- 
rar que foíTem pera o eftreito , e que ficaf- . 
íem. invernando em Ormuz ñas Ilhas de 
Maldiva, Nao houve.que fazer , porque nao 
víram nao algumá , e foram invernar em 
Ormuz , tirando Francifco de Miranda , que 
invernou em Dio. 

Em Setembro defte anno de i^6j. man- 
dou o Vifó-Rey Lizuarte de Aragáo de Sou- 
za 5 que era próvido das viagens de Cei-» 
láo y por Capitáo de hum galeáo com muí- 
tps provimentos de dinheiro ^ que partió 
v*.> em 



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Decada VIII. Cap. XVII. 103 

em 26. de Setembro , e tornou em 16. de 
Marco de 1568. 

Nefte Setembro de iS^V* defpachou o 
Vifo-Rey a feu Cunhado p. Leoniz Perei- 
ra y pera ir entrar na Capitanía de Mala-» 
ca , de que eftava próvido , por acabar feu 
tempo D. Diogo de Menezes , gue depois 
foi Governador da India , que la eftava ^ c 
levou boa via^em até aquella Fortaleza. 

Depois delle era 6. de Setembro partió 
Lopo de Noronha pera Maluco no galeáo 
Reys Magos , pera ir fazer aauella viagem » 
por contrato que fez com o V ifo-Rcy , em 
que fe obrigava a dar pera ElRey tantos 
barris decravo forros; porque com ElRey 
metter muito cabedal naftas viagens , nun- 
ca colhia dellas coufa alguma , por tudo 
fe confumir em gaftos , e mercés. Efte ga- 
leáo arribou y porque achou tempos cook 
trarios. 

CAPITULO XVIII. 

Da ida de D. Francifco Mafcarenbas 
Palba ao malavar. ' 

DEpois do Vifo-Rey defpachar eftaé 
couías y intendeo na Armada que ha^ 
via de mandar ao Malavár^de que eftava 
nomeado por Capitáo Mor Pedro Barreto 
Rolimj mas che^ram novas pela Armada 

do 



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104 ASIA DE DiOGO DE COOTO 

do Reyno , de que veio por Cápitáo MóT 
Joáo Gomes da oilva , que depois foi Vea- 
dor da Fazenda do Rejrno , que era mor- 
to Fernáo Martins Freiré , que eftava por 
Capitáo em Mozambique , e ó Pedro Bar^ 
reto era próvido daquella Fortaleza após 
elle : foi neceíTario defiftir da Armada , e 
fazer preftes pera ir entrar naquella Capi-- 
tañía j e o Vifo-Rey nomeou pera o Ma- 
lavar D. Francifco Mafcarenhas Palha , a 
quem ordenou levar derredor de trinta na- 
vios , porque determinou aquelle veráo ir 
caftigar a Rainha de Oíala , e Mangalor, 
por eftar levantada , e nao querer pagar as 
pareas ; e fazer naquelle feu porto huma 
Fortaleza , alfim pera a fogigar com ella , 
como pera as noílas Armadas terem alli re- 
colhimento , e pera que os Malavares nao 
foíTem levar o arroz daquelle porto , don- 
de a Cidade de Goa , e a Fortaleza de Or- 
muz fe -fuftentava j e porque D. Francif' 
co Mafcarenhas nao podía partir cedo , era 
neíeíT^rio mandar tomar aauelle porto de 
Mangalor, pera que aRainna nao mettef- 
fe dentro Ibccórro de Malavares , nem fe 
levaífc dalli o arroz. Defpedio diante Joao 
Peixoto cafado em Goa , muito bom eaval- 
leíro , velho , e de muita experiencia , o 
qual partió de Goa a 7. ou 8. de Setem- 
hvQ Qom dqze navios , de que afora elle 

«rgiu 



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Decada VIII. Cap. XVIII. ioy 

*ram Capitáes Joáo da Silva Pereira , D. 
-Miguel de Menezes , Chriftováo de Boba*? 
diJha filho de Antomo de Saldanha , e ir- 
máo de Ayres de Saldanha, que foi Vifo- 
Rey da India , Fernáo Gonfalves Gaviáo , 
D. Bernardo de Caftro , Nuno Ferráo da 
Cunha , Joáo Rodrigues de Béja , Alvaro 
Monteiro , Diogo Soares de Albergaría, 
Francifco Pedrogáo ; com a qual Armada 
Joáo Peixoto foi correr a colla do Ganará , 
até Monte Deli , pera que os paraos de Ma- 
lavares fe nao foflem encher de arroz, co- 
mo coftumavam fazer no Cede , e depois 
no ñm de Outubro fe fez D. Francifco Maf- 
carenhas á vela com os mais Capitáes dos 
navios , que afora elle eram Manoel de Sal- 
danha , D. Rodrigo de Souza , eftes em ga- 
leotas , D. Duarte de Lima galeáo S. Joáo 
Evangeliíla, Lopo de Barros filho de Joáo 
de Barros , que efcreveo táo doutamente as 
tres Decadas da Hiftoria da India , que eu 
fegui por mandado do Prudente Rey D. 
JFilippe, Manoel Simpes Feitor da Arrpív- 
da , André da Fonfeca , Manoel Rodrigues , 
Joáo de Mendoga filho de Triftao de Men- 
doza, D. Francifco de Almelda , D. Luiz 
de 'Gaftello-b raneo, Miguel Colado deCa- 
nanor , Joáo de Siqueira , Luiz Ferreira , e 
Cofme Faia. Com efta Armada foi o Ca*- 
pitao Mor correr a cofia do Malavar, até 
- fer 



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io6 ASIA DE DroGo de Couto 

fer tempo do Vifo-Rey chegar : e levou oiv 
dem pera mandar cartas á Cidade de Co- 
chim , em qué Ihe fazia faber , que elle fe 
ficava fazendo preftes pera ir caftigaf aRa- 
inha de Oíala , e Ihe pedia o ajudaíTe com 
alguns navios ; e aos Fidalgos que lá efta^ 
vam cafados , efcreveo que vieüem achar- 
fe com elle naquella empreza em navios á 
fuá cufta , e o mefmo eícreveo ás Cidades 
de Chaul , Bajaim , Damao , Dio , pera que 
cada hum acudilTe com o que pudeíFe : e 
affim fe ficou preparando pera efta jorna- 
da y e dando defpacho ás naos do Reyno 
Sera irem tomar carga a Cochim , pera on- 
e as defpedio em Novembro ; e por nao 
deixar a cofta do Norte defamparada , def- 

Sedio por Capitao Mor della a Jorge de 
loura com quatro , ou finco galeotas muí 
bem negociadas , de cuja jornada , e fuc- 
ceífo depois fallaremos. 

CAPITULO XIX. 

De como o VlphRey D. Antao parte pera 

Mangalor em 8. de Dezembro de 1^67. 

e levou efta Armada. 

GAlés. O Vifo-Rey D. Luiz de Almei- 
da , D. Antonio rereira , D.Jorge Ba- 
roche , D. Francifco de Monrov , D. Pedro 
de Caítro > Pedro Lopes Rebelío. 

Ga- 



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Decada VIII. Cap. XIX. 107 

Gale6es. Antonio Cabral galeáo Santo 
Efteváo , Pedro Fernandes Meftre da fer- 
raría galeáo , Manoel Simóes Veador , e 
Alferes , Francifco Páes de Mello , Gomes 
Freiré de Andrade , D. Joao de Menezes 
de Bajaim , Alvaro de Lemos , Antonio de 
Mello deBajaim, Antonio de Andrade de 
Vafconcellos , Jorge da Silva Correa , D. 
Diogo Lobo o velho , quelá matáram , Igna- 
cio das Povoas , Nuno Velho Pereira , An- 
tonio de Sá Pereira , Ruy Dias Cabral o 
grande privado de ElRey u. Sebaftiáo j que 
' aquelle anno veio do Reyno , Manoel Fer- 
nandes de Manar , Fernáo de Mendoca , 
Fernáo Rodrigues de Carvalho , Pedro Ju^ 
iarte Tigao , Joáo Alvares Soares de Ba- 
jaim 5 Ignacio de Lima. 

Futtas 5 e galeotas. D. Joáo Pereira o 
velho 3 cunhado do Vifo-Rey , Antonio Bo- 
telho 5 Fernáo Telles , que foi Governa- 
dor 5 com quem eu fui , D. Pedro Coutinho 
irmáo de D. Jeronymo Coutinho , Nuno 
Alvares Carneiro Secretario , Belchior Bo- 
telho Veador da Fazenda , D. Sebaftiáo de 
Teive y D. Nuno Alvares Pereira , Joáo Dor- 
nela deGufmáo, Joáo deTovar, Paulo de 
Mefquita d^ Chaul , André de Pina , Ro- 
drigo Monteiro Efcriváo da Fazenda , Fran- 
cifco Louzado y Vafeo Barboza , Henrique 
Moniz Barreto , Joáo de Souza que acabou 

de 



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i[08 ASIA DE Dioció DE CoüTO 

de fer Capitáo de Damáo , SébaftiSd Bo- 
carro , Chriftováo de Souza de Bacaim , An- 
tonio de Noronha de Cochim 5 ríuno Vas 
de Villalobos, Pedro Leitlo, queveio por 
Capitáo de huma nao do Reyno , Eftevao 
Juzarte Tijáo , Ruy Gonfalves da Came- 
ra 5 que depois foi Capitáade Ormuz , Hei- 
tor de Sampaio , Ruy de Mello filho de 
Simáo de Mello , Antonio de Efpinola de 
Cochim , Joáo Correa de Brito , e outros 
muitos navios de Cananor , Cochim , e ou- 
tras partes. 

Epoftoque no Norte andava Jorge de 
Moura com a Armada que diíTe, deixou o 
Viíb-Rey negociada outra , de que nomeou 
:por Capitáo Mor D. Joáo Coutmho irmáo 
do Senhor de Caparica : e com eftes na- 
vios , elle na galeota Pecoa ; Lourenjo de 
Brito , Diogo Pinto , Vicente Paes , Braz 
Correa , Luiz de Aguiar em futías , e em 
fuá companhia foi Luiz Freiré de Andra- 
de, que era cafado com huma enteada do 
dito D.Joáo pera ir entrar na Fortaleza de 
Chaul , de que era próvido: aqual Arma- 
da fahio de Goa em Janeiro 5 e tornou em 
íim de Fevereiro fem Ihe acontecer coufa 
alguma. 

O Vifo-Rey deo á vela , e foi-fe por 
cmAngediva, pera alli recolher toda a Ar- 
mada que ficava em Goa , onde elleve pou-? 

eos 



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DfiCAbA VIIL Cat. XIX. tó9 

eos días até fe ajuntar, edalli mandou re-f 
cado diante a Alvaro Paes Sotomaior Ca-n 
pitao de Cananor , que foíTe ter ^com elle 
a Mangalor poucos dias depois do Vifo- 
Kcj. 

De Angediva defpedio o Vifo-Rey re» 
cado a Jorge de Moura , que fofl'e pera 
elle, e o acháram vindo deChaul com hu- 
ma grande cáfila de navios ; e antes de che-^ 
gar a Carepatáo , avifáram que dentro na- 
quelle rio eftavam tres navios de ladrées 
Malavares ; e entrando o rio , deixou a ca-» 
fila furta na barra ; e indo ao redor de hvh 
ma legua pelo rio dentro , encontrou os 
CoíTairos , que eram huma galeota Latina , 
em que hia hum Rume grande roubador , 
que era Capitáo Mor ; e inveftindo-a , o Ca- 
pitao Mor a abordou logo , e o mefmo fi- 
zeram os outros navios aos CoíTairos ; e 
como eftavam muitoperto da térra, felanr* 
fáram a maior parte delles ao mar , fican- 
do os navios aos noíTos ; e voltando com 
elles á toa , chegáram a Goa a falvamen- 
to, onde Jorge de Moura achou recado da 
Vifo-Rejr que tornaíTe a voltar pera o Npr- 
te, o qíie elle fez: a galeota Latina fe ar- 
mqu , e fe embarcou nella Manoel de Sou- 
za Coutinho , que depois foi Governador 
da India , que em companhia de outros na- 
vios foram^^pe» Mangalor , onde já achá-. 

ram 



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fio ASIA üÉ DioGo rm CouTo 

ram o Vifo-Rey. Jorge de Moura levou a 
calila ao Norte , e tornou a bufcar o Vi- 
fo-Rey a Mangalor. 

Edepois delles navios partidos ficáram 
ainda em Goa D. Luiz Malcarenhas irmád 
de D* Jeronymo Mafcarenhas , que depois 
foi Capitáo de Ormuz , mancebo mui gen* 
til-homem, egalhardo, ehum D.foáo De- 
ja : e cada hum armou feu navio á fuá cuf- 
. ta 5 pera fe irem achar naqueila jornada, 
por andarem homiziados por huma reliften- 
cia que fizeram ao Ouvidor Geral , em que 
o tratáram mal : e eftes dous Fidalgos tar- 
dáram alguns dias em fe aviarem , e buf» 
carem foldados , e ambos juntos fahíram , 
e deram á vela huma manhá pera Manga- 
lor ; e indo juntos , ao outro dia encontrá- 
ram huns paraos , que nunca pude faber 
quantos eram , nem o que paífou , fomen- 
te abordarem , e tomarem os navios cora 
morte de todos , fem efcapar quem dilFeífe 
o como foi o negocio , perecendo aqui a- 
quelles dous esforzados Fidalgos , que de- 
viam de fazer tudo quanto tinham por obri-» 
gajao de íeu fangue. 

E porque a defaventura nao paíTaífe por 
alli 5 fuccedeo no mefmo tempo partir de 
Ba^aim D. Luiz Lobo , que acabara de fer 
Gapitáo daquella Fortaleza , e vinha em 
huma galeota com a maior parte dafazen^ 

da 



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Decada Vm. Cap. XIX. ^ iif 

da que tinha , e aos dous días de viagem 
cncontrou com huns paraos deMalavares^ 
que cuido fam os mefmos da defavehtura 
palTada ; e inveftindo-a , foi axorado , e mor- 
to com todos : masoa bem grande , e cafo 
pera fe fentir, Fidalgos táo honrados pe- 
recerem aífim ás máos de Malavares bru- 
tos , e crueis : e elle foi o primeiro daño 
que os coífairos fizeram nefta coila do Nor- 
te y aonde coftumavam paílar defde o tem- 
po do Conde do Redondo , que foi a def- 
truigáo da India, porque nao tem contó os 
roubos que tém feito , nem contó as cubi- 
jas , e peccados que de entao pera cá cref- 
céram em a India , pelos quaes Déos nof- 
fo Senhor nos tem dado a todos graviíli- 
mos caíügos. 

C A P I T U L Ó XX. 

Chéga o FifhRey aMangaUr^ e commette 

a térra : e o ajfalto que os Mauros de^ 

ramnos nojfos ^ emquehouvemortoSy 

ofertaos ^ e grande confusao. 

CHegando o Vifo-Rey a Mangalor , e 
entrando dentro com toda a Armada 
de remos , e gales , comeg ou a por em or- 
dem o modo que tena na defembarca^ao, 
€ c6aunettim€ato da Cidade j e do Uigar,. 

em 



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112 ASIA DE DiOGO DE CoüTO 

cm que havia de fazer a Fortaleza , pet^ 
pnfrear aouella Rainha , e aíTeníou cjue fea 
cunhado D- Antonio Pereira com quinhen-* 
tos horaens ( porcjue o Viíb-Rey levava tres 
mil ) defembarcafle ao quarto da Lúa pela 
banda do mar , e conunettefle a Cidade ^ 

3ue por aquella parte nao eftava fortifica-* 
a , e que. os galeóes furgiíTem daquella 
banda ornáis perto da térra -que pudelTem ^ 
e bateíTem a Cidade rijamente; 

A Cidade de Mangalor , ou de Oíala ^ 
ejftá pelo rio dentro hum tiro de falcáo , o 
oual na entrada da barra da banda do Sut 
faz huma lingua de térra toda, de areia ^ 
que multas vezes entra o mar por ella hum/ 
bom efpayo. Vai fubindo efta lingua , ou 
efte rio pela térra dentro , e na parte que 
chega á Cidade , até ao mar de fóra , na- 
vera diftancia jie tiro de mofquete , dema- 
neira , que de ambas as ilhargas he cingi- 
da de agua .; e pela face que fica pera a^ 
barra , tinha a Rainha feito huma parede 
de dez , ou doze pahnos , que eftava do rio 
até o mar , cpm alguns cubellos , em que 
tinha algumas pecas pequeñas ; e de guar* 
da,deíía pafede tinha quinhentos MoaroB 
Malavares, e^outros naturaes', gente efco- 
Ihida ; e de longo do mar., e do rio na 
Cidade tinha ao redor de dez y ou doze mil 
homens . de.efpingardas , arcos. >.efpadas , 

ro- 



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Decada VIII. Cap. XX. iij 

rodelas , e entras muitas muniyóes , e arti- 
ficios de guerra , com o que eftava muito 
confiada , pela confianza que os Mouros , e 
Malavares Ihe tinham dado. * 

O Vifo-Rey aflentou de fazer a def- 
embarcajao na lingua de térra que faz fo- 
htt a barra, eordenou a gente, que eram 
tres mil homens , e feis bandeiras , e de 

2üe fez Capitáo D. Francifco Mafcarenhas 
lapitáo Mor do Malavar , cuja dianteira 
era por razáo do cargo , e D. Joáo Pereira 
feu cunhado , D. Antonio Pereira feu ir- 
xnáo , que havia de defembarcar pela ban- 
da do mar ; D. Fernando de Monroy, D. 
Pedro dé Caftro , D. Jorge Baroche , com 
D. Francifco Mafcarenhas , foram todos os 
Capitáes de fuá Armada , e muitos Fidalgos 
feüs parentes, e amigos, como foram ou- 
tros com os mais Capitíes. Com o Vifo- 
Rey havia de ir Alvaro Paes Soutomaior, 
Joao deSouza, que foi Capitáo deDamáo, 
Ruy Gonfalves da Camera , Fernao Telles , 
Pearo Leitáo , que tinha vindo do Reyna 
por Capitáo da nao , próvido de huma via- 
gem de Japáo pera logo , D. Luíz de AI- 
meida, Antonio Botelho , Heitor#de Mel- 
lo o velho de Bafaim , e outros*!Fidalgos 
velhos, decujo confelho, e esforjo fequiz 
o Vifo-Rey ajudar. 

Ordenada a defembarcagáo , que havia 
CMto. Tm. V. P. L H de 



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114 ASIA DE DiDGo DE Coxrro 

de fer aos 4. de Janeiro de 568. fe poz D# 
Francifco MafcarenJias em térra a tarde de 
antes , e aíTentou fuá eftancia na face da 
parede dos iirimigos , por onde o Vifo-Rey 
detenninava entrar na Cidade , e aflím del- 
embarcáram outros Capitáes , e tomáram 
fuas eftancias na parte que Ihes parecco : 
e mandoú o Vifo-Rey recado a U. Anto- 
nio Pereira , que como Ihe fizelíe no quar- 
to da alva final com tantas bombardadas , 
commetteíTe a térra , como elle tambem ha- 
via de fazer ; mas como nos falta aos Por- 
tuguezes ordem militar , porque nunca cur- 
fámos , fenáo por aíTaltos repentinos , a 
quem mais depreíTa chega , e a quem com 
menos ordem fe recolhe : aílim fuccedeo 
aqui , porque D. Francifco Mafcarenhas na 
parte em que eftava , e tinha fuá tenda ar- 
mada y tanto que anoiteceo , que foi huma 
das mais efcuras noites que eu vi , depois 
de cearem , fe puzeram a jogar com mul- 
tas tochas , e velas accezas. Os Mouros que 
eftavam ñas eftancias , que eram Cavallei- 
ros 5 e determinados , vendo a noíTa confian- 
za , e entendendo que fe poderla fazer hum 
multo bom feito , porque os noíTos haviam 
de eftar cegos com a claridade das lumi- 
narias 5 fendo já perto das dez horas , fa- 
híram quinhentos elcolhidos , e com multo 
grande deteriiünafao commettéram a eftan- 
cia 



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Dégaoa Vín* Caí. XX* ttf 

cía do Capitáo Mor , que eftaria poüco mai# 
de cem palios dasparedes; e tanto foSrelal-* 
to deram nos noílos , que nao tiveram tem- 
po de tomar as armas , porque eftavam to- 
dos com o defcuido , e defordem dos Por- 
tuguezes 5 como fe eftivéram em fuá cafa j 
porque como anoiteceo , accendéram velas , 
e tochas i a cujo lume fe puzeram a cear, 
e a jogar* Os Mouros vendo aquélle def- 
cuido , bem entendéram que poderiam fa- 
zer algum feito honrofo pera elles , e af- 
frontofo pera nos í e pera iíTo fe ordena* 
ram dous mil delles , mil e quinhentos pe-* 
ra ficarem ñas tranqueiras ; e os quinhen- 
tos pera fahirem pela banda da praia aos 
noífos , como fizeram. Hiam preftes , e corti 
tanta determinajáo , que primeíro que to^ 
malíem armas , os efcaláram bem. Os noí* 
fos á revolta lanjáram máo ás efpadas , e 
rodelas , que ás mais armas nao foí poílí* 
vel , e fe puzeram em defensao. As pef^ 
foas que eftavam com D* í^rancifco , forant 
D. Miguel de Caftro ^ Jóáo Dornelías de 
Gufmáo j Gomes Eannes de Freitas , dous 
írmáos os Mondf agoes , e outros , que to* 
dos pelejáram valerofamente* D. Ffancifco 
Mafcarienhas quiz fuá ventura que eífcvelTe 
com huma faia de malha , que o livroü d^ 
morte , e com tudo levou lineo cutiladas, 
os mais outras muitas , tenda já mofto^ 
H ii mais 



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tl6 ASIA DE DiOGO BE Ccufo 

mais deííncoenta dosnoíTos, tendojá mor- 
ios eftes , antes de chegarexn á tenda. Aqui 
fuccedeo hum cafo muito graciofo a Jium 
pagem de D. Miguel de Caftro , que feria 
de treze annos , o qual alguns Mouros a- 
cháram fóra da tenda com as armas defeu 
amo , e que nao as liavia de dar , nome- 
ando o amo : os Mouros Ihe deram deze- 
fete entiladas , de que o derrubáram ^ e 
Ihas tomáram. 

Eftava o Vifo-Rey com tenda inteira > 
e ao rebolifo aaidíram a eUe quafi todos 
os Capitíes , e já o acháram fóra da tenda 
armado : e elle defpedio logo D. Luiz de 
Almeida , com quem hia Mathias de Albu- 
querque , D. Fernando de Monroy , D. Pe- 
dro de Caftro , e outros. D. Luiz de Al- 
meida apreíTou-fe , e foi ao rumor da vol- 
ta com leíTenta homens que o acompanhá- 
ram por aquelle caminho. Vinha a gente 
daquella parte , em que D. Francifco Maf- 
carenhas andava ás voltas com os Mouros , 
recolhendo-fe de muito máfeicáo; edefeif- 
c^ntos homens que tinha D. Francifco , Ihe 
ficáram muito poneos ; e nao foi o ferro , 
e a multidáo dos inimigos o que fez tan- 
to daño 5 fenáo a pouca difciphna dos nof* 
fos , e a grande cerrajáo , e efcuridáo da 
noite , que nao deixava ver os homens , conji 
quem haviam de pelejar, nem havia quem 



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Decada VIH. Cap- XX. iif 

fe entendeíTe , porque tudo eram gritos^ 
confusáo , e efpingardádas de todas as par- 
tes^ porque amm como hiam defembarcan- 
do os Toldados , aílim hiam difparando as 
efpingardas , fem faberem pera onde atira- 
vam , e pode fer que elles mataíTem os mais 
dos noffos que morréram. Fernáo Teiles , 
com quem eu hia embarcado , faltou em tér- 
ra com íincoenta Toldados , que com elle 
hlamos ; e chegando ao Vifo-Rw , Ihe per- 

Smtou o que quería que fizefle : ao que 
e refponaeo, que fe nao apartaíTe dalli, 
<iue eftava com pouca gente. 

A efte tempo chegou hum homem bem 
honrado , que nao nomeio por fuá honra , 
e diíTe ao Vifo-Rey que fe embarcafle , por- 
que tudo era peiididx) , e que os Mouros 
vinham de tropel viftoriofos. O Vifo-Rey 
Jhe refpondeo : Primeiro os Mouros pajfa^ 
rdtn pela ponta dejia alabarda , abaixando 
huma que tinha na máo. 

Ao mefmo tempo chegou D. Jorge Ba- 
roche , ou que ouviíTe o que o outro diíFe , 
cu que Iho diíferam , e gritou alto , que déf- 
fe Sant'Iago : e que a quem quizefle embar- 
car-fe 5 mandaíTe dar pandeiros pera folia- 
rem. O Vifo-Rey chamou a fi a bandeira 
<ie Chrifto , e mandou tocar as trombetas ^ 
e comefou a marchar. 

Dom Luiz de Almeida chegou aonde 

era 



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ti8 ASIA DE DioGo DE CouTa 

era a revolta , e junto da tenda do Capí* 
táo Mor achou os inimigos tao encarniza* 
dos 5 que tinham mortos alguns , e feridos 
todos ; e dando D. Luiz Üant-Jago , fer- 
rou com os inimigos , e comejou huma bra* 
va batalha. Os leus com aquella revolta 
foram-fe efcoando mqitos , e chegou a fi- 
car fó com nove homens , que foram ef- 
tes : Mathias de Albuquerque , Ignacio de 
Lima , D. Lourenjo de Almeida , Antao 
de Faria do Porto , homem Fid Igo , Pe- 
dro Machado natural de Tánger , Luiz 
Dias Colajo , D. Mathias , Francilco Pi- 
quel cunhado do Panafco , e outros dous. 
P. Luiz de Almeida vendo-fe fó, e que os 
Mouros tanto que ouvíram as trombetas 
do Vifo-Rey , fe^ hiam acolhendo pera hum 
medro de areia alto, quealli eftava perto, 
pedio ao Pedro Machado qjie foíTe dar re* 
cado ao Vifo^Rey , pera que Ihe mandaíTe 
fcccorro pera dar naquelles Mouros ; ao 
que Ihe elle reíjpondeo , que nao era tem- 
po de o elle delamparar , nem homem que 
deixava o feu Capitáo em tamanho rifco. 

A ifto Ihe diíTe D. Luiz , que porque 
frbia delle que havia de ir, e tornar , Ihe 
pedio aquil.'o : cue como feu Capitao o man- 
dava que o fizeíTe lego ; Dejja maneira o 
farel , e tornaret , como fez com bom fcc- 
corro ^ ccm o ^ual deo uos Mouros furia» 



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Decada VIH. Cap. XX. 119 

famente ; mas elles como eftavam encarni- 
zados 5 defcéram-fe abaixo , e deram nos 
noíTos , que ainda eram poneos pera con- 
tenderem contra quinhentos , mas eíTes pon- 
eos fizeram maravilhas ; e o D. Luiz pe- 
lejou táo accezo , que fe Ihe defencabou a 
cípada , e Ihe faltou da máo ; mas hum par 
gem feu , bom mojo , que hia junto delle , 
Ihe deo huma alabarda : ao lanzar mao del- 
la y Ihe deo hum Mouro huma grande cu- 
tilada pela cabera , com a gual foi ajoelha- 
do 5 mas tornou-fe logo a levantar. 

A D. Lourenjo de Almeida , que pele- 
java com huma langa, deram huma entila- 
da pela máo direita , com que fícou inha- 
bilitado : Mathias de Albuquerque , que com 
huma efpada , e rodela pelejou valerofa- 
inente , vindo-lhe dando hum Mouro , tro- 
pezón em humas hervas , e cahio-lhe aos 
pés y onde o Mathias o matou. A'quelle tem- 
po chegou Antáo de Faria , e Ihe bradou 
alto : ^^vante , Senhor , que ja effe fie a ar^ 
recadado ; e paíTando o Mathias adiante , 
ihe deram huma zagunchada pela ilharga 
direita , e huma boa entilada na cabera , e 
outra na perna direita , e outras deram no 
Faria, porque os inimigos os cercáram, e 
eftiveram de todo perdidos , porque deí- 
carregáram fobre elles infinitos golpes , de 
que fe elles reparáram o meihor que po- 

diam. 



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120 ASIA DE DioGo DE Coxrro 



diam. O Mathias trazia huma efpada cur* 
ta de cabos de cangrejo ; e correndo a ef- 
pada de hum Mouro por elles , Ihe cortou 
o dedo demoftrador aa máo direita , e a- 
metade do poUegar , como fempre Ihe ví- 
ram em quanto viveo , e com a dor das fe- 
ridas Ihecahio a efpada da máo; evendo- 
fe perdido , tomou por remedio liar-fe com 
o Moüro que o ferio , e a bracos andáram 
lutando bom efpajo, 

Nefte tempo vinham já os noíTos Capi- 
taes chegando , e os Mouros em fentindo 
as trombetas do Vifo-Rey jáperto, foram- 
fe recolhendo ; e paíTando alguns por on- 
de o Mathias andava a bragos com o Mou- 
ro , o tiraram delle , elhe deram ainda duas ' 
feridas na máo efquerda, e de induílria fe 
deixou cáhir como morto , e os Mouros ihe 
tomáram hum barrete vermelho , e hum del- 
les ihe deo mais huma grande cutilada pe- 
la cabera , e outro em hum hombro Ihe dea 
outra : de maneira que todos os que paífa- 
vam , faziam nelle agazua , e já o deixáram 
por morto ; mas como o feu termo nao ef- 
tava alli findo , e Déos noíTo Senhor o ti- 
nha guardado pera outras coufas , efcapou 
de tudo. Eílando elle daquella maneira , de- 
pois dos Mouros recolhidos chegáram alli 
Francifco Pique y e Luíz Dias feu collajo , 
que andavam em bufca delle j e achando-p 

dar 



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Decada VIII. Cap. XX. ^ iir 

daquella maneira , o leváram nos bracos , e 
o recolhéram na tenda de D. Pedro de CaA 
tro , onde o curáram, Mortos nao averi- 
guo quantos foram ; fó os de nome direi : 
f oi Chriftováo de Souza morto , filho de An- 
tonio de Souza , que foi Capitáo de Ba- 
yaim , Chriftováo de Mello morto , e feri- 
do Xeu irmáo Jorge de Moura , que pele- 
jou valerofamente , foi ferido em huma per- 
na , aquelle Lemos de Bajaim levou multas 
cutiladas , e outros que me nao lembram. 
D, Paulo de Lima , que hia embarcado com 
o Vifo-Rey ^ acudió naquella confusáo , e 
foi multa parte pera o defarranjo nao fer 
maior. 

O Vifo-Rey chegou aquella eftancia , e 
mandou recolher , e curar os feridos ; e lo- 
go com multa preña mandou vir todas aff 
chufmas das gales , e marinheiros das fuf- 
tas , e trazer multas enxadas , codilós , e 
ceftos , e mandou abrir huma cava diante 
das tranquearas dos Mouros , pera que nao 
pudeffem dar outro aíTalto , o que fe hou- 
yem de fazer primelro : e D, Francifco Maf- 
carenhas armou aüi a fuá tenda , e deo a 
dianteira , e oíEcio de Meftre de Campo a 
feu cunhado D.Joáo Pereira, por eftar D. 
Francifco mal ferido ; e antes que foífe hu- 
ma hora depois da meia noite , fe acabou 
a cava ^ e valo da mefma térra que della 

fe 



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122 ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

fe tirou ; e ordenando o Vifo-Rey os quar- 
tos de vigia , fe recolheo bem trille do 
fucceíTo. 

Certo que foi efta noite huma da maior 
confusao que vi no mundo , por eaufa da 
efcuridáo della , que pareciam as trévas do 
Egypto 5 e além diíTo era o terreno tao frío , 
que nos nao podiamos valer. Ao outro dia 
pela manhá , que foi vefpera de Reys , em 

2ue o Vifo-Rey determinara commetter a 
]idade , ordenou toda a gente pera aquelle 
effeito , levando a dianteira D. Joao Perei- 
ra , D. Pedro de Caftro , D. Fernando de 
Monroy , e D. Jorge Baroche : e deo or- 
dem ás fuftas , e gales , pera que varejaf- 
fem a Cidade por todas as partes , pera di- 
vertirem os inimigos , e terem os noíTos 
tempo de cavalg'arem as paredes. Eftando 
já o Vifo-Rey armado , com a bandeira de 
Chrifto apar delle , e Alvaro Paes Soto- 
maior , Heitor de Mello , Jorge da Silva 
Pereira , e outros Fidalgos velhos , e todos 
os mais Capitáes , fe repartíram pelas ban- 
deiras ; e D. Antonio Pereira ^ que eftava 
pela banda do mar com os dous galeóes , 
e fete , ou oito fuftas , em que entrava D. 
Nuno Alvares Pereira feu fobrinho , eftan- 
do todos a ponto , tornou o Vifo-Rey com 
o parecer dos que eftavam com elle ^ e af- 
fentáram que melhor feria commetter aCi- 

da- 



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Decada VIII. Cap. XX. 113 

dade ao outio dia ^ que era o de Reys tao 
aíIinaJado , de que defpedio logo recado a 
D. Antonio Pereira , e a D. Joáo Pereira , 
que ellavam na dianteira , pera que fobrefti- 
veíTem aquelle dia. 

Efte recado correo logo por todos os 
<jue ettavam na dianteira de D. Joáo Perei- 
ra , que era a melhor foldadefca da Arma- 
da , que fe eftavam já desfazendo pera fe 
vingarem da aíFronta da noite paílada j e 

Í>or nao refecerem daquelle brío , fallando- 
fe todos y fem terem dever com o Capi- 
tío , remettéram com as tranqueiras com 
grande determina^áo ; e ajudados huns dos 
outros , fe puzeram em fima com morte de 
muitos inímigos , que largando tudo , fe a» 
colhéram pera a Cidade. Os noíTos , que 
eram mais de duzentos , os foram feguin- 
do , engroííando-fe o poder , porque logo 
acudíram mais de quinhentos , e o Viío- 
jR^ey , a quem deram as novas , come^^ou a 
abalar pera lá com a bandeira de Chrifto, 
e pela banda da praia entrou na Cidade ^ 
levando a dianteira D. Joáo Pereira , e lo- 
go todos os mais Capitaes das bandeirás: 
c mandou fazer final a D. Antonio Perei- 
ra, que eftava da banda do mar, pera que 
defembarcaíTe , o qual faltou em térra com 
mais de quinhentos homens , e foi comet- 
tendo ^ entrada , onde achou mais de du- 

zen* 



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124 ASI A DE DioGo DE Coifro 

*entos Mouros em fuá defensáo , levando 
a dianteira D. Nuno Alvares Pereira , que 
achou aquelle cardume de inimigos com 
tanta determinajáo , que o tiveram desba-^ 
ratado , e Ihe matáram mais de vinte Tolda- 
dos ; e chegando o poder de D. Antonio, 
carregando fobre os inimigos , os arranca- 
ram do campo , e foram mettendo pela Ci- 
dade com grande daño feu. 

O Vifo-Rey entrou a Cidade , indo D# 
Joáo Pereira com a fuá bandeira pela rúa 
principal pelejando com os inimigos vale- 
fofamente. D. Pedro de Calho , D. Fer- 
nando de Monroy , e D. Jorge Baroche j 
entrando cadahum por fuá , levando os ini- 
migos diante em desbarato , até fe irem 
todos ajuntar no terreiro do Bazar , onde 
fizeram alto, porverem já os inimigos jun- 
tos em tropel defordenado , que eram mais 
de feis mil demandando os noíTos, contra 
os quaes jogou a noíTa arcabuzaria em ro- 
da viva , derrubando-lhes muitos ; e pegan- 
do os da dianteira de D, Joáo Pereira com 
elles , traváram huma batalha arrazoada á 
lanja , e efpada ; mas durou pouco , por- 
que os inimigos logo fe. puzeram em des- 
barato , feguindo-os os noíFos até ás cafas 
da Rainha , ás quaes puzeram fogo , como 
tambem em outras partes da Cidade. Os 
inimigos y como foram arrancados do cam-? 



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' Década VIII. Cap. XX. Í2jr 

.po , foram-fe metiendo por entre as her-» 
vas leiteiras , por cafas , e becos eftreitos , 
donde com a íua arcabuzaria íizeram algum 
daño nos noíTos. O Vifo-Rey chegou até 
á praja , e fe fentou em hum tabernáculo , 
donde defpedio recados pera todas aspar- 
tes , e allí Ihe acudíram todos os avifos. 
D.Antonio Pereira foi entrando aCidade, 
até fe ir ajuntar ao corpo da noífa gente, 

2ue andava pelo meio della fazendo gran* 
es eftragos , de maneira que ficáram os 
nofios fenhores della y e Ihe come9áram a 
por o fogo 5 e cortar fermofos palmares , e 
arvoredos ; e fendo já mais de meio dia 
que os inimigos defapparecéram , mandou 
o Vifo-Rey recolher toda a gente pera fó- 
ra , e nefte recolhimento ficou D. J oáo Pe- 
reira na retaguarda ; e fazendo avolta pera 
huma rúa larga , aonde vinham fahir outras 
eftreitas , depois de paífar por todas , ap- 

Eareceo hum magote de Mouros , que pe- 
LS coilas dos noífos deram algumas cargas 
de arcabuzeria , que nao foram de muita 
daño. A^ voz que fe ievantou de Mouros y 
Mouros , voltou D. Joáo Pereira atrás , e 
a fuá foldadefca , em que entravam muitos 
bizonhos; eouvindo aquelle alvorojo , nao 
faziam mais que virar , e difparar a mon- 
táo a efpingardaria ;• e foi efta defaventura, 
tai j que cáhio de huma efpingardada D. 



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126 ASIA DE DiOGO DE CóUTO 

Diogo Lobo o grande , eftando eu bem per- 
to delie , da qual logo morreo : perda que 
foi bem pera fentir , por fer hum Fidalgo 
velho multo honrado , e muito bom caval- 
Idro. Os que eftavamos mais perto , o le- 
vamos nos bracos até á praia, ondeeítava 
o Vifo-Rey, que o fentio em extremo : e 
cuido que o mandou em hum navio ligei- 
ro a enterrar a Cananor , mas nao me 
certifico nifto. 

Nefta entrada defta Cidade vi as mais? 
disformes entiladas , que nunca vi com meus 
cilios , porque houve golpe , que cortou 
hum Mouro pelo hombro até a cinta , e 
outros , que cortáram pernas cerceas , e que 
abríram as entranhas a muitos. Em fim a 
Cidade ganhou-fe , e aíTolou-fe com pouca 
perda dos nolTos ; porque a D. Antonio Pe- 
reirá , que defembarcou na praia , matáram 
vinte homens no aíTalto daquella noite ; a 
D, Francifco Mafcarenhas quinze, oudez- 
efeis , afora alguns feridos. Dos ínimigos 
morréram mais de trezentos , afora muitos 
feridos de efpingardadas , de que depois^ 
deviam de morrer muitos. 

Concluido o negocio , embarcou-fe a 
Vifo-Rey com toda agente pera defcanja* 
rem ; e ao outro dia , vendo* a iingua de 
térra que faz aili fobre a barra , onde elle 
pertendia fazer a Fortaleza ,. vio que nern 



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Decada VIIL Cap. XX. 127 

o litio era pera iíTo , por fer naquella pon- 
ta, que logo ornar havia de comer, como 
por nao ha ver agua ; pelo que determinou 
de afazer da outra banda do Norte defron- 
te da Cidade de Oíala , onde eftava hum 
pagode de fuá gentilidade , aíGm porque 
alli ficava mais íenhora da barra , e do rio 
todo 5 e da Cidade da outra banda , como 
porque ficava aquella Fortaleza vizinha ao 
Rey de Banguel , que era amigo do Efta-» 
do , e fe tinha vifto com o Vifo-Rey no 
mar , que Ihe oíFereceo toda a fabrica , c 
fervijo neceíTario pera a Fortaleza , com 

Íiagarem aos trabalnadores , e ainda fe fez 
angada daquella Fortaleza , e irmao em 
armas com ella, pera que tendo neceílida- 
de , Ihe acudir com fuá peíToa , e poder, 
deque fe fizeram papéis, que eutenho na 
Torre do Tombo , em que todos fe afli- 
náram , e juráram de cumprir : as quaes 
condijóes de contrato , e jpazes nao trago 
aqui , porque o epilogo nao foffre tanto, 

Aflentado ifto, paíTou-fe o Vifo-Rey á 
outra parte , onde lanjou fuas bandeiras em 
térra , com toda a Armada eftendida ao lon- 
go da praia com fuá artilheria leftes ; e 
vindo o Rey de Banguel alli ter com elle, 
andáram efcolhendo o fitio , em que fe ha- 
via de fortificar , que foi em hum tezo al- 
to, por ficarem os navios que alli foíTem, 

abri- 



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12? ASIA DE DiOGO DE CoirTo 

abrigados a ella: elogo come^ou at por as 
máos á obra, daqual fe nao efcufáram ve- 
Ihos , nem moyos , fen4o o Vifo-Rey o pri- 
meiro que ferrou a enxadá pera abrir os 
alicerces , e com elle todos os Fidalgos , e 
Capitáes, o que fe fez com muito alvoro- 
50 5 e falvas de artilheria , e de inftrumen- 
tos bellicofos , e de alegría , e em menos 
de quinze dias fe abríram os alicerces á ro- 
da , e logo o dia da Bemaventurado Mar- 
tyr, e Soldado S. Sebaftiáo lanyou oVifo- 
Key a primeira pedra , que foi fantificada 
pelo Bifpo", levando-a eüe com os Fidal- 
gos princípaes em paviolas ás cofias , com 
a maior pomoa , e apparato que o tempo 
permittia , e me poz nome S* Sebaftiáo , af» 
ím pelo dia em que fe come^ou , como 
por o noífo Rey D. Sebaftiáo : e alfim foi 
continuando a obra , acarretanda ás coftas 

Eedra , cal , e outros materiaes , que era 
revés dias fe poz toda em roda em altu- 
ra de mais de braca craveira. 

Vendo o Vifo-Rey a Fortaleza já em 
eftado defenfavel , cfcreveo a EIRey toda 
o fucceífo de fuá jornada, e do eftado da 
India , e defpedio pera Cochim D. Anto- 
nio Pereira fcu cunnado com huma Arma- 
da de vinte navios , pera ir dar calor á car- 
ga das naos do Reyno , de que Joáo Go- 
mes da Silva eraCapitaoMór, levando to- 
dos 



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< Década VIIÍ. Cap. XX. * 119 

dos os poderes do Vifo-Rey ; e porque che* 
gáram novas do Norte daquelles tres Fidal-* 

fos Joáo da Silva , Joáo Deja , e D. Luiz 
*obo , defpedio o Vifo-Rev D. Jorge Ba* 
roche com a fuá galé , e aez navios y de 
Gue eram Capitáes Fernáo de Mendoca, 
Antonio Boteino , Joáo Rodrigues de Béja , 
Francifco de Souza Tavares , Pedro Juzar- 
te Tijao , Gomes Freiré de Andrade ^ Frail- 
cifco Louzada , Gomes da Rocha , Vafeo 
Barboza. D* Jorge correo o mar fem achar 
coufa alguma, porque os coíFairos eram ja 
recolhidos com as prezas* 

Ficou o Vifo-Rey continuando ña obra 
da Fortaleza , nao deixando de ter rebates 
dos inimigos , a que mandóu acudir D* Joáó 
Pereira feu cunhado com quinhefltos ho- 
mens , que entrou pela tefra dentro após 
os inimigos 5 comquem teve aiguns encon* 
tros j de que fe fahíram bem eícalavrados ; 
e tanto andou pela térra , que os afíugen* 
tou de todo j e porque o tempo fe hia gaí^ 
táttdo , e era neceílario ao Vifo-Rey acu-* 
dir a outras coufas ^ deo tal preíFa á For* 
taleza ^ que a acabou de todo 5 com apo- 
fentos pera o Capitáo , cafas da fei^toria , e 
armazens ^ e hum Templo , conforme ao lu- 
gar , e brevidade dó tempó ; tí tudo feito , 
deixou por Capitáo D< Antonio Pefeira. feu 
cunhado com trezentos homeñs debaixo de 
Cmío. Tom. V. P. /• I tres 



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1 30 A S I A DE DroGó de Couto 

tres Capitáes de Bandeiras : e proveo os ar-* 
mazens de mantknentos pera feis mezes , e 
ordenou dez , ou doze navios pera anda- 
rem naquella cofta ; e fendo 20. de M»r- 
50, fe recolheo a Goa. 

CAPITULO XXI. 

Do grande , e memoravel cerco que poz pn 
bre a Fortaleza de Malaca Éultdo Ala- 
haradi Rey do Achém , e da potencia com 
que appareceo fobre aquella Cidade , e re- 
cados que houve entre elle , e D. Leoniz 
Pereira Capitao daquella Fortaleza. 

FOi táo grande , e antigo fempre o odio , 
que os Reys do Achem tiveram aos 
Portuguezes , e á noíTa Fortaleza de Mala- 
ca, que nao quietavám, nem davam volta 
na cama 5 que nao trataíTem da fuá deftrui- 
cáo ; porque depois que Antonio de Al- 
Suquerque a tombu , fempre ficou fendo 
hum freio intoleravel a todos aquelles vizi- 
flhos : e accrelbentou-fe a efte odio o direito 
que efte Rey Sultao Alaharadi ficava tendo 
no Reyno , de que Jantanza , ciijos Reys 
foram fenhores de Malaca , pela vidloria 
que houve de ElRey Sultáo Salaudi de Vi-? 
anta filho de Sultáo Mahamed , a quem 
Antonio de Albuquerque tomou o Reyno, 



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DÉdAiSA VÍÍI. Cap. XXt tp 

tto qual o matou , e Ihe tomou fuá Cidade ^ 
c Gom iíTo ver-*fe fenhor dos Reynos de Pe-- 
dirpacé , e Ani , com que ficava fenhor da 
grande Uha Samatra , com o que ficou o 
mais rico dethefouros, epoderofo degen-* 
te, e Amiadas que todos ; e que pera fer 
Imperador de todo o Malayo fiíe faltava a 
Cidade Malaca pera fenhorear , determinou 
de levar fuá fortuna ao cabo , pera o que 
fe fez preftes muito de ante máo : e man-* 
dou convocar ainda gente , munijóes , e ar»- 
tilheria ao Grao Turco , a quem mandóu 
riquiílímos prefentes , e Ihe ofrereceo o com-- 
mercio , e trato de todas as drogas ^ e ef-» 
pecearias de Maluco , Banda , Jaoa , e de 
todas as mais partes daquelles arcepelagos y 
fegUrando-Jhe diíTo ínnumeraveis riquezas,- 
o que o Turco eftimou muito : e logo Ihe 
mandou quinhentos Turcos , emuitas bom* 
bardas groíTas , e grande copia de munijóes , 
muitos Engenheirós , e Meftres de artilhe* 
ría. Pela mefma maneira deíppdió outros 
Embaiicadores ao Chinquifchao Senhór de 
Baroche , com outros prqfentes ^ dadivas , 
e offerecimentos , períuacíincío-ós a deita- 
rtiTí os Portuguezes daquellá Fortaleza de 
Malaca ; porque perdida ella , nao fe podia 
luftentar a India , e ficavam óutra vez fe^ 
nhores de todo ó Oriente dentro , e fór$ 
do Ganges : o qual Ihe mandou támbem 

1 ü gran- 



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i^z ASIA DE DioGo DE Cotrtro 

grande foccorro de gente , e artilheria : e 
até o Rey de Pama , Imperador de Jaoa , 
e o Camorim , e Senhores da cofta de Ma- 
fulapatáo convocou pera efta jornada , em 
que todos entráram com grande cabedalj 
lo o Rey de Dama nao quiz entrar na li- 
ga , porque receou que , fazendo-fe o de 
Achem fenhor de Malaca , ficava mor Se- 
nhor que elle , e que eftáva certo conquif- 
tar-lhe loco feusReynos, porfer humXy- 
ranno inlSciavel ; e nao fó Ihe nao fallou a 
propoííto y mas aínda Ihe mandou matar feus 
Embaixadores : o que pareceo obra Divi- 
na y porque fe fe ajuntára com elle , nao 
podia Malaca defender-fe. 

Deftes apercebimentos foi avifado o Vi- 
fo-Rey D. Antáo em principio de feu go- 
verno : e quando deípedio D. Diogo de 
Menezes pera Capitáo de Malaca , mandou 
por elle muitos provimentos , artilheria > 
Bombardeiros , e Officiaes pera profeguirem 
na fortificajáo daquella Cidade : o que D. 
Diogo de Menezes fez com grande diligen- 
cia ; e quando Gonfalo Pereira Marrama- 
que foi pera Maluco , levou por régimen*^ 
to , que fe achafle aquella Fortaleza cotn 
trabalho , nao paíTaíTe della ; mas como náá 
achou coufa que Ihe impediífe fuá viagem , 
paíTou adiante ^ como já diífe. 

CA^ 



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Decada VIH. Cap. XXII. 13 j 

CAPITULO XXII. 

Da poderofa Armada com que o Achétn 
appareceo fobre Malaca. 

DOus annos efteve o Achém fazendo 
feus apercebimentos pera ir fobre Ma- 
laca em peíToa, porque determinava de fe 
apofentar naquella Fortaleza, e fazer nella 
cabeja do Reyno; ecomo teve tudo pref- 
tes 5 e Ihe chegáram os foccorros de fóra , 
logo fe embarcou com fuas muDieres , e tres 
filnos homens , e todos os feus Cavalleiros 
da guarda , a que chamam Hurobaloes : e 
logo deo á vela pera Malaca em Janeiro 
de 5'68. e quando foi aos 20. de Janeiro á 
tarde , appareceo fobre aquelle porto aquel- 
la multidao de embarcajoes , que cubriam 
o mar. Andava naquelle tempo D. Leoniz 
Pereira jogando as canas com os moradores 
muito loujáos , e cuftofos , aíTim por fer o 
dia , em que ElRey D. Sebaíliáo nafceo, 
como porque nelle tinha o anno paíTado to- 
mado pofle do governo de feus Reynos , 
ao que fe tinha junto todo o povo , pera 
verem celebrar aquellas feftas , que fe fa- 
2iam o melhor que a térra podia dar de íí ; 
e vendo todos aquella foberba Armada , co- 
mejando a haver grandQs movimentos em 

to- 



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%14 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

todos 5 acudió o Capitáo D. Leoniz Perel* 
ra muito rifonho , e alegre , e Ihes diíTe , 
que fe aquietaíTem , e foíTem com as feftas 
por diante , porque agora as faziam com 
mórgpfto, pois oAchem asvinjia tambem 
jFeftejar , e que aquillo toma va a bom final 
da viéloria , que Ihe noíTo Senhor havia de 
dar delle : e aílim í:om muita feguranja foi 
continuando as canas , e depois fe foi coni 
toda a gente ao Campo de Ilher defronte 
donde a Arniada furgio , e alli efcaramu-» 
50U com muito ar , e galanteria , e corré-^ 
ram as carreiras muito airofas , pera que 
viíTem os inimigos o alvorojo com que os 
efperavam. Acabada a fefta , poz-fe o Ca- 
pitáo com toda a gente ligeira , e repartió 
as eftancias , como melhor Ihe deo lugar a 
brevidade do tempo , e proveo com muita 
diligencia , e cuidado as coufas que Ihe pa^ 
recéram ; porque fe os inimigos quizeílem 
commetter a defembarcajáo , a^haflem a to^ 
dos preítes pera os receberem. A eftas cou-» 
fas acudió o Patriarca da Abbaífia D. Bel- 
chior Carneiro da Companhia de Jefus , que 
hia pera Bifpo da China , e aílim o Padre 
Fr. Jorge de Santa Luzia , Frade Domini- 
co , varáo Apoftollco , e ambos homens ha- 
vidos ^or fantos , que naquelle cerco acu-? 
díram a todas ?s necplfidades com grande 
ferypr, 

gur^ 



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Decada VIII. Cap. XXII. i^s 

Surta a Armada defronté da Gdad« 
xnuito perto, eftiveram os noíTos notando, 
e víram que as vaíilhas eram as fegüintes : 
tres galeotas grandes de Malavares , qua- 
tro gales baftardas , feíTenta fuftas , e gale- 
otas y mais de duzentas lancharas y oítenta 
balóes, duas champañas grandes de muni- 
^óes y na qual Armada hiam quinze mil ho« 
mens de peleja efcolhidos , e quatrocentos 
Turcos y e muita gente de fervifo , e mais 
de duzentas pe9as de artilheria de bronze 
entre groíTas , e miudas. 

O Capitóo D. Leoniz Pereira andou to-» 
da aquella noite com os cafados y e os mo« 
^os aerrubando as cafas de madeira da ban- 
da de llher ; e o taboado y e través man- 
dou recolher pera os andares daFortaleza# 
Ao outro dia , que foram 21. do mez , fe 
chegou a Armada a térra , onde furrio , c 
falvou a Cidade com toda a artilheria fem 
pelouros y ao que o Capitáo Ihe mandou 
refponder pela mefma maneira ; e tanto que 
anoiteceo , deram recado ao Capitáo que 
vinha hum baláo com os Embaixadores do 
Achem , os quaes mandou receber , e aga* 
zalhar fóra da Fortaleza ; e tanto que foi 
bem de noite , fez o Capitáo humea bem or- 
denada, e luftrofa fahida, em que fe achá-^ 
ram os Portuguezes , e Chriftaos da térra , 
e mojos cativos , c forros , que faziam hum 

cor- 



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J^6 ASIA DE DiOGO DE CouTo 

corpo de maís de mil e quinhentos homens j 
nao fendo mais de duzentos os Portugue- 
zes 5 e o Capitáo a cavallo muito gentil- 
honiem , com huma fobrevefte de brocado 
por fima das armas , e foi ordenando a fa- 
llida pelas portas dos Embaixadores , diíV 
parando ao fechar , e abrir do caracol hu- 
ma fermoííílima nuvem de arcabuzaria , que 
fez grande temor , e mqdo aos de Achem, 

Acabado ifto, íerecolheo o Capitáo pe- 
ra a Fortaleza , e na porta della paflbu o 
reík) da noite fentado em huma cadeira, 
ordenando hum lugar da banda de fóra pe- 
ra ouvir os Embaixadores , porque a For» 
taleza eílava táo desbaratada , que nao era 
bem que a viílem. Ao outro día pela ma- 
nhá mandou vir os Embaixadores diante de 
ü , e os recebeo fentado em huma cadeira 
de veludo com o lugar todo alcatifado , elle 
lougamente veftido ; e o Patriarca , e Bifpo 
em cadeiras de veludo pera maior appara- 
to, e os cafados todos muito loujáos. 

O Capitáo efteve fempre fentado ; e 

2uando foi a Ihe elles darem o recado de 
;iRey 5 e huma carta , fe levantou em pé , 
e tomou a carta com grande cortezia , a 
qual' era efcrita em lingua Arabia com hum 
grande fello deouro pendente, ealeo hum 
jneítíjo renegado , que elle trazia por lin-. 
gwa ', e porque as cartas deftes Reys fam 



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Decada VIII. Ca?. XXII. 137 

milito prolíxas , fem eftilo , nem ordem^ 
porei lómente a fubílancia della. 

Carta do Jkhem pera o Capitao. 

MUi notorio he ferem meus anteceíTo- 
res mui amigos dos Reys de Portu- 
gal , e dos Capitáes defta Fortaleza , como 
€U pudera provar pelos foccorros que de- 
ram aos navios de ElRey de Portugal , quan- 
do por aqui paíTáram o trabalho : pelo que 
folgarei muito que os Portuguezes vamcom 
as fuas naos ao porto da minha Cidade, 
que eu os favorecerei em tudo , e por efta 
amizade fiai multas vezes reprehendido de 
Turcos, porque nao fazia guerra aos Por- 
tuguezes 5 tendo-me tantas vezes efcandalí- 
zado : por iíTo fe quer que va por diante efta 
amizade , avife-me : e Ihe pejo que. tome 
bom cónfelho , porque eu trago nefta Ar- 
mada inulta gente , muita artiiheria , e mui- 
tos Turcos pera a jornada que fa§:o contra 
o Rey de Jaoa \ que matou meus Embai- 
xadores , folgariamos que nao vieíTemos a 
rompimento. 

Acabada de 1er a carta , aprefentou o 
Embaixador ao Capitao huma cabaia de bro- 
cado , e hum cris. O Capitao , vifta a for- 
ma da carta 5 eoprefente., dillimulou aten- 
jao delle, e de tudo fez pouco cafo, per- 

gun- 



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138 ASIA DE DroGO de Couto 

guntando ao Embaixador pela faude de El- 
Key , e de feus filhos , ao que o Embaixa- 

áor íhe refpondeo com cumprimentos : e 
le diíTe mais , que ahi ñas IlJias das Naos 
mandara lanzar hufh Cavalleiro como de- 
gradado 5 porque fora fazer a aguada fem 
lúa licenga : que Ihe pedia que o mandaC- 
fe bufcar, e o ferviíTe de alimpar feus ca- 
yallos. 

O Capitáo mandou agazalhar os Em- 
baixadores aquella noite, dizendo-lhes que 
ao outro día Jhes refponderia ; e porque en- 
tendeo que o homem que Ihe mandara di- 
zer que lanzara na Uha das Naos , era eC- 
pia , o mandou bufcar , e poz a bom reca- 
do, e toda aquella noite efteve com gran- 
de vigía : e ao outro dia fe foi pera o lu- 
gar onde recebeo os Embaixadores , e os 
mandou ir diante delle , e Ihes deo a ref- 
pofta da carta , que já trazia feita , e IJies 
mandou dar outro prefente em retorno do 
que Ihe ElRey mandou , que foi huma al- 
catifa rica com hum coxim de veludo , e 
dous ñores de banda , que fam pejas que 
fe dam as mulheres , por Ihe pagar man- 
dar-lhe cabala, e cris como avaííallo; e o 
theor da carta em refpofta da fuá he efte , 

3ue direi, abbreviando palavras, e cortan- 
o eíUlos ao modo do Achém. 

Car- 



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DEtíADA VIIL Cap. XXIL 13^ 

Carta do Capitao D. Leoniz Pereira. 

'\ Jf Uito me alegrei com a carta de V* 
XVI. Alteza , e com faber de fuá faude , c 
que eftava táo perto defta Fortaleza , on- 
de Ihe farei todos os férvidos aue puder, 
pera o fervir como fempre deíejei , por- 
que os Portuguezes , e Achéns quaíi to* 
dos fomos hum noamor; e fequer queeC- 
ta amizade antiga vá por diante , mánde- 
me huma peíToa grande de fuá cafa , pera 
tratar comigo fobre iíTo , e juraremos efta 
amizade , pera affim ficar mais fegura. Fol'» 
go de V. Alteza vir tao bem próvido con- 
tra feu inimigo , porque he razao aue pa- 
gue tamanha traijao como fez em ¡jíq ma- 
tar feus Embaixadores , tanto contra o com-» 
mum colhime das gentes : e fe a V. Alteza 
Ihe faltar alguma coufa pera efta jornada , 
eu o fervirei com artilheria , e bombardei-^ 
ros do muito que tenho de fobejo. Nao def- 
pachei hontem os Embaixadores de V. Al- 
teza 5 porque andei bufcando algumas cu- 
riofídades pera Ihe mandar por elles. 

Tornados os Embaixadores com efta 
refpofta , bem entendeo ElRey della , aue 
nao era aquelle Capitao o homem que fe Iia- 
via de engañar, antes elle fe teve por en^ 
ganado no modo de como q tratou com o 

feu 



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140 ASIA DE DiOGO DE CouTO 

feu prefente ; e porque o homem que Ihe 
mandou oíFerecer pera curar feus cavallos ^ 
era peflba grande diante delle , e cuidou 
que com aquelle ardil tivefíe em Malaca 
quem o avifaíTe , quiz logo tornar a ha- 
velio ás máos , e logo o tornou a mandar 

Í)ed¡r ao Capitiío , dizendo-lhe queja fe Ihe 
ora a paixao , e que o havia por bem caf- 
tigado. 

O Capitáo depois de defpedir os Em- 
baixadores , o mandou levar diante de íi , 
e Ihe mandou fazer perguntas , e ainda met- 
tello a tratos , nos quaes confeíTou que elle 
fora ao Grao Turco por Embaixador fobre 
aquella jornada , e pela confianza que o A- 
chém delle tinha , o deitára como deshon- 
rado naquella Ilha , e que Ihe promettéra 
de matar o Capitáo , ou infeitijallo , e por 
fogo á cafa da pólvora : com que o Capi- 
táo Ihe mandou cortar os pés , e as maos , 
e acábela, e tudo mettido em hum parao 
o mandou ao Achém em refpofta de Iho 
mandar pedir, o que elle fentio em extre- 
mo j mas como cuidava que tinha a vin- 
ganga na mao , diílimulou , e defpedio ou- 
tra carta pera o Capitáo , em que Ihe dava 
os ^gradecimentos davontade que Ihemof* 
trára , e que pera moftra della Ihe pedia 
deixaífe aos feus comprar algum arroz na 
Cidade , pera o que mandou fete , ou oito 

em- 



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Decada VIH. Cap. XXIL 141 

embarcacóes , que o Capitáo nao deixou 
chegar a térra , dizendo que por eftorvar re- 
voltas o fazia , e defpedio os Embaixado- 
res ; mas o mellizo renegado deixou ficar, 
dizendo que era Chriífóo. 

Pela meia noite o Capitáo poz fogo á 

Sovoafáo de Ilher , depois de recolhido tu- 
o o que fe podia aproveitar; e tanto que 
ElRey vio o grande fogo , entendeo a ten* 
^o do Capi^o , e diíTe que aquelle homem 
nao era Reynol , e que tinha nelle grande 
contrario : e com efte defengano botou lo- 
go gente em térra , e defembarcou a arti- 
Iheria , que lie a feguinte. 

Hum leáo de cuarenta arrateis de pe- 
louro de ferro coaao , Jiuma aguia de trin- 
ta arrateis de ferro , huma efpera de qua- 
torze arrateis de ferro , dous camellos de 
marca maior, dous camelletes , hum gran- 
de 5 e quantidade de falcóes , e berros , dous 
cuartos de finco palmos. Efta artilheria to- 
da prantou em huma eftancia que fez a fe- 
tecentos paíFos do muro , e logo fizeram 
outra entre a arvore de Ilher , e a Cidade , 
as quaes fortificáram ao redor de larga ca- 
va com muitos ettrepes. Na obra deíla trin- 
cheira andavam os inimigos tuo defmanda- 
dos , como fe foífem fenhores da térra ; e 

£arecendo ao Capitáo que fe poderia fazef 
um bom feito , mandou a Francifco Paes 

ib- 



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T4^ ASIA DÉ DioGó DÉ Covro 

fobre rolda com vinte homens , pera ir to*» 
mar o caminho que vai ter á porta de S. Se-- 
baftiáo , pera darem cofias aos trabalhado-^ 
res , que hiao cortar o palmar de Pedro de 
Lemos , pera metterem as palmeiras dentro 
pera a fbrtificajao : e alli tiveram hum en- 
contró com os Mouros , de que fe foram 
efcalavrados ; e o mefmo fuccedeo a SebaC- 
tiáo de Brito da banda de Illier , eftando 
derrubando algumas cafas no caminho da 
boca da China , a duzentos e quarenta paC- 
fos do baluarte da Madre de Déos y de que 
era Capitao Fernáo Peres de Andrade, da 
qual batiam aquelle baluarte , e todo o lan- 
50 do muro que vai até o cúbelo das on- 
ze mil Virgens , na qual eiftancia tinham 
tres efperas , que jogavam pelouro de fer- 
ro de doze arrateis, os quaes houve o A- 
chém na nao S. Paulo , que na era 1560. 
fe perdeo na contra-coila deíía barra. Ti- 
nha mais hum falvagem , e tres camellos , e 
muitos falcóes , e berros. Alevantáram mais 
outra trincheira pegada com o rio a tre- 
zentos paífos do baluarte de S. Domingos , 
donde batiam a elles , e a torre , e terrado 
da Fortaleza com hum leao de quarenta e 
dous arrateis de pelouro , tres efperas de^ 

Suatorze arrateis cada huma , tres camellos 
e marca maíor , dous cameÚetes ^ e mui-t 
tos falcóes^ e bérjos- 

A- 



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Decada VIIL Cap. XXIL 143 

Alem do rio da banda de Malaca afí 
fentáram outra eftancia , donde jogavam com 
hum camellete , huma meia efpera , e al- 
guns falcóes. Affim ficou a Cidade toda cer- 
cada á roda ; fómente a banda do mar , por 
nao h?iver batería , ficou aflim. 

T era efta Fortaleza á roda mil bracas 
craveiras , em que nao havia mais que tres, 
baluartes , e hum cúbelo , a qual eftancia ti- 
nha o Capitáo próvido defta maneira. Na 

fonte eftava Balthazar de Barros , que foi 
eitor, e Alcaide Mor, e Diogo Pires de 
Araujo com dez Portuguezes , e efcravos : 
na ribeira eftava Ruy (JarvaUío fobrinho dq 
Pedro Carvaliio , Feitor , e Alcaide Mor 

Jiue entáo era , com finco Portuguezes , e 
eus efcravos : em outra eftancia eftava Ñu- 
no Leite filho de Balthazar Leite com al- 
guns companheiros : em outra eftancia efta-* 
va Antonio Duráo homem da térra comou-* 
tros Chriftaos. Em huma eftancia , que guar- 
dava a porta , e ferventia do rio , eftava Gaf» 
par de Souza Chrilláo da térra. Os Cleri- . 
gos pedíram huma eftancia , que o Capitaa 
Ihes deo fobre o muro da banda do mar; 
e o proprio dia que entráram nella , foi a 
tempo que os inimigos combatiam o balu- 
arte Sant-Iago ; e vindo-lhes os pelouros aC- 
fobiando pelas orclhas , fe tornáram a aco- 
Iher á Igreja : o que o Capitáo diífimulou / 
* por- 



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144 ASIA DE DioGo DE Corrrd 

porque vio que mais haviam de eílonrar^ 
que aproveitar. 

No oiteiro de nofla Senhora do Mon- 
te poz Diogo Fernandes da Calcada y e man- 
dou lá levar huma aguia , e num camella 
de marca maior , afora huma efpera que já 
lá eftava , e hum camellete , com que vare- 
javam as eftancias dos Mouros ; e porque 
Ihe tinha mandado dizer o Achém , que elle 
hia com aquella Armada caftigar o Impera- 
dor de Jaoa , por Ihe matar leus Embairá- 
dores, epera tornar oReynoJantana, que 
era feu , fe quiz o Capitao aproveitar nef- 
ta occaíiáo , e defpedio logo Diogo Lopes , 
hum Cavalleiro mui efperto , em hum ba- 
láo , pera fe ir a Jantana com huma carta 
pera aquelle Rey , em que Ihe dava conta 
do poder, com que o Achém ficava fobre 
aquella Fortaleza , e pofto em térra com 
toda a gente , e que a Armada ficSva fó í 
e que alli tinha huma occaíiáo pera fe vin* 
jar delle y e tomar fatisfa^ da morte de 
eu irmáo: que fe embarcaíTe em qualquer 
Armada que tiveíTe , e déíTe de fobreíalto 
na Armada y e que com muita facilidade o 
haveria ás maos , porque eftavam fem gen^ 
te, e fem vigia , dando por regimentó ao 
Diogo Lopes , Que tanto que déífe a carta 
áquelle Rey , fe rolTe por no eftreíto de Sin* 
capura^ ou no cabo da Romanía, pera dar 

avi- 



% 



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DecAda VÍII. Cap. XXII/ I4jr 

avííó ás-náos de Maluco, e China, porque 
tiáo foíTem cahir nasmáos dos inimigos : e 
pelo modo referido cfcrereo a ElRey de 
Queda da Armada do Achém , e de&uida 
com que fícava , que com qualquer Armá^- 
da a podía desbaratar: e elcreveo. aos Por* 
tugúeles , que eftavam naquelle porto , que 
tiveíTem vigía ñas liáos de Bengala , e re* 
gú , pera que as nao deixaíTem paitar : e 
por aquella via efcreveo cartas dobradas ao 
Vifo-Key , do eftado em que ficava , e to* 
das as mais prevenjóes que Ihe parecéram 
neceíTarias , fez com muita diligencia , e 
cuidado. . ^ 

E tentou multas coufas comra o inimi<« 
go, que náovieram aeíFeito, como.fói-am 
mandar certas peíToas em balóes mui bem 
petrechados , pera darem fogo á galé dú 
ElRey , aonde elle hiá dormir todas as noi-> 
tes , e queimarem as champañas ^ que ti^^ 
nha carregadas de municóes , que nao veio 
a eíFeito pela muita vigia que tinham , e em 
fim nada Ihe ficou por tentar contra o ini-* 
migo 5 e em daño feü* O Rey do Achém 
vendo-fe engañado com o Capitáo , que elle 
cuidou que tinh^,. hazido , e aíFrontado do 

Erefente que Ihe mandou , e do Mouro que 
le matou com tanta crueldade , cortando^. 
Ihe pés , e máos , andava pafmado , e de& 
conñado , e tratou mil eftratagemas , pera ver * 
4:oMto. T0m.r.P.L K fe 



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I4Í ASÍA DE DioGo DE Cotrf o 

fe podía tomar aquella Fortaleza , porque 
cuido que fe nao fiaya tanto no poder y e 
o primeiro ardil que tentou , f oi eíle. Eí^ 
tava no porto entre a Ilha das Naos j e a 
Fortaleza huma nao do Capitáo carregada 
pera ir a Bengala , a quai nao fe come^ou 
a defcarregar : o que vifto pelo Achém, 
mandou dizer ao Capitáo , que elle nao vi-» 
nha com aquelle poder tomar huma nao : 
que podía ir feguramente fazer fuá viagem , 

Í jorque Iha nao impediría , e Ihe dava diC- 
b lúa palavra* Ifto tentou efte Rey ; por- 
Siue fe acceitaífe o cumprimento , e a nao 
e foíTe 5 forjado havia de levar mercado- 
res , é que quantos maís foífem , menos de- 
feníbres Ihe ficavam, 

' O Capitáo entendeo logo a malicia que 
hia debaixo daquelle oíFerecimento , e Ino 
mandou agradecer , dizendo que Já nao era 
tempo de fazer viagem : e logo a mandou 
acabar de defcarregar , e tirar todos os ap- 

Í)arelhos , e artilheria , e Ihe mandou dar 
iiros , com que fe aífentou no fundo : o 
aue fez j aflim por desfazer o eftratagema 
ó Rey , como pera que os homens nao ef- 
tiveflem com o olho naquella nao , e Ihe 
fugilfem alguns : e ao outro día que o Rey 
vio a nao no fundo , pafmou , e entendeo 
^uáo entendidos eram feus ardís. 

Nao defcan java D. Leoniz Fereira hum 



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tÍÉCAÜA Vili. Cap. XXIT. ^47 

ftiómento : vigiava-fe de todas as partes^ 
porque o iíiimigo era mánhoib , e intenta* 
va todas as maldades que podía , e ailini 
corría todas as eftancias muitas rezes j e Á 
boca da noite fe hia pera a porta da For-» 
taleza , e alli dormia num pouco encoftado 
na cadeira , acompanhado fempf e de D* Ma- 
noel Pereira feu fobrinho , D. Fernando de 
Menezes que foí cafado em Cochim , e foi 
Capitáo de Daináo , Efteváo Leite Pereira , 
Joao Vieira , Pedro de Gouvea , Manoel de 
Moura ^ Francifco de Abreu ^ Simáo Fer- 
reira , Díogo Mendes ; e o Patriarca , e Bif^ 
po y Religiofos , e Qerigos tambern tinharo 
leus quartos dobrados , porque huns eram 
ñas Igrejas em orajáó ^ e outros em cor- 
rer ás eftancias , animar os homens , e con-^ 
iblalIos4 

Osinímigos híam correndo com fuá ba- 
tería de todas as eftancias com muita fu-^ 
ría , e ao fom della adiantándo-fe com oá 
valos , e trincheiras tío perto do baluarte 
de Fernáo Peres de Andrade , que fe nao 
mettia em meio , mais que humas cafas der- 
rubadas , e hum pequeño ribeifo ; e por- 

3ue aquella vizinhanja era müito ruim , man- 
ou o Capitáo a D- Francifco de Menezeis. 
com quarenta Poríuguezes , e cem homens 
da térra, pera que afoíTem defmanchar; e 
noquarto da alva deram os noíTos nos ini- 

K ii mi- 



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148 ASIA DE DioQo DE Coirro 

migos com tanto impeto , que entráram ñas 
tríncheiras , e andáram dentro nellas ás cu- 
tiladas com os Mouros , de que matáram 
mais de cento , e os mais fe recolhéram a 
outra trincheira que Ihes ficava detrás. Aqui 
foi ferido de huma efpingardada o filho mais 
velho de ElRey , da qual depois. morreo , 
o qual fe intitulava por Rey de Amé , e 
foi tomada huma pefa de metal , que Fraa- 
cifco Paes , que depois foi Provedor Mor 
dos Con tos , e que agiii era Sobre-rolda , 
mandou levar pera a Cidade pelos feus ef- 
cravos , e a trincheira foi deímanchada , e 
desfeita até os alicerces ; e com ifto feito , 
fe recolhéram os noífos carregados de ca- 
beras de Turcos , e de outras najóes , e de 
efpadas , efpingardas , e de outros defpo- 

Í*os, femcuftar da noíTa parte mais que hum 
^ortuguez , e feis homens da térra : e a trin- 
cheira nao fe tornou mais a bulir nella , que 
táo efcaldados ficáram, 

Com efte bom fucceíTo crefceo o defé- 
jo a todos de fe acharem em algum bom 
feito , que pera Ihes o Capitao dar licen- 
5a j mettéram por terceiro o Patriarca , e 
o Bifpo , porque determinava elle de fe de- 
fender , fem arrifcar os homens , que tinha 
poucos ; mas em fim concedeo a Francifco 
de Moura , que tambem era Sobre-rolda, 
que fízeíFe huma fahida no quarto da alva 

CÓiU 



"Digítízecíb-y VjOOQIC" 



Decada VIII. Cap. XXII. 149 

com quarenta Portuguezes , e muitos efcrá*- 
vos j e que fe foíTem metter entre a Alfana- 
ciega , e os Gudoes , que fam cafas de fa^ 
zendas , porque eftava certo cahirem-ihe os 
inimigos ñas maos , porque naquella parte 
nao tinham ainda feito trincheira , e fa^ia 
o Capitáo que de noite vinham até á ponte , 
e ao longo do rio dar gritos , e que caniriam 
ñas máos dos noífos ; os quaes com levaren! 
ordem de nao paíFarem do pelourinho , tan- ' 
to que fe víram da outra parte da ponte , 
tendo recado por huma efpia que os inimi- 
gos eftavam com vigia , foram-fe fahindo , e 
os noífos após elles até ás trincheiras anti- 
gás da banda da praia , onde carregáram 
tantos Mouros fobre os noífos, que logóos 
puzeram em desbarato , íicando mortos Ruy 
Leitáo de Brito , Joáo Nunes do Regó , Gat 
par de Sá, que foi criado de D, Conílan- 
tíno , Joáo Ferreira Efcrivao da Feitoria , 
€ tres efcravos , e quafi todos os que efca- 
páram, foram feridos , fem morrerem dos 
inimigos mais que vinte e tantos , em que 
entrou hum Rume de cabaia de yeludo ver- 
de, e outros homens brancos. 

A batería foi-fe continuando por todas 
as partes , os dous quartos faziam feu of- 
ficio ; mas poílo que os pelouros , e mui- 
tos dos outros cahíram dentro na Portal e- 
jLSLy quizDeos que nao fizeifem daño , nem 

mi- 



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i^^ ASTA DE DíoGo DE Coirío 

ruina de importancia. Nao fe contentando 
SlRey com a batería de fóra , tambem quiz 
batella da banda de dentro com novos ar- 
dis 5 que puderam fer mais perigoíos que 
os da artiiiiería , e foi com mandar dizer 
de noite do pé do muro por hum renega- 
do aos noíTos , como aue os avifava, por 
fer hum renegado que lá andava , que El- 
Rey nao dera logo em chegando na povo- 
a^o dos Quelis , porque eltava concertado 
^omelles, que ao dia que come^aiTe a dar 
¿atería , Iiuns deíTem fogo á povoajáo da 
Cidade , por ferem as caías cubertas de pa- 
Ihas feccas de palmeira , que fam peiores 
que pólvora , e outros delTem nos Portu- 
guezes , e os mataíTem , e fe fenhoreaíFem 
dos baluartes : e o Tumugao Ihe efcrevéra 
o mefmo por huma negra fuá , que fizera 
fugídiíTa , como de effeito era verdade que 
ftigíra a noite de antes peraoarraiaL Tan- 
to que ifto fe ouvio de íima dos baluartes , 
foi tamanho oalvoroyo dos noífos, queef- 
tiveram levados adarem nos Quelis, ema- 
tarem-nos, nao tendo elles culpa alguma, 
antes fendo tao leaes como os Portuguezes- 
O Patriarca , Bifpo , e Prelados das Reli- 
gióes , e Cabido da Sé , tanto que aquillo 
©uvíram , havendo-fe por perdidos , foram* 
fe ao terreiro da Fortaleza , e diíTéram ao 
Capillo ^ue^queilas ^ufa^ eram demuita 

iou* 



ioogle ^ 



r Decada VIII. Cap. XXII, lyi 

confidera^o : cqüe feria bem fégurarem 
os Quelís , e o Tamugáo , até fe fáber ^ 
verdade ; fenáo quarído houve alguns Re? 
ligiofc» que Ihe re^ueréram que lo^o juft 
tijaíTe as peíFoas principaes , íem rnais prot 
celTo, nemordem dejuizo. OCapitáo^uo 
era prudente , e entendía os ardís dos ini-t 
i^gos y quietou a todos com muíta brant 
dura , affinnando-lhes com razóes muito cla-f 
ras que os Quelís fe nao haviam de fiar da 
Achán; eque por fima de entender, e fa- 
ber ifto , elle tinha tanta vigilancia em tu* 
-do , que entre os mefmos Quelís trazia ou-» 
tros ñdelillimos por efpias , e que nenhum 
movimento tinha echado j e que. antes elle 
Capitío pelos haver por homens de pri- 
mor., e fiéis , fe fiava delles em multas cour 
ías , de que fempre Ihe davam boa conta , 
e razáo : que elle naquelles perigos nao fi- 
cava de fora , antes todos carregavam fo^ 
bre elle: e que fe quietaíTem emquanto o 
yiam eílar allim fem fobrefaltos : e que af-? 
^mava que huma fó demonílrajáo que fit 
zeíTe de querer prender hum , que tudo íe 
perdería fem Ihe poder dar remedio. Com 
eftas razóes , e óutras os quietou , e fez re^ 
colher, pedindó-lhes foíFempel^jar coma$ 
armas elpirituaes , e com orajóes , que com 
as temporaes elle correría de feifáo , que 
nao houveiTe.falta. 

Ven-/ 



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t^^ ASIA DE DioGo 'de Couto 

Vendo o tyranno do Achém o ponco 
que Ihe fuccediam fuas trajas , e que as ba- 
terías que dava á Cidade em roda ihe nao 
faziam daño, pela teroCapitáo muito for- 
tificada j e próvida o melJior que podia fer 
de munijoes , fendo ellas bein poucas ; por- 
que áos Vifo-Reys da India he já muito 
antigo efte coftume , de fe defcuidarem de 
feus provipientos , alfiín jpor nao gattarem^ 
( como fe o dinheiro IHes; fahiífe da bolfaj 
como porque fazém conta, que quando íe 
perder gualquer Fortaleza , que ja ferá em 
tempo de outro , a quem EIRey peja con- 
ta diíTo, nao fehavendo de pedir fenao ao 
que acabou antes delle , ou a ambos , por- 
que ambos deviam ter cuidado de feus pro- 
vimentos. Deixemos ifto em que ha tanta 
miferia, que he melhor calar , porque tam^ 
bem o fallar nao remedea. E tornando á 
ordem que leva va , foi o Achém batendo 
asnoíTas eftancias com aquel Ja furia da fuá 
artilheria , e de feus ardis diabólicos , que 

5)uderam caufar huma grande defavcntura, 
e rtáo deram em hura Capitáo táo pruden^p 
te , e precatado. Ao outro dia que o rene- 
gado fez aquella pratica fobre 0^ Quelís ^ 
íoltou hum mojo de hum Portuguez. que lá 
andava fúgido , que hia bem enfaiado do 
que havia de fazer , e ihe deo huma carta 
pera fetenta Jáos , que..eílavam em^hiam 



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Década VIII. Cap. XXII: i^ 

junco junto da ponte , mercadores que alli 
tinham vindo com fuá fazenda* Elie moco 
foi tomado dos nolTos , e levado ao Capiy 
táo ; e achando-lhe a carta , a mandou 1er , 
€ nella dizia , que como viíFem iempo , fi- 
zeíTem aquillo que Ihe tinham promettido : 
que elles como viíTem o final , dariam o 
analto, e entrariam a Cidade : e que ihes 
promettia de repartir com elles todo o det- 
pojo de fazendas , pegas , e cativos igual- 
mente com os Achens. Todas eftas coufas 
urdia o Achém , pera por aos da Fortale- 
za em fofpeitas , e defconíiangas' ; mas co- 
mo o Capitao ouvio o mofo , e leo a car- 
ta fó com o lingua , ficou-fe tendo tanto 
•fegredo , que nunca fe foube. 

Por outro moyo feito fugidiífo efcreveo 
oTjrranno huma carta aos cafados , naqual 
oslouvava de bons cavalleiros; e pelaxjue 
Ihes vírafazernaquelle cerco, deíejava de 
¡hes fazer a todos mercés , e nao tratallos 
mal, e com eftarem alli arrifcados aos pe- 
louros , e fomes : que vifl'em a potencia , 
com que eftava fobre aquella Fortaleza , a 
fraqueza della , e os poucos defenfores que 
^nha: que Ihes rogava fe Ihe entregaflem , 
-€ Ihe deífem ordem pera entrar na Fortah 
. ieza , e que a todos daria as vidas , fuas 
mulheres, filhos, e fazendas , e que fobre 
ilTp Ihes. faria groíFas mercés j fenáo , que 

fou- 



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15'4 ASIA DE DioGo DE Coufo 

íbubeíTem que nao fazendo o que Ihes of^ 
ferecia , gue os havia de haver ás máos , e 
eípeda^alíos , porque fe nao havia de le^ 
yantar de fobre aquella Fortaleza fem a tap 
mar , aínda que foubeíTe eítar tres , e quaj^ 
tro annos ^ porque eftava em fuas térras, 
onde Ihe nao havia de faltar tudo o de que 
tiveífe neceffidade, e que elles náotinham 
provimento pera tres mezes , como della o 
aviíavam os mefinos Quelís. 

O Achém andava táo defconfiado de 
lilas tra^s llie fahirem vans , e fem effei- 
to nenhum , que quali nao fabia os termos^ 
por que levaría aquella ^erra ; e pondo 
em confelho de feus Capitáes aquelle ne^ 
gocio , aíTentáram que fe commetteífe a Ci- 
dade á eícala vifta com todo o poder , e 
puzeifem multas efcadas á roda , por onde 
'íe commetteífe ; porque como na Fortale- 
•M havia pouca gente , e fe viíTem commet- 
tidos por todas as partes , forjado era al- 
guma navia de ficar defamparada , pela qual 
poderla entrar a Cidade. Éfte commettimeri- 
to quillo tambem fazer com efte ardil. 

Sendo 14. de Fevereiro , mandou paf- 
far da banda dellher pera a.outra de Mar 
laca muitas embarcajóes carregadas de gen- 
te toda em pé pera mottrar o feu poder: 
o que fez por cuidarem os noíTos que oue? 
ríam dar o.aílaito pela banda de Malaca 

pe- 



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Decada VIII. Cap. XXII; iss 

pela ponte , e ao longo do rio , porque ac&- 
diflem aquella parte, eelles commetterem 
pela banda de Ilher , onde tinham grande 
copia de efcadas feitás , e todos os mais 
petrechos de guerra. O Capitáo , como Ih^ 
dilTeram deftas embarcajóes , e que a gen- 
te toda hia empé dando moítra do poder, 
logo entendeo o defenho do inimigo ; e 
pera fe certificar melhor , foi-fe por fobre 
o oiteiro de noíTa Senjiora , donde defcu- 
bria tudo , e vio que tornavain as embar^ 
•ca^es com a gente ajaftrada , e ainda enr 
xergou defembarcar toda no arraial , pelo 
•que fe fortificou daquella parte o melhor 
-que pode, que pela outra, e rio eftava tu- 
do leguro , e aífim com Ihe entender os 
ardís , e Ihos desfaxer , Ihe desfazia toda 
a guerra. 

Ao outro dia que foram 15'. de Feve- 
reiro , mandou ElRey fahir toda a gente 
•de fuas trincheiras, e mandou bater a For- 
taleza em roda com a maior furia que nun- 
ca fez , a gual batería durou todo aquelle 
dia , e noite feguinte , com hum enrola- 
do 5 e terror que foi huin efpanto : e nefte 
conflido fe acháram todos os Prelados , Par 
triarca , Bií^ , e das RelígiÓes ; e o Ca- 
pitáo nao defcanjou em todo efte tempo , 
trazendo homens por todas as ellancias, ^ 
baluartes , que por momentos o avifavam 
L. ^ de 



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1^6 ASIA BE DíoGo DB Coxnfe 

de tudo o que fuccediá ; e fendo neceíTanó 
mandar prover em alguma coufa , o fazia 
com muita prefteza- 

Sendo entre a huma hora , e as duas 
depois da meia noite , ao tempo que a alva 
fe levantava , e comejava a defcubrir o eam- 

Í)0 5 víram os noíTos de improvifo eftender- 
e huma nevoa fobre a Cidade , e de redor 
dos muros táo efpeíTa , que nao fe enxerga- 
va coufa alguma , fem os noíTos poderem 
diíFerenjar o que aquillo feria. Alguns ti- 
veram pera fi ler fumo de algum fogo gran- 
de que fe accendeo no oiteiro de Socachi- 
na ; mas enganáram-fe , porque o oiteiro ef- 
ti a longo da Cidade , e he alto , e o ven- 
to , e fumo fam elementos que fobem , e 
nao defcem : pera ferem vapores que fe le- 
vantavam da térra , tambem pera iíTo havia 
contradijáo , porque eítes vapores fóeram, 
e eftavam ao redor dos muros , e dahi a ti- 
ro de efpingarda já os nao havia : por on- 
de todos preíimiíram que fe levantara aquel- 
la nevoa por virtude de algumas palavras, 
e feitigarias , ou de alguns pos que fe ef- 
palháram. Eftendida a nevoa, foi-fe levan- 
tando pouco a pouco ; e pondo-fe entre os 
noíTos 5 e os inimigos , pera os nao pode- 
rem ver quando puzeflem as efcadas aos 
muros , o que eiles fizeram em grande lílen- 
úoy € muitos fe puzer^m em lima fem fe- 
rem 



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Decapa VIIL Ca?, XXII. 1^7 

rem viftos , nem os nolTos os verem , nem 
fentirem. 

Nefte commettimento vieram os inimi- 
gos á parte de Malaca com grandes gritos, 
e defordenados inftruitientos , como que que- 
riam commetter por alli o aíTalto , diípa- 
rando toda a artilheria com grande ten-or, 
e fizeram querena de arremetterem , pera 
com aquelle eftrondo chamarem alli os nof- 
fos, e fícar a banda dellher defamparada, 
pera darem por lá o aíTalto ; mas como o 
Capitáo tinha mandado exprelTamente que 
nenhuma peíToa fe buliíTe de feu lugar íem 
feu efpecial mandado , nao houve quem fe 
abalalle , antes fe fizeram preftes pera rece- 
berem os inimigos por qualquer parte que 
commetteíTem : e com eftas demonftrajoes 
commettéram pela banda de Iher , onde ti- 
nham determinado de dar oaífalto, eacof- 
tarem as efcadas , pelas quaes fubíram com 

5;rande determinajao ; e no baluarte deSant- 
ago foi o poder maior , onde tambem a- 
cháram^ maior defensáo , porque os agaza- 
Ihavanj os noffcs com infinito fogo de pa-. 
nel^s , e langas ; e como era de madrugada , 

Í)arecia c[ue fe abrazava a Cidade , e affini; 
bram dizer ao Capitáo que aquelle baluar- 
te ardia todo em lavaredas , ao que fe náa 
inquietou , antes com muita feguranja man-^ 
dou logo a D. Fernando de Menezes , e á 

D. 



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tS9 ASIA DE DioGo DE Coxrrd 

D. Manoel Pereira que foffem acudir lá pót 
huma parte ; e por outra a Eíleváo Leite , 
c a Joáo Vieira : e de todos eíles fó Efte- 
váoLeite chegou ao baluarte, que pela rúa 
debaixo fe foi metter nelle , e fe aprefen- 
tou no mor perigo , e pelejou valerofamen* 
te ; os mais indo por lima do muro novo , 
acháram de hum canto que faz defronte da 
Mifericordia até ao baluarte j mais de mil 
Mouros , que fubiram por efcadas que ar- 
rimáram naquella parte , porque acháram 
maré vazia , e ellavam fobre a entrada do 
baluarte em grande batalha com Manoel 
Henriques , eleus foldados , que Iho defen- 
déram valerofamente, O que vifto por D, 
Manoel Pereira , D. Femando de Menezes , 
Joáo Vieira com mais gente que levavam , 
deram pelas coilas dos inimigos com tanto 
impeto , que os fizeram lanjar do muro a-* 
baixo 5 fem verem os noíTos quao poneos 
cram ; mas cuftou multas ferídas a todos , 
porque D. Manoel Pereira levou huma fre- 
chada , que paíTou ao longo do olho , e Ihe 
atraveflbu a orelha , de que ficou com hum 
geito no olho até moner ha finco y ou feis 
annos. D. Fernando levou outras ferídas, 
Manoel Henriques duas , Joáo Vieira hu- 
ma, Francifco t)ias finco, de que morreo,, 
e outros muitos. 

Ao tempo que o Capitao' mandou foc-* 

cor- 



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Decaüa VIIL Cap. XXII. if^ 

corro ao baluarte Sant-Iago ^ Ihe vieramdi- 
zer que o de S. Domingos eftava emgran^ 
de aperto comoCapitao queimado, ecom 
os Portuguezes morros , pelo que o mandou 
foccorrer por Francifco raes , e Francifco 
de Moura Sobre-roldas com agente de fuá 
obriga^áo , os auaes fe mettéram naquelle 
baluarte, ondenzeram coufas táoñotaveis^ 

;[ue pafmavam os Mouros , que fe viram 
enhores daquelle baluarte. 

Mas pera que he tratar particularidades , 

3uando a Fortaleza eftava cercada emroda 
e düzentas pej as de artilheria , e mais de 
dez mil homens , que trabalhavam por fe 
fazerem fenhores da Fortaleza , e de pare- 
cer bem a feu Rey , o qual eftava comfeu 
filho vendo o combate de fima do monte 
de Bocachina a cavallo , donde mandava foc« 
corros apreffados aos feus , o que nao ti-^ 
nliam os noíTos , porque fó dos Ceos Ihes 
podiam vir. Em nm quanto fe via á roda , 
eram lavaredas de fogo , quanto fe ouvia 
de todas as partes , eram eftrondos , ten-e- 
motos , e trovóes de artilheria : de dentro , 
e de fóra gritos , e vozerias , e ais dos que 
pelejavam , e cahiam mortos : huns appel- 
lidando Sant-Iágo , o nome de Jefus ; eou* 
tros por Mafamede ; mas como a parte de 
noíTo Senhor fempre vence , e ha de per- 
manecer coatra o infei-iio ,. poz nos pcitos 

dos 



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t6o ASIA DE DlOGO DE Coütb 

dos noíTos tal furor, enosbra9os tanta for- 
ja , que effes poucos que eram , aílim tra- 
táram a multidao dos mimigos , que deram 
com todos dos muros , e das afeadas abai-« 
io com tamanho eítrago , e crueza, que dei- 
tou ElRey as toucas no chao , e comejou 
a blasfemar contra Mafamede ; e vendo-fe 
de todo perdido , aíEm fe recolheo ás fuas 
tendas.táotrifte, e melancolizado , quenem 
o proprio feu filho oufava fallar com elle: 
€ porque fe receou que deíTem os noíTos 
nelles , e Ihe tomaíTem a artilheria , a man-' 
dou embarcar táo caladamente , que nunca 
fe foube , nem fentio. Elle aos 25'. de Fe- 
vereiro fe embareou fuá peíToa , fícando mor- 
tos de redor daquelles muros em todos os 
combates mais de tres mil Mouros ; e le- 
vou na Armada tantos feridos , que de Ma- 
laca até Rúa , que he caminho de finco dias y 
botáram ao mar mais de quinhcntos ho- 
mens j e porque Ihe ficou parte da Armada 
vazia , mandou queimar muitas embarcajóes 
pequeñas , e outras deixou por eífe man 

Fez ElRey efta embarcajao com tanta 
preífa , que fe nao foube fenáo depois de 
elle embarcado ; e vendo amercé que nof-» 
fo Senhor Ihe fizera , foi o Capitáo á Igre- 
Ja dar-lhe muitas grapas y e louvores ; e o Pa- 
triarca , e o Bifpo de Malaca fizeram Procif- 
fióes folemnes ^ e deitáram fobre o povo qu« 

acu- 



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/ Décáúa VIIL Caí. tttt,' téf 

acudió , muitas bengóes poiítificaes j coiil 
militas lagrimas de alegría de todos"., nád 
merecendo elles menos , antes mai& que to* 
tios os que pdejaVam valerofameilte j por* 
que além de andarem continuadamente, pe^ 
los muros, e baluartes enti-e pelouros , efo* 

fo animando a todos , tambem tinliam fuas 
oras de recolhimentó em oracáo diaíite dú 
Santillímo Sacramento y onde cómo Moy- 
fés com as máos levañtadaá aos Ceos mo-» 
viam aquelle peito Divino a fe apiadar dos 
íioíTos , e a Ihés dar as viftorías que alean- 
járam , porqué eftes Varóes verdadeiramen- 
te eram Apoftólicos j e obf ou hoífo Senhor 
por dles alguüs milagres^ qué aíTás dé gran-»» 
des foram nao itidrrerem fléfte Ctüél , e éí* 

tanto fo aflalto, mais que'tréSPoftuguezes^ 
imáo de Sámpayó j que era Provedór dá 
Mifericordia , éeícliiór de CaiYalhaes ^ Juiz 
ordinario , e Francifco Diás. 

Sahido o Capitáo com ó Patriaída ^ Bifr 
po j e Prelados da Igreja^ aonde fofamdaí 
fragas a Déos 5 foram logo correr os mu- 
ros, é baluarte^ ^ e aós Capitáésf, e íblda-^ 
dos abrafáva hüm é huni , dando4hés pu-* 
blicós louvores de feu esforzó 5 é yaleiltia ^ 
e de ííia paí^e os agradec;iitiént06 dó mui- 
to que tfabalháram ; é c^té oá éfcfavos qué 
,achou por todafs ás éíbfrdás 5 dei que teve 
boa infofffia^o , fpfróü logo,-e ^^pagou 
-CúuU. Tom.F.KL L a 



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lit ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

a feus donos ; e aos Portuguexes , e Chrí- 
ftáos pobres deo allí mefmo a trinta ^ a qua- 
renta , e a fincoenta cruzados a cada hum , 
|)orgue pera iíTo mandou trazer fuas boce» 
tas , de que os contou , e nao quiz que as 
yromeffas ficaíTem fó em palavras ; e a ou- 
tras peíToas deo fuas pegas de ouro , me- 
dalhas , cadeas , efpadas , e tudo o mais que 
rinha , que nao quería que llie ficaíTe mais 
que a honra , com a qual ficava multo rico ; 
e fe contentara de maneira , aue me affir- 
xnáram multos homens que fe allí acháram, 
principalmente Francifco Paes , que o fabía 
melhor que todos , que defí)endéra alli mais 
de finco mil cruzados , afora mais de dez 
jnil que ihe aiftou a fuá nao que mandou 
metter no fundo : e tudo ifto era pouco pe- 
ra pagar aos homens o aue fizeram naquel- 
le cerco , que foi hum aós mais perigofos 
da India. Defaoreífado o CapltSo daquelle 
trabalho , vendo que era obrígagao avlfar 
ao Viíb-Rey , porque havia de eftar com 
fobreíTaltos , e na Fortaleza nao havia em- 
barcajáo alguma em que o pudéíTe fazer, 
defpedio tres Portuguezes com dinheiro , c 
hum Piloto , e níarinheirós , pera que foC- 
ibm a Queda comprar huma fulla que allí 
eftava, naqual fe paífaíFem aCoromandel, 
o que ellés fizeram com multa diligencia ; 
mas coino.era já tarde, fendo nasjyUías de 



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DscADA Vin. Caí. XXIK 165 

Nídubar, Ihes deo humtempo groflb, qu« 
os fez arribar , e depoi$ tornáram a com- 
metter o caminho por via de Tamazais , e 
no cabo de Tuzaláo andáram ás voltas mui-' 
tos dias com tempos contrarios, e grandes 
correntes , fem o poderem dobraf , e por 
íim tornáram pera Malaca logo^ 

^ c A p I T ü L O xxm- 

Das nouas que chegdram áú Fifo^Rey dóf 

apercebimentos que o Achémfazia centra 

Malaca , e dosfoccútros que defpedio* 

POr navios de Mouros que foram deMa* 
laca a Coromaiidel , Ibube o Vífo-Rey 
comoo Achém fe ficava fazendo jpreftes com 
aquella potencia pera ir fobre malaca , poi>* 
Tjue Iho efcreveo o Capitáo de SéThoméí 
pelo que logo com muita prelTa fe foi póf 
na ribeira das Armadas y e negociou mim 
galeáo , e quatro galeotas , e ele^eo pera 
aquella jornada Joao da Silva Pereira 5 que 
partió em 24. de Abril , elle no galeáo ; e 
ñas galeotas Alvaro Lopes da Coila ^ GaP 
par Marrecos, Ambrofio Davila Betancor, 
e Antonio Dias , levando Joao da Silva Pe- 
reirn Provisáo de Capitáo Mor do mar de 
-Malaca: e fem defcanjar negociou dous.ga?- 
leóes,^ e os «naheo de wwiift^tttoí^ enuí» 

L ü m- 



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164 AS I A . DE Dioco DB Covro 

lü^Óes , e nomeou a D. Fernando de Món- 
roy Fidalgo Caftelliano , que eftava pera ir 
por Capitáo de Ceiláo , pera ir a efte foc- 
corro , com regimentó , e provisóes pera 
fe ajuntar a Joao da Silva , que havia de 
iicar debaixo da íua bandeira , pera darem 
no inimigo , e defcercarem Malaca : e et 
creveo huma carta a Joáo da Silva muito 
honrada , em que Ihe pedia obedeceíTe a D. 
Fernando de Monroy , por fer hum Fidal- 
•go velho , e muito exf^erimentado : e D. Fer- 
nando partió deGoa a 4. do mez deMaio 
de ifóo. e tanta preíTa fe deo y e aífim o 
favoreceo noíTo Senlior , aue alcan^ou Joáo 
^a Silva ñas Ilhas de Nicuoar , e aflun huns , 
como outros cuidáram ferem naos de Me- 
.ca , pera as quaes fe fizeram preftes. Joáo 
4a Silva defpedio hum navio de remo a re- 
conhecer que naos eram aquellas ; e che* 
■gando perto y vio ferem naos nolTas ; pelo 
xjue o Capitáo do navio foi ao galeáo , em 
,que1 vio bandeira , e conheceo fer D. Fer- 
nando de Monroy , com o que fe alegrou^ 
'.e D. Fernando mandou por elle a carta do 
-Vifo-Rey a Joáo da Silva , o qual em a leñ- 
ado , mandou logo enrolar a bandeira de Ghri- 
-fto que levava na gavia , e cubrir o feu far* 
;rol ; o que vifto por D. Femando de Mon- 
•roy , fez o mefmo. Joao da Silva fe met- 
•teo ero Jium»: galeota, V e fe foi ao galeáo 
; . > j de 



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Decada VIII. Caf. XXm. i6y ^ 

de D. Fernando , que o recebeo a borde?,- 
€ tiveram muitos cumprimentos fobre as ban- 
deiras ; em finí venceo a cortezia a razáo , 
e dalli foram ambos fem bandeiras , nem fa-- 
roes ; e todavía porque entrava por entre 
baixos , a rogo de Joao da Silva , acceodeo 
D. Fernando o feu farol ; e chegando a Ma^ 
laca , onde cuidáram achar aínda a Arniái- 
da inimira, pera oque hiam alvorojados, 
fabendo Yogo da vitoría c[ue Déos dera aos 
noíTós , e de como os immígos foram deP 
baratados, foítámanha afuaíñveja, que a 
nao puderam encubrir por parte da honra ; 
mas pela da Chriftañdade , e razáó foi igual 
a alegría , e alvorojo , e aílim falváram a 
Cidade multas vezes ; e defembarcando to- 
dos poftos em armas , pera molirarem as 
loujainhas , com que hiam bufirar os ini- 
migos , acháram o Capítao , e povo na 
praia j onde fe recebéram com grande amor, 
e alegría , e D. Leoniz Pereira levou pera 
cafa D. Fernando , e quiz que Joáo da Sil- 
va fe tornafle pera o galeao , e dahi a pou- 
cosdias o delpedio pera o eílreito de Sa- 
bao , affim pera recolher os navios que hiam, 
pera. Malaca com muitos mantimentos , co-, 
mo pera efperar. huns Embaixadores que El-; 
Rey do Achém, tinha mandado áRainha de 
Jipará a pedír-lhé ajuda : e foi Joáo da Sil-: 
ya táo. ditoíb ,-<jue o junco ero que ellesi 
,*-i * vi- 



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166 A S 1 A' DE DioGO im Coxrta 

vinhairi , veio dar com elle naquella para? 

{jem , onde leváva por regimentó efperal* 
os , e o mandou commetter pelas gáleo* 
tas ; e pofto que fe puzeram em defensáo ^ 
foram entrados , e mortos á efpada quantos 
Achéns vinham nelle , e a fazenda rouba^» 
da pelos Toldados , que ainda acháram bon\ 

3uinliáo : e com efta vitoria , e com juncos 
e mantimentos fe recolheo Joáo da Silva ^ 
o que tudo o Capitáo eftimou muito ; e D. 
Fernando de Monroy fe tornou pera a !»• 
dia como foi tempo. 

CAPITULO XXIV, 

J)e como fe aperceheo ElRey de Vtantanape^ 

fa ir contra o Acbém , que jd acha reco^ 

Ihido , e vifita o Capitao J). Leoniz. 

ASfim affombrou a todos aquelles Reys 
daquelle Archipelago a potencia com 
que o Achém ficava fobre Malaca , que fe 
houverain por perdidos ; porque entendéram 

Sise fe efte tomafle Malaca , a que nao tinham 
uvida , que logo havia de voltar liía ira 
contra elles , e tomar-lhes feus Reynos , pe^ 
ra ficar fendo Imperador de todo aquelle 
Oriente j pelo que osmais delles dcíampa- 
ráram aspovoajSes que tinham aborda do 
mar , e le flaettér^m pelo c^rtáo , até ve^ 

rem 



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Decada VIH. CApyXXlV. i6f 

rcm o em que parava aquelle negocio ; fó- 
mente o Rey dcvViantana, cnie era o ver- 
dadeiro Impeíador de todo o Malayo, Rey 
legirimo por linha fucceffiva dos amigos Rey« 
de Malaca, no qual, pofto que desfalecep 
o Eftado , nao aesfez o animo , antes fe 
ápercebeo pera contraíbr o inimigo , pelo 
que Iheveio a feu propoíito a carta que Ihe 
efcreveo o Capitao D. Leonix Pereira por 
Diogo Lopes (como já diíTe) em que o 
permadia ir com fuá Armada dar no Aciiém ^ 
que eftava naquella barra de Malaca , que 
por ter toda a gente em térra , muito fácil- 
mente a poderia tomar , e darem ambos no 
Achém em térra , e deftniirem-no de todo i 
por nao ter pera onde fe acolher ; pelo que 
€om muito alvoroca fez preltes fuá Arma-* 
da , que feria de íeíTenta velas , e partip-fe 
muito apreíFadamente , mandando diante re- 
cado ao Capitao pera que elliveíTe preftesJ 
Qiiando chegou a Malaca , era o Achém 
fahido do dia de antes , pdo que com mui^ 
ta prefla o foi feguindó , porque efperava 
de o desbaratar , e foi mais de trinta le- 
guas fem o encontrar, e -por todo o cami- 
nho foi adiando corpos mortos , que iiiam 
filojando ao n:iar) aflmi dos feridos , como 
de doen^s , que Ihe deram na Armada ; e 
eiitendendo iqu^ era' tirabalho emváo paílar 
avante ^feí'rQcoUieo a Malaca. / 

E 



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idS: A S r A ' DE DioGo de Covfb 

£ dando conta a feus Capitaes como 
detcrminava defembarcar ekn térra a ver o 
Capit;áo , foi-lhe contrariado de todos , di^ 
Eendo oue nao era licito defembarcar na* 
quella Gdade , que os Portuguezes toma- 
ram a feos Avós , da qual elle era Rey na- 
tural ; que todas as demais demonílra^óest 
de cortezias pedería ufar com o Capitáo? 
ao que elle replicou^'que nao lúa aMala- 
<a , mais que a ver hum Capitáo , que deC- 
J)ara¿u"a hum táo poderoío Tyranno , e o 
yingára de todas quantas af&ontas Uic tinha» 
feitas y é Ihe fegurava o fcu Eftado , que fi-^ 
cara mui arrifcado ,. fe o Achém tomara a-- 
quella Fortaleza : e antes ,de chegar a Ma- 
laca mandou viíitar o Capitáo , e a dar-lhe 
os parabens. da Vitoria 5 e apedir-lhe licen-» 
ja pera o. viíitar. 

A eíl^s Embaixadores recebeo o Capi-f 
tao com muitas honras y. e por elles man* 
douaEIRejr muitos agradecimentos dahon-^ 
ra que Ihe quería fazer: eque aquella For- 
taleza era de Sua Alteza y e que bem po-- 
dia entrar nella como em fuá cafa. ElRey 
chegou,Iogo..á.vifta da Fortaleza comtrinta 
»aviós. fenno-lamente entbandeirados > fal* 
vando-a- com. muita artilheria , c inítrumen^ 
tos bellicos ^re alegíjes ^ efurgio centre a 
Uha das Naos ,« é ai.Cidade ^ o¿de foi logo 
vifitado de parte dá CapilSo.y e íigmfica¿^ 

Ihe 



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Década VIII. Caf; XXIV. t6f 

Ihc que mais' honra recebia em Sua Alteza 
o ver , que iia vitoria que tínlia alcanzado 
do Achém: e que todos aquelles morado- 
res, que eram leus vaflallos, eftavam mui-^ 
to alvorogados pera o fervirem. Aquella 
noitetoda fefizeram por todas as partes da 
Cidáde , e por fima dos muros , e baluar- 
tes, e oiteiros de noffa Senliora do Monte 
multos fogos , e fe lan^áram muitas bombas ^ 
efoguetes, e fizeram demonftrajóes de alo- 
gria , e toda a noite andáram officiaes fazen- 
do a cempaíTos da Fortaleza da banda de 
Uher hum fermofo caes demadeira pera a 
defembarcafáo de ElRey , que fe cubrió de 
alcatifas ricas, e pannos deouro, efeda, e 
dalli até á porta da Fortaleza muitos ar-» 
eos feitos de ramos verdes , e pejas de fe^ 
da : e mandou alimpar as. rúas , e que os 
cafados armaílem fuas portas j e janellas o 
mais lou^mente que pudeíTem, e que pof 
ellas tivelfem íiías mullieres, e filhos, pe- 
ra aquelle Rey fer mais feftejado. 

Ao outro dia pela manhá mandou o Ca- 
pitáo oí Vareadores com todos os cafados,; 
je Chilis ricos que foflem em balóes bufcar 
ElRey , e acompanhallo :- o que elle efti- 
mou muito , e na companliia de todos foi 
Temando devagar , por(jue goftava muito de 
,vfir a furia :dX;artilhena , que nao ceíFavá 
-de o falVar j x aatcs de chcgar ao caes , de& 

- 'v> .:.,. ■,. j :ri"J . = " . pe^^_; 



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170 ASIA DE DioGo !bu Coirfd 

Eedio diante lium recado ao Capi^o , qu¿ 
le mandaíTe dizer com quanta genre defr 
embarcaría; aoque Ihemandou refponder^ 
que com toda quanta Sua Alteza quizefle^ 
pois entrava em fuá cafa ; e che^ado ao 
caes , achou o Capitáo na borda delle y que 
ao defembarcar o levou nos bracos com 
muito acatamento ; e pofto fóra , fe torná- 
ram a abracar y e depois fe afaflou ElRe7 
hum pouco , e tirou a touca , e o Capitáo 
a gorra ; e tomando da máo de hura feu 
pagem dous crifes muito ricos com os pu* 
nhos de ouro , e pedraria , deo hum ao ¿a- 
pitao , ficando-lhe outro , porque efte he o 
maior final de amor que le ufa entre elles : 
€ aílim foram andando , o Capitáo hum pou- 
co atrás 5 da máo efquerda de EIRey , até 
o cabo do caes , onde eAavam dous caval- 
los ricamente ajaezados y em que cavalgá* 
ram. EIRey.era magro, comprido do cor- 
po, olhos grandes , roílo varonil , de idade 
de quarenta annos : nos meneios , e fallas 
iiK)ftrava gravidade de Rey/, hia veftido ao 
modo Míuayo com feus pannos de ouro^ 
huma fobrevefte de brocado rico ', e humai 
gorra de veludo. guarnecida de ouro, epe^ 
rolas; na cinta e^axla, adaga, e^talabarte 
de ouro. Deík manrira foram nomeio de 
humluzido efquadiáo defoldadosluftrofoa, 
qpefpram fempre difparando XQmfuaefpiív 
gar4aria com muita ordem, Cne« 



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Década VIIL Cap. XXIV^ lyt 

Chegando á porta da Fortaleza , parou 
ElRey , e tornou a perguntar ao Capitáo , 
quantos quería que entraíTem eom elle den- 
tro ; ao qufe relpondeo > que com todos 
quantos trazia , e todos os mais que fica- 
vam em feu Reyno , porque naquelle día 
nao tinham chaves as portas. Entrando den^ 
tro , fubíram até o terceiro fobrado da tor-i 
re que Affonfo de Albuquerque fez , e em 
¿urna varanda alcatifada de pannos de ou^ 
ro , e fedas fe aíTentáram em duas cadei-». 
ras , em que eftiveram praticando hum pe- 
daco, eíkndo em outras duas o Patriarca ^ 
e. Éifpo 5 que fe acháram no recebimento^ 
com que ElRey tambem teve.muitos cuoIü^ 
primentos , e fatisfacóes. Depois de prati- 
carem hum efpajo , me foi o Capitáo mof- 
trar o muro , e baluartes , que eítavam bem 
danificados das baterías .5 ^e depois Jhe fói 
moftrar a eftancia dos inimigos , que ElRey 
andou vendo com grande admirajáo , por 
fcr huma maquina infinita. - 

Viík) tudo por ElRey , foi-fe embar- 
car : o Capitáo o acompanhou até fe metf 
ter na fuá embarcajáo y defpedindo-fe com 
multas cortezias , e moftras de amor. Re- 
colhido o Capitáo , mandou logo a ElRey 
alguns b^lóes carregados de confervas , q 
frutas doces , e outras curiofidades , e mi-r 
fnps pera elle, e pera os feus Píudaies ^ i 



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/ 

17% AS I A ' DE DiOGO Dfi COUTO 

o rneüno íizeram todos os cafados , de ma- 
neira que ElRey foi muito fatisfeito do a* 
mor com que todos o tratáram. Tanto que 
as novas daquella grande visoria fe eípa- 
Iháram por todas aquellas partes , foram 
úo feftejadas de todos os Reys como de 
nos 5 pelo mortal odio que tinham áquet 
le Tyranno : logo defpedíram feus Embaí- 
xadores a vilítar o Gapitao , e dar-lhe 
os parabens y e fazer-Uie grandes offereci- 
mentos , pera que fe quizeíTe ir fobre a- 
quelle inimigo , o acompanharem todos , o 
Gue Ihes elle agradeceo com |)alavras fatií- 
fadorias : e affim fícáram quietos por al* 
guns tempos. 

CAPITULO XXV. 

Do que aconteceo a Gonfalo Pereira Mar* 
ramaque depois que partió de Malaca. 

PArtido Gonfalo Pereira com fuá Arma-» 
da junta , foi feguindo fuá derrota , pe- 
la via de Borneo , por onde entáo fe fa- 
ziam as viagens , que depois fe mudáram 
pela via de Amboino , pelos baixos que ha- 
via pela outra derrota ; e cliegando á bar-* 
ra de Borneo , pera fe prover de algumas 
coufas 5 foi logo avifado como na iflia de 
Cebú eñava huma Armada de Hefpanha ^ 

de 



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Decada VIII. Cap. XXV. i/j 

de que era Capitáo Mor Miguel Lopes de 
Lagos Bifcainho , homem elperto , e dili-^ 
gente , com as quaes novas le alvorojáram 
todos , e fizeram requerimentos a Gonfalo 
Pereira , que foíTe contra os Caftelhanos; 
por entrarem do limite de ElBLev de Por- 
tugal pera dentro ; e pofto que elle nÍo le- 
vara regimentó pera iflb , parecendo-lhe que 
importara affim pera o bem daquellas Uhas , 
negociou-fe pera a jornada, tomando Pilo- 
tos , e coufas neceflarias , e foi feguindo a 
derrota de Cebú ; e como era já fóra de 
tempo , e os Pilotos pouco corren tes , an- 
dou ás apalpadelas , como la dizcm , mais 
de quatro mezes oor entre aquelles canaes , 
e Unas , em que Ihe morrw infinita gente 
de fome ^ e lede , pelo que defiftindo da 
jornada , voltou pera Maluco. 

Aquelle Rey eftava já avifado da ida 
de Gonfalo Pereira por num navio que foi 
diante , de que era Capitáo Pedro da Cu- 
nlia , o qual nao guiz feguir o Capitáo Mor 
de Cebú , e foi direito a Maluco , e lá def- 
<ubrio aHenrique deLima, de como Gon- 
falo Pereira trazia regimentó pera prender 
ElRey Ahiro , e o mandar caminho de Goa , 
o que Henrique de Lima nao teve em fe- 
gredo, antes o delcubrio logo a ElRey, de 
quem em muito amigo : e o dia que Gon- 
;iaio Pereka. Marrama<jue furgio no porto 

de 



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174 ASIA PE DiOGO DE COÜTO 

de Talangame , logo fe embarcou ElRey 
em algumas corocoras com feus filhos , e 
ainda mulheres , e foi demandar o galeáo 
do Capitáo Mor , que o efperou a bordo , 
c o recebeo com muita venerajáo. EIRey 
aprefentou osfilho&, dizendo que alli efta- 
ya elle , e elles pera tudo o que foíTe do 
fervico de EIRey de Portugal : e que fe tra- 
zia alguma ordem fuá , fe nao can^afle , que 
elle íe mettia alli em feu poder logo : e 
que fizeíTe delle o que entendeífe que foíTe 
íervico de ElRey ; mas que tambem Ihe pe-^ 
dia íe informaíTe da verdade , porque fabia 
muito bem que o Vifo-Rey eftava muita 
mal informado de fuas couías. Gonfalo Pe- 
reirá o abrajou , e fez muiros gazalhados , 
e diífe aue o informáram mal : que elle nao 
vinha alli fenSo pera o fervir , como faria 
com muito gofto. 

G)m ifto fe recolheo ElRey maisleve^ 
e o Capitáo fe foi apoíentar na Fortaleza ; 
e porque o lugar era eftreito, quiz mandar 
fazer liumas cafas na praia , cuja obra El^ 
Rey tomou á fuá conta., e andou em pef- 
foa neUa com fuá mulher , e duas filhas , é 
fuas criadas 5 que acarretavam osmateríaes: 
e Gabriel Rebello , em que já fallei , que 
fe achou prefente , me diíTe multas vezes ^ 
que elle fora alli vifítar a Rainha% e repre- 
iiendella de andar alii com. ^ fillias^ e quev 

íkQ 



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Década VIIL Cap. XXV. 17^ 

Ihe refpondéra , aue andava alfim , porque 
fe fe prendefle ElRey feu marido , como 
diziam , ir-fe metter com elle na prizáo, 
pera neíla o fervir com fuas filhas ; e co- 
mo nao faltam mechedores , parece que al- 
guns que queriam ganhar térra com ElRey , 
oavifaram algumas vezes que ohaviam de 
prender , ao quefempre refpondeo , que iría 
a Goa comer bom pao , evaca, e beber muito 
bomvinho, porque elle náofabia vivemos 
matos. Receando os vaífallos ifto , por duas 
vezes defpejáram a povoajáo , e íe acolhé- 
ram aos Gunos, ElRey com muita ira os 
-mandou tornar , c os quería caftigar , por 
fazerem novidades , e poz-lhes penas de fa- 
zendas perdidas , fe mais fe afaílalTem da 
Cidade , nem fizeíFem aquellas demonftra- 
-fóes , de que elle fe havia por defcontente. 
Depoxs de o CapitSo Mor prover em 
algumas coufas , ordenou de tornar contra 
os Caftelhanos , pera o que fe fez preñes , 
e defpedio diante hum Ajitonio Rombo de 
liía obrigacáo jem duas corocoEas ^ pera ir 
a Cebú a vifitar o Miguel Lopes de Lagos y 
é á volta diíTo fe inteirar do poder que ti- 
nha., e fe Ihe viera da novaHefpanha mais 
foccorro, e fetinha defcubérto o caminho 
da volta pera lá. Porém como eAe jiomem 
-era (fegundo diz Gabriel Rdb.ello , que i> 
tratou) xoais rombo do ei^enho y nam Íbii- 

be 



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^7^ A S I A ' DE DiOGO DE COÚTO 

ht apalpar as coufas , como convinlia , nem 
perguntar com a diífimulafáo devida por al- 
^umas , antes em vez de aproveitar , per- 
judicou 5 porque inconfideradamente mof- 
troü aos Pilotos Caftelhanos huma carta de 
marear , que elles eílimáram muito , por- 
que por ella alcanf áram o caminho da Chi- 
na, ejapáo, e de todo aquelle archipela- 
go , couía que elles nao fabiam , e compra- 
riam por muito , o que tudo Ihes o Rom- 
bo deo por táo pouco, como foi o. de fuá 
•ignorancia : e por aqui fe verá quanto def' 
via bufcarem os Viío-Reys, eCapitáesho- 
mens feus validos , e fem as partes que con- 
*vem , pera tratar os negocios a que os man- 
dam, ló a fim de os honrarem , e elles fi- 
cam os deshonrados , e o Rey deíacredita- 
•do. Emfim efte homem negociou táo rom- 
bamente tudo , que fe tornou pera Maluco , 
€ nao informou Gonfalo Pereira do qúe~foi 
bufcar nem de nada*: e aífim fe partió efte 
Fidalgo fém informacao nenhuma outra vex^ 
pera Cebú ; e como era )á tarde , tornou a 
.arribar a Bacháo. 

Tinha Gonfalo Pereira Marramaque es- 
crito a I>. Leoniz Pereira do íucceíTo de 
Cebú , e como cumplía ao fervi^o de El- 
Rey tomar M 5 pera o que pedio ajuda de 
foccorix) pera aquella jornada; e como D* 
Xeonix eítava; vidoriofo . Qom a máo fo^a^ 



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Decada Vffl. Caí¿ XX\?í tyf 

éA do íucceíTo do Achém ^ negociou logo 
cbm muita preíTa os proyimentos , é muni« 
c6es que havia de mandar ; e porque em 
Malaca eftava Simáo dé Mendoza , que ti^ 
nha vindo de fazer a viagem, ,d9 Sampaio do 
Governador Joáo de Mendojá, da qué ti** 
nha com a Fortaleza de Malaca ^ e viera 
rico , Ihe pedio quizefle ir áou^Ue fóccor- 
ro, por fer multo férvido de ElRey : e fe 
comejou a fazef preíles , e o Capitáo a ajun-» 
tar gente 5 e aínda ach^ duzentos e íln^ 
coenta Toldados , que embarcou no galeáo 
de Slmao de Mendoza ^ e hum fuibiráo do 
Capitáó dé Cliaul , é hum jun^o. 5 de que 
foi por Capitáo Gonfalo de Soilza^^ e dó 
iuftaráo Pantaleáo. de f^reltas ; e o Simáo de 
Mendoza deó de füa cafa ft fétenta ^ 011 
oitenta toldados , que levará no gáleao ^ a 
Viñte ^ e a trinta pardaos a cgda hum ; d 
embarcados os proviméntos , levou Simáo 
de Mendoza coiníígo lium Franciíco Gar- 
cez 9 Feltor de ÍD» DiogO de Menezes y &, 
lium íilho íeu j e feguindo fuá. derro^^ ^ fo-« 
ram ter a Tefnate , onde fouberam que o 
Capitáo Mor eftava emBacháOj pera onde 
logo foram ^ e ó Capitáo Mor eíhmou mui^ 
to o focícorro ; e como foi tempo de par- 
tirem pera Amboino j ¿&p á vela pera lá^ 
por fer aviíado eftarem lá leis ju^idos de Jáoá, 
em que^ havia feifcentos delles niui 4ét0if>; 
Coytol tom. V. P. L M mi-i 



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^7? ASIA 13* DioGO Dte Covro 

minados , e eftavam com fortes na jíraíaj 
pera defeñderem a defembarcajao ao ' Ca- 
pí táo Móf 5 osquaes Jáos tinhamtrazído d 
Governador daqueílas IWias , que fe chama- 
ta Ogeíftiro y({ne com os naturaes defen- 
dériam a prafe^- e que os Jáos commettelfera 
ó Capitáo dMüái" pela parte por onde defem- 
barcaíte : e áffirii os naturaes tinham orde- 
nado tres ¿mbofcadas , a que elles chamáo 
Garós , da copia de dous mil homens , que 
todos efperavam por momentos pelo Capí- 
fáo Mor. , 

^ Gonfaló Péfeira comj'toda a Armada jun- 
ta foi furgit eni Ámboino : e no mefmo dia fe 
foi peraéíte humAmboino, que eracabeca 
dehum daquelles lugares , e avifou Gonfalo 
Pereirá dé multas coufas muito importan- 
tes , e do ínodo de como os Jáos eftavam 
fortificados , e das embofcadas que Ihe ti- 
nham armado, Gonfalo Pereira honrou efte 
homem , e o acolheo pera fi , e com fuá 
ordem, econfelhó ordenou o defembarcar , 
que foi por efta maneira. A dianteira deo 
a Manoel de Brito cóm cem homens , a Si- 
iháó de Mendoza com a gente de feu ga- 
leáo y <í no meio o Capitao Mor com a ban- 
déirá de Chrifto, e D. Duarte deMeneZrCS 
na retaguarda com outros c«m homens. 
Manoel de'Britd levava ordem pera coní- 

iriéífer ¿s tránqueirasj eSimáo de Mendo* 
.i-a ... ...•.■•.,•.., jai 



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©ECÁDÁ ^fíít tÁV. t^é' if^ 

6á , O Gapitáo Mor , 6 D. Duarte pera éiú 
tres bataltióés cómmettérem os embofca-' 
dos , que eftaváo defeuidados do Capitáo 
Mor faoer o modo de como o efperaváo. 
Manóel de Brito coni ó feu efquadrao re-' 
inetteó as tranquéiras dos Jáos cpm muita 
Valor , e déterxninafáo , e traballióu pelas 
entrar; mas osjáós-j aueieftavam amoucos^ 
fe defendéram tao valerofamenté ^ que da 
primdra pancada Ihe matáram íete , ou oh 
to homens , e feríram muitos ; todavía os 
líoíTos apertáram taíito com elles ^ que ca-^ 
Valgáram as tranquéiras ; é defcidos abai-* 
xo , dcram ém t)utra trañqueira pera a par-í 
te onde havía duas portas , éfpajo huma da 
outra , cóm hum térréird entré eílas ^ no 
qual Manoel dé Brito foi rebatido muitaaí 
vezas , e o tiyetam encóftadoi ás frariquei-» 
fas quaíí peMido. ^ v 

Eftando neffte eonAlcítO , fébefííáf'árfl oé 
das ciladas , que comníettéram Simáo de 
Mendoja , e o Capitáo Mor a quem cércá- 
ram , porque detérmiiíavam haveUo ás fnaos ^ 
porque tiníiam ordem de EÍRejr dé Téma- 
te que alfím o fízeíTem. Éfte actómmetti-» 
mentó foí com faílta determinajáó , que eP 
fiveram ós ttpíFo^ perdidos de todo , e o Ca-* 

Ínfio Móf fé vio em táí' éftadó y <Jué pele- 
ou máis por falvar a vida, que pói' alean- 
jajr Vitoria ^ como fez Ceíaí cm H¿fpanh¿ 

M ii Ha 



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i8p ASIA DE DroGO D£ Cotrro 

na batalha que teve com os filhos de Pom? 
peo 'y e aíllm foi animando os feus , que a 
poder de multas feridas rompéram os ini- 
migos , indo fempre Simáo de Mendoza na 
dianteira pelejando com os de huma dia- 
da , porque a outra commetteo o Capltao 
Mor ; e a terceira D, Duarte de Mene- 
zes , que todos fizeram muito altas cavalla- 
rias ; e a Simáo de Mendoza feríram trin- 
ta.homehs, e matáram finco ^ ou feis , em 
que entrou Antonio de Paiva. Efte aílalto 

3ue os inimigos deram nos noíTos , foi á 
efembarcagáo ; e os noíTos depols que os 
apertáram* ', os foram levando até ás tran- 
queiras > ficando-lhes ao redor de oitenta 
mortos , e mais de cem feridos* 

Simáo de Mendoza que lila na Vanguar- 
da y chegou ás tranqueiras ao mefino tem- 
po , em que Manoei de Brito eíbva encur- 
Talado , e quafi perdido entre as portas , as 
quaes commetteo com multa determinajao, 
c Balthazar Correa% que ha pouco faleceo 
em Goa , que levava a bandeira de Simáo 
de Mendoza , entrou primeiro com ella pela 
porta , appellidando Sant-Iago j e ajuntan- 
do-fe Simáo de Mendoja , eManoel de Bri- 
to , deram ¡á com mais folego nos inimi- 
gos , e os feváram até os metterem pelos 
matos-, por onde a npfla efpingardaria Ihes 
foi matando alguns. 
' ' Goü- 



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Década' VIII. Cap. XXV. í8| 

' Gonfalo Pereira quando chegou ás tran- 
queiras > áchou tudo concluido , e fói en- 
trando a povoa^áo , onde alguns fe acólhé-- 
ram ; e porque vio entrarem os feus dejp 
mandados a roubar as cafas , onde os Jáos 
tinham muito cravó , mandou pór fogo a 
tudo, que ardeo com muita braveza , e as 
chammas foram as que lanjáram os noíTós 
pera fóra quali chamuícados , porque a cu- 
bija do faque Ihes fazia nao fentirem a» 
labaredas : e da mefma maneira mandou o 
CapidoMór pór fogo aos juncos dos Jáos 
que eftavam varados , que íoi huma medo- 
ñha coufa ver fuas chanunas. 

Feito ifto , fe embarcou o Capitáo Mor , 
e efteve no mar tres , ou quatro dias cu- 
rando os feridos ^ nos quaes foi avifado, 
que os Jáos que :efcapáram , eftavam aco- 
Jhidos ás ferras , aonde aífentou hillos bus- 
car 5 pera o que fe fez preftes , deixando 
boa guarda na Armada. Uefembarcou com 
toda a gente , e mandou levar muita agua , 
e muitos mantimentos , porque havia de gaC- 
tar alguns dias ;e pondo a gente em ór- 
dem j foram marchando pera as fetras , e 
logo fe puzeram em fima de huma dellas , 
em que nao eftavam os Jáos, porque eram 
duas ferras pegada huma á outra j e toma- 
das por huma banda, parecía huma fó , e 
^ftayámtáo juntas, que feouvia agente de 
humsL á outra* O 



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i^i ASIA DE DioGo DE Corro 

O Capit^o Mor mandou D. Duarte^ 
oue com a fuá conipanliia foíTe bufcar a 
íerventia da outra ierra ; e indo em fuá de« 
manda , encontráram huns poucos de ferví-' 
dores^ que defcéram abaixo a bufcar man* 
timentos , e indo os noíFos feguindo-os , 
^Ues mefinos Ihes foram mpíb'ando o ca- 
minho i ^ poítos ^m iima , come^áram os 
Jáos a bradar por pazes ; e como fe ou^ 
yiam, eviam, mandou Gonfalo Pereira ca» 

Eear com huma bandeira branca , e dizer-» 
íes de cá alto , que fe yieífem a elle , quQ 
Ihes concedería as pazes , e Ihes fegurav4 
as vidas i coni p que elles foram trazidos 
por D. Duarte , e o Capitáo Mor Ihes to^ 
mou as armas , e Ihes concedeo que fe fo£> 
fem livremente pera fuas térras , comp el- 
les logo fizeram em huma champaña que 
alli houveram, 

Acabados de reduzlr i obediencia slU 
guns levantados , e quietar multas coufas ^ 
fez-fe preftes o Capitáo Mor pera voltar 
pera Maluco , e tornar a demandar os CaA 
telhanos , pera o que defpedio Balthazar 
Correa na galeota deSimáo deM^Uo com 
recado aos Keys de Bacháo , e Tidore , a 
pedir-lhes eíHveíTem preñas pera o acompa- 
nharem n aquella jomada , pois eram ami-f 
gos do Eftado : ao que elles deferíram lo-^ 
f P ^ porque prepará^qi fuas Armadas , pe» 



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Decada VIII. Caf. XXV. 183 

ra tanto que p Capitáo Mor chegaíTe ^ o fe^ 
guirem, o qual nao tardou nms,que vint^ 
aias depois de defpedir Balthazar Correa, 
deixando Sandio de VafconceUos .por Ga^ 

?itáo do mar. Chegando o Capitáo Mor ^ 
^ernate com a fuá Armada^ íe comejou 4 
negociar pera a jornada dos Caftelhanos , 
acnando já os Reys de Tidore-^ e Bacháo 

})reftes , e pedio ao Rey de Tern^te leu fir 
.lio pera ir com elle, o qual Ihfi ^|le con- 
cedeo , e llie armou quinze corpqpraá.i/^ 
tudo preftes , deo o Capitáo Mor á vela com 
toda efta Armada, que era fantaííica, porr 
que nao leyava mais de trezentos homens j 
e feguindo fuá derrota , logo aos prímeiros 
dias fe defviou o Babú filho de ÉlRey de 
Ternate , e foi-fe na volta de Malaca a rou- 
bar, porque todos eftes Malucos famgran* 
des ladr6es ; mas nao Ihe fucc^deo bem na 
yiagem , porque por.lá Uie matáram mais 
de trezentos homens , com o que Ihe foi 
forjado recolherrfe outra vez a Tei-nate. 

O Capitáo Mor í/ji feguiíjdo. fuá jorna- 
da com monyáo tendente , e em breves dias 
foi furgir com toda 4 Arn\ada na bahía de 
Cebú , onde os Caftelhanps tinham hum ar- 
xazoado Forte em fprma triangular, mui bem, 
ordenado com mijitQ boa artiiheria. Aq 
Itempp que Gmülq Pereira chegou alli, ti- 
l»ha o Bifcauiíw. ogi». Roldados 4 porque p^ 

mais 



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'x84 ASIA DE DioGo de Comro 

mais andavam efpalhados p*ela térra ; e íe 
o Capi^ Mor commettéra logó a Forte, 
iem duvida o ganhára y e houvera ás maos 
o Capitao : o qual vendo-fe perdido , e íem 
remedio , raleo-fe de feu artificio , c man- 
dou vifitar o Capitáo Mor , e iazer-lhe mui- 
tos offerecimentos , e fe Ihe oflFerecer pera 
tildo o que quizeñe , porque todos eram 
huns y e yaíFallos de dous Reys tantas ve- 
zes primos , cunhados , fogros , e genros : 
c com eftes recados foi-o entretendo. 

GonfaloPereira, quesera bom Fidalgo, 
cuidou que oBifcainho tinha o corado tao 
limpo, e fingelo como o feu, dando-lhe a 
entender que faria quando quizeífe alguns 
banquetes , e mandando-lJie muitos mimos , 
e prefentes ; e deílas demonftrajóes tantas , 
que houve Gonfalo Pereira <jue tinha o ne- 
gocio concluido y e que o Bifcáinho fe Ihe 
entregaría com toda a Armada ; e em quan* 
to duráram viíita^Óes , fe foi ajuntando a 
gente que andava efpalhada ; e tanto que 
ó Bifcamho í4 vio cotti poder, fez-fe n'ou- 
tro bordo , e comecotí a galantear , e a mu- 
dar o propofito. O que vifto por Gonfalo 
Pereira , achou-fe engañado , e arrependido 
a tempo que já Ihe nao aproveitava ; e que» 
rendo tomar conclusáo no negocio , Ihe man- 
dou hum requerimento por efcrlto • o qual 
]h9 foi notificar o Ouyidor da 'Armada y oijt 

fub- 



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Decada VIIL Cap. XXV. . i% 

lubftancia era, que aquellas Ilhas, e as dé 
Maluco eram da conquifta , e demarcajáo 
de ElRey de Portugal: e que fe fizeíTe pres- 
tes com todos os leus pera fe embarcaren! 
Ha fuá Armada pera a India, e que lálhes 
dariam embarcajóes perapaflarem aoRejr- 
no ; e que nao o querendo fazer , faria el- 
le Capitáo Mor o que fóíTe ferviyo do feu 
Rey. 

O Bifcainho Ihe mandou dizer , que eC- 
tava engañado com elle : que nao Iiavia de 
largar aquellas ühás que eram de ElRey de 
Caftella, fenáo depois que largaíTe a vida j 
mais como vaíFallo que era de num Rey táo 
conjunto em parentefco com o feu , Ihe da- 
ría duzentos Hefpánhoes pera o ajudarem 
ñas coufas das Ilhas de Amboino , pera on- 
de viera j com tanto que Ihes havia de dar 
embarcafóes pera irem feparados dos Por- 
tuguezes , por efcufarem defavenjas , pela 
antiga emula^áo queeftas tia^Óes tem huns 
com os outros. 

O Capitáo Mor , vendo o defengano , 
c entendendo que debaiio daquélle cunv* 
iprimento vinha a malicia encuberta , que 
era tratar de fe levantar <?om as embarca-^ 
^6es que Ihedéfle, e com ellas dar nosnof^ 
ios , c deshará tallos , e ainda fazei'-fe fe* 
nhor de todas as Ilhas de -Maluco , cahio 
«K)S erros cpe tiiüía feito em fe engañar dos 
- .■ pri- 



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f85 ASIA DE DiOGO D£ COUTO 

primeiros afanos , e cumprimentos do Bif* 
cainho : couia mui eftranna nos Capitáes , 
que devem de imaginar fempre malicia , e 
engaño no peito do inimigo , e vencer mais 
com cautelas que com armas y foíFreo fuá 
magoa , e comejou a tratar do que con- 
vinna. 

Eftando aflim as coufas em diílimula^ao 
de ambas as partes , fuccedeo fugirem aj- 
guns Hefpanhoes pera a noíTa Armada ; pe- 
lo que receando-íe o Bifcainho que fe ilie 
foíTem poúcos , e poucos , quillos atemori* 
zar com mandar lanzar pregóes , que tanto 

aue fe achaífem dous Heípanhoes aparta- 
os fallando > logo Ihes deífem garrote : e 
alfim fe executou illo em alguns Tem pieda- 
de alguma. 

O Meftre de Campo , que tambem era 
Bifcainho , e mal inclinado , determinou _de 
armar aos noífos por efta maneira. Os CaP 
^elhanos, que fequeriam paflar pera aArr 
mada , liiam dillimuladamente pela praia , 
&té fe metterem em hum arvoredo , donde 
capeavam com huma toalha , pera que os 
foíTem tomar , como hiam os nolTos nos 
bateis dos galeóes j e ifto foube o Meftre 
de Campo , e quiz armar aos noífos com a 
mefma negaba , e mandou metter cem eC- 
copeteiros entre aquelle arvoredo , donde 
es outros faziamo íinal^ e mandou a hum 

quo 



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Decada VIII. Cap. XXV^ 187 

iquc foíTe capear , pera o irem tomar j e em 
c vendo da Armada , arrancou de hum ga- 
leáo hum batel , e chegando á praia , Fo- 
ram faiteados dos embofcados , e com ar- 
cabuzaria matáram dous homens domar Por- 
tuguezes , e alguns marinheiros Arabios, 
Os que eilavam no batel afaftáram-fe , e fe 
recolhéram pera a Armada ; « nao fe con-? 
tentando oBifcainho com ifto, quiz fegim- 
dar ; e pera Ihe ficar tudo favoravel , fue-? 
cedeo dahi a poucos días ir p batel do ga- 
leáo deD. Duarte deMenez,es a fazer agual- 
da , e a lavarem os marinheiros roiipa eni 
huma parte defyiada j e como os Heípa» 
nhoes fam mais vigilantes que nos , deo o 
Meftre de Campo fobre elles , e matou a 
todos , e tomou o batel , e Ihe mandou por 
o fogo á vifta da Armada : ifto fentio Gon- 
ialo Pereira em extremo pela perda da gen- 
te , e marinlieiros. Succedeo dahi a poucos 
dias irem humas fragatas dos Caftelhanos 
da Uha de Panei pera putra y e dando as 
noíTas fuftas nelles , os tomáram , e os CaC- 
telhanos foram levados vivos ao Capitao 
Mor. 

A. noífa. gente hia adoecendo da doen-^ 
jia que chamam Berebere, que he inchajao 
da barriga , e pernas , de que em poucos 
4ias morrem ; como morréram muitos •, e 
4pJi?goii dia 4e dez ^^ e.doze : o que viftq 

. pe- 



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i 88 ASIA DÉ DiOGO DE COTTTO 

pelo Capitáo , aflfeñtou de fe ir , mas quiz 
bater o Forte primeiro , como fez ; mas 
luccedeo-lhe mal , porque mais damno rece- 
béram os noífos galeóes da íua artilheria , 
do que cUes recebéram. E vendo o Capitáo 
Mor o pouco que fizera naqueila jomada , 
cnvergonhado , e arrependido fe fez á vela 
pera Maluco com trezentos Portuguezes me- 
iios dos quelevou ; e fegundo me contáram 
alguns homens bem pi-aticos nifto , que fe 
ácnáram com Gonfalo Pereira ém todas ef- 
tas jomadas , todas as ti^s vezes que foi 
contra os Caftelhanos , errou o alvo , por- 
que fe entendeo que houvera de mandar fa- 
ier aquelles requerimentos por humolficial 
que foíTe em duas , ou tres corocoras ; e a 
jpeflba , que a iíTó havia de ir , devia de fer 
inais agudo que ó Rombo , que foubeífe no- 
tar o modo de como os Hefpanhoes eíla- 
vam , e quantos eram, e fe Ihes tinha viu- 
do íbccorro j e tendo-o já , diífimular com 
o negocio ; e fabendo que eftava em eftado 
de o poder commetter , ir lá em peíToa , e 
poderla fer que com a vifta daquella Ar- 
mada fe moveíTem os feus a aconfelbarem 
aó Bifcainho a entrar em algum bom par- 
tido ; mas femprefora melhor nao paflar 
lá , nem arrifcar a honra , a vida , e ainda 
a alma, porque pera aquella jomada toniou 
multa fazendá a- partea. , que fempre pedí* 

ram 



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Decada VIIL Cap. XXV. iSy 

ram juftija a Déos , que pode fer que os^ 
ouviíTe , porque toda aquella Armada fe a^ 
cabou íem fazer fruto , e p Capitáo Mor 
faleceo miferavelmente , ficando devendo ás 
partes mais de felíenta mil cruzados , que 
nunca fe Ihes pagáram. 

Bem folgou ElRey de Témate de ver 
o Capitáo Mor tao inhabilitado como veia 
daquella jomada , porque fe receava delle , 
e todavía nao deixou de o ir vilitar algu- 
mas vezes ; e o Capitáo Mor nao eftava com 
o penfamento fóra de o prender , o que nun-i 
ca pode fazer com feguranca : e com efta 
diíumula^ao fe come^ou a fazer preftes pe« 
ra tomar pera Amboino , e pedio áquelle 
Rey ajuda de gente , e corocoras y o quaí 
nao fó Ihe prometteo , mas offereceo-fe-lhe 
a fazer huma Fortaleza na Ilha de Ito de 

Eedra , e cal á £ia cufta ; com condi^ao que 
le haviam de ficar as Uhas VarenuUas , La- 
cide , e Cábelo , que fempre foram fuas , e 
tinha dellas Provisao ddJkey de Portugal, 
e com ifto düEmulou o Capitáo Mor ; e an- 
dando-fe negociando pera efta jomada , de- 
terminou de prender ElRey , e foi-lhe for- 
ado communicar aquelle negocio com al-, 
guns cafados antigos , que Ihe louváram a- 
quelle propoííto. E como o Capitáo Mor 
determmava prender ElRey, e os filhos jun- 
tos , ordenou de Ui^s dar hum banquete antesJ ' 

de ^ 



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IpÓ ASÍA DE í)lOGO DE CotrtGi 

de fe partir , no qual fe faria aauella exé-' 
cujáo ; e encontrando-fe com ElRey hum 
dia j Ihe diífe , que defejava de antes que 
fe embarcaíTe feftejar fuá ida com hum re- 
gozíjo delaranjadas no mar emcorocoras, 
e que dalli iriam merendar : o que Ihe El- 
Rey louvou , e agradeceo ; e ao dia apra- 
zado pera a fefta , eftando o Capitao Mor 
efperando por EÍRey , fe Ihe mandou deA 
culpar , que fe achara aquella noite mui mal-^ 
tratado , que Ihe perdoaíFe : ao que elle Ihe 
mandou dizer , que Ihe pezava muito ; e 
que pois nao podia ir, e a fefta eftavaapa- 
relJiáda, mandaífe feusfilhos emfeu nome; 
é entendendo ElRey a tenjáo do Capitáa' 
Mor , porque de CoíTairo a CoíTairo nao fe 
perdem mais que os bares , ( como lá di- 
zem ) Ihe mandou dizer que todos eram fó- 
ra defde o dia atrás , com o gue o Capi- 
tao Mor ficou atalhado , e trifte , porque 
entendeo que ElRey o entendia ; mas foi- 
Ihe neceíTario diílimular y e Ihe mandou pe- 
dir o foccorro , porque fe quería partir , e 
já ElRey de Bacnáo era chegado com fuas 
corocoras pera o acompanhar : ao que Ihe 
to'mou a mandar dizer , que Ihe daría o foc-- 
corro que Ihe prometiera , com tanto que 
Ihehavia de deixar aquellas tres^ Ilhas que 
Ihe pedirá. Enfadado o. Capitao Mor, Ihe^ 
ttiandou. dizer,; que aquellas ha:^am de fer 

as 



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Decada VIII. Cap. XXV. 291 

as primeiras que fubjugaíTe pera a Coroá 
de Portugal : e aflim ficáram de todo deA 
avindos ; e o Capitao Mor fe fez á vela pe- 
ra Amboino , acompanhado delRey de Ti* 
dore , e do Bacháo , que era ChriMo. 

E porque nao dei atégora razáo defta 
Ilha de Amboino , é da perfeguijáo defta 
Chriftandade , o fareí agora aqui , porque 
de propoíito o guardei pera elle lugar ; e 
pofto que na mimia quarta Decada já tenho 
dado relajáo de todos eftes archipelagos , 
o fárei agora particular defta Ilha de Am- 
boino , ou de Ito 5 que he o feu verdadeiro 
nome ; e chama-fe allim ; porque o princi- 
pal lugar della fe chama Ito , mas o nome 
mais ordinario he Amboino. Efta Ilha he 
a maior das de todo aquelle archipelago, 
dalli até Maluco : terá trinta leguas em cir- 
cuito.: he toda cheia de muito frefco arvo- 
redo , e retalhada dos mais fermofos , e fe-* 
renos ribeiros que ha no mundo : o maior 
pego delles dará pelos pcitos a hjüm ho- 
rnera , e correntes brandas , liiaves , e gra- 
ciofas por debaixo daquelles arvoredos , que 
nao ha mais querer, nem quedefejar : to- 
do o mato he de arvores de fmtas excel- 
lente^, e muito goftofas , de dori6es osme- 
Ihores do mundo , por ferem fermoíiífimos , 
grandes ^ e faborolos ^ infinidadé de frutas 
4de efpinhoi ^é cravo^ noz^ maca, muito 

fa- 



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192 ASIA DE DiOtíO DE CoüTCt 

íagú , que he o mantimento ordinario , co- 
mo a noíTa farinha de trigo , mui fádio , e 
3ue farra, e nao enfaftia: tem arroz, eto- 
a a forte de legumes , gallinhas , porcos 
do mato , muito peixe éxcellente de muitas 
fortes , de maneira que he abaftadillíma de 
todas as coufas deftas. Hepovoada deduas 
caftas de gentes : Mouros ^ a que chamam 
Ulilimas , que fam os naturaes ; e gentios , 
a que chamam Ulijivas , e fempre entre el- 
les ha brigas , e difFerenjas. Os Uliíívas 

?oíruem quatro lugares , Rofetelo , Ative, 
^avire , e Bagoela , que todos ficam na con* 
tracofta da llha em liuma grande enfeada 
que alli faz , que fe chama a Cova , por fer 
muito penetrante ; os outros tres lugares pol-- 
fuem os Ulilimas. 

Os Itos foram os primeiros que reco- 
Ihéram os Portuguezés naquellas Uhas , e 
que Ihes deram vaíTallagem. Pela amizade 
que os noíFos aeháram nelles, puzeram em 
íua povoajao hum padrao de pedra com as 
Armas Reaes ; e como aos navios que vi- 
nham de Maluco ^ Ihes era neceíTario inveiv 
narem em Amboino até á monjáo , que era 
tres mezes , e em toda a praia de Ito nao 
havia furgidouro > e acolheita fegura pera 
os galeóes , por fer toda a coila brava , que- 
rendo os Itos moftrar-lhes o amor que ihes 
tinhain , e juntamente com ilFo pelos pro-» 

veí» 



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ÜEcAbA Vin. Cap. XXV. t^t 

yeitos que Ihesvinhani daquella invernada, 
porque Ihes compravam muito bem feüs 
mantimentos , e fazendas , ihes naoftráram 
hum porto da outra banda ^ chamado a Coi* 
vaj muito feguro de todos os ventos ^ por 
fer huma eníeada muito penetrante^ como 
dizermos o circulo que fazem os dous de- 
dos da noíTa mao, o grande, e o demoní* 
trador , e dentro fe encoftam os galeóes 
tanto á terrá , que eftam com pranchas nel- 
la táo feguros , como em huma cafa , e ca- 
berám dentro dez galeóes juntos. 

Nefta enfeada tinham os Itos Mouros 
alguns lugares , dos quaes fízeram os Itos 
doajáo aos Portuguezes que alli foram , pe- 
ra o fervifo, e meneio dos galeóes : e alr 
lim fe Ihes affeigoáram , que viefaní a to- 
mar noíTa fanta Fé ; e quando alli foi ter o 
Padre Meftre Francifco Xavier , profeguio 
naquella boa obra , efez huma grande quan- 
tidade de Chriftáos ; e nao fcS naquellas Ilhas , 
mas ainda ñas de Maluco , morou aquelle 
fervor de ferem Chriftáos : levantáram a bor 
Jada os Itos , e nao os quizeram mais re- 
conliecer por fuperiores como dantes. Pelo 
grande favor , e amizade que os noífos a- 
cháram naquelles moradores , fe vieram mui- 
tos a cafar com íiías filhas , e multiplica- 
rem em gera^o, vivendo commuita quie- 
tacáo > é amor. ... 

CoMto. Tom.F. P.L N Eft 



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194 ASIA DE DiOGO DE CotJTÓ 

Eftando aífim , fuccedeo virem á praút 
de Ito duas coroceras de CeirÓes , que íapi 
moradores de huma Ilha chamada aífim , os 
quaes deram alguns aíTaltos aos Itos j em 
que matáram alguns , e fiieram alguns rou- 
bos ; e todavía tornando os Itos fobre fi, 
deram nelles, e matáram todos, elhes to- 
máram as corocoras : o que fabido na iua 
Uha 5 Ihes fizeram huma grande Armada de 
corocoras tamanhas como gales , pera fe 
irem fatisfazer dos Itos , que logo foram 
avifados ; e como fabiam que os Ceiróes 
comiam carne humana , querendo-fe tambem 
preparar pera os efperar, mandáram pedir 
foccorro ao Capitáo de Maluco , que entao 
era Antonio de Brito , o fegundo que foi 
daquella Fortaleza , quafi nos annos devin- 
te e feis , o qual Ihes mandou em huma co- 
rocora vinte rortuguezes , os quaes em Ito 
foram bem recebidos , e logo ordenáram 
com os naturaes huma Armada , em que fo- 
ram bufcar os Ceiroes , que já andavam fó- 
ra ; e encontrando-fe huns com outros , fou- 
beramos Ceiroes que allí vinham Porm- 
guezes , que entáo eram temidos , como hoje 
yituperados , e mandáram pedir pazes aos 
Itos , que Ihes elles concedéram ; mas os; 
noíTos nao quizeram vir niflb , fem Ihes da- 
rem duas mil caixas de curo : em fim vie-» 
ram os Ceiroes a Ihes conceder mii caixas ^ 

^ . que 



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Década VIIL Cap. XXV. 195' 

que tudo feriam quinhentos pardaos : com 
o que os Ceiróes fe recolhéram , depois de 
contribuirem com o dinheiro ; e em quanto 
os noíTos fe nao tomáram pera Maluco 5 a- 
quelles lugares os fuftentavam , e Ihes da- 
vam todo o neceíFario , e os banqueteavam 
a feu modo ; e eftando aquelles Portugue- 
zes pera fe partirem pera Maluco , Ihes de- 
ram os Itos num banquete , em que fe achá* 
ram ao redor de trezentas pelToas dos prin- 
cipaes , em que entravam Ginulio , Corafo- 
ne , e Babacnar ; e eftando na forja do ban- 

Suete , foram vello todas as iiuillieres , e fi- 
las dos que fe achavam prelentes , e en- 
tre todas era a mais fermofa , e galharda 
huma filha de Ginulio ; e oarece que hum 
daquelles Portuguezes , que Jiavia de fer gen- 
te baixa , e devia ter bebido mais do ne* 
ceíTario , vendo chegar a moja , levantou- 
fe da meza , e foi-fe a ella , e comecou de 
a abracar : o pai muito quieto Ihe diüe que 
fe aífentaíTe , que aquella moca tinJia alli 
pai , e parentes > e o mefmo Jhe diíleram 
todos ; e nao dando o pobre homem por 
nada , tornou a pegar della de má feiyao , 
a que acudió opai , e Ihe diífe que fe aquie- 
tare , e fe folie aflentar ; ao que elle fem 
coníidera^o levantou a mao , e Ihe deo hu- 
ma grande bofetada. 

O que vifl» pelos Itos , levantáfam-fe 
N ii pe- 



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1^6 ASIA deDiogo de Couto 

pera o matarem , e a todos os Portugue- 
zes , ao que Ginulio acudió , e os aquie* 
tou , dizendo que a culpa de hum fó nao 
era jufto a pagaíTem todos : e logo negó* 
ciáram huma corocora , em que mandáram 
embarcar todos 'os Portuguezes , e que fe 
foíTem pera Maluco : e efcrevéram ao Cz^ 
pitío, que alli Ihe mandavam aquelles ho- 
mens , porque Uios mandara de foccorro: 
que daUi por diante tiveíTem os Portugue* 
zes aos Itos por inimigos capitaes : e que 
negavam a vaíTallagem a ElRey de Portu- 
gal , em final do que mandáram logo á vif- 
ta dos Portuguezes derrubar o padrao das 
Armas Reaes , e fazello em pedajos : e que 
os avifava que nenhu^ Portuguez aportalTe 
naquellas linas , porque todos haviam de 
matar : e mandáram logo oíFerecer vaflalla- 
gem áRainha dejapará, pera que Ihesdéf- 
le fempre favor contra os noílos : e affim 
dalli em diante Ihes comejáram a fazer crue- 
liffima guerra ; e nao ficou aos noíTos ga- 
leóes y que. ao depois alli foram ter , ou- 
tro refugio , que o favor dos A ti ves , e Ta^- 
vires 5 que eram Chriftaos , e ainda trabaíhá- 
ram por Iho tirar , porque Ihes mandáram 
notificar multas vezes que os nao provef- 
fem , nem os.agazalhaílem , fenaó que os 
deftruiriam : ao que Ihes mahdárám reípoit* 
4er^ que elles eraxn Chriftaos ^ emuitQ^ami-< 
- g08 



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Decada Vin. Gap. XXV. 197 

gos dos Portuguezes : que os haviaiA de fut 
tentar , e prover até perderem as vidas. 

Efta reípofta fentíram os Itos tanto , que 
logo fe preparáram pera irem fobre elles , 
porque Inés tinha chegado hum grande foc- 
corro de Jáos ; e aj untando hum grande ex- 
ercito , foram caminhando por térra , e em 
muito filencio deram fobre os dous luga- 
res, e os abrazáram , matáram., ecativáram 
muita gente : e quiz Déos que dous Padres 
da Companhia , que alli eííavam fuftentan- 
do aquella Chriftandade , com alguns Por- 
tuguezes que alli íicáram de dous galeóes 
de Maluco , que alli invemáram , tiveram 
tempo de fe falvarem do meio daquellas la- 
varedas com alguns Atives , que os feguí- 
ram , e fe embarcáram em duas corocoras , 
que fe paíFáram pera as Ilhas de Liacer , que 
eram dalli doze leguas , onde ha muitos lu- 
gares todos Chriíkos , que agazaiháram os 
Padres , e a todos com muita. cjiridade , e 
os provéram fempre de todo o neceíTario ; 
e nao fe contentando os Itos com a deftrui- 
jáo que fizeram, ajuntáram fuá Armada, e 
foram correr os lugares que eftavam á obe- 
diencia de Portugal, e os fujeitáram áfua; 
^aosque nao quizeram, fizeram cruel guer7 
ra , cativando , e matando a todbs os qu^ 
acháram. Entre os cati\^os,foi hum Regulo 
de Qeate Qirifiáo ,, o qual porque, nao qui'4!: 

re» 



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tpS ASIA DE DiOGO DE CotJTO 

retroceder , nem renegar , foi amarrado ai 
hum efteio , e alli Ihe foram cortando a car- 
ne pouco a pouco , e a hiam aílando^em 
brazeiros , comendo-a diante delle , e aínda 
Iha mettiam na boca , e faziam maftigar, 
perguntando-lhe fe Uie fabia bem , ao que 
relpondeo que muito bem , pois era liía car- 
ne : e aflim efteve efte Martyr de Chrifto 
com o corajao fempre nelle muito firme , e 
confiante em meio daquelles novos tormen- 
tos y e antes que efpiraíTe , parece infpirou 
Déos nelle , porque quiz que viíTem quao 
acceito Ihe fora aquelle martirio , e difle 
aos que o martyrizáram eftas palavras : )ijá 
5> que me martyrizais por nao querer rene- 
5) gar a Fé de Chrifto , e coméis minlia car- 
» ne 5 tomai hum pedajo della , em qué nao 
» entre oíTo , e mettei-a em huma panella 
» nova , e dahi a vínte e quatro horas tor- 
)»nai-a a ver; e feachardes a carne desfeita 
)» em oleo , fabei que a Lei de Chrifto , em 
)íque morro , he boa , é que ha Déos de 
»permittir que os Portuguezes vinguem ain- 
> da efta crueza , que comigo ufaftes » e com 
ifto efpirou. Os algozes crueis depois delr 
le acabar , fizeram o que elle dilTe ; e indp 
ao outro dia depois das vinte e quatro ho- 
ras pafladas , acháram a panella cheia de 
©leo íuaviífimo , de que todos ficáram. et 
{>aQtados. Ifto me aífinuáram alguns.Fortu- 



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Decada VIII. Cap. XXV. 199 

guezes que fe acháram allí , e o certiíicáram 
os jplmbaixadores Chriftaos , que vieram ao 
Vifo-Rey D. Aniáo , e o achei efcrito de máo 
em hum Tratado daquellas Ilhas feito por 
hum curioíb que a ellas foi com Gonlalo 
Pereira Marramaque : e eftes milagres , e 
outros muitos obrou Déos noíTo Senhor por 
aquellas partes y que ficáram em efquecif 
mentó por falta de efcritores , o qual eu 
tambem fenti muito nefte tempo , porque 
nao achei memoriaes , e fó me.vali de in- 
forma96es de homens que fe acháram ñas 
coufas que efcrevo , que eu tenho por ver- 
dadeiras , porque conferíram com outras 
que eutiniha, e nunca achei encontrarem-fe 
huns com os outros. 

Chegado o Capitáo Mor a Amboino, 
logo os Itos fe fortificáram , e convocáram 
ajuda dos vizinhos , e da Rainha de Japa-r 
rá, que já os tinha debaixo de fiía protec- 
jao. O Capitáo , prim^eiro que Ihes iizeire 
guerra , os mandou convidar com a paz , e 
com promeíFas de multas mercés , e amiza- 
des muito avantajadas das que até entao tive- 
ram ; mas elles como eftavam foberbos , reC» 
pondéram , que nenhuma amizade queriam 
com os Portuguezes , mas que Ihe mandavam 
dizer , que fempre elles teriam os Itos por 
inimigos mortaes , e que haviam todos de 
xnorrer por fuftentarem fuá liberdade. 

Ven* 



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400 ASIA deDiógo DECoxrro 

Vendo o Capitáo Móf aqudle defenga* 
no , deixou os galeóes na Cova , e embar- 
cou-fe na fufta com toda a foldadefca , in- 
do em fuá companhia os Reys deTidore, 
e Bacháb , e com toda efta frota chegou á 
praia dos Itos hum dia pela manhá , e os 
achou em fuas trancjueiras mui fortificados , 
e foberbos. Aquella noite gaftou o Capitáo 
Mor em ordenar o que Ihe era neceflario 
pera commetter os inimigos , dando , e re» 
partindo os lugares que osCapitáes haviam 
de ter , por efta maneira. D. Duarte de Me- 
nezes na dianteira com Ayres Gomes de 
Brito , e Sancho de Vafconcellos com a me* 
IJior gente da Armada j e no corpo da ba- 
talJia Joáo Rodrigues de Béja com huma 
companhia de foldados ; e Gonfalo Pereira 
Marramaque havia de levar a retaguarda 
com trezentos foldados , e em liía compa- 
nhia os Reys que já diíTe ; e ao outro dia 
ordenando fuas coufas , commettéram os da 
dianteira as tranqueiras com grande deter- 
minajáo , a que os Itos fe oppuzeram va- 
lerofamente , fuccedendo aqui coufas gran- 
des fobre a entrada , e defensáo , que eu 
nao particularizo. 

Os Itos vendo eftar os noífos embebi- 
dos ñas tranqueiras , defpedíram hum Ca- 
J)itáo Jáo com trezentos foldados efcolhi- 
clos , pera que folfem pelos mato? dar üv 
^ ' bre 



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Década VIH. Cap. XXV. aoi 

bre o Capitáo Mor que vinha na retaguar- 
da , aífim por nao chegar a ajudar os mais 
que commettéram as tranaueiras, como por 
verem fe o tomavam deícuidado , porquií 
podiam fazer algum bom feito ; e indo o 
Capitáo Mor bem defcuidado de tal fobre- 
falto , deram os Itos por detrás nelle táo 
. lubitamente , que fe vio embarazado , e os 
Reys de Tidore, e Bachao o largáram lo- 
go , e fe acolhéram á praia , onde tinham 
a Armada. Os Itos com aquelle impeto fo- 
ram entrando pelos noflbs, derrabando al- 
guns , e chegou a coufa a darem duas cuti- 
ladas na bandeira de Ghrifto. O Capitáo 
Mor vio alguma defordem nos feus; e ap^ 
pellidando Sant-Iago , fe poz diante de to- 
dos com huma efpada , e rodella , e fez tan- 
tas ca vallarías , que com os que ofeguíram 
lompeo os Jáos , e Ihes foí derrubando mui- 
tos , e entre elles foi o feu Capitáo Mor 
chamado Patalima , que quer dizer Senhor 
de finco lugares ; e os que efcapáram fe a- 
•colhéram ás tranqueiras com grande deftro* 
50 dos inimigos , que fe acolhéram ás fer^ 
ras 5 ficando os noílos fenhores dellas , e da 
povoajáo , onde acháram grande deípojo. 
Ayres Gomes de Brito ficou com huma lan-^ 
-jada por huma coxa , de que efteve mal : 
-perdéram-fe fó finco Portuguezes j e ficá- 
:téax finco feriaos» 

Ven^ 



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102 ASIA DE DiÓGO BE CoüTO 

Vmdo Gonfalo Pereira concluidas a$ 
toufas dos Itos , que eram principaes , de- 
terminou de acudir ás coufas deAmboino, 
e concertar os lugares dos Chriílaos , aue 
todos com as guerras eftavam quali deler- 
tos , e desbaratados , e a mor parte dos mo* 
radores aufeñtes ; e como os Itos ftmpre 
foram fenhores de todas aquellas Illias ^ e 
eram Mouros y que nunca foram amigos de 
Chriftaos fenáo por grande neceífidade , ou 
intereíFe , parece que fe arrependéram da 
vaífallagem que deram ; e confultando feu 

Eenfamento com outros , defapparecéram 
um dia , e paíTáram-fe a huma ferra forr 
tiíHma , e táo alta , que nao viam os paíía* 
ros fenáo pelas coilas , a qual tem huma fó 
ierventia pera a banda do mar , até huma 
povoajáo forte chamada Atulile , que elle$ 
povoáram de fuá gente , pera por elles fe 
proverem do necellario , e por via dalles fe 
carteavam com todos os levantados. 

Eftas novas teve o Capitao Mor por via 
dos Atives , pelo que logo foi com a Ar- 
mada fobre a povoajáo de Atufile , e lá fe 
fortificou da fortaleza da ferra, edefen^bar- 
cou na parte que melhor Ihe pareceo por 
ordem dos praticos da térra , e fortificou 
feu arraial o melhor que pode , e alli fe dei^ 
xou eftar , deitando efpias fobre a ferven- 
tia da ferra. Os Itos tanto que fouberam" a 
^ par- 



<;. 



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, Decada VIII. Cap, XXV. aoj 

parte, em que o CapitáoMór eftava, logo 
o comejáram a commetter com feus gar- 
ras , ou cUadas , em que fam táo dcftros ^ 
que he efpanto. O Capitao Mor vendo que 
por aquelle modo llie hiáo matando os iol- 
dados , e que os outros íe quebrantavam , 
mandou trazer gente dos lugares amigos, 
de que ajuntou huma quantidade , e com 
huns , e outros -quiz tambem fazer a guer- 
ra aos Itos com as meímas ciladas , e as 
encommendou a Lourenco Furtado, ajoáo 
Rodrigues de Béja , a Sancho de Vafcon- 
cellos , a Luiz Carvalho , e a outros. Eftas 
ciladas faziam duas vezes áo dia , huns en- 
travam , e outros fahiam ao fom de tambo- 
res que perailTo traziam; eandavam já os 
Itos táo enfaiados nefta ordem dos noíTos ^ 
que deo o Capitao Mor por ordem , que 
por nenhum cafo os que lahiflem da cilada 
tocaíTem a recolher , íenao depois da outrá 
companhia ter já chegado , e com efte ar- 
dil Inés matáram os noíTos muiros , porque 
emouvindo tocar a recolher, fahiam logo; 
c cuidando que os noífos fe hiam recolhen- 
do , davam com a outra companhia , que 
fazia nelles grande matanza. 

E oquarto que Sancho de Vafconcellos 
Jiavia de entrar no feu quarto , fahia delle 
Joáo Rodrigues , ao qual diííe o Sancho : 
j) Párente, eu determino paífar hoje olimir 

»te 



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ao4 ASIA DE DioGo DE Corro 

> te que nos eftá pofto , pelo que vos pe^o 
>que nao toquéis o tambor fenao mui lon- 

> ge daqui , porque quero experimentar a va- 
íílentia deftes Itos. » Era já fobre a tarde, 
Sancho levava comíígo os Rozanives , e fe 
foimetter pelo mato; ecomo fentio os Itos 
ao tocar do tambor de Joáo Rodrigues de 
Béja , deo-lhes ñas cofias , e Ihes matou al- 
guns ; e tomando hum ás máos , Ihe pedio 
elle que o nao matafle , que Uie moAraria 
o cammho que hia ter á Ierra ; e levando-o 
ao Capitáo Mor , fe Ihe offereceo ao por 
em fima da ferra com muita facilidade , o 
que o Capitáo Mor eftimou muito , e Ihe 
prometteo muito o fatisfaria ; e fazendo-fe 
preftes pera aquelle negocio , mandou levar 
o Ito a bom recado , e foi por onde elle 
o levou por efpajo de tres dias , e tres noi- 
tes , fempre por entre os matos ; e porque 
havia dous caminhos já perto do cume , dif- 
fe o Capitáo Mor a Simao de Mendoza , 
que com a fuá foldadefca commettelfe hum , 
e elle foi demandar o outro. Simao de Men- 
doza appareceo por aquelle caminho aos 
Itos , os quaes cuidando que por aquelle ca- 
minho hía todo o poder , acudíram aquel- 
la parte. O Capitáo Mor foi pelo outro ca- 
minho, que era huma eftrada muito larga, 
'pela qual foi até fe por em fima da ferra , 
e todavía foram os noíFos logo fentidos ; e 

dan* 



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Decada VIII. Cap. XXV. aojr 

dando fuas gritas , acudíram os mais aquel- 
las partes , e entre elles , e os noffos fe tra- 
vou huma afpera batalha , que durou mais 
de duas horas , em que todos fizeraiil ma- 
ravilhas com as armas , e houve mortos , e 
feridos de parte a parte, e hum delles foi 
JoSo Rodrigues de Béja , a quem deram hu- 
ma lanzada pelo buxo do brayo que Iho v^r 
rou ; e todavía apertáram os noíTos tanto 
com os Itos 5 que os foram levando de ar- 
rancada : nefte confli¿lo houve grandes caval- 
larias. Hum Belchior Vieira derrubou mui-^ 
tos dos inimigos á efpingarda , por fer mul- 
to deftro nella. 

Os Itos vendo-fe táo desbaratados, fo- 
ram demandar o lug?ir que defcia á praia, 
pelo qual fe foram acomendo , e os noíTos 
após elles derrubando muitos : os Itos prin- 
cipaes fe mettéram em huma mefquita ', on- 
de os noffos os cercáram ; e vendo-fe per- 
didos , arvoráram huma bandeira branca ; e 
vindo á falla , fe entregáram , e os folda- 
dos deram bufca áspovoajóes.daferra, on- 
de acháram hum arrazoado faco. 

Paffado ifto, fe foi o Capitao Mor pe- 
ra a Cova , onde eftavam os galeóes , e deir 
xóu,;na Fortaleza D. Duarte? de Menezes ; 
e da Cova defpedio Simao deMendoja pe^ 
ra ir a Maluco tomar carga ^ejrsi fe ir pera 
^ India > pojque íícára ;UU, milito cravo do^ 

g9r 



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^o6 ASIA deDiogo beCoüto 

faleóes de Joáo de Andrade , e Lopo de 
loronha , que foi fazer a viagem a Jorge 
deMoura pelo mefino contrato que elle fez 
com o Vifo-Rey , que era dar o galeao ap* 
parelhado , e Lopo de Noronha fazer to- 
dos os gaftos á lúa cufta , e dar em Goa 
mil e cem quintaes de cravo de cabeja , que 
eram mais de fincoenta mil pardaos. 

CAPITULO XXVL 

Da mor te que Diogo de Mef quita fez vr^ 
E/Rey de Maluco , e a caufa 
de fuá morte. 

HE necelTario primeiro que trate da in-»' 
jufta morte defte Rey , dizer as cul- 
pas que Ihe puzeram, pelas quaes o Vifa- 
Rey o mandava prender por Gonfalo Perei* 
ra Marramaque , e as poucas que teve pe* 
ra huma coula , e pera outra , no que me 
hei de deter mais do que foíFre o epilo^ 
go, porque fam coufas queimportam labe^- 
rem-le. 

Pelo difcurfo das minhas Decadas tenho 
cfcrito as vezes que os Reys de Maluca 
foram prezos , e vexados dos Capitaes in?» 
juftamente , e como elle Rey , de que hei 
de tratar , o foi por duas , ou tres vezes y 
e de huma mandado aoReyno, onde f&U- 

vrou. 



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Decada VIH. Cap. XXVI. 007 

yrou das culpas que llie puzeram ; e de to^ 
das as vezes cjue foi prezo , elle mefmo fe 
ofFereceo á pnzáo , fó a de D. Duarte De- 
ja foi violenta, efempre teve máo emfeus 
nlhos , e vaíTailos , pera que nao moveíTenl 
novidades por lüa prizáo ; e depois que o 
foltáram ninguem acudía ao fervijo de Por-* 
tugal , e áa neceffidades da Fortaleza pri- 
meiro que elle , nem favoreceo mais a Cliri- 
ftandade , como largamente o prova Gabriel 
Rebello no feu livro que compoz , intitula- 
do Retrato dos bens , e males do EJiado da 
India , que eu tenho em meu poder , como 

1'á diffe aos dezefeis Capítulos , onde como 
Lomem queefteve treze annos em Témate, 
€ vio eftas coufas com feus ollios , prova 
largamente eftas quatro coufas daquelle Rey : 
Primeíro , que Ihe tem ElRey mais obriga^o 
que ao de Cochim : fegundo , que nao teve 
vaíTallo mais leal : terceiro , que ninguem o 
fervio melhor : quarto , que eUe foi caufa de 
haver, e fuftentar a Chriftandade emTernate, 
c em fuas Uhas , onde havía mais de duzentas 
mil almas ; e em fatisfajáo difto , deixando 
as prizóes que diffe, e as affrontas quepa* 
deceo toda fuá vida dos Capitaes daquella 
Fortaleza , Ihe tomáram todos fuá fazenda 
por forja , porque de todas as Ilhas de fuá 
jurifdiccáo , fó a de Maquiem tinha pera 
íeus gaílos j edefpezas^^ deque tinha largas 

'Pro- 



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fto8 ASIA DE DioGO DB Coxrí* 

Provisóes de ElRey , a qual Ihe dava cada 
anno perto de dous mil bates de cravo , que 
nao tinha outra renda , e aínda eíta nao era 
cada anno > fenao de dous em dous 5 ou de 
tres em tres, com o que fe fuftentava pie-* 
dofamente ; e como a tyrannia dos Capi-» 
táes das Fortalezas da India he exceíliya> 
e nunca até hoje foi caftigada , nem aquella 
pouquidade queriam queaqueUe pobre Rey 
comeíTe, cafo digno de Déos noíTo Sei;hor 
caftigar , como fez com a perda daquella 
Fortalezíj ; porque o Mouro que nos reco- 
Uieo em fuá térra porfualivre vontade: que 
nos agazalliou de graja : que fe fez vaílal- 
lo de ElRey de Portugal , fem ver o cute* 
lo na garganta : que eiíe mefmo que nos a* 
gazalhou , e matou a fome, a efle defaga- 
zalliaífemos nos, a efle tiraflemos o pao da 
boca , cafo de grande crueldade , e muito 
pera ler aborrecido de todos. 

A efte Rey comejou o Capitáo Diogo 
Lopes de Mefquita a tratar mal por efta 
caufa ; e pofto que outros tomáram alguma 
mafcara pera fe disfarjarem , efte fem re- 
bufo , nem antolhos comecou a tomar o era- 
yo dcftá Ilha por efta maneira. Obrigavaá-^ 
quelle Rey a ll>e tomar tanta fazenda, que 
víefle amontar a copia de cravo, que aquel- 
la Ilha dava ; e como o tinha azido , por 
a^ poit eftanque jna Ilha ^ pejca.que nenJiU'ir 
^ . ma 



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Becada VIÍI. Cap.XXVÍ: 20^ 

tná peíToa lá paíTaíTe^ e mandara feuscria^ 
dos a recolhei o cravo, e Ihotomava peÍ6 
prejó de Ternaté , e pelo pelso de MaM 

. quiem ^ que he hum quarto mais em cada 
bar , e fobre iíTo efpancavam feus criados 
que ElRey látihliaj éfaziam outras for9aá 

. exorbitantes j e fe fe queixava deftas forjas, 
mandava-líie fazer outras peiores \ e fe algum 

.Religiofo o repreliendia em algum cafo, ou 
Iho eftrankava y nao refpoñdia mais^ fenáo, 
que nao fallafle míFü , qué o Rey era hum 
máo perro ; e com ó Viíó-Rey reprehender 
ifto por PfoVisÓes, nada baftou^ porque lá 
he tao longe j que huma fó vez em tres annos^ 
chega aquella térra a refpoíla das cartas. 

Succedeo , andando as cóufás defte mcH 
do , ir hum Padre da Companhia pedir a 
ÉlRey huma carta pera hum Regédor feu 

•vaflallo juntó do Morro faíer pagar huma 

■ divida a huns Chriftáos de huma Uha fuá 
Vizinha ^ a qual foi logo bem paga , e 09 
devedores houveram licenja dó Padre pera 
irem a outro lugar de Chriftáos arrecadar 
Oütra fuá divida , e foram lá a tempo que 
nao eftava lá o Padre, e náoacháram fenáó 
hum Irmáo , ou Coadjutor y o qual Ihes dea 
licenca pera levarem prezos 0^ déVedoresf^ 
fem íabef do cafo jnais , do que as parte» 
Ihe diíferam^ na qual pfixáo houve tal de£- 

*arranjo, que íicáram aiguas mo2tos«r 
Cwte. Tm.F.P.L O A- 



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aiO ASIA OB DiOGO DE COOTO 

Aconteceo depois que relídindo certos 
Portugue/es em outro lugar de Chriítóos , 
foramdar hum aíTalto em outro feu vizinho 
vaffallo do Rey de Témate , com quem ti- 
nham antiga reixa, o qual Rey de Tidore 
houve huma carta do Capitáo Diego Lopes 
de Mefquita pera os Chriftáos fe aquieta- 
rem com os inimigos ; e fegurando-íe com 
:ella os inimigos , deram os ChriMos , e al- 
. guns Por tuguezes nelles ,^ e fízcram o que 
quizeratn , e fem o CapitSo fazer cafo de 
íe fazer aquelle defarranjo á conta da fuá 
carta. Vendo hum Regedor do Rey deTer- 
nate que lá refidia, agueile defarramo, ou 
foífe com licen9a deElRey, ou deluapro- 
pria vontade , foi com fuá Armada fobre 
eftes culpados , e caftigou-os muito bem , e 
ajuntou a éftas queixas outrá peior , que foi 
efpancar hum Portuguez na Fortaleza a hum 
fotrinho de ElRey ; e hum natural que fe 
fez Chriftáo , e -fervia o Capitáo , matar ou- 
tro criado do Rey ; e fendo efte delinquen- 
te prezo j efcapou com huns leves tratos , 
-que por aquéllas Foitalezas nao ha mais 
lei ^e as vontades dos Capitáes. 

tom fim outros muiros aggravos que o 
Rey foíFreo , e diífimulou calando-fe j e por 
.nao ver tantas coüfas , a que fó com ma- 
gua , e fentim-ento podia acudir , fe paíTou 
áUha deMaquiem, onde o Capitáo Diogo 
'^^ » . . . Lo- 



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ÜÉtíADA VÍIÍ. Cap. ttVt ilt 

Lopes o mandava matar por LaÍ4 dé Car-^ 
valnó i de que logo foi avifado , x) qual fol 
M em huma íufta , que em eftando furta ^ 
Ihe quebrou a amarra , e a correóte a hia 
levando pera baixo , á quem ó Rejr man-» 
dou acudir por fuas col'ocoras , que Ine trou- 
xeram a fufta , e Ihe mandou dar outra a-* 
marra ; e embatcando-fci ó Rey em huma 
corocora ^ foi paíTando pela fuíla ^ epergun-» 
tcu ao Luiz dIeCarvalho, que fej quería al- 
guma coufa pera Ternate , aó que Ihe reí- 
pondeo ^ que Ihe relevava fallar com Sua 
Alteza ; e mettendo-fe em hum parao , che-* 
gou á corocóra do Rey , e paz a mSo ría 
adaga, o que ElRey vio, e Ihedifle: Gr»-» 
certai-^a bem j que tudo fe fabe , e mandoü 
remar pera Témate, onde defembarcou , e 
le foi pera fuá cafa* Era a efte tempo já 
chegado Simio de Mendoza de Amboino^ 
e eílava elle , e JoSo Gago de Andrade car- 
regando pera partirem pera a India ; e fa-^ 
bendo fer chegado o Rey , o foram vifitar , 
e elle Ihes pedio que o nzeíTem aiíiígo com 
o Capitáo , que com elle fef d aggravado ,- 
le fazia o delinquen te , porque entendía quef 
era aíSm férvido de EiKey de Portugal : o 
que elles tratáram cortí Diogo Lopes , e le- 
váram o Rey á Fortaleza ; e prefentes to-* 
deis os cafaaos , fe abraf árani , e alli jurá^ 
stam as pazes^ ávontade dated^sns em |mbli<r^ 

O ii ' c« * 



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112 ASIA DE DiOQO DE CoÜTO 

ca forma ; c ao tempo de o CapitSo jurar^"^ 
Ihe trouxeram humlivro profano peraiíTo, 
o qual ElRey conheceo , e diíTe que trou- 
* 3teíiem o livro , por onde o Padre dizia MiC- 
fa : em fim foi-íe bufcar o MiíTal , e jurou 
oCapitáo neUe o que teria na tenjao, que 
e0a ne fó de Déos. Feito efte a¿to , em que 
feacháram osOíficiaes, eaffignados todos ^ 
tecolheo-fe ElRey muito contente , e ao ou- 
tro dia deram os galeóes á vela pera Am- 
boino. 

Nao fe paífáram m^is que feis días de- 
pois deftas pazes feitas com táo folemnes 
juramentos , que ElRey nao fofl'e vifitar o 
Capitáo á Fortaleza ; e como o odio Ihe 
nao fabia dó cora^áo , tlnha praticado com 
lium fobrinho feu mancebo, chamado Mar- 
tim Affonfo Pimentel , ppra matar ElRey , 
aíErmando-lhe faria o maior feíTÍgo ao nof- 
fo de Portugal , que fe Ihe tomara dez ga- 
les de Turcos, e com iíTo Ihe palFou hum 
aífignado ; e ainda me diíFeram peíToas de 
crédito, emuita authoridade, que tambera 
ihe paííára hum certo Religiofo outro, em 
que dizia que por aquelle fervi jo Ihe daria 
blRey a Fortaleza de Ormuz. A peíFoa que 
mo dilTe he grave, c o cafo he duvidofo, 
porque o Religiofo náopodiaperfuadirnin- 
guem que matalTe , porque ficaria irregu- 
lar, em fim.eu efcrevo o que me alfirmái:aai 
nwitos, Ef- 



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Década VIIL Cap. XXVI. 215 

Eftando ElRey com o CapirloMór de 
vagar , Martim AfFonfo Pimentel eftava em 
baixo fazendo-fe preftes pera matar o inno 
cente Rey , e parece que foi avifado do ca- 
fo , e eftaria preparado. Tanto que fe El- 
Rey levantou pera fe ir , foi com elle até 
aporta do pateo; e ElRey fahindo-fe pera 
fora , fe fechou o poftigo , e houve algún» 
que víram o Capitao com huma cellada na 
cabeca , e hum montante ñas mSos. Mar« 
íim AíFoníb chegou-fe bem a ElRey , e Ihe 
diíFe : Pojlo que os gakSesJeforam pera a 
India y ainda cd ficdram rortuguezes ; e 
levando da adaga y Ihe foi dando huma , e 
outra. O pobre Rey vendo-fe daquella ma* 
neira , abrajou-fe com huma pega de arti^ 
Iberia , que tinha as Armas Reaes , e dilFe al- 
to que todos ouvíram : Ah Fidalgos , por 
que matáis o mais leal vajfallo aue temEU 
Key de Portugal tneu Senhor ? É aflim fem 
Ihe valerem as Armas Reaes nem o lugar, 
que era o adro da Igreja , foi morto cruel- 
mente ; e nao bailando ifto , o defpíram^ 
e efteve hum grande efpa^o afocinhado dos 
porcos. 

O Capitáo , tanto que o Rey efpirou , 
fahio da Fortaleza com os cafados ,~ e crian 
dos que o feguiam na maldade , e foi ca- 
minhando pera a Cidade a ver fe podia to- 
rnar humas pe^as .de artüheria que lá efta-¿ 

vam i 



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«4 ASIA DE Dioao de Cotrro 

ram ; e antes de chegar ás primeiras cafas ^ 
iáe atiráram algumas efpingardadas , com 
que fe recoUieo ; e mandando tomar o cor<* 
po de ElRejr morto , o mandou efpoftejar , 
e metter falgado ejii huma caixa , e lanjal- 
lo no pego do mar , fem o querer entregar 
A feus filnos , e mulher pera Ihe darem fe^ 

Sultura ; os quae;s depois de prantearem feu 
Ley ,Juráiám feu filho Sultáo Babú por Rev , 
que logo cpm todos os Grandes fez fole* 
mnes votos de fazerem guerra á Fortaleza, 
até a tomarem, e deitarem qs Portuguezes 
fóra daquellas Ilhas* 

Depois do Vifo-Rey D. Antao de No* 
ronha defpedir os foccorros , que atrás dif- 
fe , pera Malaca , defpachou D. Luiz de 
Almeida irmáo de D. redro d^ Almeida , 
^ue eftava por Capitao em Damao , pera ir 
invernar naquella Fortaleza com feis navios, 
pera em Agofto ir a Surrate defender as naos 
que fahem pera o Achém fem cartazes , e 
as quehaviam de ir de Meca pera aquelle 
rio , que fempre veni carregadas de prata , 
e fazendas ricas , o qual D. Luiz deo á vela 
emfim de Abril de 1568, e os Capitáes que 
nefta jornada o acompanháram , íoram Fer- 
nao Telles, que depois foi Governador da 
India, D.Xouren^o de Almeida , Antonio 
de Mello Coutinho , Antáo de Faria , e Luiz 
F@iT?íra, Nefta cpmpaxthia fpi tambem Ma* 

thias 



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Decada VIII. Cap. XXVI. 2if 

tilias de Albuquerque invernar naquejla Foi^ 
taleza , que tinha vindo do Rey no muito 
nio^o , mas com tal brio , que logo o Viíb- 
Rey D. Antáo , que tinha muito bom plho^ 
pera conhecer o preftimo dos homens , diA 
|e por elle , que naquelle mancebo fe cr^a^ 
va num muito honrado , e valente Vifo-Rey. 
p^ra a India , como cpm eíFeito aífim foi. 

CAPITULO XXVII. 

Do que fuccedeo a D. Luiz de Almeida w 
rio de Surrate com duas naos de Meca. 

DOm Luiz de Almeida , tanto que ehe^ 
gou a Damáo , logo preparou a Arma-r 
da , que havia de levar a Surrate , porque 
era neceíTario partir em Agofto pera fazer 
algum bom feitó ; e tanta preíTa fe deo, que 
na entrada de Agofto fahio pela barra fora 
com vinte navios , de que nao aehei os no- 
mes de feusCapitáes mais que adous, que 
foram Antonio Mexia , e Antonio Macha- 
do , ambos Africanos ; e paíTando por Na- 
zaurim enti:e Damao , e Surrate , deixou rid- 
quelle rio eftes dous Capita^s que npmeei , 
pera fahirem dalli a vigiar as náps ^ por fer 
aquella paragem a que ellas ordinariamente 
vam demandar ; e to Capitáo Móf com o$ 
mais navios f^ foi metter em Svrrate y e ef- 

tan- 



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il6 ASIA DE Dioao de G)Trf o 

tando naquelle rio com grandes vigías , riaií 
primeiras agiias vivas em conjunto de Lúa 
víram huinafermofa náó vir de mar emfó-5 
^£^ com tempp muito rijo , e foram deman- 
dar os canaes de Surrate ; e defcubrindo bem 
o rio , víram a noflk Armada furta nelle; 
c nao podendo voltar , aílím por caufa do 
vento , como da maré que enchia , ficandd 
indeterminados , foram affim á vela varar no 
canal dosAbexins, elogo nos bate 's queja 
levavam preftes com o dinheiro dentro , fe 
p uT^er^m em térra \ porque copio os mares > 
e ventos eram groflbs , nao fe atrevéram- as 
noífas fuftas a chegar a ella , porque fe fa- 
jiam em pedamos , como fe fez nnm dos 
noflbs navios , de quQ era Capitáo hum Bal^ 
thazar tal , o qual fe defpeda^u , e a maior 
parte dos foldados fe affogáram, e oCapi-^ 
táo efcapou com grande trabalho. A maro 
tanto que vafou , fícáram as naos todas em 
fecco , e o mar táo brando , que pudéram 
chegar os noífos navios , e aínda acliáram 
bem que roubar , e dous cavallqs Arabios. 

Os dous navios que eftavam em Nazau- 
rím , fahíram a vigiar o mar pouco depoís 
difto 5 e víram ir duas ftáos muito fermofas 
á vela na derrota pera Surrate j, e as foram 
feguindo até entrarem nos canaes , fem el-s 
las faberem da nofla Armada j e em fur- 
gindp^ as foi D. Luis de Almei^a comme^ 



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Decapá VIII. Cap. XXVII. 217 

tér , e pelejou valerofamente com ellas , c 
por fim ellas fe entregáram , e as tiráram 
dos P090S, e aslevámm aDaináo: vinham 
muito ricas , porque eram da India , e a fa^ 
zenda fe receitou pera ElRey , e os folda« 
dos tambem hoaveram fuas prezas. 

CAPITULO XXVIII. 

Entra o t^mpo do ViphRey D. Luiz de Ataí^ 
dcj que he da minha oitava Década. 

JA hayia quatro annos que D. Antáo de 
Noronha governava a India ; e como nef- 
te anno de 1568 tomou ElRey D. Sebaf* 
tiáo poífe do governo do Reyno , quiz pro^/ 
2rer a India de Vifo-Rey , e fez pera iíFo 
eleicáo de D. Luiz de Átaíde , Senhor dá 
Caía de Atouguia, Fidalgo em quem con- 
corriam as partes neceíTarias pera aquelle 
cargo , o qual partió do Reyno com a Aro- 
mada que em íeu titulo fe verá , e chegou 
á barra de Goa em 10. de Setembro , e foi 
mui bem recebido geralmente de todos , e 
D. Antáo Ihe entregou o governo , no quai 
comeijou a entender , e a primeira coufa que 
defpedio pera fóra , foi AiFonfo Pereira de 
Lacerda pera Capitáo Mor do Norte com 
huma galé , e feis navios , de que foram |>or 
Capitaes PedroJuzarteTijáo, Francifoo,P©- 

rei- 



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!tl8 AS I A DE DiOGO DE CouTO 

reirá Coutinho , Francifco de Lotizada , AI* 
varo Monteiro de Barros , Domingos Fer- 
reirá Esforcio , e Gomes Freiré , e com ef» 
ta Armada deo á vela a i8. de Outubro^ 
edo feu fucceíTo adiante darei razao. 

Partido AfFonfo Pereira pera o Norte , 
logo o Vifo-Rey defpedio Martim AfFonfo 
de Miranda pera Capitao Mor de Malavar 
com vinte navios , elle na galé S, Joáo Ba- 
ptiíb , Mathias de Aibuquerque em huma 
galeota Latina , D. Duarte de Lima em ga- 
le , Joáo de Mendoca em galeota Latina, 
D. Lm¿ de Caftello-branco em outra. Fuf- 
tas , Fernáo Telles , Ruy Dias Cabral , Fran- 
cifco de Souza Tavares , D. Lourenco de 
Almeida , Francifco de Miranda cafado em 
Cochim 5 Ignacio de Lima , Henrique de 
Betancor , Jorge Pimentel , Manoel SimÓes , 
Pedro Ribeino, SimáoReinel, Antonio Lo- 
bo de Brito , Alvaro Monteiro , Luiz de 
Aguiar, e ApoUinario de Val de Rama. 

E porque foi o Vifo-Rey avifado que 
em Banda feisi leguas de Goa eftavam reco- 
Ihidos alguns paraos , defpedio com muita 
preíla a Ayres Telles de Menezes com al- 
guns navios que fe puderam negociar , o 
qual chegou á barra de Banda ; e fabendo 
eflarem dentro finco paraos , os mandou pe- 
dir ao Tanadar , como levava por regimen- 
tó^ por nao fe quebrarem as pazes pornof- 

fa 



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Decada VIH. Cap. XXVIII. 119 

íz parte , e de recado em recado yeío o 
Tanadar aj^lhe conceder os cafcos dos na- 
vios , conforme ao contrato das pazes , man*" 
dando-lhe dizer que os Mala vares logo fe 
efpalháram pela térra dentro , e que nao la- 
bia delles, com o que Ayres Telles fe re^ 
colheo a Goa fem os navios Malavares , de 
que fe o Viíb-Rey nao contentou. 

Antes defpedio logo Vicente Paes por 
térra com recado ao Tanadar , mandando»- 
Ihe requerer , qub entregalfe a gente dos 
paraos , armas , e artilheria , fenáo que iría 
em peíToa bufcar tudo ; e porque Martim 
AflFonfo de Miranda eftava ainda na barra 
com a fuá Armada, Ihe mandou que fefoí^ 
fe lanzar fobre o rio de Banda , até o Ta- 
nadar entregar as couías que Ihe manda va 
pedir. O Tanadar depois de. muitos daresj 
«tomares entregou os aparelhos dos navios ^ 
e artilheria , e algumas espingardas , e argos , 
mandando dizer ao Vifo-Rey , que os Ma-* 
lavares eram fúgidos pela térra dentro > que 
o que Ihes pudéra tomar , alli o manda va^ 
com o que o Viíb-Rey fe. houve por fatis* 
feito 5 e Martim AfFonfo fe partió pera o 
Malavatk ., 

Defpedidas eftas Armadas , entendeo o 
Vifo-Rey logo no defpacho das naos que 
haviam de ir carregar aCochim peraoRejr* 
iu> P dandOc oidcm a umitas couías , e con» 

ren- 



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^20 ASIA DE DiOGO DE^ COUTÜ 

rendo com o Vifo-Rey D. Antáo com muí-¡» 
ta pontualidade na fuá embarcajáo , porque 
aínda naquelle tempo hayia honra , e Chri- 
fiandade , e come^ou a dar á execu^ao as 
Provisóes , e rcgimentos de ElRey ; e en* 
tre as ordens que trazia , foi , que déffeca- 
deiras rafas aos Fidalgos , porque até en- 
táo Ihas davam de efpaldas, eque íhe fal* 
laffem os Fidalgos deícubertos : e o primei- 
ro Fidalgo a que mañdou dar cadeira rafa ; 
foi a D.Joáo rereira irmáo gémco doG)n- 
de D. Diogo Pereira , e fiihos do fegimdo 
Conde da Feira D; Manoel Pereira , o aual 
D. Joáo Pereira eiíi hum Fidalgo velno, 
<iue acabara defer Capitao de Malaca ; e 
vindo a cadeira rafa pera elle , diíTe ao Vifo- 
Rey , que elle trazia negocio de pé , é^ de 
pouca detenja» O Vifo-Rejr yendo-o peja- 
do com a cadeira , Ihe diíle , que a tomat 
fe , que ElRey Iha mandaya dar a elle , e 
aos. Fidalgos como elle ^ e fem embargo 
diíTo fallou-Ihe de pé , e nao fe quiz fen- 
tar j^ e dando elle conta do cafo a D. An* 
^ -tócíide Noronha feu cunhado , ihe diífe elle ^ 
que andará mal em nao acceitar a cadeira , 
tanto que diíFera que ElRey Iha .mandara 
dar. . 

E porque nos ríos de Cañará hayia mui- 
ta pimenta pera a carga das naos , por fe 
^llas nao detc;renx-.em a tomar , indo pera. 

Co* 



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Googte- 



Decada Vin. Cap. XXVIII. izr 

Cochim, defpachou a nao Santa María» que 
veio na companhia do mefino Vifi>Rey, 
de que era Opitáo Damiáo de Souza FaL« 
cao 9 pera ir carregar de pimenta áquelles 
rios , e levalla a CocJiim como fez , por* 
que efta nao havia de ficar na India , por 
haver mifter muito concertó. 

Agora continuaremos com as Armadas 
que faiiíram fóra no principio do veráo^ e 
a primeira era a de ÁíFonfo Pereira de La* 
cerda , que foi correndo a cofta do Norte 
embufca dos paraos que lá eram paflados; 
e fendo avifadp que alguns eram idos pera 
a cofta de Dio , fez vela pera lá ; e indo 
atraveíTando o golfo , houyeram vifta de dous 
paraos , . aos quaés os noíTos narios foram 
dando ca^a , e o primeiro que chegou a hum 
delles , toi Alvaro Monteiro , o qual fem 
ordem Ihe poz a proa muito íbfrego ; e o» 
Malavares que eftavam preparados , lan9á- 
ram-lhe logo tanto fo£o , que abrazáram o 
noíTo navio , e queimáram muitos dos nof- 
fos : e logo chegou Vicente Paes , poz a 
DPoa no paráo , e com a meíma prefteza os 
Malavares o abrazáram , e deram com Vi- 
cente Paes , e com os outros no mar , que 
fe tomáram a recolher no navio ; porque o 
paráo como vioosnoíTos abrazados, deo á 
▼éla, e foi-fe acolhendo. 

Gomes Fxeire fbi feguindo o outro par 



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JM ASIA DE DiOGO DE COTJTO 

rao que lila fiígindo ; e alcan^andoo , poz-" 
Ihe a proa , e logo fe lan^áram todos os 
noíTos de bordo dentro no ^aráo , matan^ 
do, e derribando algiins. OsMoui-os como 
víram o noflb navio fó , lanjáram-fe ao mar 
com muitos oor melhor remedio ; e metten- 
do-fe no noíio navio , defam logo á vela, 
e foram-fe acolhendo , ficando Gomes Frei- 
ré no navio dos Mouros , o qiial tambem 
mandou preparar pera fegiiir ofeu, mas já 
hia muito alongado. £m tanto cliegou a mais 
Armada, e acnou feito aquelle defarranjo^ 
que foi tanto apreíTado , que pafmáram , e 
ainda andáram á pefcaria dos Mouros que 
andavam a nado , e os matáram ¿ efpada , 
ficando Gomes Freiré com a troca, quenáa 
foi de vantagem pelo modo della. Affonfo 
Pereira fez todas as diligencias que pode 
por achar cftes paraos , mas foi em váo^ 

Eorque elles fe fizeram na volta do Ma^ 
ivar. 
Vamos com Martim AíFonfo de Miran-^ 
da , que foi correndo a coíta , e provendo 
as Fortalezas do Cañará , de Cananor , e de 
Chalé; epaífando tanto avante como apon- 
ta deTiracoIe, víram alguns navios nonoss, 
^e híam adíante , tres , oü quatro paraos , 
•ue hiam cozídos com a térra , pera fe reco-' 
Inerem nos ríos : os noíTos navios , de que 
crain Capitaes Joáo de Mendo^a^ eMathxas 
. . de 



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Decada VIIL Cap. XXVm. mj 

^ de Albuquerque , Ferrao Telles , com quem 
eu hia embarcado, eLuiz de Aguiar foram 
feguíndo os pardos, aueeramligeiriíiuhos; 
pofto que os noíTos mes ficavam a balra- 
vento , nao puderam chegar tanto deprec- 
ia, queprímeiro o nao fízeíTem eiles apond- 
rá de Tiracole , e com huma prefteza nao imar 

^ ginada puzeram as popas na térra com ro- 

Íiueiras , íicando-lhes as proas pera o mar, 
urtos com as armas* Os noíTos navios que 
já nomeei , foram remando com ten^áo de 
Ihes porem as proas , e dar-lhes cabo , e os 
tirarem pera fora ; mas elles deitárám de fi 
tanta fomma de pelouros de fakóes , e af- 
fim dos mefmps paraos, como de huma es- 
tancia que tínham em térra com multa ar- 
tilheria , que embaracáram os nolíos marí^ 
nheiros , pera nao pauarem adiante , traba- 
Ihando os Capitáes dos navios com promef- 
fas , e ameajos tudo o que puderam pelos 
fazer chegar : e fegundo a prefteza , com que 
a artillieria laborou , cuido eu queeftavaalü 
de propolito pera iffo , e que deitárom a- 
quelles navios fóra pera negociarem , e le- 
w varem a noíTa Armada alii , pera acoi^tecer 

o de&ftre q^e acont<eceo. 

Martim Affionfo de Miranda vaido ef* 
Tar os DDÍTos á batería , foi arribando &bre 
elles , e cbegou ao de F^roáo Teiks , on- 
de ett efivr4ií « posdo infin ^ Sob» tpofr 



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3^24 ASIA DE Dtogo de Coüfd 

tifa da galé pera dizer a Femáo Telles que* 
fe recolneíTe , foi em hora táo aziaga , que 
em pondo o pé , veio hum pelouro de nu- 
•ma roqueira , e deo-lhe por huma coxa y 
•que toda Iha quebrou , e dalli foi recolhí- 
•do pera dentro pera o curarem. Joao de 
-Mendoza, e Mamias deAlbuquerque, que 
tinham galeotas Latinas grandes , ñcáram 
atraveíTados á batería y e aiUm Ihes feríram 
alguns marinheiros ^ e foldados ; e hum cha- 
mado Diogo Palmeiro o acháralo morto fem 
ferida , nem pizadura aiguma , e nád mof- 
Tco de medo , i)orque era mui bom cavaP 
•leiro. Na noíTa fufta aconteceo efte cafo di- 
gno de fe contar pera exemplo da miferí- 
cordia Divina* 

Ao tempo que fe deo vifta dos paraos ^ 
hiamos jogando quatro foldados , entre os 
<juaes entrava hum Caftelhano , e rico , ú 
qual lanfou o filho pera a India por ma- 
lilümo, e elle veio em peflba a Lisboa , e 
achou as naos de verga d'altó, eenfrou na 
em que vinha pCM" Capitáo D. Diogo Lobo > 
o que matáram em Mangalor , e üio entre- 
.gou com hum griiháo^ e oitóceiitos cruza- 
dos pera Ihedar de córner^ Efle -D. Diogo, 
que era mojo de vinte annos , tinha efpan- 
í toíks habilidades , e grande Latino , e me^ 
•ihor efcrivlo de todas as letras que vi i c 
%€om ellas tinha grandes maldades ^ e entre 



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DfecAiiA VIH. Cap. XXVÍIL lij 

feBas de jurador, earrenegador, ehumdos 
quatro que iogavamos , perdeo huma mao 
grande , pelo qual fez hum gmnde arrfene- 
go , porque tambem nifto era muito perju- 
dicial ; e foi o negocio tal , que lance! as 
cartas no niar, e me levantei. O Caftelha- 
no com fer o maior arrenegador da vida , 
cftranhou o que o outro diíTe tanto > que fe le- 
yantou, dizendo: Valgan-^te los diablos \ nó, 
sé como nó viene una hala > que te auiebre 
^a boca ^ y lengua. Coufa maravilhoía ! que 
nefta conjuncáo apparecérnm os paraos , e 
Ihes fomos dando caja ; e como Fernáo Tel- 
les ímzia o mais ligeiro navio de todos, 
diegámos mais perto dos navios ^ que nos- 
fervíram bem de bombardadas , e a primei-» 
ra que deo, tomou aquelle fóldado qüere- 
negou , pelas coftas atraveífado , e llie foi 
cortando huma faia de malha , e es fios dal- 
la Iheentráram pelas coftas, ficando-lhe en- 
fanguentados como os de hum diciplinante, 
de que logo íarou : e foi efte foldado pon- 
eos annos depois cafado em Goa, e muita 
rico , e táo emendado , que Ihe nao vi nun- 
ca huma defcompofijáo naquella materia , e 
táo carldofo > que mé aíErm4i^m que dava 
mais de oi tocen tos cruzados de efmola ca- 
da aano« Em fím .os paraos fliftígáram^iios 
arrazoádamente , e deram dentro no noífo 
navio mais de dez bombardadas , e huma 
gouto.Tonur.P.L f foi 



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tl6 ÁS I A DE DiOGO DE CoüTO 

fbi táo venmrofa , que citando Fernao Tel^ 
les em fima do paicu armado com huma ca« 
na de Bengala , mandando remar os mari- 
fitheiros, Ihe deo hum pelouro por entre as 
pemas ñas cadeas , e cadeado , com que o 
paiol fe fechava , e ao mefino tempo fe a- 
paixou Fernao Telles pera dar com a cana 
nos marinheiros ; e eu que efiava em lima 
do baileo com outros , vendo-o abaixar, 
cuidei que cahía da bombardada y e laltei 
lie lima fobre elle, dizendo-lhe : Que fot j 
Sepbor^ MJiais ferido} E como eu eftava 
armado , houvera-me de tratar peior do que 
fez o pelouro , que palfou fem receber daño. 
Afaftado o Capitáo Mor , ferido fem 
nos o fabermos, o fizemos nos tambem, e 
fbmos á galeota bufcar o Cirurgiáo pera cu-* 
rar o foldado ferido , e entáo nos diíTeram 
de como o Capitáo Mor o eftava* Todos a 
fentíram muito , por fer hum Fidalgo dos 
princlpaes da India : e toda a Armada jun- 
ta fomos a Cochim, onde MartimAffoníb 
de Miranda fe recoUieo a curar em S, Do- 
mingo^ j mas ao feteno faleceo com gran- 
des fentimentos de toda a Cidade , e Ar- 
piada ; e acudindo alli o Vifo-Rey D, An- 
tap de Noronha que eftava pera le embar- 
car pera o Reyno , e D, Diogo de Mene- 
zes. filho do Craveiro , que viera áquelle meí^ 
mo tempo de fervir a Capitama de Mala-» 



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DfidADA Víli. Cap. XltViil. 2if 

ía, e todos osGapitáes, e Fidalgcs dáAr* 
mada , a Cidade , tí Religifies , córíi grúhéé 
mágoa dtí todos foi entefrado no mermo 
Mofteiro. Ei*a éftéFidalgó cafado comDo^ 
na María filha de hum Mefcadér rico di 
Goa , da (|ual Ihe íicáram doií^ íilhós ma-^ 
chos , chamados Diogo de Mirafida , qué 
foi Capitáo Mor dó Malavar , que he mor* 
to, e Fráncifco de Miranda^ que taipbcm 
foi Cápitáo Mor daoueíla ctífta , e ho}e hé 
ido de foccorro a MatiKrd cóíñ quatro ga* 
hóes potentes j e cafado com Doma Máfl* 
anna Coutinha filha de Peno de Andrad^ 
deCaminha, que foi cafado COiñ Dolía' PáP* 
coela Coutinha filha de Vafeo Gouíinho , 
irmá de D, Liiiz Coutiñho , que réio i Iñ^ 
dia por Cápítáo Mor , da qúal tém ó dito 
Fráncifco de Miranda dou9 filhós^ y é doad 
filhas. 

Vendo D* Antao de Nófotiha qwc jpot 
mortc de Martim AíFonfo de Miranda nca-* 
va aquella Armada fem Capitáo Mor , e á 
rifco de fe defarmar , foi ení peflba á For-^ 
taleza , onde pouzava D* Diógo dé Meno-» 
2es hofpede de Vafeo Loureñgo de Barbu- 
da , Capitao , e Védor da fezenda , e pedid 
a D. Diego , que por fcM^o de ElRcrv cjui-i 
*i:eíre acceitar aquella Armada ^ qiie ilie fik^ 
ria niflb huni dosaíaiorésf fervi^s qué poJ 
dia &ry ajudandcHO á iíTo Vfti<^ LéUféHgd 

Pü de 



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428 ASIA DE DioGo Dis. Cojrro 

de Barbuda , e a Cidade , que taiñbem acu^ 
dio ; e comp eñe Fidalgo nunca fe negou 
pera o fervijo de ElRey , acceitou a Ar- 
mada, com a qual logo comejóu acorrer, 
e a proveo de novo de fuá fazenda , dan- 
do a cada Capitao cem pardáos pera feu 
aviamento , em fim fez O que fempre fez , 
que foi gaftar o feu em férvido do leu Rey: 
c logo fe embarcou , e foi correr a coila da 
Malavar , onde fez Jiuma cruel guerra ao 
CJamorim , dando-lhe , e queimando-lhc feus 
portos, e povoajóes, e tomando muiros pa- 
raos que laliíram a roubar , no que gaítou 
iodo o veráo. 

©• Antáo de Noronha ficou-fe negoci- 
ando pera o Reyno , efperando pelas vias 
de ElRey , e provimentos pera as naos , ó 
que Ihe cJiegou dia de noífa Senhora das 
Candeas a 2. de Fevereiro , indo já á vé- 
la, e aílim o foi tomando , embarcando-fe 
com elle na fuá nao eítes Fidalgos , e Ca- 
valleiros, D. Joáo Pereira fcucunhado, que 
acabara de fer Capitao de Malaca, D. Pe- 
d.ro da Guerra , Ayres de Souza de Santa- 
rcm 5 Manoel de Mello filho de Ruy de 
Mello o da Mina , Heitor da Silveira o Dra- 
go , Gafpar de Brito do Rio , Fernáo Go- 
mes da Grá , que depois foi Guarda Mor 
das naos do Reyno , Lourcnco Vas Pegada , 
c putros Cavalleiros honrados , em que eu 

en- 



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Decada VIIL Cap. XXVIII. 229 

.entrei , que todos comiamos com o Viíb- 
Rey á meza 5 que a dco muito abaííada em 
quanto viveo ; e por partirmos tarde , arri- 
bamos todas as naos a Mozambique ; fó a 
Santa Catliarina , Capitáo Antonio Rodri- 
gues de Gamboa , paíTou ao Rcyno^ e do^ 
brou o Cabo no mcfmo tempo que nos ar- 
ribamos 5 poraue fe achou tao pegado com 
a torra, que Ine nao alcanfou , e foi ter a 
Lisboa na forja da pefte grande , e nos fo- 
mos á noíTa rcvolta correndo tormenta pe- 
ra Mocambique ; e antes de chegarmos ás 
Ilhas de Angoxa, faleceo o Vifo-Rey / ea- 
chou-fe em feu teftamento , que Ihc corta!- 
fem o braco direito pelo cotovelo , e ole- 
vaíTem a Ccita , e o puzeíTem na fepultura 
de feu tío D. Nuno Alvares , e que leu cor- 
po foíFe lanzado aomar, oque fe fez com 
grande mágoa de todos. 

Foi efte Fidalgo filho natural dcD.Joáo 
de Noronha , o que os Mouros matáram , 
fendo Capitáo de Ccita , filho de D. Fer- 
nando de Menezés , fcgundo Márquez de 
Villa Real 5 oqual D. Antáo foi cafado com 
D. Ignez de Caftro , Dama da Rainha, fi- 
Iha de D. Manoel Pereira , fegimdo Conde 
da Feira 5 de que nao teve filhos, Foi na 
India muito bom Capitáo , tevc a Fortaleza 
de Ormuz i. e Vifo-Rev , renovou toBos os 
Regimentos da fazenaa ^ como trazia pot 

re- 



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^30 ASIA DK DiOGO PE COÜTO 

rcgimeHQ) ; fó nos que tinha feito Vicentf 
Pagado , feudo Veador da fazcnda de Mo- 
pmbique , nao bullo , por fercm muí bons y 
pelos auaes ainda boje fe goyerna a fazcn^ 
da da India ñas materias de Mo^mbique. 

Come^ott a cercar a liba de Goa, efez 
ó muro que corre de S. Braz pera Sant-Ia- 
gO) ondepoz humPadráp com hum letrei-» 
po , que moftra íer elle o author daquella 
obra , que foi tal , que quando fuccedco a 
guerra grande de Goa , de que logo falla^ 
remos , andando o Vifo-Rey D. Luiz cor- 
rendo o muro , vendo a potencia do Idal- 
xá da outra banda , diíTQ que aquclle muro 
laáo o fízera D* Antáo , fenáo Santo Antáo , 
porque fe nao eftiyera feito , tivera o Vifo* 
R^y muito trabalho cm defender a entrada 
da IlHa : em fim foi efte Vifp-Rey D. An- 
táo de Noronha bom Fidalgo , grande avi* 
iado , e de maduro confelho , e póde^fc con- 
tar entre os bons Vifo^Rcys da India. 

Eilando nos de arribada em Mozambi- 
que., chegou emjuiho Vafeo Fernandes Ho- 
mom em huma nao com muito boa gente, 
a qual tinha partido do Rcyno em compa» 
nhia de Francifco Barreto , que já fora Go- 
bernador da India , quq ElRey D. Sebaftiáo 
imndaya por Conciliador das minas de Ma- 
n^motapa, eCapitáo geral defdo Cabo das 
C0irreii«a até o 4^ Gu«f dafú : c ám^m q\» 

Qf- 



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Decada VIIL Cap. XXVIII. xji 

elle Fidalgo folicitára efta jomada por ü 
ver muitopobrey porque era muito váo, ^ 
gaftador grande } porc^ue tendo üdoGoveí^ 
nador da India , acccitou aquella empreza 
mui inferior. Eftava por Capitáo em Mo^ 

gmbique Pedro Barreto feu párente, oqual 
bendo daquelle cafo , houve-fe por táo af- 
frontado , que logo largou a Fortalna ^ ten*» 
do humanno porfervir, e feembarcou pe^ 
ra o Reyno ; e Vafeo Fernandes Homem , 
que era hum Fidalgo veliio y e de muitos 
merecimentos , foi eleito pera aquella jor- 
nada por Meftre de Campo , e pera íliccc« 
der a Francifco Barreto naquella empreza p 
fe faieceife : e chegou , como dito he , fcm 
iaber novas de Francifco Barreto , que lo-» 

§0 fe prefumio que arribara ao Brasil > e 
eixou-fe eftar em Mo^ambiqíte fem tratar 
de coufa alguma até chegar Francifco Bar* 
reto 9 como ao diante diremos. 

Ás náos^ como foi tempo» que era em 
Novembro , fizeram-fe todas juntas á vela 
pera o Reyno, efuccedeo por Capitáo Lou- 
rengo Vas regado, quelevava Provisáo dif- 
fo, e ncUa icerabarcou Pedro Barreto, que 
largou a Fortaleza pelo aggravo que Ihefi* 
zeram ; e faiiindo as naos de Mogacdbique 
todas juntas , encoítou-fe a Chagas , que era 
a Capitanía , á liha de S. Jorge » c íicotí 
iquaíl cm fecco , a que acudioun 9» wtns» 

com 



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Í32 ASIA dí: DioGo de Couro 

com feus bateis : fó a nao Santa Qara , de 
que era Capitáo Gafpar Pci-eira , eni que eu 
hia embarcado , que foi a primeira que ía- 
hio 5 hia tao adiantada , que com as corren- 
tes nao pode tornar , e fomos noíTo cami- 
nJio. 

A nao Chagas alijou muito ao mar , e 
cnchco a maré , com o que fe fahio traba- 
Ihofamente , e na detenga de fó eftc dia 
chegámos á Ilha de Santa Elena , tanto , 
que primeiro eftivemos vintc dias fcm ne* 
iihuma das outras chegar, pelo que demos 
á vela 5 c chegámos a Cafcaes em Abril , e 
ahi furgimos , por eftar a Cidade de pefte : 
e tinha ElRey alli regimentó , que chégan- 
do as naos , furglífem fóra , e Ine mandaf- 
fcm hum criado feu com cartas , pera faber 
íiovas da India , a que acudió Fernáo Peres 
de Andrade , e D. Francifco de Menezes 
o furdo, irmáo de D, Joáo Tello, que ahi 
eftava por Capitáo de huma Armada , que 
era de alto bordo, pera ir efperar as naos 
ás Ilhas ; e pelo regimentó que tinha de El- 
Rey , me defembarcáram com as cartas , per- 
ra Ihe ir dar novas. Em Almeirim o cfpe- 
rci , aonde veio ter dahi a dous dias , e dé 
mim foube tudo o> que quiz : e por os Fjr- 
fieos aíTeatarem eftaria a Cidade tora do mal 
grande que teve , mandou ElRey que en^ 
traiíem as naos dentro, Vixiham os mátalo* 
i ^ tes/ 



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Decada VIII. Cap. XXVHL 233 

tes , c camaradas Heitor da Silveira o Dra- 
go , Fcrnáo Gomes da Grá , e cu ; c o dia 
que vimos a roca de Cintra , falccco Hei- 
tor da Silveira , por vir já muito mal ; e as 
naos chcgáram cm fim de Maio , ou já em 
Junho : por onde fe verá que em huma jop- 
nada de feis mil leguas como efta, humdia 
mais ou menos 5 leva tanta vantagem, como 
fe vio neftas naos , foi mais de mez e meio. 
Em Mozambique achámos aquclle Principe 
dos Poetas de feu tempo , meu matalote , c 
amigo Luiz de CamÓes , tao pobre , que co- 
mía de amigos , e pera fe embarcar pera o 
Reyno Ihcajuntámos os amigos toda arou- 
pa que houve mifter , enáofaltou quem Ihc 
déífe de- comer 5 e ^quelle invernó que eC- 
teve em Mocambique , acabou de aperfei- 
coar as fuas Luliadas pera as imprimir , e 
toi efcrevendo muito em lium livro que hia 
fazendo, que intitulava Parnafo de Luiz de 
Calmes , livro de muita enidijáo , doutri* 
na , c filofofia , o qual Ihe fiírtáram , e nun- 
ca pude faber no Reyno dellc , por muito 
?ue o inquirí , c foi furto notavel : e cm 
brtugal morreo efte exceilentc . Poeta ,em 
pura pobreza. 

Nefte tempo chegáram Embaixadores da 
Rainha Abuca de Vichantar Rainha dos Rey- 
nos de Potri , Olalá , e do porto de Man- 
galor, a pedirem pazes ao Vifo-Rey , por 

fe 



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«34 AStA DE DiOGO DE COVTO 

je tcmerem de outro caítigo como o del>. 
Antao de Noronfaa y as quaes o Vifo-Rey 
Iheconccdco comcondii^o, que feriáo fcnir 

5 re ella 9 efeus íucceflbres amigos doEíla* 
o : eqae dariam toclaadjuda, e favor aos 
Capitacs daquella Fortaleza : e que pasaría 
de parcas a ÉlRcy de Portugal dousmufar<» 
4os de arroz cada anno, entrando nelles os 
quinhcntos ^ue de antes pagava de pareas , 
os quaesdana por todo mez deDezembro, 
e que Ifac quítaríam todas as pareas que até 
entáo dcvia : e que daría oito mil pagodes , 
que entao feriam doze mil pardaos , pera 
ajada dos gallos que o Vifo-Rey D.Antáo 
fez na Armada , em que foi a Mangalor : 
e-que daría cada anoo quatrocentos bares 
de pimenta pera a carga das naos do Rey* 
no ; e que o dinhciro delles Ihe dariam de 
antemao pera os jpoder comprar a tempo , 
a qual pimenta daña por todo o mez de jNo- 
vembro , pera fe poder lerar a Gochim ás 
naos : com outros Capítulos a bem do Efta* 
do 9 e favor da Rainha , que deixo > os quaes 
fe vcram no livro dos Contratos , que eftá 
emmeu poder na Torre do Tombo fol. 8i# 



CA- 



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Decada VIII. Cap. XXIX. 235^ 

CAPITULO XXIX. 

Das duvidas ^ue fe mover am em Goa f(h 
bre fe venderem cavallos a Mauros, 

HAvia mais de feflenta annos que 09 
Portugiiezes corriam com eftc Contra- 
to dos cavallos pera o Reyno de Nizsimo- 
xá y Idalxá , Bifnagá , Maíulipatáo , e outros , 
fendo coufa táo defexa pela Bulla da Cea , 
emcuja defeza parece aue cahiam todos oS 
moradores de Goa, eCnaul, fem fe dar re- 
medio a iíTo 5 nem fe tratar dcfte efcrupu- 
lo. Eftc verao em que andamos , fendo Ve^ 
readores de Goa D. Joáo Lobo , Pedro da 
Silva de Menejes , e outro cue me cfque- 
ce, querendo atalhar tamanno efcnipulo, 
iizeram huns apontamentos , e moftráramas 
razóes multo licitas que havia pera fe por 
derem vender cavallos aos Mouros , p<^r^ 
que fe propuzeíTcm emconfelho deTheola» 
gos , e Letrados , pera que fobre fuas ra- 
zóes determinaíTem , fe era licita cfta ven* 
da de cavallos. O Vifo-Rey aj\mtou per» 
iíFo a confciho o Arcebifpo de Goa D. Gaíf- 
par Meftre emTheologia , Aleixo Dias Fal- 
cáo Inquifidor Apoftolico, grande Canoniü 
ta, o Padre André Fernandes DeáodeGoa, 
Jlntonio de Cuadros Provincial de S. Pau* 
Jo 9 J^em muitQ doutQ> frsmxlíoo K^dri* 

gues 



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236 ASIA DE DiOGO ÜE CouTo 

gues o Mancjuinho da Q)mpanhia , que tam- 
bem era muito douto , e tínha íido Provin- 
<:ial , o Padre Fn Antonio Pegado Vigario 
geral dos Dominicos , tambem muito dou- 
to em Theologia , e grande Efcriturario , 
Fn Paulino Cuftodio de S. Francifco , Fr. 
Aleixo de Setuval Prior de S. Domingos, 
-e outros Doutores em ambos os Direitos ; 
e difputada a materia entre elles , de comr- 
mum acordó aíTentáram o que fe verá pe- 
los itens de fuas refpoftas , pelas quaes fe 
^ntenderám as duvidas que os Vereadores 
apontáram , que por efcufar proluxidade , 
deixo de rrferir , e de huma coufa , e ou- 
tra tenho em meu poder os proprios affi- 
gnados por todos eftes Letrados , que eu 
communiquei , e conhejo muito bem feus 
linaes , com as propoftas j e a refpofta he 
efta : em as mefmas razóes dizem os Verea- 
dores que ElRey D, Sebaftiáo tinha man- 
dado pedir Breve ao Papa pera feus vaíTal- 
los tratarem em cavallos , o qual eu nao vi ; 
everifimel he que o concedería, pois o tra- 
to dos cavallos foi por diante , e nao cef- 
fou. 

Viftas as razóes ofFerecidas , e mais in- 
formales que do cafo fe tem, parece que 
eftando as coufas defte Eftado no que hora 
eftam, fepodem deixar paífar , e vender ca- 
vallos peraosReynos doldalcáo, Nizama- 

lu- 



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Decada Vm. Cap- XXIX; 237 

luco , Cotamaluco , Madre Maluco , Verido , 
Nizamoxá , e Biíhagá , como atégora fe fez y 
dado que feja revogada por S. Santidade 
lem a revoga^áo geral a bulla Apoíbolica , 
por que era concedido aos Oíficiaes de Sua 
Alteza , e feus vaífallos poderem-os vender , 
e deixar pallar , e outras coufas defezas por 
direito , e Bulla da Cea aos Iniieis , com li« 
cenja de S. Alteza. 

Porque nao ha guerra contra os ditos; 
Reys tnneis , nem provavel efperanja de a 
haver^ e aínda que a haja, n^o fe faz acá- 
vallo , por nao haver difpoficao pera iífo , 
ealguma que fe pode fazer, he táopouca, 
de maneira que pouco daño , ou nenhum 
podem fazer com elles ; e nao Ihos deixan- 
do paíTar , feguir-fe-ham muitos danos ao 
Eftado na falta dos rendimentos dos direi- 
tos , que pera fuá fuftentajao fam neceíTa-? 
rios por fuá muita pobreza, e neceífidade j 
e tirando-lhos , ficará mais fraco , e pera me- 
nos fe poder defender dos inimigos , e of- 
fendellos ; e porque nao fe yendendo , e dei- 
xañdo pallar, como fempre fe fez, antes de 
efte Eftado íer de Qiriftaos , e depois de 
o fcr , efcandalizar-fe-ham diíFo pela poíTe 
antiga emque eftáo, epela necemdade que 
delles tem pera fuas guerras , que huns con- 
tra os outros trazem , e daram verilímelmen- 
te tantos trabalhos a elle Eftado por guer*^ 



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i^Z ASIA í)É DióGo Ete Coütd 

ifa , OVL negando-lhe ó commerció , e coufes 
necéflarias de feus Rejrnos , de que fe efte 
Eíbado fuftenta , que teta fem comparajáo 
malor o dañó que le feguirá di&ó ao Eíbdo y 
do qüc? pudera fer , ainda que com elles Ihc 
fefam muita guerra , quanto mais nao a po- 
deudo fazer : pelo que convem á natural , 
c neeeíTaria ddFensáo do Eílado nao fe im- 
pedir a paífagem, e venda de cavallos aos 
ditos iñneis. 

Póroue des que éfte Eftado he de Chri- 
flSos átegora , fempre fe vendéram aos in- 
fieís, éoino de antes fe vendiam , e nunca 
diíTo recebeo o Eftado perda , e fempre pro- 
veito. 

E porque muitds mercadores Chriftáos , 
t infléis , amigos do Eftado , os tem com-' 
prado por virtude da dita Bulla , e feguran- 
5a della 5 nao fabendo da revogajáo , os quaes 
recebéram grandilEma perda , nao Ihos po- 
dendo vender , porque nao ha outrem , a 
quem fe vendam , e o perjuizo de fe ven- 
derem a eftes infléis he pouco , ou nenhum , 
e o cabedal que fe nifto mette , he muito 
grande. 

E porque Sua Alteza tem mandado pe* 
dir a Sua Santidade a confirmacao da dita 
Bulla , que já agora Ihe deve íer concedi- 
da , pelas caufas pera iíTo apóntadas fereni 
tifgentes> éneceírarks^ e fuíp^ñdendo^íe djf» 

te 



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Década VIH. Ca.?. XXIX. 13^ 

te trato > P<ide perder-fe de todo , o que fe- 
rá gravimmo y e irreparavel daño do Eftar« 
do ; e nao tendo os cavallos ^ perde a poír 
íibilidade de com^uiíiar osRejrnos, e térras 
firmes , vizinhas defte Eíbdo y o <|iie fem. 
elles n§o pode faxer» 

£ porque os ca/allos duram multo pott<* 
co entre os infieis pela máo tratamento > 6 
continua guerra que tem ^ e quando o Efta^ 
do eftiver de maneira pera conquiftar os di^ 
tos Reynos, em poucos annos que Ihosne* 
gue , os nao teram. 

E fe Uios hora n^atem , poderam os 
ditos infieis bufcar outros meios de Ihcs po« 
derem vir, o que atégora nao intentáram^ 
mas negando-llios , a neceílidade lhe& fará 
bufcar outro caminho; e abrindo-IIio fuá inr* 
duftriaj prover-fe-hanidelles, e oEilado per-! 
derá yirem*lhe por fuá máo , e os rendlrneu"* 
tos y e proveito dó commercio , e o trato del-» 
les y os quaes aílim parece , eftanda as coufas» 
defte Eíbdo no que hora eftam, e até vir* 
recado deS.Santidade do que niítot manda* 

E em a& mais coufas prohibidas em » 
BulU da Cea , e aífim em fe nao pa^rem^ 
eatalJbs: pera outras parres , a que por di- 
leito fe nSo podem fevar, fe devecumprin 
direitaaente a dita Bulla, porque úeftascour*^ 
Éts. nád^ ha. as mz6es: aflima apontadas. £n& 
jQos aoft M« , cfeNo09w4)i^ áe xJjóI^ 

Em 



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14a A SI A DE DioGO bK Covró 

Em 1$. de Janeiro de 1569* partía D^ 
Jorge de Menezes Baroche por Capitáo Mor 
pera a cofta do Norte , por ferem paíTados 
pera lá alguns pai'áos , e levou huma galé 
nova táo ligeira, que nefta jornada, tomou 
hum paráo a remo : levou mais. fete fuftas , 
de que foram por Capitles D. Miguel de 
Caftro filho do Vifo-Key D. Joáo de CaP 
tro , Francifco de Souza Tavares , Femáa 
de Mendoca , Manoel de Mello filho de Si-, 
mao de Mello , que foi Capitao de Mala-f 
ca , Joáo Dornellas de Vafconcellos ,' e Lo-* 
po Pereira. Nao fuccedeo a efta Armada , 
mais que tomar aquelle paráo , e recolheo- 
íe em 11. de Fevereiro. 

Logo defpediooVifo-Rey aAyresTel-» 
les por Capitáo Mor da mefma cofta com 
eutros feis navios , cujos Capitáes foram D-. 
Francifco de Almeidá filho do Contador 
Mor y Manoel de Saldanba , D. Henriquer 
de Menezes , D. Antonio de Caftello-bran- 
co 5 que em mofo chamavamos o Frade^ 
Francifco de Toar , e Efteváo Gomes ; e 
efta Armada tambem nao fez mais que guar- 
dar a cofta y e. recolheo-fe em 18- de Abril.. 

Entregue D. Diogo de Menezes da Ar-. 
mada por morte deMartimAíFonfo de Mi- 
randa 5 foi-fe logo a correr a cofta do. Ma- 
lavar , na qual fez toda a guerra poflivej ^ 
queimando .muitas povoajócs^.citomaadpk 



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DecAda Vm. Cap. XXIX¿ 24t 

inultos navios , tudo por ordem de Anto* 
nio Fernandes Malavar, grande cavalleiro^ 
c da maior pratica daquella cófta que to^ 
dos os de feu tempo , do qúaí D. Diogo de 
Aíénezes fiava grandes coufas y que por elle 
mandoú commetter , fazendo-o Capitáo Móf 
dos mais honrados Fidalgos , e Gapitáes da 
fuá Armada j que todos folgavam dé o fe^ 
guir , e áinda Ihe mettiam pedreiras pera 
iíTo ; porque aínda neíTe tempo havia curio^ 
fos do fervijo de EIRey , e de ganharem 
honra ^ o que nao fei fé depóis veió a íslU 
tan Em fim D. Diogo demenezes deo tan-» 
tos aíTaltos ños portos do C^aníorim j e ma- 
tou-lhe tanta g(ínte y que o poz ém defef*- 
peragao ; e feudo tempo de récdlhér as naos 
da China ^ Malaca^ e outras partes j foi-fe 
a Cochim, onde ajuntou huma fermóíiíSma 
cáfila de naos , e navios , cóm qué ftí partió 
pera Goa $ pnde fói muito bem recebido do 
Viíb-Rey D* Luiz de Ataíde* 

Éftávam as couíks do í^amorim de tio 
mi feijáo , que laceando o Vifo-Rey ha ver 
alguris móvinventos conti-a Cranganor ^ or- 
déñpu dé mandar invernar ém Cochini ao 
mefmo D¿ Diogo cóm huma boa Armada 
.pera fegurar as Goufas de que fe temia , ef 
pera íá fahír em .principió dé veráo pera o 
Malavar , pera continuar ñaquella guerra ¿ 
^portrabalnar impedir a íahida dosparáo)^ 
twtff.Tom.F.f.Íé Ct pé^ 



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44^ ASIA DE DiOGÓ DE CótrTO 

pera a cofta do Norte , onde faziam gfan* 
des roubos ; e tanta preíTa deo á Armada 
que havia de levar , que defpedío D* Dio- 

fio em o primeiro de Maio com finco ga- 
és 5 e tres galeotas Latinas , e yinte navios^ 
Capitáes das gales foram , afora o Capitáo 
Mor , D. Gonialo de Menezes , Femáo Tel- 
les , Manoel dé Siqueira , D, Duarte de Li- 
ma. Galeotas Latinas Diogo deAzambuja,^ 
Chriftováo Juzarte Ticáo , e Vicente deSal- 
danha. Das foftas Mathias de Albuquer- 
que 5 Manoel de Miranda , Ignacio de Li* 
ma 5 Gafpar de Mello da Cunha , Martim 
AíFonfo de Mello Pombeiro , Jorge Pimen- 
tel de Mefouita , D. Pedro Coutinho > D, 
Luiz de Caftello-branco, D, Manoel Perei- 
ra filho de D, Antonio Pereira y D. Antonio 
de Caftello-branco , Antonio Lobo de Bri- 
to 5 Efteváo de Valadares , Ambrofio Peres , 
Apollinario de Val de Rama , Chriftováo 
de Araujo Evangelho, Bras Fragofo, Luiz 
de Aguiar, e Diogo MartinsPedrofo. Com 
efta Armada chegou D, Diogo a Cochim a 
lo, do méfmo mez , e logo mandou tirar a 
eftaleiro as ñiftas ; e as gales , e as galeo- 
tas ficáram no rio mui bem amarradas , por 
ferem alli as corren tes mui grandes ; e to- 
da a gente da Armada , que ferkm qtii- 
nhentos homens , repartió por quatro ban- 
deiraá y que todas as noites yigiavam a Af« 

ifta- 



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0£cAt)A VIH. Cap- XXÍX^ l4f 

tnada todo o invernó aos quartos com úiiiH 
to cuidado i e o Capitáo Mor nao ficou de 
fóra^ porque todas as noites rondava aCi-» 
dade y pera fe nella úio commetterem dif« 
íblu^des , couía mui ordinaria entre folda^ 
dos> e nao houve entre elles brigas aom&« 
nos de importancia , pelo grande cuidado 
que o Capitáo Mor teve fempre de os apa-í 
'Ziguar, e caíligar quando era neceíTario. Nq 
piefmo tempo que D. Diogo partió pera o 
^alavar ^ o fez Joao Gago de Andrade pen 
ra Maluco com, muitos provimentos ^ e foi 
em fuá companhia Manoel Lopes CarrafcO 
em huma nao fuá perairaSundá poi^ contra^ 
to que fez com :0 Vifo-Rejr ^ de cuja via- 
gem ao diante darei razao. 

Tanto que entrou o. mez de Agdfto ^ 
logo o Capitáo Mor I>. Diogo poz a fuá 
Armada no mar mui bem reformada ; e co- 
mo foram 20. daquelle mez, feembarcou^ 
efoicorrendo a colla doMalarar corntem** 
po ainda invernofo , e multas , e defcom- 
palFadas chuyas , que por toda aquella cof* 
ta ha : até todo o mez de Outubro fe dei^ 
lou andar ; e a principal coufa em que en- 
tendeo , foi em Ihe tomar as bati-ás > pera 
náopoderem fahir as naos pera Meca, que 
eífa foi a principal caufa de fahir jóo cedo 
de Cochim , e em Ihe impedir os mantí- 
ipentQs que Ihé vio da co^ da Qinará > de 
. , QJi que 



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144 A'SIÁ DE DioGo ¿E Cotrro 

que fe elles próvem , por cm toda a terrt 
do Malavar os nao haver , porque nem el* 
les fam lavradores , nem a térra he capaz 
de mais , que de alguns legumes poucos , 
com o que poz todos aquelles povos em gran- 
de opprefsáo ; e porque foí avifado que em 
Nillachiráo eftavam alguns paraos pera fa- 
hirem a roubar , foi fobre aquelle rio , e os 
mandou pedir ao Governador da térra. 

E como os daquelle rio íam bellicofos , 
c foberbos , refpondéram-lhe defpropoíitos , 
de que o CapitáoMór defconfiado mandou 
entrar huma madrugada duzentos Toldados 
em oito fuftas , que com grande valor en- 
tráram a Gidade , ainda que acháram gran- 
de refifténcia ; e como toda he cuberta de 
olas , que ardem como eftopas , foi logo en- 
tregue ao fogo, e nomeiodelle fizeram os 
noffos grande eftrago na gente da térra , e 
nos palmares , e fazendas que Ihes corta- 
ram , e puzeram por térra , o que fizeram 
por finco dias continuos , em que defem- 
oarcáram todas as. madrugadas , deixando 
tudo krrazado ,-e deftruido , e trouxeram 
comfigo os paraos. E porque o Senhor do 
rio de Pedá mais aífima do Nillachiráo ti- 
nha tomado o dinheiro , com que fe foi fa- 
zer á pimenta pera a carga das naos fobre 
feguro 5 foi fobre elle , e Ihe mandou dar 
em térra , fto que elle acudió con) mandaí? 

en- 



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Google 



DecAüa VIIL Cap. XXIX; M9 

entregar todo o dinheiro : e por outra vez 
raandou defembarcar na poroajáo de Peri- 
angale huma legua de Calecut , grande, af* 
fronta pera o ^amorim , e dentro no rio 
Ihe queimáram' huma nao de Meca-, e par- 
te da povoafáo , e Ihe matáram muita gen- 
te, que fedefendeo valerofamente , por ha- 
ver alli muita efpingardaria , e Ihe queimá- 
ram muitas embarcajóes , e trouxeram algu- 
inas á toa. PaíTado ifto , mandou o Capido 
dar emouíro lugar mais perto de Calecut, 
onde os noíTos queimáram outra náp de Me* 
ca , fobre o que houve grande reííftenc¡a> 
e muitas bombardadas , por ferem aquelles 
Mouros homens bellicoíos , e eftarem tao 
vizinhos ao feu Rey : e allim Ihe queimá- 
ram os noíTos outra povoajáo entre Capo- 
cate , e Coulete , onde os Toldados houve^* 
ram algumas prezas ; e fendo avifado que 
em Coulete havia duas naos de Meca , man- 
dou o Capitáo Mor entrar o rio pelos na^ 
vios de remo , que a pezar de muitas bom? 
bardadas , e efpingardadas que acháram^ ^ deí? 
amarráram as naos , e dous paraos que eP» 
tavam com as rigeiras em térra , e as tirá- 
ram á toa p^ra fóra com morte de muitoR$ 
Mouros, e algum daño noíTo, porque ma- 
táram dous Toldados , e feríram dez x ou do^ 
ze. Enj quanto D. Diogo de Menezes an- 
davafazendo ejQíis coufasy eoutras.i^ueadi^ 

an* 



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ij^6 ASIA deBiogo déCouto 

ante contarei , ferá bem darmos razáo ¿9 
algumas coufas que no mefmo tempo fue- 
cedéram. 

CAPITULO XXX. 

JDa grande y efamofa visoria queMemLth 

pes Cerrajeo alean fou de huma pode-- 

roja Armada do Achém. 

DEixámos partido de GoaJoaoGagode 
Andrade pera Maluco, c Mem Lopes 
Carrafco pera a India ; e indo faz:endo fuá 
viagem , luccedeo apartarem-fe , e o Mem 
Lopes adiantar-fe até haver vifh da barra 
do Achém , na qual encontrón huma Arma- 
da de mais de duzentas velas . em que en- 
ti'avam vinte gales , e outros tatitos juncos , 
a qual tinha íahido do dia de antes , e nel^ 
la nia a peíToa do Rey com toda a fuá po« 
tencia pera tornar fobre a Fortaleza de Ma-^ 
laca j por ver fe fe podía defafFrontar do 
niim fucceíTo paífado com tomar aquella For-^ 
taleza, com que elle fonhava todas as ho^ 
ras. 

Tanto que Mem Lopes vio a Armada , 
de que fe nao podía defvíar , preparou-fe 
pera fe defender della , porque bem fabía 
que Ihe era aílim neceífario pera remedio , 
c vida dfe todos , porque aquelles inímigos 
fláp jiavia poder-fe pleitear comelles, por* 

que 



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Decada VIH. Cap. XXX. ^47 

que nao dam ávida aPortuguez algum pe* 
lo mortaliífimo odio que Ihe tem : e aílim 
mandou tirar as monetas , e encher tinas 
de agua, e preparar fuá artillieria, deque 
levava fete , ou oito pe^as , camellos , eípe-» 
ras , e falcóes ; e a gente que levava, que 
eram quarenta homens , repartió pelos lu- 
gares mais arrifcados , pondo naproaMaiw 
tim Lopes Carrafco leu fiJJio com dez ho- 
mens i e Fi-ancifco da Colla , aquelle em 
quem fallei na minha fetima Decada no li- 
vro nono, capitulo fegundo, de efpia com 
hum feu irmao, a quem náofoube onome, 

Soz na popa com outros dez Toldados ; ea 
um Martim Daco primo de Mem Lopes 
ejicarregou a artiínena ; e elle ficou no con- 
vez com osmais, ecomelles oPadreFran- 
cifco Cabral da Companhia de Jeíus , quQ 
depois foi Provincial daquellas paites , e hum 
Frade de S* Francifco , que ambos com hum 
Crucifíxo ñas máosandav^m animando ato- 
dos a fe defenderem daquella Armada , que 
já tinha cercada a nao , e a comegou a ba- 
ter com grande terror , e brabofidade , e lo- 
go a comefárain a deftrofar , e defenxarfear , 
e abrir-lhe muitaa arrumbadas com os pe- 
louros que varavam a nao ; mas tambem os 
noflbs fizeram valerofamente feu oíEcio , def? 
tro^ando-lhes com fuá artiiheria muitas das 
ibas embarcantes ^ ematando-lhes muita gen- 
te; 



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»4S ASIA DE Diocd de Covro 

te ; porque como o mar eftava cuberto de 
embarcares , nao tinham as balas da iio£- 
la artilheria , por perdidas que foíTem , on* 
de dar, íenáo nelías. Durou eftareferta to* 
do o día j porque era já yefpera , quando 
a batalha fe come^ou , que a Armada do 
Achém le apartou, e furgio ; e os nolTos, 
de que havia já alguns feridos , fe curáram , 
e mandáram remediar , e tapar as abertu* 
ras que as bombardadas Ihe czeram , e pre* 
parando-fe pera outras que efperavam , por- 
que a Armada do inimigo tambcm furgio 
afaftada pera lanzar os mortos ao mar , e 
curar os feridos , que eram muitos. 

Aooutro dia tanto qu^ amanheceo , tor^ 
nou a Armada a rodear a nao , e a batel--* 
la , e deftrocalla com nova furia ; mas tam^ 
bem os noííos Ihe refpondéram , como fe t£^ 
tiveram muito defcan^ados , e inteiros , o* 
brando todos altas cavallarías ! os inimigos 
apertáram tanto , que chegáram tres gales 
muito poderofas a abordar a nao, andando 
nefte connivió os Padres ambos no meio de 
todos com Crucifixos levantados , animan-^ 
do os noíTos a pelejarem pela Fé de Chri^ 
fto, que fe Ihes aprefentava diante porCa- 
pítáo; e de tal modo accendeo efta exhor«- 
ta^áo a furia , e valor aos noífos , que de^ 
ram com os inimigos aomar, e conti aquelt- 
Jf impeto^ e furor fe lanjou ^pós eUes em 

til» 



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Década VIII. Cap. XXX. ^49 

-itmna das gales o Martim Da^o com huma 
«fpada , e rodella , fazendo grande ^ftrago 
nosMouros, fendo de fima ajudado coma 
efpingardaria ; e chamando Mem Lopes Car- 
rafeo por elle que fe recolheíFe , Ihe refpon- 
deo , que o nao havia de fazer até render 
aquella galé , porque a havia de tomar em 
lugar do batel da nao que os Mouros Ihe 
tinham já tomado ; e fendo a galé foccor- 
rida de outras , foi forjado ao Martim Dajo 
recolher-'fe com alemas feridas bem gran*- 
des. 

O Mem Lopes Capitáo , e Scnhorio da 
iiáo andou todo aquelle tempo como hum 
alarve encarnijado nabriga, e tinto da polt 
vora 5 e de feu fangue , de feijáo que o riSo 
conheciam pelo rofto , fenáo pelas armas j 
e andando ibccorrendo pelas partes todas , 
em que os noífos pelejavain valerofamente , 
Ihederam huma bombardada por huma per* 
na , e logo correo fama pela nao que elle 
era morto: chegou aocaítello de proa, on- 
de feu íilho Martim Lopes Can-afeo tinha 
feito maravilhas em fuá defensáo ; e dizeri- 
Ihe hum foldado que feú pai era morto : Se 
ajfim he , morreo hum Jo homem , e aqui fi* 
ramos muitos , que atenderemos a nao. O 
Mem Lopes, como aferida nao foi mortal , 
e nao Ihe impedio o andar , fez feu officio 
<^em grande valor ^.andando fempre.a par 
.. ' del- 



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%$0 ASIA 0£ DibGO DE COÜTO 

delie o Padre Francifco Cabral da Compa- 
nhía multo inteiro , e com grande animo , 
e prudencia animando , e couíblando a to- 
dos , como aquelie que fendo £>ldado , fe 
tinha achado em outroconflido nao menor, 
que foi com Gonfalo Pereira Marramaque 
no eftreito de Orqiuz y quando quinze gales 
Ihe batéram o feu gai^o , e o deixáram ra^ 
fo com o mar , fem Ihe deixarem coufa , em 
que fe pudeffem por olhos , como tenho con- 
tado naminha íexta Decada, livro décimo, 
capitulo treze. O Padre de S. Francifco fem- 
pre andou tambem com o Cracifixo alen- 
tando os foldados , e chamando pelo Bem- 
flvenmrado Sant-Iago , animando os homens 
com palavras muito honradas ; e por nao 
can^r aos leitores , e mais aos deue tem- 
po , a quem eftas coufas juntamente enver- 
gonham , e enfailíam > bafta dizermos que 
tres dias continuos foram os noííos batidos 
de toda aquella Armada , até os deixarem 
arrafados de todos os caftellos^ e maftros, 
e a mor parte da gente morta , e os mais 
feridos, e no fim dos ditos tres dias osjni- 
migos fe afaftáram, por apparecer ogaleáo 
de Joáo Gago de Andrade ; e foi o daño 
tanto que os noífos íizeram nelles y que fe 
tomáram pera o Achém com mais de qua- 
renta embarca^Óes menos , e as mais tao def» 
tn>^da»> qfie fe nao atrevéram aprofeguir 

na 



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Decada VIIL Cap. XXX. tyt 

fta comejada viagem , ficando o Rey táo af- 
frontado , e colérico , que hia bradando con- 
tra Mafamede , e contra os feíis , dos quaeS 
mandou defpeda^ar muitos , por tomar nel- 
Jes a vinganja que nosPortuguezes nao pode. 
Joao Gago de Andrade chegou á nao , 
« pafmou de ver aqu^lle deftrojo , porqué 
nao havia em que por olhos ; e porque nao 
eftava pera navegar , Ihe deo alguns peda- 
mos de entenas com algumas cordas , do que 
armáráo huma cruzeta comhum pedajo de 
vela , com que foi feguindo fuá viagem j e 
Joao Gago de Andrade , tanto que a vio ir 
aviada, velejou, e chegou. a Malaca, onde 
deo novas do qiie paflára : o que fabído pe- 
ló Capitao D. Leoniz Pereira , o tornou á 
mandar bufcar á nao, oque elle logo fez, 
e a encontrón no cabo Rachado , e a acom- 

?anhou até Malaca; eMem Lopes cornos 
adres , e mais companheiros , da mefma 
maneira queeícapáram da bataíha, defem- 
barcáram em térra , onde o Capitao , Cida- 
de, Cabido, e Padres das Religióes os ef- 
peravam , e os recebéram com triunfo , e 
os leváram em procifsáo á Matriz , onde 
deram grajas ao Altiífimo Dcos da mercé 
que Ihes fizera : e por efte fucceflb nao fi- 
cou a nao capaz de ir fazer a viagem do 
'contrato , e na monf áo da India fe foi em 
i;ompanhia das outras ^ porque a negociá- 

ram 



Di 



igmzétrbyGeOgle 



tfx ASIA deDiogo deGouto 

ram de roaftros , velas ^ vergas , e máis obras 
que fe Ihe puderam fazer dasoue Ihefalta^ 
vam. Eftas novas chegáram aoKeyno, que 
as efcrevéram ao Vifo-Rey o Capitáo , fci- 
dade , e o Bifpo de Malaca ; e como aín- 
da naquelle tempo eram os merecimentos a 
maior valia , vendo ElRey que aquelle ca- 
fo era digno de remunerajao , pelo crédito 
oue deo ao Eftado , mandou a Mem Lopes 
Alvará de Fidalgo com boa moradia , e o 
Habito de Chriffio com boa tenga , e ficou 
fempre honrado > e eftimado de todos os 
Vifo-Reys, porque feu valor era digno de 
toda a eíÜmafáo que delle fe fizeíTe. 

Nefte invernó proveo o Vifo-Rey em 
muitas coufas neceitarias ao bom govemo ; 
e porque foiavifado que osChatins deBar- 
cellor nao queriam pagar as pareas , e que 
no rio Sanguifel fe armavam alguns coílai- 
ros pera fahirem a roubar , ordenou huma 
Armada pera caftigar eftés infultos , que conf- 
tava de dez navios , de que foi Capitáo Mor 
Pedro da Silva de Menezes , que naquella 
cofta do Cañará tinha alcanzado a grande 
viftoria , de que já atrás íizemos mengao , 
o qual fahio de Goa em Agofto com os Ca-^ 

Sitáes feguintes , Diogo Pinto , Antonio da 
ilva , Heitor da Silveira , Joáo de Siqueira > 
Antonio Vas Correa , Vicente Paes , Jorge 
Cabr^, Vicente C^ryalho, e Antonio Del:- 



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Década Vin. Cap. XXX- if j 

g;aclo; e fazendo fuá viagem, foi até o rio 
de Sanguifel , o qual entrou com Pilotos que 
O guiáram , e foi por elle aflima finco le- 
guas até á povoacao do Naique , que era 
vaflallo do idalxa , e eftava levantado , C 
achou na fuá praia finco navios varados , ef- 
qtójpados já pera fe lan^arem ao mar ; e 
defembarcando em térra pelo meio de mui- 
tas bombardadas que Ihe atiráram , mandou 
por fogo aos navios , que todos ardéram 
breviflimamente , e mandou fazer o mefmo 
á povoajao que era grande ; e deixando ni- 
do feito em cai-váo , e cinza , fe embarcou 
com grande trabalho , por carregarem mui- 
tos dos inimigos fobre os nolfos ; e pofto 
^ue hpuve alguns feíidos , fe recolhéram 
íem mais daño. 

Acabado aquelle negocio , foi Pedro da 
Silva pela cofta do Cañará adiante , pera 
ver feachava alguns navios dosMalavares, 
que alli hiam naquelle tempo bufcar arroz ; 
c chegando ao rio deBarcellor, foube por 
efpias que eftava com pouca gente , pelo 
que determinoü dar neíla , de que avifou 
eos Capitáes , pera que fe prepai-^ffem pe- 
ra cntrarem de noite , e darem na Cidade 
no quarto da alva , como fizeram j e com- 
piettendo a Foitaleza com muita determi- 
nado^ a entráram pela achareni com pou^ 
ca ¿ente > -€ def<;ttidad;i de tal^obrefalto^ 



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tjr4 ASIA DE ÜIOGÓ DK CoüTO 

e todavía tería dentro duzentos homens , qutf 
fe defendéram muito bem , dos quaes foram 
mortos íincoenta , e cativáram feíTenta y e. 
mandou oCapitáo Mor embarcar quatorze 
pe^s de artilhería que achou na Fortale* 
za , e multas efplngardas , e armas , e hu* 
ma bandeira ; e os Toldados faqueáram ais 
cafas , em que acháram boa preza , é den^ 
tro na Fortaleza eftlveram dous días y nos 
quaes acudíram os Chatlns com ajuda dos 
ylzinhos , trazendo finco mil homens y com 
os quaes commettéram entrar a Fortaleza , 
que os noíTos ihe defendéram todo aquelr 
le día com multo valor , e tanto eftraga 
dos inimigos , que Ihes matáram duzen- 
tos e fincoenta , afora muitos feridos , com 
o que fe recolhéram já fobre a tarde y fi- 
cando dos noíTos mortos finco , e feridos 
quinze ; e tanto que a noite fe cerroif y fe 
íahíram os noíTos da Fortaleza com as armas 
pas máos em multo boa ordem , e fe em^ 
barcáram nos navios, femteremopprefsáo, 
nem refiílencla y e pollos na barra , ajuntá* 
ram as embarca^óes demercadores, queef- 
tavam carregadas de arroz , e fe partíram 
pera Goa , aonde chegáram a finco de Ou» 
tubro. 

Poneos días depois de Pedro da Silva 
partir^ pera o Ganará, defpedio oVlTo-Rejr 
^s naos do? mergadores ^ qu^.f í^v^ Já c^i^ 

; r©* 



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Decada VUI^ Cap. XXX. %sr 

regadas pera Malaca , ñas quaes mandou 
embarcar André da Fonfeca pera Veador 
da fazenda daquella Fortaleza : e pelas car* 
tas que achou de D. Leoniz Pereira , do 
grande cerco que oAchém Ihepoz, e a vi* 
¿loria que Ihe Déos dera delle , mandou em- 
barcar ñas naos dos mercadores officiaes de 
obras 5 e Pedreiros , pera refbrmarem aquel- 
la Fortaleza > que ficou deftruida do cerco 
paíTado : e deo ordem a André da Fonfe* 
ca, que do rendimento da Alfandega comr 
praíle em Malaca mil candísde arroz , por 
eftar lá muito barato , e o mandaíTe a (^ei* 
láo y repartidos pelas naos que haviam de 
partir em Janeiro , ou que compraíTe pera 
líTo hum junco : e que do mefmo modo com« 
praíTe , e mandaíTe pera os armazens de Goá 
dous mil candís de arrpz. Eftas preyen^Óes 
fez, porque aquelleanno nao palTou nenhu* 
ma nao a Bengala , e parece que Ihe adivi- 
nhava o corado que ohavia de havermii^ 
ter pera alguma neceílidade , como logo fe 
Ihe offereceo dos grandes « e memoraveis 
cercos de Goa , e Chaul : é aíEm efcrcveo 
a André da Fonfeca , que Ihe mandaíTe mui- 
to bí-eu^ , entenas , e vergas pera gales , e 
galeóes , porque os ha lá excellentes de pu- 
na grandes y leves , e fortes : e partíram eí^ 
t^ naos até 20. de ^tembro. Nefta mon«- 
-^o partió p^era a China TriMa Vas da Vei^ 
- ga. 



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1^6 ASIA DE Dioao de Courb 

ga , pera faxer huma de duas viagens y dtf 
que tinha provimentopera Japáo. Foi tam* 
bem Alvaro Paes de Tavora entrar na For-^ 
taleza de Damao > por acabar feu tempo 
D. Pedro de Almeida que nella eftava. 

Defpedidas eftas Armadas ^ o fez o Vi-< 
ib-Rey tambem a quatro navios y pera (e 
irem ajuntar com a Armada de D» Diogo 
de Menezes, que andava noMalavar^ dos 

Suaes foramporCapides Ruy Días Cabral ^ 
>. Manoel Pcreira , Joáo da Silva Barreto y 
filho baftardo^ do Govemador Francifco Bar-^ 
reto , eD. Henrique de Menezes , dos quae» 
navios nomeou D. Luiz de Ataíde por Ca- 
bo a Ruy Días Cabrai y aílim por íer mal» 
velho que os outros , e cafado , como pela 
aíFei^ao que EiRey D. Sebaítiáo fempre IJie 
moftrou , pela quai , porque nao foífe mais 
por diante , o quizeram os Goveitiadores ti- 
rar da prefenfa de ElRey , e ordenáram com 
que o mandaíTe pera a India ^ e Ihedeo hu- 
ma viagem da China pera Japáo ^ que era 
coufa de muita importancia : e dizem que 
Ihepromettea ElRey aFoitaleza deOimuz 
por huma carca que aquelle anno tivera> 
toda da letra de ÉlRey , mmto mimóla y. x 
qual elle trazia de continuo no feio. 

Partidos eftes navios, pela cofta do Ma- 
lavar y encontráram finco ,. ou feis paraos >. 
^ueiogocommettéram. com grande deteiw 



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Decíada VIII. Gap. Xtt. '%^f 

Inihajao , e entre todos fe travou huma muí- 
to arrazoada batalha , na qual nao fei que 
Capitáo no mor conflifto della deixou a Ruy 
Dias Cabral ,* e aos outros , que depois de 
fazerem maravilhas , foi o malogrado man- 
cebo Ruy Dias Cabral morto com os feus 
ibldados , e D- Henrique de Menezes ficou 
cativo com multas feridas, e depois foi reí- 
garado por via de Cananor. Ella defgraca 
lentio multo o Vifo-Rey ; e D. Diogo de 
Menezes , que andava na cofta fazendo guer- 
ra ao Qamorim , em Uie dando eftas novas \ 
deitou logo inculcas fobre eítes paraos , pe* 
ra faber o rio em que fe recolhéram j pó* 
rém nunca pode deícubrir nada diíto , por* 
que logo fe acolhéram com a preza : e te- 
ve dalli em diante grande vigia fobre oá 
paraos que tomou aos Malavares pelo dif* 
curfo do veiáó , em aue llies matou muita 
gente, e tomou mil Mouros vivos, que re* 
partió a banco ñas gales ^ e galeotas. 

Tinha o Vifo*Rey D. Luiz de Ataíde 
defpedído pera o Norte D. Paulo de Lrmá 
com huma galé 5 e feis navios ^ pera fe ir 
ajuntar com Martitn AlFonfo de Mello Ca- 
pitáo de Ba^iaim , e com elle Jorge deMou- 
ra 5 que havia de ficar invernando naquella 
Fortaleza, que todos haviam de ir dar hún^ 
grande caftigo ao Rey de Colé , que com 
O de Sarzeta andáram infeftando as térras- 



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^$2 ASIA BE DioGÓ DE Cou¥o 

4e Ba^aim , e auafi como fenhores dellas?, 
comiam fuas Aldeas , e arrecadavam feus 
Tendimentos : o qual D. Paulo partió na eií- 
trada defte anno de 1569. comhuma galé, 
«m que elle hia , e os mais navios , de que 
foram por Capitáes Antonio de Azeveclo, 
ManóeiFerreira de Figueiredo , Gafpar de 
•Mello , Martim AíFonlb de Mello Pombei- 
ro, Goines da Rocha , e Nuno Ferráo da 
Curiha , e em fuá companhia foi Jorge de 
Moura , coUajo do Principe D. Joáo , em 
huma galeota com fincoenta homens , o qual 
havia de ficar invernando em Bajaim por 
Capitáo da foldadefca : e levou D, Paulo 
huma cafíla que deixou' pelas Fortalezas. E 
chegando a Ba9aim , puzeram em ordem a 
jomada contra o Colé; e o Capitáo da For- 
taleza Martim AíFonfo de Mello ajuntou a 
gente de cavallo que havia, qneferiam oi- 
tenta homens pouco mais ou menos, emca- 
yallos Arabios , e mandou chamar os PaíTa* 
gis , que fam dous ou tres Irmáos gentíos 
vaíTallo^ do Eftado , que comem muito graf- 
ías Aldeas ñas térras de Ba^aim , que fe cha- 
mam Sabajú , que IheFrancifco Barrero dei- 
xóu Gom obrigagáo de acudirem logo todas 
ás vezes que os chamaíTem , com duzentos 
^áes , e uncoenta cavallos ; e das tranquei- 
fas mandou o Capitáo chamar outros du- 
íentoB peáes^ e com todo o poder junto fe 

■^ « w ., ........ . pUjp 



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^ t)E(jAí)A VIH. Cap. XXX; 1^9 

^J>Ü2eram em campo , onde fe fez refenha dá 
gente ^ e adiáram-fe oitocentos Portüguezes 
comníais de quatrocentas éfoingardas , afó^ 
fa a gente de cavallo , e alJi ordenáram o 
modo que kaviam de ter em commetterenjr 
os inimigos , ^ue foi cfte* D. Palilo de Li- 
ma com a gente de fuá Armada , que fe*' 
riam quátrocentos homens na vanguarda com 
os Palfagís , e fuá gente : Jorge de Moura 
na retaguarda com duzentos homens ; e o 
Capitáo da Cidade no corpo da batalha com 
outros , e toda á peonagem das térras de Ba* 
faim, e a gente de cavallo pelas ilKargas. 

Com efte cabedal fe paflaram a Mano^ 
rá , e dalli fe foram marchando em bufca 
dos inimigOá , que eftavam na Aldea Páiéj 
Teriáo o Colé , e Sarzéta mais de douá 
mil de pé , e quátrocentos de cavallo , ént 
que entravam alguns Magores , e Dalaris ^ 
gente alva , e limpa , os quaes ellavam já 
fobre avifo , e efperavam os noíTos em cam-^ 
po. D. Paulo de Lima , que hia na diantei-» 
ra com os PaíTagíá , rompeo logo nos ini-* 
iñigóS cóm muita determinajáo , appellidan* 
do Sant-^Iago^ e entre elleá fe travouhuma 
afpera batalha ^ de qUe ñas prímeiras pan- 
cadas derrubáram os noífos mais de ceñto 
dos inimigos ; e chegando todo o fcfto do 
exereitó , rompendo nclles , os desbaf atáram , 
e pazeram om fúgida, deixaodb em foder 

R ii do» 



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^6o ASIA D^DióGo DE Coirro 

dos noíTos o fea ^Taial , em que os Tolda- 
dos acháram aínda algumas prezas. E pera 
que efta viftoria nao foílb de todo perfei- 
ta , a quiz a fortuna aguar com hum def- 
gofto , como faz a todas as coufas da vida. 
Succedeo que íicando atrás luim dos Capi- 
táes da companliia de D. Paulo de Lima , 
quefoiManoelFerreiradeFigueiredo, com . 
leus foldados , e vindo feguindo o caminho 
dos noífos , encontráram com eiles os ini- 
migos que hiam ñigindo desbaratados ; e 
Temettendo a elles , pofto que fe defendéram 
muito bem fobre hum tezo que tomáram , 
foram todos mortos , mas nao fem daño feu , 
porque primeiroquepcrdeflem as vidas, as 
tiráram a muitos dos inimigos. 

Desbaratados os Mouros , foram os nof- 
fos entrando por liías térras , e deftniindo* 
Ihes fuas Aldeas , até chegarem a huma ar- 
razoada Cidade do Colé chamada Darila , 
de cafas grandes de pedra , e telha , a qual 
entráram , e cativáram , e matáram muitos 
dos moradores , e mercadores da Cidade , 
a qual foi entregue ao fogo, em que toda 
fe confumio. Daqui paífárara a outra Cida- 
de tambem grande , chamada Vazem , a 
que fizeram o meímo , e Ihe deftruíram feus 
campos, cortáram feus arvoredos de fruto, 
e fizeram todos os mais danos que pude- 
ram. Com iílo feito fe foram osnoíFos re« 

co- 



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I 

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Dedada VIH. Cap. XXX. 26 1 

colhendo pera Ba9aim, paíTando por entre 
camiñhos muito eftreitos ., e por entre fer-. 
ras , e matos de bambuaes mui efpeíTos,. 
por meio . dos quaes era neceíTario irem a 
pé 5 e levarem os cavallos pelas redeas , co^ 
mo eufiz algumas vezes, fendo Capitáo de 
Tarapor, que entrei poreftas térras, epor 
entre matos , donde íahimos todos efcala- 
vrados pelas máos , roftos , e pernas dos bam- 
buaes , que cortam como navalhas. Por eA 
tes camiñhos paíTáram eftes Capitaes gran-, 
des trabalhos ; porque como eftes Coles fam 
como bogios , que faltam de ramo em ra- 
mo , aílim por eltes matos , fem os ninguem 
ver, foram perfeguindo os noflbs j frechan^ 
do-os á fuá vontade, porque ficavam defi-. 
ma , e os noíTos hiam pelo caminho debai-^ 
xo hum e hum , por nao fer elle capaz de 
mais. Em fim com infinito traballio , rifco , 
e daño chegáram todos a falvamento á nof- 
fa tranqueira de Saibana , onde defcanjár 
ram , e fe foram pera Bajaim , ficando os^ 
inimigos táo quebrantados , que muitos tem- 
pos nao bulíram comfigo. 

Feito efte negocio , partio-fe D. Paulo 
pera Goa com huma cáfila , e Jorge de Mou-. 
ra ficou invernando em Bajaim ; e indo D. 
Paulo feu caminho , tanto avante como Ca- 
rapatáo , encontrou huma efquadra de de? 
palios , que o foram commetter , e entre 



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sfe A Sri A DE Drdáo de Coiríó 

^es fe travou huma afpera batalha ^ éttb 
flue houve muito daño de ambas as partes , 
faltando a P. Paulo hum ou dous navios dos: 
Jfeus , que fe Ihc foram efcoando ; e por fint 
da refert^ cuido que tomou D. Paulo dous 
paraos, e osoutros fe foram desbaratados: 
c com efta viftoria fe foi pera Goa ; porque 
fbi táo veqturofo elle-ílaalgo., que nunca 
fallió pela barra fóra por Capitáo de Arma-» 
da , qu^ foram multas vezes , que nao en-» 
contraíTe paraos , e que nao pelejalFe com 
elles , e os n^o vencelTe. Chegando a Goa y 
foi muito bem recibido do Vifo-Rey ; e quan-t 
do o vio entrar tao gentil-homem com duas 
viíflorias táo honradas , Ihe diíTe abracan-^ 
do-o : Que he ifio , Senhor D. Paulo ? Que-^ 
reis que vos dcm pefonha ? querendo remo- 

Suear aosoutros que eftavam prefentes , por 
íes nao terem acontecido aquellas boas ven-i 
turas ; e fallando o Vifó-Rev a todos os Ca^ 
pitaes da Armada de D. raulo , e louvan-* 
do-os de cavalleiros , ehegou hum dos que 
fe defviáram da briga , que era fílho de Goa , 
c abaixando-fe pera Ihe beijar a máo , o 
Vifo-Rey Ihe dilfe muito fevero : Andai da-^ 
ffií ide beijar a mdq a vojfa mau 



Qh-' 



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Decada VHI. Caí. XXXI, ^ léj 

CAPITULO XXXL ] 

Das coufas quefuccedéram ejie anno em Mnk-. 
luco a Gonjalo Pereira Marramaque. , 

DElxámos as coufas de Gonfalo Perei* 
ra Marramaque em Amboino naqueila. 
grande viéloría que houve contra os Iros na 
grande ferra do Atucile , com a qual fe re-: 
coJJieo pera Amboino > levando os Itos com-: 
figo já amigos pelas pazes que fizeram ; e 
eftando naquella bahia chamada a Cora , de- 

Í)ois de defpedir os gale6es pera Maluco ,: 
biavifado que vinha huma Armada do Sol-, 
tao Babú Rey de Ternate , a qual elle lao- 
50U no mar depois de fer jurado por Rey > 
pera ir em buíca de Gonfalo Pereira a Am- 
boino, e fatisfazer-fe em tildo o quepudef» 
fe nos Portuguezes , e em todas as fuas con* 
fas , da morte de feu pal : na qual Arma^ 
da íbiporCapitáo hum irmlo do Rejr mor- 
ro , homem já velho , chamado Calafineo y 
grande cavalleiro , o qual levava finco co«r 
rocoras tamanhas como gales, das quaes a> 
mais pequeña remava noventa remos ; e os 
Capitaes dasoutras eramfeusparentes, que 
todos vinham ajuramentados de deftiiiirem 
rodos os lugares de Chriftáos: e a primei-' 
ra Uha que tomaram , foi a de Burro ook 
Toada de Mouros vafTalios doRey deler*/ 

na- 



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t64 ASIA deDiogo deCoutoi 

nate , e alli armou mais fete coroceras : e 
mandoü recado aos moradores de Varenu- 
Ja , Calecedes , e Cábelos , pera que eftivel^ 
fem preftes pera, fazerem guerra aos Portu- 
giiezes, poraue elle determinava de Ihes to- 
mar a Fortaleza , e deitallos fóra daguellas 
Ilhas , agora que a Fortaleza eftava ío , e o 
Capitáo Mor na Cova : o que todos eftimá-» 
ram multo , pelo odio que nos tlnham , e fe 
Begocláram pera aquella jornada. 

D. Duarte de Menezes , que ficou por 
Gapitáo da Fortaleza , como já diíTemos, 
foi avifado daquella conjuracáo , e efcreveo 
ao Capitáo Mor , que logo o foccorreíTe , 
porque eftava fó , e o poder era grande : ao 
que elle llie mandou dizer , que logo feria 
com elle : ao que D. Duarte Ihe mandou re- 
plicar , que fe dentro em vinte e q[uatro ho- 
ras o nao foccorria , que Ihe havia a For-. 
taleza par encampada : e que logo fe havia 
de ir pera onde elle eftava ; e porque ihe 
nao deferio a efte protefto , entregou a For- 
taleza a Balthazar de Soufa com alguns pou- 
eos Portuguezes , e foi-fe por térra a ver 
com Gonfalo Pereira Marramaque j porque 
dizia elle que efta preífa Ihe nao fezia te- 
mer a Armada, que a nao temia, fenaoos 
Itos que tinha das portas a dentro, quelo^ 
go fe haviam de alevantar : e tambem Ihe 
páapareceQ que a Armada chegaífe.táodeh 



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' Decada VIH. Cap. XXXI. 26^ 

Í^rcíTa , a qiial appareceo ao outro dia , e 
ogo deitáram gente defronte da Fortaleza ^ 
que accommettéram com tanta determina- 
jao 5 que chegáram a abalar os paos da cer^ 
ca com as máos. Os Toldados , que eram 
bem poucos , e eíTes quafi todos doentes, 
acudíram com as armas ñas máos a defen^ 
der as tranqueiras , e fizeram afaftar os mn 
migos dellas. O Balthazar de Soufa y que fi- 
cou por Capitáo , vendo que os Mouros pu* 
nham fogo a huma galeota que eftava em 
eftaleiro , abrió a porta da tranqueira , e fa- 
hio fóra fó com huma alabarda ñas máos ^ 
e remetteo a hum Ternate , que acertou fer 
hum CaciZ) elhéatirou hum bote, quelhe 
elle tomou em huma rodela ; e querendona 
tirar , nao pode ; antes o Caciz chegou a 
elle 5 e Ihe deo hum golpe com hum traja- 
do pelo peícofo , que Iho cortou , e cahio. 
Eftava áquelle tempo Balthazar Vieira , que 
depois fe champú o Ternate, em huma gua- 
nta , muito doente ; e vendo o cafo , enea** 
rou aefpingarda no Caciz; etomando-o pe^ 
los peitós , o dernibou morto. Era efte Ca- 
ciz irmáo de Reboange , e tio do Capitía 
Mor daquella Frota. Os Ternates em o ven- 
do cahir moito , e que a artilheria Ihes der-^ 
ribava muitos , fe recolhéram , e embarca-* 
ram, eforam commetter duas fuftas noíTas^ 
que eftavam.no mar com dezefeis foldadosí 

Por- 



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a66 ASIA ©e Diogo de Coxrro 

Portuguezes, e as cntráram, e osmatáfam^ 
4epoIs de eÚes fazerem grandes cavallarias 
em fuá defensáo ; e dando toas ás ñiílas , as 
leváram comfigo , e fe foram pera a Ilha 
de Varemila. 

Eflas novas chegáram logo ao Capitáo 
Mor ; e quem as levou por térra , encontrou 
no caminho a D. Duarte de Menezes , que 
fe tomava pera a Fortaleza , depois de ter 
fallado com Gonfalo Pereira : o que ambos 
fentii^m em extremo : e o Capitáo Mor ne- 
gociou logo feis corocoras , e as mandou 
pera eíTe cffeito ; e elle fe partió por térra 
com toda a gente , indo muito refentido de 
nao mandar metter á efpada os Itos que to-¿ 
mou em Atucile , de que todos o culpavam , 
e com muita razao , porque nunca elles po? 
diam fer noíro3 amigos. 

Chegando o Capitáo Mor á Fortaleza y 
mandou lanzar ao mai* a galeota, a que os 
Ternates queriam por fogo , e que cuftou a 
vida a Baltliazar de Soufa, Ao outro dia ap- 

Eareceo a Armada inimiga , que tornava ío^ 
re a Fortaleza com tenjáo de a levarem 
ñas máos : o que elles pudéram fazer da oun 
tra vez , fe quizeram, O Capitáo Mcjr nao 
©s quiz efperar era térra, e logo feembar-. 
cou ñas corocoras , c mandou diante a D. 
Puartc de Menezes na galeota. Nascoroco- 
las hiam Louren^o Fjirtado > Joáo Rpdrir» 
-.;. gues' 



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oi>ECAt)A vin. Ca?¿ xxxí: iSf 

gu'és de Béia , Joáo Rebello , e Filippc Lo* 
bo. A banaeira de Chrifto mandou o Capi^ 
tao Mor por na corocera de Lourenjo Futs 
tado , e Ihe encommendou que trabalhaflai 
por abalroar a corocora do Capítáo Mor do9 
Ternates. EUes, parecendo-lnes que o Ca-» 
pitáo Mor eítava ainda na Cova , e antes de 
ehegarem á Fortaleza, vendo fahir a noíTa 
Armada , lego fe fizeram na volta do mar, 
e os noíTos os foram feguindo, centrando; 
e vendo os Ternates que náopodiam fugir, 
e quáo pouca Armada era a noíTa y voltá-» 
ram com muita determinajáo ; e vendo a 
bandeira de Chrifto na galeota de Lourenco 
Furtado, cuidando que era oCapitáoMór, 
indireitou a fuá Capitanía com ella, e aini 
veftio , ficando a corocora inimiga com a 
proa cavalgada fobre a de Lourenjo Furta-* 
do , que táo grande eia ; e da primeira 
forriada ficáram todos os noflbs feridos. Lou^ 
renjo Furtado fe lanjou na corocora inimi-^ 
ga , e com elle hum Aleiro Borges filho de 
Cochim 5 cada hum com fuá meia chuja ñas 
máos 5 e com multo valor foram derruban» 
do nos inimigos até chegar oCapitáoMór^ 
com quem indireitou o Lourenco Furtado v 
e Ihe enjopóu a chuf^ na barriga, edcrriH 
bou a feus pés. ' 

Goñfalo Pereira vendoo andar na galeo^Á 
t» iniíniga r^ foccorjceo , como tambcgij» 
j fo- 



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!t68 ASIA DE DioGo DE Coxrfo 

foram fazer as corocoras inimigas ao fea 
Capitáo Mor : e o primeiro que chegou a 
elle 5 foi hum tío feu , o qual íe baldeou lo^ 
go na corocera ; c chegou a teniüo que a 
corocora do tío do Capitáo Mor de Tema- 
te chegava a elle ; e pondo-lhe a proa , fe 
baldeou dentro , e á for^a de brap matou 
a todos os que achou , e a rendeo. Joáo Re- 
bello fez o mefmo á outra corocora. Gon- 
falo Pereira podemos dizer que pelejou com 
todas, porque anda va defóra manclando, e 
guardando ; t como paífava por qualquer co- 
rocora dos inimigos , Ihes dava fuá falva , 
de que derrubava muitos. 

Vendo os inimigos feu Capitáo Mor mor- 
to., e aquellas tres corocoras , que eram as 
principaes , rendidas , fugíram , e fe foram 
pera outras Uhas , nao fe tendo por feguros 
em Varenula. Gonfalo Pereira com efta vi^ 
¿loria fe recollieo á Fortaleza muito trifte j 
porque ficou da bulha muito mal ferido Ix)u- 
renjo Furtado , que aos dez dias veio afa- 
lecer com grande magoa , e dor de todos , 
principalmente do Capitáo MíSr , porque era 
muito feu amigo pelas partes oue tinha. Foi 
efte Fidalgo irmao baftardo ae Trifláo de 
Mendoza , Capitáo que foi de Chaul , jpai 
de Pedro de Mendoca , que efteve no Tri- 
bunal de Portugal. Era hómem ñas forjas 
agigantado ^.xnanliofo , e ardilofo na guerra» 



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Decada VIIL Cap. XXXL 26^ 

:t de grandes penfamentos , hum dos gran- 
des amigos que tive 5 por cuja caufa ao eC- 
crever defte lucceAb tambem me coube par- 
te da trifteza de íiía morte. Morréram mais 
neíla briga dez , ou doze Toldados , afora 
muiros que ficáram feridos. 

Goníalo Pereira Marramaque , tanto que 
os feridos faráram , foi logo á Ilha Vare- 
nula em bufca dosinimigosj echegandoao 
lugar, oacliou defpovoado, e as fullas que 
ieváram , queimadas , pelo que mandou dar 
fogo ao lugar , e tornou-fe á Cova a defpe- 
dir os galeóes pera Malaca , e depois fe foi 
pera a Fortaleza de Ito : e nao deixou de 
entender os trabalhos que a morte de El- 
Rey de Ternate havia de dar á nolTa For- 
taleza , que eftava em grande aperto de fo- 
me; que foi defeijao, que chegáram a co- 
mer caes 5 gatos , e outras fevandijas , e her- 
vas que coníiimiam os noíTos : e chegou hu- 
ma coíta de fagú bifcoutado , que parecía 
hum ladrilho de tijolo , a valer huma caixa 
de ouro , que era mais de meio cruzado; 
oorque o Babii Rey de Ternate tratou de 
azer guerra á Fortaleza por fomes , pojrque 
)em fabia que as nao podiam os noíi0s atu- 
rar , e que logo fe liie entregariam ; toda- 
vía 5 vendo quanto os nolfos aturavam o a- 
perto 5 concertou-fe com ElRey de Tidore , 
pera ambos- aífeltarem a.noJtta Fortaleza.; e 

pe^ 



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470 ASIA DE DioGo toE Coütb 

Íera fe fegurar delle , o cafou o Témate com 
urna fuá irmá , que era o que o Tidore de- 
fejava havia muitos dias : e pera eíla guer* 
ra nomeou por Capitáo Mor feu irmáo Ca- 
chil Tidore Honge , e IJie deo mil homens 
pera fe ir ajuntar com ElRey de Ternate ; 
e ^juntos ambos , commettéram a poroa^áo. 

Succedeo fer efte aíTalto hum Domingo 
depois de acabada a Miífa ; e ouvindo os 
Qoflbs a revolta , fahíram como deíatinados 
á defensáo das tranqueiras de fóra, quefo* 
ram commettidas com tanto valor , que lo- 
go as entráram , e matáram vinte dos nof- 
ios , que fe defendéram valerofamente , e 
tambem fizeram grande ellra^o nos inimi- 
gos, e todos os mais dos noflos ficáramfe-r 
fidos, eaté o Padre Vigario que faliio com 
hum montante , com que fez maravilhas , fa- 
llió oom tres feridas na cabera* 

Foram nefte tempo os inimigos avifa-^ 
dos que o Capitáo Mor Gonfalo Pereira fe 
fezia preftes peía ir foccorrer a Fortaleza, 
como (pe determináram dea levar ñas máos 
primeiio que elle chegafle : e aífim huma 
floite efcura commettéram a cerca , e com 
etittitos picóes a derribáram , e entráram , e 
tnatáram os Portuguezes , que nella havia , 
commett?endo outro baluarte , de que era 
Capitilo hum Luiz da Mó , valente Caval- 
kko ^pve « defisnddo vaki;o£uñeiiC&r E&it^ 



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Decada VIII. Cap. XXXÍ* %7i 

a efte tempo com elle Belchior Vieira , a- 
quelle que em Aoiboino matou o Caciz, ó 

3ual era hutn dos melhóres efpingardeirbs 
a India , e com fuá efpbgarda derrubou 
tantos dos inimigos , que ficou o muro clieiq 
de corpos mortos. O Capitáo que commet- 
t^o efte baluarte, foi o Benavia , Gerai da 
gente de Tidore , o qual andava capitanean-? 
do os feus , e fazendoK)s chegar -, e foi tal 
a ventura de Belchior Vieira , que encaran- 
do nelle a efpingarda , o tomou pelos pei-^ 
tos , e o derrubou mortó j, o que vifto pe-^ 
los feus ; fe foram recolhendo , nao fendb 
os que defendéram efte baluarte mais (}ue 
o Capitáo Luiz da Mó , que eftava cabido 
morto, e Belchior Vieira 5 que daqui ganhoii 
o fobrenome de Ternate , pelas maravilhas 
que obrou em defensio daquella Fortaleza j 
que fe elle nao fom , fem auvida fe perdé-» 
ra: pelo qual feito ElRey D.Joao otomótt 
cuido que por Fidalgo , e Ihe deo o habito 
de Chrifto com boa tenfa , e Ihe paíTou bum 
brazáo de aunas muito honrado , culo traf» 
lado cu tenho em meu poder, ¿cando fem« 

5 re com o fobrenome de Belchior Vieira a 
"ernate , tao bem merecido , como o de 
Manlio Capiflolino. Os inimigos contenta* 
ranh'fe com faquearem a poroa^ao , com cu^ 
jo defpq^o (e recolhéram» Succedco i ifto ú 
veráo de 1569» até emxada de.' 157a 

CÁr 



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27^ ASIA DE DiOGO DE CotJTÓ 

CAPITULÓ XXXIL 

J)a ida do Vifo-Rey D. Luiz de Jtaíde 
a Barcelofé 

V Indas as naos de Portugal ^ de <jue veio 
por Capitáo Mor Filippe Carneiro , lo- 
go o Vifo-Rey D. Luiz de Ataíde fe pre- 
parou pera ir íbbre Barcelor , porque fe en- 
tendeo que era neceífario pera fazer guerra 
ao Malavar , fechar-lhe aquelles portos to- 
dos do Cañará , donde, fe elles proviam ; e 
vendo que D. Antáo de Noronha fizera a 
cífe refpeito a Fortaleza deMangalor, quÍ2& 
fazer nos dous portos de Barcelor, e(>ior 
curras duas , pera aílim fícar aquella coila 
fechada ^ tendo elle «ftranhado ao Vifo-Rejr 
D. Antáo de Noronha abakr-fe com o pe- 
der da India por huma empreza de táo pou- 
co porte 5 como era aquella de ir fó íobre 
Barcelor }\^ poixjue eftandó-lhe eu pedindbli- 
cenga pera me ir pera oReyno overáo que 
elle chegou , Ihe pedio hum foldado algu^ 
ma mercé , allegando que fe achara na to- 
mada de Mangaíor; aa que o Vifo-Rey reí* 
pondeo : Neffa Pamplona vos achajies , fol^ 
dado ? Hora ide-^os embsra^ Coufa mui or- 
dinaria nos Vifo-Rejs eftranliarem o que fi* 
Síeram os a quem elles fuccedéram, e elles 
fazerem-no depois muka peior* 



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Decapa VIIL CapíXXXIÍ; 273 

^ Em fim aíTentado pelo Vifo-Rev de fa;* 

Éer efta jornada , efcreveo ás fortalezas da 
f Norte , e GSchim fuá ten^áo , pera que; a 

ajudaífem como que pudeflem , e aos Fi-* 
dalgos pera que o foflem acompanhar ; e 
tanta preífa aeo á Armada > que em No- 
vembro a poz no mar , e logo Uie chegá^ 
ram os foccorros de fóra de Damáo , Ba-» 
^ yaim,, e Chaul , que foram vintQ e finco- 
I navios muí luzidos , e de boa foldadefca» 

I cujos Capitáes foram Goméis Férreira de 

Sampayo , Jorge da Silva de Mendo^,- 
Franciíco Paim de Mello , Capitáo de S. 
Gens , Pedro Homem da Silva , filho de* 
I Vafeo Fernandes Homem , que foi porGo- 

í vernador. das Minas de Guama , Joáo dci 

I Ataíde , Joáo Correa de Brito> Ruy Pires; 

deTavora, que tinha inveniado em Damáo. 
com feu irmáo Alvaro Pires ^ D. Antoiüo. 
Lobo , Juliáo Tiborio , Gafpar Velho en^ 
teado de D* Pedro de Menezes o Eluivo , 
Francifco de Avelar y Jorge de Moura> 
que tinha invernado em Ba^aim : ppr Ca- 
pitáo da gente de guerra > Francifco dq 
Barros j^ Pafcoal Macliado , Diogo Pires 
Machado feu irmáo , Joáo de Mello filho 
de Heitor de Mello , Leonel de Soufa, 
Simáo de Azevedo ^ Francifco Preto filho 
de Pedro Preto o rico de Chaul , Antoniot 
Fernandes o Soldado , Gafpar Lopes Cha- 
Couto. Tom.F.P.L S mor- 



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174 A S I A DE DiOGO DE CótJTO 

taoTTo y Ruy Mendes , e Gafpar Femandes , 
lodos os navios feus , e á fuá cufta. Cpm 
efté foccorío fe poz o Vifo-Rey no mar, e 
com mais onze^galés , fete galeotas , e com 
de redor de fetenta navios , na qual Ar- 
.mada foram de vantagem de tres mil fol* 
dados. Os Capitáes das gales , a fóra o Vi- 
fó-Rey , que hia na ba&rda., foram bs fe- 
guintes : D. Francifco Mafcarenhas , que 
depois foi Vifo-Rey , D. Jorge de Mene- 
.í€6 Baroclie , D. Fernando de Vafconcellos 
Beto do Arcebifpo , D. Fernando de Me- 
neze^ fiUio de D. Luiz Fernandes de Vaí^ 
tónccUos ^ feu filho Femáo Telles , D. Ma- 
noel Rolim , Ruy Gonjalves da Camera , 
D# Pedro de Menezes , D. Nuno Alvares 
Pereirá. Os das galiotas foram Luiz de 
Mello da Silva > que tinha vindo de fervir 
á Capitanía de Ormuz, Chriftováo de Bo- 
badiJna, D. Francifco de Almeida o Tor- 
to , D. Paulo de Lima Pereira , D. Fran- 
: cifco da Cofta , Manoel de Mello de Sam- 
payo , e Antonio de Azevedo Feitor da 
Afmada. Os das fuñas eram D. Femando 
dé Monroy ^ D. Diogo de Ataíde , D. Mar- 
f iíiho de Caftello-branco , Jorge da Silva 
Pereira > Pedro da Silva de Menezes , 
Henrique de Betancor , D. Alvaro de Ataí- 
de , Pedro Lopes Rabello , Aleixo Dias 
FalcSo , Inqüiíídor Apoíblico , Antonio de 

An-^ 



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AlKlrade de Vafconcellos , Joáo da Fonfei» 
M , Avres Gomes de Miranda , Nuno Al^ 
yares Carneiro Secretario , Afforifo Pereira 
4e Lacerda , Joáo de Mendoza iFraitcifcc 
de Soufa Tavares , Anibrofio Valente , 
Fernáo Ortiz de Tavora , Antonio Fernan- 
. des , Diogo Fernaftdes ^ Gonjalo Quedes de 
Reboredo , Alvaro Monteirp , D* Lmt Tel- 
lo é^ Menez^s^ irmáó de D.Dlogo deMe-« 
nezeá , Nüno Pinto j Duarte do Soyeral j Vi- 
jcente Dias de Villaioboá , no galeáó S. Pe- 
dro , e S4 Paulo , Antonio do Soveral homem 
da teíra em fufta íua j putra Antonio Fer- 
nandes ^ Antonio Rabello oUtra ^ Antonio 
Meádes outra ^ Antonio Fernandes oiiCra ^ 
Manoel Dias Pkote , Capí táo d« huma ban- 
deira da gente da térra oiitra ^ P«dro Fer^ 
nandes do habito de Santiago outra, DiiOr* 
goDias dePréftes outta, fufta da enferma^ 
rjia 5 fufta da defpenfa , fufta oom o Meirinha 
da Corte, fiífta €om a guarda do Vifo-Rey, 
Antonio Dias Melinde em hum navio de 
alto bordo feu ; húm Tauri com cavoiiquei- 
ros, Maiioel Rodrigues outro navio de.alto 
bordo , Joáo Cordéiro CapitSo de huma 
barcada , BaSiáo Gonjalves ojutrai 

Depóis de dada ordem á carga ésii 
naos do Reino y e outras couías,^ deíxandt» 
alguQs navios de guarda na barca de^Goa^ 
e *Qvo Murmugáo • deo i vela na entmd» 

Sii de 



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276 ASIA DE DiOGO M CoiTTd 

de Dezembro; e como levava bom ventor 
chegou em poucos días ao rio de Onor^ 
onde detennmava fazer tambcm fortaleía , 
como eftava aíTentado 5 e quiz iazella logo 
de paffagem , pera o que le foi paíTañdo a 
gehtc ás fuftas , e foi entrando o rio. Era 
cfte porto de Onor muí frequentado j e de 
muito trato ; foi efte , e os mais daquella 
cofta de El^ejr de Bifnagá, e foiáo-íe allí 
apofentar os Mouros Arabios, que logo fe 
íizeram fcnhores daqúelk porto , e dalli tra- 
tavam com fuas naos pera Meca ^ em que 
fáziam muitos proveitos. Succedeo poruias 
grandes tyrannias levantarent-fc os natu- 
raes , que eram Gentíos Cañarás ^ contra el-, 
les , e perfeguiram-nos . de fei^ao^ que emr 
barcáram emíuas naos, efepaíTáram aGpa. 
Foi ifto mais de cem annos antes que nos , 
entraíTemos na India , no qual tempo era Se- 
nsor da Ilha de Coa hum Gentio chamado > 
Sabayo , vaffallo tambem de ElRcv de Bií^- 
naga ; e vendo-fe os Mouros que roram de 
Onpr , com dle, Ihe pediram o porto de 
Gpa pera fazerém fuá povoa^, offerecen- 
do^lhc graneles proveitos dos direitos de 
lilas fazendas ; e cppcertando-fe niíTo , fize- 
ram i fuá povoa^So naqueila parte , onde 
hoje eífcá a Cidade de Goa ^ e ribeira das 
Armadas , oue tudo er^i defpovoado, por- 
que a Cidaoe dos Ganarás era entáo em . 
•' . Goa 



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Decada VIII. Cap. XXXIL 277 

Góa velha, porfcr oíitio mais fádio. Dal- 
li do porto de Onor tratáram eftes Mou-*^ 
ros costi fuas naos pera os Eftreitos de 
Meca , e Ormuz , com que engroíTáram , o 
que durou até o grande AíFonfo de Albu« 

3uerque tomar a Cidade de Goa , que os 
eitou fóra della. Aífim qué entrando o 
Vifo-Rey pela barra de Chov , foi furgi» 
abaixo hum pouco da fortaleza ^ que eftava 
da banda do Norte fobre hum tezo ro* 
deado de muros , e alguñs .baluartes , e 
logo mandou o Vifo^Rey dcfembarcar a 
gente, pera que afolTem commetter, como 
íizeramj epofto que houve alguinaa roquei* 
radas , em Os noíTos ckegando a ella , Iha 
defpejáram , e fe foram , e entrár^m nella 
fem outra.alguma reííftencia. Alguns cui- 
dáram , e prefumíram que o Vifo-Rey cP 
tava já concertado cóm ó Capitáo dellaj 

aue fe chamava Lavarná , que allí eftava 
a máo da Rainha de.,Chantar , o qual fe 
foi pela térra dentro ; e fe era cérto que 
eftava coúcertado com o Vifo^Key , devU 
de ter toda a fuá fazenda fwa da forta-? 
Icza. O Vifo-Rey ehtrou logo, nella , e a 
mandou ber^er , e Uie poz nome Santa 
Catharina , e logo ordenou por CJapitáo 
Jofge de Moura , e IJie deixou diizentos 
foldados com muitos , provimentós de muy 
ni^es^s niantiai^itos , je dkheiro:, .e ]h€ 

man- 



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^78 ASIA DE DioGó DE Cóxrtó 

mandou fázer alemas obras y que Ihe pa^ 
recéram neteffarias. 

Feito ifto , partiofe o Vifo-Rey pene 
Barcellor ; e chegando á fuá barra , coirw 
inetteo logo a entrada com todos os na** 
vios de remo y indo elle diante de todod 
na fuá manchua Tentado em huitia cadeira 
de bíocado , armado de plumas ,. e pertó 
dellc o Veiga . tangcndo em ' huma ■ arpa ^ 
e cantando aquclle Romance velhp , que 
dyi : Entran los Gregos efi Troya 4 tres 
tres , y quatro a quatro. E chegando 
perto da fortaleza , comcfáram a vír zu-^ 
nindo por íima das embarcacóes algimias 
bonibardadae , com que o Veiga , qu^ 
hia cantando , fe embara^ou ; ao que ó 
Viíb-Rey muito feguro Ihe diffip : Oh id« 
por diante , nao vos eftorve nada. Llii^ 
de Mello da Silya hia junto do Vifo-Rey., 
e alguns outros Fidalgps , e Capitáes per** 
to de Luiz da Silva , os qua^s vendo aá 
bombardadas, diífcram a Luiz de Melló da 
Silva , . que o Vifo-Rey náó hia bem , que 
aquillo era mpito amlcar j áo que Ihe fe4 
fpondeo : Deixai-o , fenjlórés > ir; e fe ó 
matarem ^ aqm vou eu que góvernarei á 
India i ' e fe me matarent a mi , ahi vam 
voíFas tíiercés. O Vifo-Rey <Hiviildo fallar, 
fem pbrceber o que , pergunfdü a Liiiz dé 
M^llo a^ue^na ^ e §U$ Jli^ dlíFe tudo é 

- ^ qU9 



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Decada VIIL Cap. XXXIL 279 

que refpondéra , o que elle feftejouj e cer 
lebrou muito. ? 

Eíiaya eíta fortaleza hum quarto áé 1^ 
gua pelo río aíCma da banda do Sul , aír 
femada . íobre hum^ tezo tambcm ceixada 
de muros , e dei baluartes, com^alguina^ 
pe^as de artilheria., a qual fortaleza íufteur 
táram os Chatins de Barcellor , que tem t 
fuá Cidade mais pelo rio áílim^ , <)s qua^g 
fe goyerriavam como República , e pag^r 
vam alguns tributos ao Raju j eihavia en^ 
tre elles antigamente homens taq ricos > 
que muitos fallayam por bares de pagor 
<les , que sao quatro quintaes o bar. £m 
fim chegando o Vifo-Rey perto da foría- 
leza , mandou deíembarcar a Luiz de Meló- 
lo y a quem dco a dianteira com toda a 
gente , pondo-fe o Vifo-Rey tambem em 
térra com a bandeira de Cliritto. Luiz d^ 
JMLello foi marchandp pera a fortaleza por 
^ntre as bqmbardadas flue Ihe atiravaí» i e 
chegando a ella , fe Ilie défpejott , e n 
gente fe váfou pela outra parte ; c mefcr 
tendo-fe elle dentro , maedoüi^cado jáo Vi^ 
fo-Rey , que logo chegou, éfoi a^lia íer 
cebido dé Luíz de Helio com gtandcs fat- 
vas de artilhetia , e notieou por Gapir 
táo a leu prinio Antonio Bdteüio cq^ 
^reizentos homens ^ que fe mctteo Jogo 
Jüáh y e a mafidxm fortificar, 'muiüo hcm^ 
; . : por^ 



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l80 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

porque levava pera ¡íTo' o Vifo-Rey Mef- 
tres , e materiaes ; e fcito ifto em que 6 
Vifo-Rejr gaftou mais de hum mez , fe par* 
tio peta Goa. 

Como Déos noíTo Senhor teve femprc 
os olhoá nefte Eftado , fem Ihe lembrarem 
os peccados delle , que feinpre foram gran- 
des , infpirou multas vezes no peito dos 
Vifo-Reya coufas que pareciam profecías, 
como fucccdeo efte invernó no do Vifo^ 
Rey D. Lnit de Ataíde , que fem ha ver 
occaAáo nova , fe moveo a mandar huma 
Armada a Malaca , que pelo fucceífo della 
fe en tendeo que Déos noíTo Senhor Ihe 
infpirára a neceílidade que della naquellas 
partes haviam de ter ; e alBm tanto que 
entrou o mez de Agofto, mandou p6r ieis 
galeóes de verga d'alto, e oito navios, em 
que entravam huma galé , e as mais gateo- 
tas , e fuftas , c clegeo por Capitao m<k 
pera efta eñipreza a Luiz de Mello da Sil- 
va*, que fe fez á v¿la em 24, de Agofto 
defte anno de ifyo. elle no galeáo S, Ma- 
thias ^ fermofiífima pef a , e muito bem ef- 
caneado em fuas viagens : D. Pedro de 
Menczes, filho de D.Manoel deMenczcs, 

Sue depois foi Capitáo de Dio , no gafeáó 
.Paulo: D,Nuno da Cunlia Commendador 
da Mofcotela , filho de Antonio da Cu^ 
nha ;^ que 4epois fe chamou D. Aatoníax 



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Decada VIII. Caip. XXXIL 281 

3ue veio com o mefmo D. Luiz de Ataíde 
ó Reino próvido com á Capitanía de Dio 
2ue liáo logrou y em outro galeáo : Diogo 
a Azambuja , no galeáo Trindade : Ma* 
noel Lopes Carrafco, no galeáo Reys Ma^ 
¿os: Sebáftiáo de Rezende, íillio baftardo 
de Garcia de Rezende o noflb Chronifta, 
na galé D.Fernando de Menezes cafado 
em Góchim. Galeota Simáo Reinel , das 
iuftas foram por Capítáes , Pedro Ribeiro , 
•Ruy Mendes de Fieueiredo , Alvaro Lopes 
daCofta, Antonio An tunes, e Antonio Caf- 
reirb Feitor da Armada. 
: Nefta companhia foi D. Francifco da 
.Coila entrar na Capitanía de Malaca , de 

Sue era próvido. No mefmo tempo foi 
tiogo de Mello Coutinho entrar na Capi- 
tanía de Colunibo , e Ceiláo. Tambem neí^ 
te Setembro foi Ayres Teiles de Menezes 
entrar em Dio, de cuja Capitanía era pró- 
vido jpor fincó annos. Defpáchados eftes 
Capitaes pera fóra , logo em treze de S(í- 
tembro cnegáram as naos do Reino , d^ 

Sue veio por Capitáo mor Joree de Men- 
05a , e logo o Vifo-Rey ordenou a Ar- 
mada do Malavar , de que foi por Capitáo 
mor D. Diogo de Menezes , que partió em 
vinte e oito de Setembro com tres gales ^ 
e dezefete fullas , de que foram por Capi« 
tóes das gales , a fóra elle , Fernáo de 

Mea- 



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aSx A S I A DE DioGQ de Cóuto 

Mendoza y Manoel de Sampayo de Mello , 
Diogo de Mello de Sampayo , filho de Si- 
máo de Mello. Das fuftas D. Pedro Coiiti- 
nho , Mathias de Albuquerque , Thomé de 
Mello de Caítro , D. Joáo de Lima , irmáo 
de D. Duarte de Lima , e filhos de D. Anto- 
nio de Lima , o Alfaiate de alcunlia^ 
Ignacio de Lima , Manoel de Miranda y 
íiTlio de Diogo de Miranda Camereiro mor 
do Cardeal D. Henrique , Antonio Lobo 
de Brito , Martim de Valconcelios , Lopó 
Fereira ,. Affonfo Vaz Viegas , LourenCo de 
Brito , que depois foi Capitáo de ^ófala 
eín Mozambique , Vafeó Femandes de La- 
cerda 5 D. Luiz de Menezes , que foi Ca^ 
pitáo de Damáo , filho de D, Fernando 
de Menezes, Domingos Ferreira Efcorcio, 
Francifco Mcndes , Martim AfFonfo de 
Mello Pombeiro, e Antonio Mafcarenhas, 
o Mancó , filho de Fernáo Mafcarenhas , e 
irmáo de Simáo Mafcarenhas Clérigo, 
Conego da Sé de Evora ,6 do que Ihe 
íuccedeo adiante daremos razao¿ 



CA. 



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Decada Vm. CAf.XXXni; 1S3 

c APiTut O xxxm.. 

Da conjura fiSo doT> Rgys todos da I»di^ 
centra o Éftado. 

HOuveram fcmpre os Mauros todos 
defdc O)nftantinopla , Peffia até Ma* 
laca por Ao pezado eftejugo , quecui-* 
davam Ihes tinham pofto os Portuguexes 
depois que entráram na conquifta da ludia , 
que em todo o tempo, que a poílibilidade 
os ajudoiv, fempre confpirárám *conti^a nos 
pera verein fe por al^m modo nos po»* 
diam lanzar fóra do Eftado da India ; oca 
com graMes Armadas de Turcos ^ que íi*- 
zeram paíTar á India por muitas vezes^ 
como largamente tenho eícrito ñas minhas 
Decadas. ; ora com outras poderofas do 
Achém, e principaes de Jaoa, que fe mar 
véram contra Malaca j ora • com exercitps 
de Cambaya , qud fe ajuntáram contra as 
noiías fortalezas de Dio , e Damáo ^ opsi 
com feinover«:tl os Reys de Decane tantas 
vezes contra as fortalezas de Ghaul , Ba- 
^im V e.Goa V de modo,* que nao 4qtdé- 
táiaift; nunca , porque Ihes «m*intoleravel 
dé fofFr^ef verémque ós defapoffámos-'db- 
rico commercio da pimúuta , drogas^ ^;-c 
^ais fazefidas ^ com qu^ entráva^ com 
jgroíTas «ios- ^los. Eíb^ifos 4» F^ríia ¿ ie 
^.- da 



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a84 ASIA db Piogó üz<loTi'áy 

da Arabia , donde paíTavam. i Europa por 
máos de Venezianos , Genovezres , e outras 
nacóes , e íbbre tudo a honra de fuá Relí- 

fjiao , que Ihes era de tudo o peior de fof- 
rer , porque tinhamos totalmente impedi- 
do a todos elles a navega^ao da caía do 
feu Profeta 'Mafamede , fobre que osieus 
Cacizes , e doutores na fuá nefanda lei 
Ihes faziam todas as horas grandes y e 
exhortatorias admoefta^óes , como os nof- 
fos Santos Pontífices as fazem aos Princi-» 
pes Chriftaos contra o nome Mahometi-> 
co ; de maneira que quali todos os días 
eram admoeftados , e requeridos dos Ca« 
cizes , que olhaílem pela honra do feuMa^ 
famede , que viam cada hora ir em di- 
minuidlo y ameagando-os com grandiílimos 
caítigos : e ainda quando aquelles Reys do 
Decane , Nizamóxá , e Idalxá fe conjura? 
r^ contra o Rajú de Bifnagá , que o def- 
baratáram , mataram , e ganháram feus ri* 
quiílimos defpojos , levandcvUie feus thefou- 
TOS 9 como o tenho contado em feu lugar ^^ 
indo todos a hum pagode . dar grajas a 
Mafamede de tamanha mercé.como aquel<<^ 
la. , . £^ levantou o feu Cac^z, maior , como 
újCa¡x(d, d^ Arabia , e de hum lugar alto 
Ihes fez efta brere falla : 

,Muito poderofos , e vitoriofos Reys, 
honra > e gloria da na9^:MahQmetica de 
. \) ^ to* 



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byCeagfe-^ 



Decada VIII. Cap. XXXtir. iSV 

tóáo efte Oriente 5 bem fabeis a grande 

uffronta , que a todos vos tem feito 09 

Portuguezes em vos tomarem voíTas Cida- 

des , fcnhorearem voffas térras ^ufurparem- 

vos voflb commercio , defenderem-vos , e 

impedirem-vós a voíTa navegado á cafa do 

noflb grande Profeta , o quaf eu vejo et 

tar como corrido, eenvergonhado dovoffc 

foíFrimento , faavendo que ou fazeis pouca 

conta da fuá lei , pois nao acudis por fuá 

honra , ou que de covardes , e puíUtanimes 

vos nao atrevéis com potencia tanianha, 

como tendes junta neífe campo , com que 

podéis conquiftar o mtmdo , a lanzar fóra 

de voífas cafas quatro homens , queaíEm 

sao em comparadlo de voiíos innumeraveis 

exercitos, e de libertardes a cafa de voíTo 

Profeta , tendo voífos irmaos , que aífiin 

poffo chamar os Turcos , cativo eiti fea 

poder o Santo Templo de Jerufalem com 

todos os Santuarios , Reliquias , e mais lu^^ 

gares de fuas peregrinajoés , fem ferem 

poderofos todos os Reys OiriMos* pera 

refgatarem os thefouros de fuá fé. Ekx tive 

por muitas vezes cartas ^ e admoeíta^Óes 

dos Prelados dó Imperio de Confian tino- 

pía, dos da Perfia, e Arabia, axi que me 

eftranháo muito « o pouco que comvofcov 

ó poderofos 'Reys, tenho acabado i íaben** 

do vos .que4oda a ajuda que vos for ne- 

cef- 



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íÍ6 ASIA "bE DiOíSo BE Covró 

celTaria fuá i vos mandarán ^ como já -fíze-* 
ram outras vezes ; c tambem leí que fe vos 
moverdes a illo , que vos admoefto > que 
em vos vendo refolutos , e abalados , loga 
os Reys da Uha CJamatra , de Jaoa , e de 
Maluco fe háo de moter contra os Portu- 
guezes , que lá vivem por aquellas fortale- 
zas tío rotas , e mal próvidas , a qucm fe- 
rá impoílivel chegar foccorro , fe por to- 
das as partes do Eftádo fe virem opprimi- 
dos de voflbs exercitos ; e nao eftá em 
mais o acabar de os extinguir, que emvos 
refolverdes a vos abalar pera ilfo* ' Pelo 
que vos requeiro , c admoefto da parte do 
fioífo grande Profeta , que pois eftais em 
campo , abaléis voífos exercitos pera efta 
empreza, que he de mais honra, eprovci- 
to • que a de Bifnagá, que táo facumente 
acabaltes contra o mais poderofo Rey def- 
te Oriente ; é eu fico qiife tenhais grande 
ajüda., e favor do noíFo Profeta, quando 
vir que vos refolvcis a pordes-vos em cam-^ 
po por fijiá honra. 

Milito . a tentó eñavam aguelles Reys , 
e Capitáes ao que. o feu Prelado Ihes diP 
fe ; e movidos de íuas' admoefta96es , co^ 
mo eftavam com as máos folgadas daquella 
grande vitoria , e víram que os gallos da- 
ijudíla empreza podiam fahir dos thefouros 
-de Bühaga^ logo dli na mefma Mefquiía 
* ' , . ju* 



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G eoglc- 



Decada VIII. Cap. XXXIII. 287 

juráram todos fobre os livros de feu Al- 
cox^o de fe ajuntarem todos contra nos ; e 
que o que le efcufaíTe defta conjura^áo, 
ioíTcm os outros fobre elle , e Ihe tomaf- 
fem o Reino , e o repartiíTem entre os 
conjurados. Eíía liga , e juramento íizeram 
com grandes ceremonias , com as efpadas 
nuas ñas xñáos , e lanzando as toucas diánte 
do Altar de Mafamede. Feito ifto , logo que 
fe recolhéram , como já diífe , fe comerá* 
ram a preparar y e mandáram embaixadad 
ao Achem pera o perfuadirem a ir contra 
Malac* , e o mefmo fizeram ao CJamori , 

{>era fe abalar contra Chalé , e aos Regu- 
os da coília Canai^ contra aquellas forta- 
lezas, pera o que logo fe preparáráo coiti 
muita preffa , e fegredo , que nao pode fer 
tamanho , que os Portuguezes y que anda- 
vam em Madaneguer , e Vica, Cortes da- 
quellesReys, nao yieíTem a faber do cafo', 
deque ayifáramlogo aspeífoas fuas amigas , 
como logó direi. 

Nao deixáram de foar eftas novas em 
Góa , e Chaul , ainda que coníufamente , 
porque andavam ñas Cgites daquelles Reys 
mercadores Portuguezes com cavallos , em 
que faziam grandes proveitos , os quaes 
avifaváo d^ lá alguns amigos que o diziáo 
aoVifo-Rey, o que elle commuñica^a com 
Dfi Cidadáos velfios qtte todos Ihe aifirmá-^ 

ram * 



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r 



•í88 ASIA deDIocíó üE CoüTó 

ram , que fe nao poderla refolver o Idáljí^, 
a nos fazer guerra , pelos proveitos aue. 
tinha de noíTo commercio , c porque eftep 
Reys nao fe fiavam huns dos outrps ; e as 
mefmas razóes davam os mercadores de 
Chaul a Luiz Freiré de Andrade feu Capi- 
tao , a quem hum Lopo Soares allí mora-» 
dor certificou que o que fe dizia era ver-* 
dade , porque havia pouco viera da Corte . 
de Nizamoxá , e já la fe fallava nefte mo- 
vimento : e Ihe difle mais ainda , que fe 
o que dizia nao foíTe verdade , que Ihe 
xnandaíTe cortar a cabe9a. £m finí aífim o 
Vifo-Rey, como o Capitáo de Chaul efta- 
vam confufos , . e tinham mandado efpias. 
verdadeiras , e de grandes intelligenciaá 
pera os avifar da verdade , e certeza do 
que fe palfava. 

Luiz Freiré de Andrade Capitáo de 
Chaul ^ que era Fidalgo precatado , e ti- . 
nha dado homenagem daquella fortaleza f 
com feguranja de Lopo Soares , e cartas 
que teve dos homens que andavam em_ 
Madaneguer, poz-fe em prdem, exnandúU. 
logo derrubar todas as cafas > e hortas^ 
que havia defde a (Jidade até o campo de . 
S. Sebaítiáo y e toda a madeira^ taboado^ 
pedras , e mais coufas mandou metter den- 
tro na fortaleza ,6 Cidade , e come^ou a 
abrir alicerfes pera fe fortificar , recolhen^ 

do 



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DecaíJa VÍIL Cap. XXXHL 289. 

lio a cerca , que come^ava a fazer muitd 
pera dentro da povoa^áo y porque níó tinhá 
muros > nem baluartes ^ do que foi muito 
murmurado dos moradores ^ que fe queixá-^ 
ram , e aínda proteftáram do Capltao Ihes 
tomar fuas madelras , e Ihes derrubar fuad 
cafas ,.e hortas, e de tudo avifou. ao Vifo* 
Rey por recados gpreíTados ^ certlfióando^ 
liie a defclda dos Keys conttra aquella. Ch* 
<lade ,. e contra a de Goa y de que támbem 
o Yiíb-Rejr já tinha certeza y e com multa 
preíTa deípedio peía Chaul D. Francifco 
Mafcareáhas^ que jdepois foi Ylfo-Rey da 
India, por Capitáo geral d^ueUa ^guerra ^ 
e de ]x>das as fortalezas , com feíis podereé 
na fazenda y e na guerra , o quai parjdo de 
Goa. nofim d^Outubro defte anno de tSJO. 
com tres gales y e.dez navios , deque eram 
Capitáes , a ,fóra elle que hia na galé- S^ 
FráAcifco, Fernáo Telles, D- Hcnrique áá 
Meneles , D<. Duartc de Lima^ e das fuflas 
Henrique de Betancor , Jorge da Silva Pe- 
réira^. neto do Regedor, Diogo Soares da 
Albergaría 9 Ckriilováo de Bobadilfaa^ Msl* 
noel Fcreira,:Jolb de Mendoza ^ Francifco 
déTovAT^ D.Nuno Alvares Pereira^ Nuno 
Velho Peretira ,. CfGafpar Velfao , nos quaes 
navios irisun feiscentos foldados aue le of- 
feirecéram pera iíTo , e nao fbx*5aaos^ nem 
pendidos a poder.de dinheiro/ ^b^o.hbjo 
Coyto. Tom.F.P.L T fa- 



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ft^o ASIA deDíogo DE.CouTa 

fazem : -na qual companhia foratn muitos*^ 
£ mui honrados fpldados Fidalgí»^ jefcon^ 
didos dé feu Yifo-Rey ; e depois chegou 
o tempo a tanta miferia,-que.alguns.ífe efi- 
condianí pera nao irem a outras occafióes* 
Os Fidalgos que aqui. foram , de que pude 
íaber os nomes , sao os fegüintes. ,, e os 
máis delles.com embarcagfies que itetáram 
¿itia cufta^ eoutros com amigos embasra** 
dos; Rujr Gonjalves da Camera, D. Goit* 
ralo de Menezes com Feíiiáó Tellés y Ruy 
BLodrigues-de Tavora com navios feus , e 
cóm elle D; Rodrigo de Spxiia , Pedro da 
gilva de Menexesi, e outros muitqs cavali- 
leiros y e Toldados de ñome ^ (pie. adianto 
apontaremos* c 

. Eaffim como cliegavám novas de qual^ 
quer fucceílb , afiim te embarcávam o^ttios ^ 
lem. o Vifo-Rey os poder 'ter-, porque tam^ 
bem ferecéava deoutras neceíHdades. Cher 
gado D. Francifco LMafcaréñhas a Chauí^ 
achou a certeza da guerra , e o Capitáó 
Luiz Freiré de Andrade ófccupado com fe 
fortificar "conforme a brevídade do tempÜ; 
poVque íós inimigos hiafai < já defcendo y é nao 
podei mais^ fazer qué. tapar, ks bocas ais 
rúas que S^iámi ao campo ^ ao que o Ca- 
pixio mor a}]kloa logc^ com todas ascfau^ 
mas das gaMs, einaríiMi^iro^, fendo osFi>* 
dijigod-, € Capitáe¿ fempé os primeirofe 



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(Dbcaí)A VIII. Cap. XXXIIL 191 

que pe¿aTám nos paos das portas, e máis 
materiacs pera os tapigos , e que carre»' 
gavam ^ óu anolavam as balas de aigodao 
pera pórem . por Itina ^dos andaiaies das tran* 
queiras. y. que fe nao leyantavam: mais de 
jiuma bra^a, e em multas partea íefizeram 
paredes de pedca, e. barro guarnecidas de 
paos gróíTos de teca ; /e das través das ca**. 
tas de fóra . que fe derrubára&i , mboas y aF« 
cas, e nido o mais que podía. fazer alto á 
Tiftftfios inimigos^^ porque nao tínhaxiaoutroa 
muros , nem baluartes com que fe defender» 
rcm.da groffiifima artilheria que o inimigo 
yinha arrojando pelo Gate abaixo . contra 
aquelles pobres Moiiulhos , que ticiham a 
maior réíifténciái nos fbrtiflimós peí tos dos 
valeroübs Forti^uezes , que. emm os Terdx^ 
deiros muros daquélla Cidade. 

£ porqup pareceos ao Capitáa morgue 
era- obriga^p idafeu; cargo ir.pi^qver as 
trqiqiieiitas defiaipám', e legEi'an.a^ilha da 
Salfiste, contra as qiiaes o inimigo: poderla 
moüc aa aitnas , p0(r^ ferem as de mór im^ 

Eortancia , e rendlmento dó Eíbdo , em^^ 
aroouéíe na fuá Armada , e. as fol vifitar ^ 
prover , e dar ordem á guarda' >dos':paíros 
daíterra, e dos rios, no que fenáo deteve 
muiía^ porque foi ic^o c¿amado do Capi^^ 
táo LüM Freiré de Andrade , por virem já: 
«appaiíeceiida os. inimigos , e o poder eílar 
. : T ii * em 



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.29^ ASIA DE DioQQ hu Covfb 

em Palé , huma jomada de Chaiil^ ^ • e iio 
fim de Novembro comefáram a apparecer 
pito, mil de cavailo 5. e vinte mil de pé de 
Seyadaria de Fratecáo y Abexí , que vinlia 
por Geral daquella guerra, o quaífe^tinha 
jáachado nosdous foberbos cercos de Dio 5 
fendo Capitáes Antonio da Silyeira> e D. 
Jpaó. Mafcarenhas ^ nosquaes vip fazer 
taes.coufasf aos Portuguezes ^ que mais vi'- 
nha a ^a guerra pw acompanliar .0 {e\i 
Rey.^ (jae por Ihe parecer que na empieza 
podena' ganhar honi'a alguína. x > : 
. O primeiro día que, os Mouros deram: 
vifta defta agente , foi «dia. de Santo André , 
que ajipaireceo pelo campo de S.Sebaítiáo^ 
aonde aqudio D. Francifco Maícareiikas: 
conab' toda a foldadefca , a qual feado vifta 
dos inimigo6 j fe foitim logo reoolhendo y e 
O- Capitao mér fez x> nreímo pera a Cida- 
de; e porqué ficava aindaaíguma gente da 
terrai peraxecollier dos arrebalde&,.>e pal- 
mares,, tornáram o» MpiUDs^ a rebentar no 
campo pelos apanharem ás máos , . ao que o 
Capitao' mor yoltou , e fez recoliicr os 
Moúros;> .atEayeflando^ de itoda 0*jCOTpo 
doiecsrercito^'. :•"•• . i: c i. •■::• • , -i •• .■ ^ 

Defte rdii 1 por. diante • fe comegáram.a 
trayar..ás(efcaramiicas -entre os npífos-, e 
elles .y ' dos quaes Deqs nofTc S^Jiot^ Hogo 
ao principio. nos comepu. a mofirar^liayi^ 
- v:t ; : mós 



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Década VHL Cap. XXXIIL 193 

itrosí de ter (felice Vitoria , porque fempre 
fahíráM efcalavrados. O Capitáo Luiz Frei- 
ré como tííáia dado homenagém da forta- 
leza j e cárrégavam fobre elle muitas cou- 
fás j acompanbado de todos os cafados , t 
moradores ^ fempre fe aprefentava no cam- 
po aós trabalkos , pélejando com huma 
máo 5 d fortificañdo-fe' com a outrá o me- 
Ihor-que podia ; e parque nos palmares 
adiañte de S. SebaíUáo appareciam compa- 
nhias de cavallo , e faziam os Moarós al- 
gumas embofcadas ^ mandou Luiz Freipe 
de Attdráde- alguns poucos dé cavallo to- 
mar villa delles j com ordem pera ííjue fe 
foífem recolhendo ate os metterem em hu- 
ma embofcada de foldados de efpiñgatdas , 
que mandou lanzar pera efte eíFeito em cer- 
ta paragem ; e eftando os noíTos , que fe- 
riam fete, ou dito de cavallo, pelos pal- 
triares , deram com hum tropel de^^gerire 
de cavallo, que remetteo com osnoflbs, e. 
do ■ primeiro encontró derrubáram 'dous , 
hum cafado rico , e bom caválkiio' , que 
fe chamava Ferino de Ajrres , que logo^ 
morreo;, e hum Cafteihaho , que de muitas* 
feridas foi' dérriibado , e osMouros fe déf- 
«éram ao esbulliarem das armas 5 e de hum 
áñhel que levava? no dedo y e havéndono^ 
por morto , o deixáram com huma cadeá 
de ourc^imuta ^olTa- ^o péfcojpr, eni ^ué 

nao 



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%^4 ASIA M DiQQo f>h Cottt6 

nao attentáram com a preíTa ; os óutros- 
noíTos de cavallo fe recolnéram multo bém» 
e os Mouros tambem o fizeram : o Cafte^ 
Ulano, que eftava ainda vivo feito rapofo». 
tanto que vio os Mouros recolhidos y fe 
levantou, e fe foi recoUiendo pera a Cida- 
de, onde foi muito feftejado, e curado; e 
pouca depois víram vir hum cavallo. folto 
pelo campo fellado , e enfreado , o qual fe 
vcio metter ñas tranqueiras , e conhecéram. 
que era do Caftelhano. 
' Paliado ifto , e correndo entre os nof- 
£os , e os Mouros algumas efcaramu^as y 
em que fempre havia feridos , quiz o Ca- 
pitáo Luiz Freiré de Andrade tentar outra 
vez a ventura , e armou outra ciliada de 
fincoenta foldados cmbofcados , e mandou 
feu ¡rmao Aiexandre de Soufa com quinze 
de cavallo , pera que foíFe até os meíinos 
fútnsíTts , e provocalfe os Mouros a fe 
&hjrem delles , pera a parte onde a cm-í 
bofcada eftava. Aiexandre de Soufa metteo^i» 
fe tanto pelos palmares , que chegou até o 
alojamento dos inimigos , os quaes em vendo 
os iK>iros ^ • Ihes fahiram mais de cento de 
ginétes mui fermofos ; mas Aiexandre de 
Soufa , que era gentil cavalleiro , veio ef» 
earamu^aiido comelles, etrazendoK)s após 
fi pem os metter na emboícada; e vierao^ 
h a btfalhar d«f feí^o » x^o foi nweí&ido 
c :i " ' ao^ 



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<©ECAí>A '•VIII. Cap. XXXIIL ipj 

aos^tioíTos. virarem a elles , e.cncontrarem* 
& das lan^s , e.cavállos tezámente , em 

2 lie o9 noílos jdcrrubáram alguns ; e todavía 
Jexandre de:Soufa velo aa chao por falta 
do: feu cayallo , ' levando-lhe feíñprc as re* 
deas na máo ; ao que acudió: Firancifca d^ 
Soufa Tavaree , que era feu ibbrinho > e o 
ajudou a cavalgar com- muitp rifco feu ; e 
alfim cahio ourro noíTo , que tambem caral-! 
gou logo ajudado de Nuno Pinto , que poz 
a langa em hüm Mouro , e o derrubou 
morxó , e com ifto fe Eecolhéram os noíFos 
fem poderem provocar os Mouros a que 
fahiíTetn ao campo , aondé a embofcads^ 
^ftava. Eftas novas^ chegáram ao Capitáó 
geral , que acudió com toda a foldadefca 
a recolner os noíTos que vicram muito gen^ 
til-homens , fem Iheíi acontecer maitdefaf- 
tre algum. -.-:*, r r ? ^ 

- Aos quinze de Dezembró feguinte che* 
gou a Cnaul o Fratecáo com oitp mil de 
cavallo, e mais vinte eíefantesl,. e msaita 
gente - de pé > e foi dando; pelo xampo* de 
S. Sebaftiáo rifta de feti poder, atraveíTanHí 
do-o de parte a parte ,':e toh tonjar feu apo4 
fénto n^s ráfas da Madre »iáe Dcoc, e poís 
€mjS;Sebafliaa .ou^o Capiiáú> ek>go man-^ 
diou outro ai^n^ter-fe no asuiío de fobra 1^ 
bkn-a 5 .no q'üal mandób -pjtatóar^ dgup^s 
pe^&st;'de.artilJ]aáa.pera; fkfeisder. os-^forít 
t,/ ' co- 



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apé «ASIA DE DioGo de G)utó 

corros que havlam devir pela barta^ dcn^ 
de tambem podiam bater a Cidade, e va^^ 
rejalla^ porque fe defcubria toda ; e affitn 
na Armada que eíbava no mar, e no paífo 
das Almadias , que vem de Chaul de ílma 
pera a noíTa povoajao, mandou por outras 
pecas groffas , affim pei-a dcfenderem aquella 

{)aflb 5 cómo pera baterem o baluarte da 
brtaleza velha , <|ue;fica fobre a Vafa, o 
daquelie día por diante fahiam osmais dos. 
dias ao campo com todo o poder , com 
grandes eftrondús de inftnímentos bellicos^ 
rinchos de: cávallos , e uivos de elefantes , 
pera com iíTo atemorizárcm os noíTos , que 
fe matavam , porque Ihes nao podiam íahir , 
e defenganarem-nos que os nao terniam , fe 
os Capitáes os nao enfreáram. 

Áoa vinte- Jt hum de Dezembro fe p02 
o Fratecáo no campo com todo o poder, 
e multas bandeiras defenroladas , e áppa- 
rccéram pela prala da banda do mar nas[ 
colbs da, Madre de Déos , e pera onde 
eftá aforoa, muitas tendas, «pelos palman 
res já em defcuberto, o que até entao nao 
tínha feito ; e pek) mar que vai pela cor*« 
doaria .por detrós de S. Francifco ^ e mais. 
chegado aa Mofteiro, fe armou huma, ten^ 
da de vermellio^ bandada de:a&ul, ebvan^ 
Go pera a mrfmo Fratecáo^ Os noíTos foU 
¿«dot > vendo., aquella ■ fobwha de fe Jkcf 



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Decada VIIL Ca?. XXXIIL 297 

yiiísm avizinhar á Cidade , liles fahíram 
algumas Companhias com ieus Capitáes, 
que traváram huma fermofa efcaramu^a 
com os MouFos , em que os noflos fe 
adiantáram bem , e os efcalavráram me« 
Ihor ^ até que o Capirao mor mandou ter 
máo nclles , e recolhellos, 

O Capitáo mor com o da fortaleza fe 
puzeram em ordem de repartir as eftancias ^ 
como íizeran) por eíta maneira. D. Rodrí* 
go de Soufa no baluarte Santa Catharina^ 
que ficava fironteiro á Vafa , e dalli , por 
aquelle lan^o que hía pera o campo , cor« 
réram as eftancias de Henrique de Betan- 
cor , e Eernáo Pereira de Miranda. Era 
efte Fidalgo mancebo de muito boas partes y 
multo amado , « querido de todos , foi lílho 
de Fitmcifco Pereira de Miranda, que tinha 
fido hayia annos Capitáo de Chaul , e ir«* 
máo de Chriftováo Pereira de Miranda, 
cafado com huma fiiha de Pedro Preto de 
Chaul 6 rico , e muito conhecido , da qual 
teve duas íilhas , huma que cafou com Ay* 
res Telles de Menezes ^ e outra com efte 
D. Rodriga dé. Soufa: mais adiante Fernáo 
Telles , e Ruy. Pires de Tavora ; e hura, 
lan^o de cafas , que coma pera o mar de 
S. Frandfco ^ muitos quiñtaes, & roturas; de 
paredes mandou o: Capitáo mor tapar por 
|b xn&tterm oellas. os Moiiros i e a guarda 
;. ^ dos 



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lyS ASI A' DE DioGo .bE Ccyur^ 

dos que andavam nefta obra , éncommendóu 
g Ntmo VelliQ Pereira, é a D. Gonzalo de 
Menezes ; « na dita: paragem nos tres dias 
dé Janeiro de- ij"/!. ouvio Nuno Velho 
fallar Mouros , que andavam folgando pelas 
hortas; e faliiado-lhes ambos- eftesFidalgos 
com feus Toldados, os tomáram tao de fu* 
pito , que. os. nao yíram , fenáo quando fe 
fentíram cortar do feu ferro; mas tomando 
fobre li , leváram as armas , e traváram 
huma multo arrezoada briga , á qual acu- 
diram com foccorró de ambas as partes y 
o que foi caufa de fe accender a batalha 
muito , e durar até á noite , em que o Ca- 
pitáo mor acudió aos recolher. Morréram 
Xicfte primeiro defenfado cento e . oitenta 
Mouros, ficando feridos mais de quinhen- 
tos y dos noíTos morréram dous , a que nao 
achei os nomes , que pode fer o nzeffem 
melhor que os que os tinham mais illuftres ; 
e ficárao feridos trinta. 

Pallado efte cafo , logo a feis do meas 
chegou a peífoa de ElRey Nizamoxá áCi+ 
dade^ onde foi recebido com grandes fef- 
tas , e regozijos*, e toda aquella noite hoüvé 
grandes luminarias , bailes , dantas , e oii- 
tras recreafóes , e ao outro diá fe Ihe ar* 
tnou huma tenda fobre a ierra do Argaoá 
-vifta da noíFa. Cidade. Trouxe ElRey com* 
áigo dous n^il . de, cávailo ; que jxmtos aos 



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Decada VIII. Cap. XXXIIL 295^ 

qlie lá eílavam , faziam trínta e quatro mil^ 
oos quaes mandou quatro mil fobre as terr 
ras de Ba^ixD. Acompanhaváo-na multo» 
Capitáes y e Toldados eftrangeiros, I/L^iigo* 
res , Rumcs , Perlíos , Corazones , Larís , 
Abexis, e outras nafócs. Agente depé paf^ 
£ava decentó evintemil, emque entravam 
doze mil bombardeiros , fréchciros , efpin-^ 
gardeiros , e quatro mil ofEciaes de campo j 
e Condeílavel mor da artilheria era hum 
Turco chamado Rumecáo , grande oíRcial ^ 
ao qua! ajudava hum eentio Bragmane ^ 
chamado Rama y tamaimo homem no. offi^ 
cío de artilheiro , que por multas vez^ea 
deiTubou os noíTos gulóes ñas eftandas y e 
cegou todas noíTaspe^as^ moftrando-íe niílo 
abalizado, e porordem de ambos fe ordc* 
navam as.eftancias, eprantavam a artilheria 
nos lugares quepodiam fazer maiordamno. 
Trazia ElRey trezentos e feíTenta elefan- 
tes y trouxe multa artilheria y a principal 
foram nove peyas groíFas, em que entrava 
hunta que os noífos chamavam o Galapo 
grande y e elles Samacafapo , que na íua 
Iingua quer dizer Cruel carniceiro y porque 
os carniceiros que cortam as vaccas Ihes 
chamam Galapos, tinha decomprido deze^ 
feis palmos ^ e lanzara pelouro de pedra 
de fete palmos e meló de roda, e de tre^ 
zcatos e Tinte' arreéis de pezo > e defpedia 
-. .• em 



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300 A S I A DE Dio¿ó bE Cótrro' 

em cada tiro ceñto e iincoenta arrateis dé 
pezo de pólvora : trazia outra pejá ^ á 
que os noíTos chama vam o Cagapo peaue- 
no j era efta mais furiofa , e ddtava peíou-» 
ro de feis palmos em roda , a qual mul- 
tas vezes rompeo finco 5 e feis paredes dé 
cafas , e hia varai" á outra banda ; e de 
huma vez arrancou doentulho da tratiquei- 
ra , onde tinham as eftancias Femáo Tel- 
les,. Fernáo Pereira, e Henrique de Betan- 
ncórí ^ hum vigamento grande , e por fima 
das eftancias, e andaimes das cafas o lan^ 
50U na rúa de Pedro Ferreira ; a efta peja 
chamavam os Mouros Marzaguai , que quer 
dizer engole tudo : trazia outra peja de 
ferro , porque eftoutras eram de bronze, 
de vinte e lineo palmos de comprido y e 
míe fe nao ouvia , até quando fe difpaíava , 
íenáo depóis de o pelouro dar na ponta- 
na ; a efta chamavam os Mouros Ourata- 
mi, que quer dizer deftruijáo de tudo, e 
os noflbs Ihe puzeram nome refpadilho , 
lan9ava pelouro de quatro palmos e meio 
cm roda : trazia outra peca tambem de 
ferro, a que jos Mouros chamavam Aneli , 
que quer dizer Déos a deo , por dizerem 
que a fez hum Pagode , e os noftbs Ihe 
puzeram nome Orlando furioíb : outro ca* 
mdo demarca maior, que lanfava pelouro 
de tres palmos, em roda ^ vinha cmtra, que 

lau- 



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Decada VIIL Cap* XXXIIL 501 

lancava o méfmo pelouro , e tinha finco xo 
vados de comprimento 5 a que os Mburos 
chamavam .Chaguí , que quer dizer Fella 
ElRey > porque elle dera afórmadeila: 
as mais p^^as eram eípo-as , camelos , e 
outras que depois vieram , que o Meftre de 
Campo mandou prantar da banda dalém 
fobre o oüteiro que defcubria toda aCida»» 
dé y com as quaes faziam grandes damhos 
nella. ..r. ; ., . ' ' 

Ao outra día feguiíate , depois dé El« 
Rey chegar, tomáram feüs Capítíes eftan^ 
cias por eila maneira: Faratecnao Capitáo 
Genetal fe agázalhou ñas cafas do Vigario 
junto á Ef'mida da Madre de Déos ^ ^que 
agora sao dónnitorios dos Padres: Capu- 
cnos , que tomáram a Ermida pera fazerem 
übu Mofteirozinho y que he multo, devoto : 
tinha alli.fete mil caVallos , e duzeÁfiós 
elefantes., donde: logo;, cóme^u a lancar 
huma trincJieira pelo campo ;de S* SebafiSao-, 

3ue o atraveíTou todo atciascafas de Diego 
e Guiáo > da. outra. banda- ^> que vai.pera 
o paíTo de Chaul de fima , no qual fe alo^ 
jou o Cdufcháo ^ outro Capitao Ábexim 
de grande authoridade , que tinha feis. mil 
de cavallo ^cuia. gente, le eftendia ité o 
alojamentb deFáratechSDr;'6ermicháo com 
dou9 milcavallos íicoüi em Chaul deíima', 
feguindá com fuá graté, até aiVafa y ^Of 

et 



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502 ASIA DE Díooá de Caufó 

•efteiro, que divide a nofla Cidade da ftira, 
€ toda a mais gente fe eftendia de longo 
do rio , e do mar , em tomo ao redor de 

auatro leguas , e com ifto ficou a nofla Ci^ 
ade cercada de mar a mar , e demaneira > 
que havia íbbre a nofla Cidade trinta 'e 
ijuatro mil de cavallo, trezentos e feffenta 
elefantes, ceih mil homens de pé^ dezoito 
mil ganadores , infínidade de bois > bufa^ 
ros , e gente de trabalho pera o méneio d^ 
áiüíheria , póroue todas eram trinta e oito 
pejas groflas. Era o Nizamoxá de vinte e 
dous annos de idade , de mea eftatura , do^ 
^rado , e de membros robuibps , e cor ba- 
ca , je de grande viveza nos oUios , muito 
rragueiro, e bellicofo y e havia Anco annos 
que reinara^. 

Contra efta potencia eftava a nofla Ci* 
:dade ftan muros , íbm cavas , fem fortifica^ 
cáoalguma, mais que huns en tullios, como 
¿i diflc, com páqs de teca, través, portas 
(das janellas das cafas, palmeiras , balas de 
algpdáo , e outnrs coufas táo fcacas como 
•eflas; GoFtáram os Capitáes a Cidade , e a 
foram recoihendt) jjo meLhor modo bue pu- 
deram , e aforam cercando defde a Vaía , que 
rvai da fortaleza velha até o mar , e cofta bra*- 
Ta, ^ekiafaliíraS. Domingos^, ficando de 
fóra. algumas caías fortes , que porcanfelha 
idos C^apitaei ^.aíreatQu c|ue fe abefeñdefi' 

fem> 



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DfiCAiiA VIIL Cap. XXXIIL 30J 

lem , por cjuebrarem néllas os inimigos Tua 
ftiria , por nao comefarem lago a bater 
fiQS entulhos, porque entendéram que ainr 
da q[ue eftas cafas fe perdeffem depois ^ 
feria já com multa perda dos inimigos ^ qufe 
ficaria fendo multo menos y quando cornea 
^aíTem a bater a Cidade , as quaes cafas 
pram de Antonio Fernandes o foidado , que 
ficavam fobre a praia , iias coftas do Mo& 
teiro de S. Dommgos , as quaes os Mour 
ros chamavam das fete cambas , porterem 
outrás tantas pelos telhados , que de fóra 
yiam ;., que cram de quatro aguas , e de 
telhados aconicbados multo fermofos , iiafe 
quaes fe metteo Nuno Alvares Pereira i> 
pelas pedir de mercé , .por. entender.: que 
álli eftava niais ariifcááo , porque defej aya 
mbftrar ao iíiurído .que-^^bcedia daquelle 
grande , .e valerofo Capitáo - D. Nüno- Al- 
vares ,' c qu¿ lAo diígeneraira; dáqudle U- 
luftre appellidp nada , e com£go mett£o 
qúarenta ^Idados , qué tambem quiz.eram 
acompanhallo nbs perigos a que íe offerc^- 
ciam; e em cjutras defronte da tranqueira;, 
«jue corría? da Mif^rícordia pera S. Dominr 
^os , qué ficavam bem fóia ,. fe metteo D. 
Gonfalo de Menezes com trinta hometts, 
06 quaes Qie deram por grande mimo , e 
pela confianza qiie tinham delle as dcfen- 
iler ¿ontr¿.toda aquella ^potencia}, e^outras 

ca- 



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304 ASIA DE DioGO DE Cotm) ' 

cafas que corriatn da Mifericordia pera S^ 
Domingos y duas lanps aíFaftadas das txan^ 
quelras , e entulho , fe encarregáram a Nu« 
no Velho' Pereira , que fempre pertendeo 
lugares perigofos , em que le pudefle aíS-^ 
nalar, e em outras cafas puzeram Manoel 
Pereira de Sampayo^ pera as quaes fe mu^ 
dou depois Heitor de Sampaio da Silva ^ 
grande cayalleiro^^ e que tinfaa dado diflo 
muito bons íinaes : em outras cafas pega^ 
das aos entiüiios fe pozFrancifco de Mello 
de Sampajo, fiUio deXrilláo de Mello, a 
aue na India ehamavam o roncador ; mas 
íempre moftrou por obras , que o nao era ^ 
nem dizia coufa que nao fizeíTe : e naquella 
parte dos entulhos eftava Louren^o deBri- 
to , que depois foi Capitáo >de Mo^mhi* 
que: e outras. duas caías de fóra aíiaíladas 
humas das. outras fe entregáram .a RódrigQ 
Homem da.^ SiWa , fillio de Vafeo Fernán* 
des Homem , Governador que foi de Cuai- 
ma y e daquellas Minas todas y mancebo 
Taierofo , e que fempre trabalhbu de imitar 
aos valerofos., e antigos Capitáes , porque 
nos trajes era boin foldado, e nos muitos 
que em fuá cala tinha , multo "^liberal , e 
Dom Capitáo.y andando fenlpre entre elles 
a pé , é com iefpada curta a übarga : em 
outras cafas fe metteó Luiz Xira Lobo ; e 
porque o Mofteiro dr S» Francüba fics^va 

af- 



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Decaída VIIL Cap. XXXin. 305^ 

aiFaftado das cercas mais de duzentos e 
lincoenta paflbs , pozrfe muitas vczes em 
confelha fe fe defendería ; e em todos fe 
aífentou, que era neceírario itictter-fe nelle 
huma boa guarni^áo de foldados com mui« 
tas munijóes , allim por fe os inimigos nao 
metterem dentro, que feria iíTo parte pera 
fe perder a Cidade , por Ihe ficar alli num 
fermofo baluarte contra nos , como por 
quebrarem alli a furia. Como fe teve ref» 
peito á defensáo das outras cafas , e pon* 
que fempre pareceo aos Capitaes que feria 
aquelle lugar o mais arrifcado de todos ^^ 
andavam os amigos em grandes contendas 
fobre qual delles feria o que liie coubeífe 
aquella forte , quando acnavam occaílóes 
de maior perigo pera arrifcarem 5 e perde* 
rem as vidas. Pelo que muitos requeréram 
p lugar , e mettéram niíTo fuas valias ; mas 
como os merecimentos de Alexandre de 
Soufa eram taes, que pera todas as coufas 
daquella forte ^ e outras ainda mais périgo* 
fas y fe as havia , pudeía fer bufcado , e 
rogado > fem mais valia que fuas obra«^ 
quanto mais feíido ellas taes como todo o 
mundo labia ; e fendo irmao de Luiz Freiré 
Capitáo da Fortaleza , foi eleito pera aíjuel- 
le lugar , fem feu irmáo fe metter niílb , e 
fó foi a eleijáo de D. Francifco Mafcare^i 
nhas y que bem fabia de quem.confiava 
Cúuto. Tm.F.P.L y aquel- 



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3o6 ASIA DE DioGo de Coüto 

aquelle negocio, em que eftava toda a de- 
fensáo, e nonra daquella Fortaleza. Entre- 
míe a cafa de S. Francifco a Alexandre de 
Soufa , nao foi neceíTario rogarem-fe ho- 
mens pera eftarem com elle , antes á por- 
fia fe hiam pera lá , e dos primeiros foi 
Ruy Gon^alves da Camera , D. Luiz de 
Cattello-branco , filho de D. Francifco de 
CafteHo-branco , Camereiro mor de ElRey 
I>. Joáo IIL Manoel Pereira de Lacerda , 
Diego Soares de Albergarla , Francifco de 
Souía Tayares , Chriftováo Curvo de Si- 
queira, e outros mxiitos Fidalgos, e Caval^ 
leiros, que por todos faziam numero decen- 
tó e fincoenta. 

Pelas tranqueiras que cercavam a Cida- 
de que fe fechou toda , fe puzeram eftes 
Capitáes , D. Joáo de Soufa , fobrinho de 
D, redro de Soufa , que faleceo ha pouco , 
fendo Capitáo de Ormuz , que tinha che- 
gado daquella Fortaleza em huma nao que 
mandou pera Goa , que tomou á fuá conta 
fezer hum lango da tranqueira , que corría 
da Vafa até o rio junto de S. Domingos , 
por fe nao metterem por alli os inimigos , 
de que tomou hum guinháo Joáo de Men- 
doza 5 filho de Triítáo de Mendoza , D. 
Henrique de Menezes , D. Francifco de 
Souía , D. Diogo de Almeida , filho do 
fjQoítssd^ímáf.^ Jorge da Silva Pereira > filho 
; > de 



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Decada VIH. Cap. XXXIIL 307 

de Ruy Pereira da Silva , Gomes Freiré, 
Joáo Caiado de Gamboa, Manoel Dornel- 
las de Vafconceilos , Diogo Soares de Al- 
bergaría , Alvaro de Abreu Gomes , Fran» 
cifco de Sampayo , Pedro Ferreira ^ fe» 
irmáo Luiz Trancofo , cafado naqiiella Ci^ 
dade , Pedro Fernandes da Praia Cidadáo 
rico , Jólo de Soufa , Pedro da Silva d« 
Menezes , D. Sebaftiáo de Teive ^ fiUio de 
Aatonio de Teive, Veador dafazénda oue 
foi , Joáo Ribeiro filJio de Chaul , Pedro 
Preto , Joáo da Silva Barrero , filho baftardo 
do Governador FrancifcoBarreto, e outron 
que depois fe nomeáram. Todos eftes tí* 
nham eftancias naquella face dos ^tulhos 
que vai pera o campo. Antes que o Niza- 
moxá cJiegaíTe , quiz o CapitSo mor defr 
pejar a Cidade de multas mulheres , e me^ 
niños , e outra gente inútil , que nSo fazia 
mais que comer, a qual mandóu embarcar 
em navios ; e porque havia coíTairos ná 
cofta , Ihes mandou dar guarda por Fernáo 
Telles , e D. Duarte de Lima em fuas ga* 
les , que chegáram a Goa , e deram reÍaj;5o 
ao Vifo-Rey do eftado em que a guei-ra fi- 
cava , e o modo de como os Capitáes fe 
entrincheiravam , e que por horas fe efpe- 
rava pelos inimigos ; e depois de eftes Fi- 
dalgos eftarem em Goa , chegou aquella 
Cidade o Padre Fr. Jeronymo Travaflbs 

Vu da 



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3o8 ASIA DE DioGo de Cotjto 

da Ordem de S. Francifco , peíToa de autho- 
ridade , e que poderia reprefentar ao Vifo- 
Rey as neceíGdades em que ficavam , pera 
•<jue os foccorreíTe : o que o Padre fez por 
taes termos, que com oVifo-Rey eftartam* 
bem ñas neceífidades que logo veremos, 
tornou a mandar os meímos Fernáo Telles , 
e D. Duarte de Lima com mais dous na* 
vios cheios de Toldados , que tirou dos paf- 
fos das Uhas , em que os tinha , os quaes 
em breves dias chegaram aquella Fortaleza , 
e foram apófentados por grande mimo nos 
entulhos fobre a Vaía junto a Ruy Pires 
de Tavora , e Fernáo Pereira de Miranda ; 
e pofto que tinha alojados eftes Capitaes 
nos lugares que nomeei , nao fe pode ave- 
riguar o tempo que nelles eftiveram , por- 
que fizeram mudanzas alguns de huns pera 
outros ; mas bafta fabermos que naquelle 
circuito das tranqueiras fronteiras aos ini* 
migos eftiveram eftes, e outros, porque o 
aperto era táo geral, que em toda a parte 
eftavam huns táo arrilcados como os ou- 
tros, e nao merecéram menos em huns lu- 
gares que em outros. 



C&i 



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Decada VIII. Cap. XXXIV. joy 

: CAPITULO XXXIV. 

Do modo com que fefortificou o Vifo-Rey 
D. Luiz de Ataide em Goa : e d^ coma 
proveo os paffos contra o poder do Idal' 
xd : e do poder , e modo com que elle 

' defeco o Gatte. 

DEixemos hum pouco as ; coufas de 
Chaul , e vamos ás de Goa , pois to- 
das fuccedéram em hum mefmo témpo , e 
aflim iremos continuando em iioíTa obri- 
ga^, ora com humas , ora com outras, 
porque aflim ficará a hiftoria menos enfa- 
donna , e melhor ordenada , que feparar 
eftes cercos , como fez Antonio Tinto. Di- 
go pois que certificado o Vifo-Rpy da def* 
cida do Idalxá contra a Cidade de Goa , c 
que já comejavam a apparecer feus Capi- 
táes , e defcer a artilheria , poz em ordem 
de fe defender , e correo a liha toda em 
roda pera notar os. lugares , que era ne- 
ceíFario prover de guarda , e achou íerem 
dezenove paragens , pera os quaes nao 
havia em Goa gente Portuguezá .que bat- 
^aíTe 5 e das primeiras couus em que pro- 
veo foi em encher os armazens de todas 
as fortes de mañtimento^ , ,nos quaes re?, 
colheo todos os que havia em Goa ; por-f 
que como. a.eíla Cidade. Ihe vem _todo q 

feu ' 



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jra ASIA de Díogo de Cotnroí 

feu principal mantimento das térras do 
Idalxá', donde todos os dias correm á for- 
miga muitas embarcajóes carregadas de 
arroz , de trigo , de graos , de tori , de 
nachari , e de outros legumes , que agora 
le havianí de ellancar com a guerra , e o 
veráo fe íiia acabando , .e nao podia vir 
de fóra, fenáo fe foífe da cofta do Cañará, 
que havia de fer pouco , recolheo todo o 
que havia , nao deixando os mercadores de 
íe proverem do que puderam , e de o mari- 
dar tra^er de fóra , porque bem entendiam 
todos os traballios que fe Ihes apparelJia- 
vam ; e afSm proveo os armazens de pol* 
vora , pelouros , e chumbo , e mandou fa- 
zer grande quantidade de repairos pera a 
artilheria , que fe havia de levar pera os 
paíTos 1, preparar todas as Armadas pera 
rodear a llha , que ainda eftava a maior par- 
te por cercar , as quaes logo fe puzcram 
no mar , e ordenou quatro bandeiras de 
mil Chriftaos da térra , e outras de trezen- 
tos efcravos cativos dos moradores , pera 
fe pórem em parte alta, donde foíTem vif« 
tos dos inimigos, pera Ihes fazerem vulto 
cóm fuas langas arvoradas , e arcabuzes, 
^ue feus amos Ihes deram ; e ajuntou das 
térras de Salfete , e Bardes , e da Cidade 
de Gda mil e quinhentos Chriftaos peles 
pefjat 0-mefeao éffeitOj qucórdenou deba¡# 



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D^tjADA VIH. Cap. XXXIV. ju 

%ó das bandeiras de Capidps Poituguexei 

de confianca , pera guarda , e defensap dop 
paíTos, e lortale^as fóra dallha, dos<}uae8 
repartió mil pera Bardes , Raclxol , e Ñan 
roa ; e os qmuhentos em duas Companhias 
pera guarda das cafas que os Padres da 
Companhia tem em Chorao , com viute 
íoldados Portuguezes , e algumas pe^as d^ 
artilheria , e com elles o Padre Joáo Luis 
da Companliia , que relídia na Igreja dé 
Chorao i e pera prover os paíTos , fe foi fl 
Vifo-Rey por no de S. Braz , qye he o mais 
íecco de todos , e dalli provia ,em tudo , ^4 
deitaVa fuas elpias no campo dos ínimi- 
gos , efoerando pelas Armadas de P. Dio- 
go de Menezes do Malavar , e de Lui¿ 
de M,ello de Malaca , com as quaes he ne^ 
ceíTario continuar pera ievaimos toda efta 
hiftoria enfiada ; e poi^aue efperayam todos 

§rande trabalho naquelle. cerco ^ e ei|i<:ada 
ia yinham atroando os ouvidos as novas 
do poder do Idalxá, íizeram reqiierimento 
ao Vifo-Rey os Vereadores , que pois yiam 
o trabalho em que a India eñava , e a pou- 
ca gmite que tinha pera fupportar tao te* 
merofos dous cercos dos mais potentes 
Reys.da India > que deyia reter as naos do 
Reino , pera fe ajudar de mais de quatro- 
tsentos homens , que nellas hiam , e tanta, 
£ tao .groíFa jartüneria , taiitas muni96e6^ 

bom- 



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311 ASIA DE DiOGO DE COUTO^ 

bombardeiros ^ provlmentos , e mais coufas 
tao neceíTarias pera os cercos ; e que fe 
lembraíFe , que ió pelo cerco de Dio nao 
quiz o Vifo-Rey D. García de Noronha 
mandar pera o Reino as poderofas naos 
de fuá Armada , fenao duas navetas velhas , 
e pobres , e ainda elTas a refpeito do Go- 
vernador Nuno da Cunha fe haver de ir 
pera o Reino. 

O Vifo-Rey Ihes agradeceo aquellas 
lembranjas ; mas diíTe-lhes que com a 
gente aue tinha , e com a que havia de 
vir de fora , efperava em Déos de fuftentar 
aquelles cercos , e de desbaratar os inimi- 
gos , a que nao quería dar animo , com 
cuidarem que com temor delles deixava 
de mandar ir as naos pera o Reino , que 
era o remedio delle; que fó o galeáo, de 
que viera por Capitáo Lourenjo de Car- 
valho , havia de ficar , por quanto o havia 
mitter pera outras coufas ; e..pera que o 
nao importUnalTem mais com aquelles re- 
querimentos , defpachou as naos Capita- 
nía , e Annunciada , de que era Capitáo 
D.Joáo de Caftello-branco , e a nao S. Ga- 
briel 5 de que veio por Capitáo Nuno de 
Mendoza , na qual tornou pera o Reino 
Antonio Gonjalves de Meza , Feitor que. 
foi de Bagaim , infiftindo muito Jorge de 
Mendoza y e os mais Capitáes pera ficar^nt 

na 



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Década VIH. Ca?. XXXIV. jr j 

fia India , e ajudarem o Vifo-Rey naque(* 
les cercos , o que Ihes elle a^radeceo mui^ 
to ; mas diiTe-lnes que tanto lervi^o faziam 
a ElRey em levarem aquellas naos aoRei^ 
iio , como em íicarem fendo feus compa^ 
nheiros naquelles trabalhos y de que Déos 
o libraría. 

Partidas as naos em Novembro , logo 
no fim de Dezembro cliegou Norichao 
Capit^o da vanguarda do Idalxá com trin- 
ta mil homens , e logo reconheceo os 
paíTos que hiam pera a Ilha , e tomou pe^ 
ra fi o litio defronte de Beneftarím , que 
chamavamos o paíTo de Sant-Iago , e a fuá 
gente fe repartió pelas eftancias que Ihe 
parecéram de maior importancia , as quae^ 
mandou fortificar muito bem , e Ihe pran- 
tou muita, e muito groífa artilheria. Vin- 
do o Idalxá já defcendo com todo o mai9 
poder , o Vifo-Rey vendo que o Non- 
chao fe apofentava defronte do paífo de 
Sant<-Iaeo , deixou o em que eftava , e 

SaíTou-íe pera lá , e deixou nelle Fernáo 
e Soufa de Caftello-branco com cento e 
vinte foldados , porqué bem vio que allí 
havia de carregar o poder , e o trabalho y 
e foi-fe pela de Sant-Iágo , e repartió ad 
^eftancias, como melhor pode fer. 

Defpedidas as naos , o fez o Vifo-Rey 
a Lourenco de Carvaího no fcu galeáa 



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3 14 A S I A DE DiQáo de Cqitto 

S. Lttiz , em que viera do Reino carregado 
das drogas de ElRey , que montavam 
multo pera ir a Oimuz vendeUas , e trazer 
de lá trigo pera os armazens , e lenha pe-r 
ra pólvora que a ha lá encéllente. Elle ga- 
leao paitio em quinze de Janeiro defte 
anno de 157 1. e tornou entrada dpJVhríl 
com tudo o que ievava por regimentó. 

E porque eftayam nalbarra de.Goa dez, 
ou doze naos pera Ormuz de partes , car-» 
regadas de iazendas , deo-Uies li<:lenf a pe^ 
ra fe irem , -affim por nao dar tanta perda 
aos marcadores , como pera moftrar aos 
Mouros o pouco que os receava , pols 
deitava fóra :tamanho cabedal de naos ; e 
pera que em Ormuz, aonde haviam de che* 
gar as novas de tamanhos cercos , viíTem 
o pouco que o Vifo-Rey os temia , por- 
que á conta de cuidarem que ficava o Ef* 
tado em trabalhos , nao houveíTem entre os 
Mouros algumas alterajóes , o que tambem 
fez o Vifo-Rey por tirar de ,Goa coufa 
de feiacentos Mouros Arabios , que anda- 
vam naquellas naos por marinheiros , at- 
fim por powpar os mantimentos que elles 
liaviam de comer , como por ter das poi> 
ta3 a dentro menos inimigos ; porque em 
fim eftes fe yiffem tempo opportuno , har 
"mifti de fer os primaros que intentaíTem 
aóíTa ruina. -; 

Pou- 



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Decada VIIL Cap. XXXIV. jijr 

' Poucos dias depois chegou D. Manod 
Baroche de Cochim com feis navios de 
foccorro , cujos Capitaes , a fóra elle , fo 
ram Manoel Femandes de Béja , Affionfo 
Pereira o Gallego , Femáo de Souía dt 
Gufmáo , Manoel Rodrigues , e Andrá 
Lopes de Carvalho , o que o Viíb-Rjey cP 
timou muito naquelle tempo , e logo o en<* 
carregou de Capitáo mor de vinte c finco 
navios , pera com elles rodear a Illia y e 
os paíTos. 

Trocedla o Vifi>Rey com tanta ptovi-*^ 
dencia em todas ascoulas, que tendofobre 
fi o pezo de dous cercos tao grandes , é 

3ue ílie podiam occupar todos os cuídiH 
os pera os nao ter em outra parte , nao 
deixou de acudir a todos com o ordinario 
provimento , como fe eftivera no tempo 
da mor paz , focego , e fortuna que a In* 
dia teve ; e affim nefte Janeiro de i^yr^i 
defpachou dous galeóes pera Mozambique ; 
hum de que foi por Capitáo Gafpar do 
Soufa , com multas roupas , e outras couf¿ 
fas ; e outro de que foi por Capitáo Lon^ 
renjo Borges , carregado de cavallos pera 
a conquHla das Minas da Chicova , e Mo* 
nomotapa , que Francifco Barrero feu <»j 
nhado navia de comejaf a fa7,er nefte ve^ 
rao ; nem qüiz que Gongalo Pereira Map¿ 
camaqúe, q^ue p&ivá em Maluco ^ fentifle 
-^ . fal- 



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3i6 ASIA DE DioGo deCouto 

fdta em feu tempo pela neceíEdade em 
que eftava , e pelo perigo em que ficava 
a fortaleza de Ternate em Maluco , pera 
onde defpedio no Abril feguinte Joáo da 
Fonfeca no galeao S. Rafael , carregado 
de roupas , e mantimentos de todas as for- 
tes , o que fazia pafmar aos Mouros y que 
em tudo traziam os olhos , admirando-fe 
de verem que em tempo que o Vifo-Rejr 
havia mdfter nao fó o leu , mas aínda tudo 
o de fóra , defpedia tantas naos , e provi-? 
mentos pera outras Fortalezas. 

Paremos aqui hum pouco , e vamos a 
Luiz de Mello da Silva , que tinha partido 
de Goa em Agoflx) paíTado pera o Achém , 
porque he bem vamos continuando as cou- 
ias a feus tenipos. Partido efte Capitáo de 
Goa , levou íempre boa viagem até haver 
vifta da liha C^amatra : indo, correndo á 
cofta finco leguas da barra do- Achém, 
tomáram feus navios de remo huma man- 
chua do Achém , e dos que nella liiam 
íbube que andava fóra huma Armada comí 
cem velas , mentindo ñas quarenta , por- 
que na verdade nao eram iijais de feüen- 
ta , e que era ida pera Malaca ;. com a 
qual nova Luiz de Mello fe apreffou , por 
recear que eftiveífe Malaca de cerco , e em 
trabalho ; e diegado aquella Cidade , fou- 
be ferem paíFados os inimigos per;aJor , o 

¿xan- 



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Decada VIII. Cap. XXXIV. 1^17 

mandou logo efpalmar , e alimpar as gales , 
e navios de remo, porque fe achaíTe oini- 
migo em algum rio, aellas fe havia defer- 
vir , e nao dos galeóes , armando alli mais 
huma fufta , duas lanchas , ehuma manchua 
pera fuá pbífoa , e ordenou arrombadas nos 
Datéis dos galeóes, nos quaes poz algumas 
pe^as que pudeflem jogar , e os encarregou 
a peffoas de confianza. Alli chegáram no- 
vas que a Armada inimiga andava pelo 
rio Fermofo doze leguas de Malaca , quei-» 
mando , e deftruindo os lugares do Rey de 
Viantana amigo do Eftado. D. Leonii Pe- 
reira , Opitao da Fortaleza , Ihe deo todo o 
aviamento necelFario , correndo com elle 
em muita amizade, com cujo parecer Luiz 
de Mello fazia tudo ; e depois de ter pref- 
tes a Armada , que foi em breves dias , par- 
tió de Malaca com os galeóes ao mar 
com os batéis por poppa , e elle com os 
navios de remo ao longo da cofia, traba- 
Uiando por chegar ao rio Fermofo de ma- 
drugada , pera o que fe paífou do feu ga-? 
leáo á galeota de Alvaro Lopes da Cofia. 
Os galeóes foram amanhecer já bem de 
dia defronte do rio Fermofo , os quaes 
foram vifios dos inimigos , que cuidando 
terem grande preza nelles por Ihes parece- 
rem náqs de mercadores , Ihes iahíram 
joirnto determinadamente^ e foi. a tempQ 

que 



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y,Z ASIA DE DioGO de Coxrro 

que tambem chegava o Capitáo mor ao 
no oom fuá galeota ; e dando os Mouros 
com elle , o fbram commetter duas gales ^ 
e cUe tambem indireitou a ellas poilo emt 
armas. Huma deftas duas gales era a Ca-* 
pitátua daauella Armada , na qual hia por 
General o nlho herdeiro do Rey do Achém^ 
que logo fe conheceo pela divifa , e fa- 
rol , com a qual Luiz de Mello indireitou ; 
e chegando a tiro , Ihe deo com hum ca- 
melete 9 que levava huma roca de feixos, 
do qual tiro Ihe dermbou logo o mañro, 
e matou o Principe , e outra muita gente 
com as pedras que fe efpalliáram ; porque 
como o tiro tomou a galé pela proa , fo¡ 
o pelouro , e os feixos da roca correndo 
a coxia , e fazendo tal eftrago , que ficou 
a galé fem quem a governaífe ; e vendo-a 
daqueile modo , Luiz de Mello indireitou 
com a outra galé , e abordando-a , fe laii^ 
fáram os noflbs dentro , e á efpada a ren- 
déram tambem com morte da mor parte 
dos Mouros. Já a efte tempo a noíTa Arma- 
da tinha chegado poíla em armas , e os 
Capitáes dos galeóes fe tinham paíTado aos 
batéis pa-a fe ajuntarem á noíla Annada , 
porque já a dos inimigos chegava reparti- 
da em tres efcjuadras de rinte cada huma , 
fias quaes havia nove gales , e galeotas, e 
is mais fuñas y elancliaras* Em eíla ot^ 

dem 



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Década VIII. Cap. XXXIV* 319 

dem foram commetter a noíTa Armada^ 
que com os batéis , e fuñas faziam nume- 
ro de quatorze ; e antes de fe inveítirem, 
tiveram hum multo grande jogo de bom- 
bardas y de que houve algum damno de 
parte a parte i e chegando-fe mais perto, 
traváram outra fefta de bombas , e artifi- 
cios de fogo , de maneira , que por mais 
de huma hora ficou toda a Armada e£- 
condida no meio do efpeíTo fumo deíbit 
coufas , fem fe verem huns aos outros : 
mas tanto que as nevoaá fe efpalháram , 
viram os noíTos o damno , que tinham 
feito na Armada inimlga com as bom- 
bardadas ; abordando os noíTos , como 
pudéram , cada hum com fuá galé , as ren^ 
déram , e tomáram ainda outras embarca- 
c6esj e os que fe pudéram faivar, fe foram 
íugindo pera térras de outros Reys , por 
nao oüfarem ir ao Achém , aonde cíiegou 
fó huma fufta com a gente , que fe falvou 
toda ferida. Ficáram em poder dos noíTos 
tres gales , e feis fuftas , e arrombáram-fe , 
e mettéram-fe no fundo muitas ; tomáram 
os noíTos muita artilheria , armas , e outras 
prezas ; morréráo dos Mouros mil e du»- 
zentos com o feu Principe ; cativáram-fe 
trezentos ; dos noíTos nao houve mais que 
feridos , que nao palTáram de íincoenta, 
e nenhum morto} e com efta yiétúiia .gran»> 

de. 



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320 ASIA DE DiOGO DE CoUTO 

de y e com os navios inimigos á toa cKe^ 
gáram os nolTos a Malaca , onde foram re- 
/cébidos com prociísóes , folias , feítas , e 

Í grandes alegrías ; e depois de ^arem oB 
érídos , como entrou Janeiro delle anno 
de I5'7i. partió Luiz de Mello pera a Indias 
Poucos dias depois de Noricháo-eftar 
aíTentado com feu campo , cliegou o Idal- 
xá a Poda lineo leguas de Goa , e logo ao 
outro dia fe armáram as fuas tendas ñas 
ferras defronte deBeneftarim, que fe viam 
dos noífos;, e em lugar feparado fe armou 
huma muito rica pera Ihe fervir de Met- 
•quita 'y e aílima deftas no mais alto foi ar^ 
mada outra mais rica que todas fobre dua$ 
columnas de pao fem cordoalha , nem, pa- 
i'edes , aberra por todas as partes , que nao 
tem mais o teihado de íima de duas aguas 
muito rica por extremo ,' a qual tenda fe 
chamava Mundapá , que quer dizer tenda 
de dctermina9áo ; porque quando fe arma 
he final de conclusao y porque nao fe arma 
ienáo pera chegar ao cabo com a guerra^ 
a qual he fó pera fer muito temida da par- 
te contraria ; e affim houve homens , que 
•fabiam já da tenjao daquella tenda , que fe 
enfadáram tanto deaverem que diziam dif- 

Jarates , que o Vifo-Rey reio a faber ; . e 
um dia que eftando diante delle alguna 
detles defconfiados ^ difle que eff^rava eiu 

Déos 



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Decada Vin. Cap. XXXIV. 321 

De6s de dar hum grande banquete a todos 
debaixo daquella tenda, 

A gente ^ e o cabedal que o Idalxá 
trouxe pera efta empreza , foram cem mil 
homens , em que havia trinta e flaco mil 
de cavailo, com muitos aventureiros que a 
lama das riquezas , e Damas fermofas de 
Goa os fazi^ vir com grandes efperanjas ^ 
c muito lougáos ; mas quiz Déos que foA 
fem defcfperados , e cheios de dor , e trií^ 
teza. Trazia mais de dous mil , e cem 
elefantes de guerra , e trinta e finco peyaj 
de artillieria , a maior parte groíTas , ^ de 
bronxc , que todas fe aceftáram defronte 
dos noílbs paíTos da Ilha , defde. o paffo 
Sccco até Agacaim. Gaftadores , e gente 
de férvido havia no exercito innumeravel 

Suantidade ; e affim occupava pelo largo 
uas Iqguas de torra , e pelo comprido do 
paíFo Secco até Agajaim , que sao oUtras 
duas» 

A primeira coufa em que o Idalxá en- 
tendeo , foi em mandar tomar as térras de 
Salfete, induzido pelos Bragmanes de Goa 
que com elle andavam , porque defejavam 
de yer.^tn toipar vinganja de muitos pago- 
tes de feu$ izólos, que os noíTos Ihes der- 
i-ubáram naquellas torras os annos atrá^ 
de 64. 6$. e 66. fendo Vifo-Rey da India 
P*. Ántáo de Noronha. E aflím as gente* 
Qf^t(f. Tom F. P. L X que 



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511 AS I A DE DioGo BE Coxrra 

que entráram por eftas térras guiados del? 
tes Bragmanes, Meftres de fuá Rdigiáo, e 
de outras multas maldades y pelas quaes o 
Governador Francifco Barrete os degradoá 
de Goa com pena de gales , e de fazendas 
perdidas , a primcira coufa que fizeram, 
roí queimarem as noíTas Cruzes , que efta« 
yam pelos caminhos em fima dbs montes , 
eftragarem , e profanarcm os Templos Di-* 
yinos ,♦ que nao foi poífivel defendcrem- 
fe ; e as gentes daquellas aldeas , parte fe 
recolhéfam a Salfete , onde eftava por Ca- 
pitáo Damiáo de Soufa Falcáo ^ irmáo de 
Chriíbováo Falcáo , aquelle que fez aquellas 
antigás , e namoradas trovas de Cristal > e 
parte fe recolhéram a Goa. 

OVifo-Rey nao eftava defcuidado , nem 
trazia táo poucas intelligencias no arrala! 
dos Mouros , que nao faubefle tudo o que 
fe lá paíFava ; e fabendo da potencia do 
Idalcáo y e como eftava alojado contra os 
iioíTos paftbs das Ilhas , c a pouca gente 
que havia , que eram feiscentos e fincoenta 
toldados que já difle, repartió porefta ma- 
neira a defensáo dos mefmos paftbs* 

D. Pedro de Caftro com cem homens^ 
a que dava meza no paflb Secco , que era 
o mais perigofo , por fe poder paflar de 
maré vana o váo; D. Manoel Rolím com; 
(ncoenta homens na paftb de Caraboli > ovt 
* . . , . , de' 



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éa S. joáo Baprifta }• Antonio Perráo Cida^ 
dáo de Goa , rico, c honrado, no baiuar« 
te cae eftá entre o paíTo Secco ^ e O Sápat^ 
Gaípar de Brito do Rio com huma tbn» 

gannia de Toldados, no Sapal entre. o paífo 
eccoi e Benellarim; ie lc¿o affaftado hum 
pouco Vicente Diaá de ViUilobos com ou« 
tra companhia de Toldados ; e enl outra 
parte tambem do SapaJ > por fer parageití 
de muito perígo ^ Franciíco- Marques Bo^ 
telho, OuVidórgeral, comcento evinteho* 
mens , a que dava meza' no paíTo - de Be* 
neftarim , onde o Vifo-Rey eftava v pera 
onde fe mudou' támbem Fetnfltí d^t SouíU 
de Caftello-brártco , pelo tef • d''Víí5>Re)í 
apar de íí pera confeiho , fútíj^ Fidialga 
Velho , e dé multa experiencia ; Vafeo ri*^ 
res de Faria com huma companhia de fol* 
dados , pera aíFiíUr ém Reüra o grande > 

SUe he no paflb de S* Joáo Evangelifta J 
K Paulo de Lima Pereifa com ccm foldá- 
dos , e muitos peáes da térra por Capitáo 
de todas as térras de Salfetc pera aflíftií 
jia fronteira de Rachol , e na Foftakíi 
della com Damíáo de Soüfa Falcáo >' Di6^ 
go Barradas com huma companhia de íbt^ 
dados , a que dava meza ; em huitt Mitéiro¿ 
que vai pera Benellarim ; Pránoiftfó Perei- 
ta Tanadar mor com huma bo9 compa^ 
aihia de geQtd' da térra ;e pofio-qiíe todM 

X ii cfr 



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814 -A/SI A DB DiOGO DE COUTO 

cftaa ' eftanciás' eftavam com pouca gente, 
depjois- (Ui£.YÍeram as. Armadas de D. Dio- 
¿o dé Alenjeecs, eLuiz de Mello , que tra*- 
zia mais de mil e trezentos Toldados , fe 
eogroíiiártm .litáis , e repaitiram pelas naos > 
e navios 'y que eftavam .jcm partes neq^íTá-- 
rías y ej c^e andavam. efpalhados pelo rio ; 
Fraacifco Rodrigues Capitáo' do campo de 
Salfete .;andava Tá. com quarenta homensj 
Antonio /Lbpes de Siqueira com huma 
cQnxpajáliia < de, .fpldados na Ilha de Joáo 
I^eí. ; f Diogo de Mefquíta ao paíTo Sec- 
j:o, eoi-luim oatel grande, que trazia hum 
leáo de metal 5 ao qual fe mudou a meia 
guerra Chriftoyáo do Amaral , e ainda no 
cabo ft fljydou- a elle Gafpar Dias de Re- 
horedo;'Fraiicífco de Miranda Henriques, 
ci caíadQi'ein Cochim , na galé S. Sebaf- 
ji^ em huma palTagem do rio ; Roque 
jie Miranda feu irmáo em huma fuíca; 
Alya;:o. Piatp em huma nao no cabo do 
rio Sacjali ; - André da Fonfeca em hum ba- 
tíJi ; . Anfonio Rodrigues de Gamboa , que 
yeio d^ fer Veador da fazenda do Ñor- 
íe^;. c, foi dos primeiros que te ve eftancia 
epj: Chau;! ., a qual deixou a feu filho Joáo 
jCaiadpi de Gamboa , tomou huma fulla com 
íolda^os; /eus. , em que andou nos ríos ; 
Francifco Barradas irmáo de Diogo Barra- 
bas temíiuiíi. batel cpfíi huma pejagroira; 
I) * \. ... Gil 



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Decada VIII. Cap. XXXnC. ' 325 

Gil dé Goes om- Iiutna galé ; Nunb íferef* 
ra de Lacerda em outra j Viceme de Sai» 
daiíhá ém otitrá ; Joáb de Quadros^ em 
huma galé no rio da Aguiá em diflFérehtéé 
paragens 5 todas as ruftas , 'e.^ ájmadiás 
que andavam no rio ^ era ' hüm j j^ande, jiñé 
mero. E porque» os que fervííám Ji^o per* 
cam feus merecimeatos ^ -nosóeaí^ií^ os que 
achfei. . . i ■ .. j ._;• ^ r^ .• , ^^,.^ 

/ Antonio Mafcarenhas fufta ;, Joao:Ga> 
ines da Silva, que veio do foccórró .de Nd: 
gapatáo em companhia^de D*Jorgei,!ifuftá^ 
Goñjalo de Siqueira , D. Antonia de 'Cafr 
tello^brancó , Chriftováo Ju2artieTrTisaió:i 
Antonio de Faria, Diogo de Gafttp em 
huma fiífta , na qual andou díépois Vafeo 
Fernandes Pinientel, Manoel Diias íicóto> 
Lancarote Picardo feu irm2o , . Gafpar Diaj 
4e Agiiiar, Antonio Travaflbs ,- GntiftpvSo 
Fernandes, Fabiao-da Rocha, CapiláQ, do 

Í^aíTo de Beneftarim' ,. Diogo ;da Silveira> 
oáo de Ataíde , Antonio de Ázevedo, 
Diogo da Silva , Joáo Correa de Brito, 
Feliciano Cardólo de Almeida , Jeronymo 
Curado , Pedro Homem da Silva , Diogo 
Pinto , Vicente Paes , Vicente Carneiro, 
Gonzalo Guedes de Reboredo , André Gor- 
jáo , Tanadar de Agajaim com dous Pa- 
raos. O Licenciado Luiz Borges , Jerony- 
mo Curado , D. Antonio de Soufa , Chri- 
.^-^^ fto- 



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p(5 ASIA DE DrfoG?) i)fe CoOTorr 

{tovio de Arapjo Evangfi]ho> Ruy PefeliíaV 
€ outrós muitofi. 

r: Com todos eíles trabalhos. , fendo o 
VifoRejr arifado que em Dabul porto do 
Idalxá ,. eftayam duas naos á carga pera 
Meca , detenniílou de as mandar queimar ^ 
pera qice Tifle-o Idalxá, que nao lo fe ha* 
r¿9 da défimder em Goa de íeu poder , mas 
que ainda Ihe havia fazer guerra , e entrar 
«áfeus pprtos , pera o que defpedio D. 
Fernando de Vafconcellos , fillio dcD. Luiz 
JPernandes de Vafconcellos , que. matárana 
t)8 Francezes , e In^lezes indo pera o Bra* 
tíl , com quatrg gales , e duas fullas , o qual 
cntróu naquelle rio ; e debaixo dos. baluar- 
tes , e arfilheria daquella Cidade queimou 
as duas naos , e outros muí tos navios pe» 
Rueños ) que achou na fuá ribeira , e no 
tio , e naquella cofta , e Ih'e abrazou al- 
gumas povoajóes commuito bom fucceíTo^ 
com O q^ue fe recoUieo a Goa* 



CA- 



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J 



1>ECADA VIH. Cap. XXXV. ^tf 

; CAPITULO XXXV. 

J)a reJalufSo que o Idalxd tomou fabre $ 
. accommettimento da Cidade de GO0 \ e aa^ 
pratica aue Nortichao fesú a E/Rey . 
Jbíre a guerra d^e Goa. 

* 

MUito fentio o Idalxá a perda daf 
duas naos de Meca, e dos mais na- 
vios aue Ihe queimou D. Fernando de Valr 
(concellos y e o tqve logo a ruím principio 
daquella guerra , que alguns Capitae^s íeu^ 
inancebos Ihe fízerajn muito fadil , aindfi 
que outros vellios de melhor parecer , ^ 
grande experiencia ñas . coufas de guerrp. 
Ihe íizeram muito duyidofa -, . e deftes o 
que nienos Ihe approvou a guerra , que que- 
ria fazer aos Portuguezes, foi Noricháo, 
que achando-fe. em hum confelho , pera p 
f]ual o Idalxá o chamou , fallou deíta mar 
ncira : 

01 Duas partes ha, muito alto ) e muitó 
yoderofo Rey , ^ Senhor noíTo , na gbriga- 
f áo dos vaffallos , as quaes sao ferWr , c 
.obedecer , e com ambas cuido eu que td- 
nho cumprido em todo o curfo da vida, 
•e efpeix) cumprir em quanto ella duráis; 
•jnas |)orque. muitas vezes fe obedece aos 
Seohores cm coufas em que fe nao fervem, 
ti os jfubditos. nao podem fer. juizes, d^ 

obras/ 



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^2? ASIA DE DiOGO Dlé COUTO 

obras , e determinajóes delles , eq mals , 
que ein Ihes dizer fomente feu parecer , e 
com eftes cumprem com elles, e comfigo, 
e fe llio engeitam , ficam todavía obriga- 
dos' a fegiüllos pela ordem de feus roan- 
dados , fértí poaerem fahir delles , fenáo 
com grafldiffima culpa , falvo em coufas 
da lei, que sao de maior, emais alta obti- 
"ga^o , em que os fubditos fomenté po* 
dem y e devem nao fegiiir os erros de leus 
Principes , quando elles fóífem tees que fe 
fahiíTem deUas j porque -as obras de que 
pende a immortalidade da alma , n^ó sao 
do arbitrio , nem jurifdicjao dos Reys da 
térra , cada hum he fenhor abfoluto da 
fuá 5 com propria , e livre vontade , que 
nao pode fer conftrangida; em todo <>mais 
fomos obrigados a fervir , e obedecer , e 
feguir as pelfoas , e Miniftros daquelles a 
que foi dado poder foberano na goveman- 
ja , e adminiftrajáo das coufas exteriores , 
como faremos todos nefta jornada ^' fe a 
vontade de VoíFa Alteza todavía for a que 
tem moftrado ; e pois fe Ihe nao niega o 
férvido 5 nem no que fe Ihe pode di^r^ 
fe Ihe tolhe a execucáo , deve ouvir fem 
'defprezar o que fe líie niíTo lembrar;.poi^ 

J[ue ouvir confelho , e pedillo (ainda que 
eja pera o nao tbmar) fempre foi, e íerá 
proveitofo , e muito mais^ aos-que^pacece 

que 



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Década VIII. Cap: 3tXXVv 329 

íjue o podem melhor efcufar ; porque fttíf 
auvida os mais prudentes ,6 faíbcdórefc 
sao fempre os que de fer acoíifelhadós ti-s 
ram maiofes proveitos , pelo que mais a 1- 
can^am das razóes alheias^ cm que fe Ihed 
defcobrem mais coufas que podem alu-* 
miar , pera fazer mais acertado juizo na^ 
materias de que fe trata ; porque ñas cou-^ 
fas futuras , ou taes, que le nao pode nel* 
las tomar refolujáo por fundamentos cef-^ 
tos 5 Iiao-fe de contrapezar as razóes , ú 
feguir a parte níais verelimil , e que tivef 
as conjedíuras mais poderofas ; porque ni 
opiniáo dos homens pode haver diflFerenja ^ 
mas nao na razáo das coufas , que o curfó 
do tempo encaminlia fempre por huma vi^ 
pera .bem y e pera mal ; e o tempo de ai 
conjedurar bem todas , he antes de as ttt 
comejadas , porque os principios em tudo 
sao parte prmcipal das coufas , e as mat 
principiadas he impollivel terem bom fim; 
fenáo contrario, eperdidofo. Nao he guer- 
ra pera emprender levemente a que fe hd 
de fazer com Portuguezes , nagao táo belli-»» 
cofiífima , que com clariífimas visorias tem 
illuftrado o feu nome pera fempre ; nao 
tem fuccedido coufa nova, em que o rom'; 
t)imento fe poíTa fundar , nem nos temos 
razáo , por que bajamos de fer principaes 
jia diíFerenj'a com ¿lies j e movidos a iffo 

por 



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(35o' AS I A WB DioGó Djt Covf© 

|H>r a dmoefta^es de Principes. eftranho9i| 
jiáo parece confelho pera fcguir ^ porque 
jttuica deixou defer imprudencia entrar em 
trabaUíos por parecer de peflbas , que fi- 
cam fóra deUes. Nao ha coufa nefte mun« 
do táo boa , que ufando-fe mú della , nao 
xnude a natureza , e fe torne má. O confe- 
lho ) que tao pouco ha louvei tanto , mui- 
tas vezes foi mui damnofo , porque com 
conielhos fe vingáram muítas peífoas de 
outras y a que por outra via nao podiam 
empecer , e por iíío nao he de obriga^o 
tomailo , fenao ouvillo ; e aborrecer confe? 
Iho de paz , he degenerar da natureza hu^ 
mana ; porque os autos y e ejercicios da 
guerra mais conformáo com a fereza , » 
immanídade dos brutos animaes > que com a 
razáo , e humanidade dos homens , entre 
os quaes nao sao approvadas .oútras guer-r 
ras , fenáo. as juilas , e neceífaí-ias pera fuf- 
tentajáo dos povos , e feguranja dos Rei- 
nos j e os de VoíTa Alteza eftam hora em 
tal quietajao , e profperidade , que nao fei 
couíá mais pera deíejar , que podermoí 
afiim viver no eílado em que nos achamos ; 
nem mais que pera fentir , que fer por al- 
g^ma via combatidos , e tirados delle. E 
|>ois outrem nao no-lo quer , nem pódp 
perOírbar, deviamos nao fer nos os autho- 
«es de<entre|^r npfla felicidade. ap ppd^ 
:; da 



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Becada VIII. Cap- XX^V^ jjr 

¡ja fortuna y fobmettendo noflas coufas ao^ 
&US contraftes com defneceíTarías conquifí 
tas , quando com iíTo nos fazemos a nót 
mefmos primeiros inquietadores do nofia 
Ibcego , e feguranja. Nao fe pode negap 
aos rortuguezes ferem muito valerofos naff 
armas , e terem aellas muita ventura. O 
Vifo-Rcy, que agora tem, he mais pera 
temer , que pera defprejtar , prudente , ca* 
valleiro y experimentado ñas coufas da 
guerra , defobrigado de mulher, e fillios^ 
umbicioílíCmo de honra , e gloria , duas 
coufas de que os homens sao tanto mais 
cubi^ofos , quanto mais rem ganhado del* 
las. E pofto que agora tenha menos gente 
comíigo , tanto que fe: fouber que tení 
guerra emGoa , logo Ihe acudirá quanta 
houver ém todas as Fortalezas de arredor j 
he cabera de feu Eftado , eftá nella o feu 
Vifo-'Rey , háo-lhe de acudir huns por lima 
dos outros^ com grandiílímo fervor. Eflam 
cm huma lUia com hum rio diante , cuja 
paflagem ha de fer defendida , e a entraaa 
nella nunca fe poderá toiher aos que dé 
fóra viiáo , pois ha de vir por mar , nd 
qual nihguem fe Ihes pode oppór ; e a 
quem defta maneira eftá , baftaJhe meiiof 
poder, € apercebimento pera. fe defender^ 
do que le ha demifter pera o ir bufcar, e 
effender i quanto mais que náa fe ha d4 
*- -i con- 



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^z A S lA DE DioGo DE' Coxn^ 

coafiderar o numero , fenío í o váldr áoh 
Jiomens , dó quai Jia muitos neftes , que fe 
imagina prirar do Eftado , em que diraa 
ter o mefmo direito que tem osqutros nos 
que poflüem , pois os ganháram por ar-« 
mas, como fe canham todos. Poticos titu-¿ 
los mais julios na na térra , püucas partes 
dellas sao hoje poíTaidas dos piimeiros fun- 
dadores, ou feus defcendenües ; 'oáo tem os 
Eílados eífa firmeza , cada dia os mudam 
as contendas , e cubica dos I^)mens , que 
da maior forja tem teito .melhor direito; 
mas por muito. que fe de ifto veja , nao fe 
háo de commetter as guerras . temeraria- 
mente por impeto , nem leves fundamen- 
tos , fenáo com grande , e maduro confe- 
Iho , fobre longa xonfiderapo ', ainda que 
fe nao corra coiti :©utro riíco g fenáo fahir 
com qualquer quebra das coüfas em que 
por proprio moto fe quiz entrar , e poi* 
iíTo fe háo de coníiderar bem os principios 
dellas , porque em multas, nao lie dcpois 
cm máo dos hpmens fahir-fe das fuas con- 
ííderajócs 5 fenáo com muito defcredito , e 
gmnde quebra da honra , e reputajáo , e 
$áo multas vezes forjados a faiiii>fé dellas 
por diíEculdades que ít Ibes ..defcobrem 
tamanhas , e táo repugnantes fuas delibe-^ 
rajóes, que fe perderla muito nlais,e feria 
maior erro querellas levfti'.ivántf > e iftc) 
. j ^ nao 



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ÍDegada VUI. Caf. XXXV. 333 

nio he impoflivel acontecer na guerra dos 
Portuguezcs , que. fendo grandiíEmos con- 
quiftadores ^ sao multo mais confiantes, e 
cíforjados, defenfores do que poíTuem ; 
porque miútas vezes fe tem vifto fuftentar 
couías*de que nao tiravam proveito , nem 
honra, fenáo por pura opiniao de fe nao 
prefiunir delles , que as largavam por te- 
mor y ou defoonfian^a de as poder defen-* 
der. E quanto a mim muito bem fei que 
fe defta guerra refultarem grandes honras, 
e intereffes , que nao ferá meu o peior 
quinháo ; porque VoíTa Alteza por rae fa- 
zer mercé, como coftuma, meterá ordena- 
do no governo das coufas lugar aíTás hon- 
rado. Porém eu de nada me poíTo fatisfa- 
zer, feháo de cuidar que cumprirei no que 
devo ao férvido de VoíFa Alteza. E pofto 
que nefta parte Ihe tenha feito as lembran- 
jas que me parecéráo deminha obrigagao^ 
daqui por diante , pera o que ordenar fuá 
vontade , Ihe oíFerejo tao diligente fervijo , 
como he razao que de mim efpere , nao 
com as forjas que promette hum corpo de 
tantos annos , fenáo com as mefmas , que 
fe acháram em mim no melhor da idaae> 
quando VoíTa Alteza em mais forte difpo- 
lijao foi de mim meUior férvido. » 

Nao moftrou ElRev defcontentamento 
defta falla de Norichao 3 nem fe; moveo 
.. > al- 



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J34 ASIA DE. DioGo DE Cowd 

algiima coufa por ella , antes como acóli^ 
tece ñas determina^Óes , em gue fe juntam 
poder, e vontade, comejou logo a enten^ 
der ñas prcparagóes do abaío , que tardott 
pouco y porgue além de todas as cdufas 
neceflarias eítarem juntas muito a ponto ^ 
punhahfe no aviamento dellas táo ardente 
ۆligencia , . como fe coftuma empregar nsi 
execu^áo das coufas de maior alvorojo dos 
Reys i c no efpajo de tres mezes que ha-» 
yeria do tempo , em que a determinajáo 
da guerra fe nao pode mais encubrir aos 
feus , até aífentar cerco fobre Goa ^ man* 
dou o Idalcao ao Viíb-Rey , em forma deí 
Embaixadorj lium Capitáo íeu Pérfio, cha- 
mado Corajao Cao , homem de fer , e en-¿ 
tcndimento , que fendo mais verdadeira-^ 
mente vindo a efpiar , fingió pedir carta-* 
7.es ; dando a entender em pratícas que o 
Idalcao havia cedo de mandar fobre o Ca-* 

Eitáo , que di2ia ter-fe-Ihe levantado , e fo- 
re as térras de Sanguife , pera fe poder 
attribuir a ifto qualquer coufa que foaíFe 
de feus apercebimentos , e juntamente dd 
gente. Todavía o Vifo-Rey o enlevou ^ é 
tomou em palavras de maneira , qUe Ihe 
veio elle a dizer y que do féu entendímen-' 
to ninguem fe podía valer; e alcanjrando-d 
em razóes ^ chegou a confeÍQTar^he tudo em 
flfegredo. . » 

-; Os 



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Decada VIII. Cap. XXXV, jjj' 

" Os Mouros comecáram a dar fuas ba« 
ferias por todas as partes ; e onde mci^ 
tráram maior forja , toi no Caftello de Be- 
Aeftarim , que tem duas torres , hunia dian- 
te da outra 5 de feic^o que faziam huma 
fó fronteria pera as eftancias dos inimigos , 
e com muita forja batéram a torre dian- 
teira , que eftava quaíi fobre o rio , e Ihe 
comcjáramá abrir algumas brechas que de 
naite.refaziam os noífos , e ellcs derruba- 
vam de dia. Da noíTa parte tambem fe Ihes 
fazia bem de damno , porque nao fó a ar- 
tiiheria das eftancias , que era groffiflima , Iheí 
derrubava feus vallos , e trincheiras, mas 
ft das noífas barcadas y e gales , que anda^ 
vam no rio , Ihes davam continuas baterías 
ora nafta, ora naquelia parte , com que 
ós Mouros defatinavam j e ainda defem- 
barcavam em térra de noite da outra par- 
te 5 e ihes davam nos traballiadores , que 
andavam ñas fortifica jóes das eftancias em 
grande copia , e a trabalhar nos entulhos 
que queríam fazer , aílim no paíTo Secco > 
como no de Sant-Iago , pera paflarem á 
noíTa banda a pé enxutó, que eram os que 

Íiadeciam todo o damno ; e a tenjáo do 
dalxá era mandar bater todos os noífos 
paíTos com grande furia , por ver íe o Vi»- 
fo-Rey fe defcuidava de algum por acudir 
a outros ^ persi ycr fe Ihe ficava lugar per4 

po- 



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336 ASIA peDioGo deCouto 

f oderem os feus por elk entrar na liha ; e 
como o maior cabedal cftava mettido nz9 
«ftancias do paflb de Beneítarim , alli pre- 
xendiam os inimigos fazer paflagem , c 

J)Iantárain fobre hum tezo duas pe^as groi^ 
as , com que batiam a povoacáo toda de 
través , pera ver fe a podiam fazer defpe- 
jar. Alli iníiftíraxn tanto , que derrubáram 
a torre dianteira , ficando a outra tambem 
damnificada, e.defcuberta mais ábateria, e 
Q mefmo a Igr^a de Sant-Iago , pelo que 
^ mandou o Vifo-Rey entulhar ; e todavia 
a parte que defcubriam da Igreja , puzcram 
os Mouros por aterra, e o Vifo-Rey fe re- 
colheo na Sacyiftia , e mandou reparar, e 
fortificar aCapella, que tambem eftava da- 
mnificada. 

Vendo o Viíb-Rey a importunajao dos 
inimigos, como era fagazCapitáo, manda- 
va de noite fazer grandes fogos , e lufnina- 
rias de tochas em lugares efcuros , pera 
que cuidaíTem os inimigos que eftava elle 
^Ui ceando, pera que IJie atiraífem, edeA 
pendeíTem baldadamente muita pólvora , 
como multas veze§ dcfpendéram fem damno 
noflb. Succedfco huma noite ver Fernáo de 
Soufa de Caftello-branco hum. grande fogo 
Jia eftancia de hum Capítáo , que ficava fron-^ 
teiro a elle y a cuja claridade fe hia forti- 
ücaiidOj.e£^2;endo feu$ ent^iUios com hum% 

fom- 



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íhLCAhx-Vm. Cap. XXXV. ^y; 

• fomma de trabalhadores^ e pera que ellos 
trabálhaíTem xnais contentes , o faziam ao 
fom de muitos iníiirumentos , bailes, edaa'- 
$as de multas bailadeiras, de que no exer-* 
<:ilo havia grande quantidade > que fazem 
- -tudo com grande deftreza* Era o lume ta- 
manho que da eftancia de Fernáo de Souik 
fe enxergava a gente , que andava traba- 
Ihando > pelo que mandou a hum bombar- 
deiro que apontaíTe naquelle cardume hum 
leáo j o que elle fez tac deftramente , e táa 
certo D que matou o Capitáo que anda va 
fazendo cliegar á gente ao trábalho , e le- 
vou quatro, ou finco das bailadeiras , cujós 
corpos foram feitos em pedamos pelos ares , 
iazendo bem diíFerentes mudanzas das que 
pouco dan tes faziam. 

No meio deftes trabalhos tinha o Vífo- 
Rey cada dous , e tres dias novas do gran- 
de aperto em que Chaül eftava, donde Ihe 
efcrevéram que houve fazerem-fe requeri- 
mentos aos Capitáes , pera que fe recólhef- 
fe a artilheria das eftancias á Fortaleza 
velha , por quanto ella nao labora va , „ por 
eftar a maior parte cega com os cntulnos 
que as tapavam ; e que permjittindo Deosi 
pelos peccados de todos , que as tran- 
qutíiras fe perdeflfem , fe nao perdería a 
artilheria , que na Fortaleza velha jfe 
podiam fortificar,, e defender líiuiío bem^ 
Couto.Tom.r.P.L Y ' e 



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3)8 ASIA BE DiOGd DX COUTO 

€ que fe defpejaíTe a Qdade de mulheres, 
porque neftes cercos sao de maior perda 
que proveito. Mas os Capitáes nao ^uize- 
ram que aquella pratica ioíTe por diantc, 
porque eftavam apodados a morrerem to- 
dos fobre hum ió palma daquellas trao- 
queiras ; mas o das mulheres paieceo bom 
arbitiio , e logo fe fez preftes huma nao 
de^Lopo de Aguiar , na qual Luiz Freiré 
embarcou fuá mulher , fogra , e familia , e 
muitos cafados embarcáram as fuas , e aífim 
a defpedíram fem mais guarda alguma ; c 
fe quatro Paraos dayam com ella , levavam 
huma muito arrezoada preza ; mas quiz 
^DÍeos que chegaífe a falvamento. Tambem 
Pedro Preto , fogro de Avres Telles de 
Menezes , que eítaya em Dio , homem de 
quem fe certificava tinha hum milháo de 
ouro , pedio licen^a ao Capitáo mor pera 
ir pdr íiía fazenda , e familia em Dio , e 
que Ihe déílem pera iífo huma galé , na 
qual mandarla multas muni^Óes , o que o 
Capitáo mor Ihe concedeo , e aílim ficou a 
Cidade defpejada de mulheres , e efcravos , 
em que fe poupou muito mantimento. 

No mefmo tempo chegou recado ao 
Vifo-Rey que havia emChaul grandes dif- 
♦feren9as entre Luiz, Freiré de Andrade, Cst- 
pitip daa^iella Fortaleza , e D. Francifco 
Mafcareniías , Capitáo mor daquella enw 

pre- 



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Decada VIH. Cap. XXXV. 359 

üreia , e de todo o Norte , íbbre queitl 
havia de tirar ñas cccaíióes ao campo t 
bandeira de Clirifto ; e porque o tempo 
nao eftava pera fe moverem efcandalos > 
que feriartí caufa de huma defaventura ^ 
por meio de Capitáes , e Religiofos fe vie^ 
ram a comprometter no que o Viíb-Rey 
fobre o cafo ordenaífe, e cada húm delles 
Ihe mandou feus apontamentos comas ra^ 
z6es de fuá pertenjao. O Vifo-Rey ajuntoii 
a confelho Capitáes, Letrados , Juriftas , e 
Religiofos doutos , e entre todos fe aíTen* 
tou que oCapitáo daCidade^ quando foíFe 
neceflario fahir ao campó , tiraífe a ban* 
deira de Chrifto , e D. Francifco Mafcare- 
nhas trouxeíTe fempre hum guiáo, e o Vi- 
fo-Rey efcreveo a ambos os agradecimen- 
tos do que tinham feito naquella guerra , e 
do bom modo que tiveram naquella diffe- 
renja , pera nao irem ejfcandalos por dian*' 
te. / 

Tinha o Vifo-Rey hum cavalío murzdlo 
niuito fermofo , que por muitas Teiec lh« 
mandou o Idalxá pedir por varias peíTcax 
Iho vendclTe , ofFerecendo-lhe mil e qui»- 
nhentos pagodes por elle, qué valem hojc 
dous mil e duzentos xerafins. Peló que do- 
fejou o Vifo-Rey , quando logo chegou t» 
Idalxá , de Ihe mandar efte cavallo , e affini 
o fez 5 mandando-lho por Antonio Mendes^ 

y ü de 



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34© A S I A DE UioflO DE Cotrro 

deCaftro, com feus telizes develudo fran» 
)ados de ouro , e . Ihe mandou dizer por 
elle que foiibera que Sua Alteza defeiava 
muíto aquelle cavailo pera paíTar nelle á 
Ilha de Goa : que allí Iho mandava , e Ihe 
pedia demercé, que fequizefle fcrvir del* 
te , que o haverla por grande , e boa ven- 
tura , e que defejava muito de o ver em 
Goa pera o fervir; e defendeo a Antonio 
Mendes de Caftro que nao tomaíTe coufa 
alguma em retorno do cavailo, O Idalxá 
quando Iho elle aprefenrou, oeftimou mui- 
to , e nao refpondeo mais que com agra- 
decimentos , lem deferir ao mais recado , 
-e mandava dar a Antonio Mendes hum tra- 
-jado pera o Vifo-Rey , com a jguamijáo 
de pedraria que vília muito dinheiro , o 
qual Antonio Mendes nao quiz tonlar, di- 
zendo que por nenhum outro preyo ihe 
mandara o Vifo-Rey aquelle cavailo , fe- 
nao pela honra que efperava de Sua Alteza 
paíTar nelle á Ilha de Goa , onde defejava 
de o ver. Alfim fe tornou o Antonio Men- 
des, e o Idalxá ficou mui contente com o 
cavailo 5 mas nao Ihe durou muito o gofto , 
porque dah i a poucos dias Iho matáram 
com huma bombarda , da que fentio tanto , 
ue fe igualou a dor ao gofto que teve de 
ckrem. 



que 
¿o 



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Decada VIH. Cap. XXXVL 341 

\ CAPITULO XXXVL 

Dofuccejfo qu€ houve neftetempo em Chaul: 
e de algms^randcs feitos que os 
n^s fizeram. 

ALexandre de Soufa tanto gue fe met- 
teo na Igreja de S. Francifco , e vio 
tjue os inimigos tinham alli o olho , por-^ 
tjue as jnais das viftas que davam. eram 
pera aquella parre , tratou de fe fortificar 
o melhor que pode fer , e fez logo entu- 
Ihos , e repaifos em partes , que Ihe pare- 
céram mais ncceírarias , e prantou tres 
pejas groífas em hum cavalleiro de madei- 
ra, que mandou levantar em meio do cor- 

Ío da Igreja , donde ficavam jogando por 
um Rcbelim , que apontavam pera hum 
palmar fronteiro, emque osMonros fealo- 
javam ; e no coro fe alojavam dous fal-» 
cóes, que ficavam jogando pera o campo de 
S. Sebailiáo , pera defenderem que fe nao 
chegaíTem tantas vezes a elles os inimigos. 
Neftes repairos je fortificajóes trabalhá- 
vam todos aquelles Fidalgos, acarretando 
ás coftas . tudo o neceífario pera a obra y 
trazendo a artilheria , e as ttaves pera os 
repairos y trabalhando todos tanto , que 
nao fei o que mais mercceo ; e fe houve 
^gum que fe avantejaíTe, foi Ru/'Gonyal-- 
•. :.* ves 



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34» ASIA DE DiQGO DE COÜTO 

ves da Camera , que nao trabalhoü em to- 
do efte cerco como Fidalgo da fuá quali- 
dade 5, fenáo como hum mariola muito va- 
lente , e forjofo. Muito invejados foram 
todos os que eftavam alli , dos mais que 
havia pelas tranqueíijas , como fe todos em 
oualquer parte que eftiveífem nao corref» 
jem tanto rifco huns , como os outros ; e 
todavía parecendo a alguns que lá pode* 
riam gannar mais honra , deixáráo os la* 

fares que tinham , e fe paíTárao pera S. 
'rancifco , como foram I). Henrique de 
Menezes , D. Fernando de Menezes feu 
primo , Francifco de Sá de Sampayo , An- 
tonio Pereira , Braz da Silva , Sebaftiáo 
Gonjalv^s de Alvellos , e outros muitos , 
aos quaes conccdeo ó Capitao mor aquel- 
la, licenja , por particular mimo , e mercé. 
Eílas novas do cerco de Chaul , e do. 
rifco , e perigo em que eftava , movéram a 
*Iguns Fidalgos , e Cavalleiros a fe irem 
acnar naquelles trabalhos , porque ainda 
Xiaquelle tempo os peitos Portuguezcs fu- 
zilavam faifcas > e chammas de honra ^ c 
primor , que nao fei fe já de todo fe apa* 
^áram ^ e ailim fe negociáram alguns pera 
chegarem a participar da honra , que ga* 
mhavam osi que naquella guerra affiftiam 
cada dia ; e affim fe embarcou Thomé 
¿e So»fe .Coutiftho-, irmf> Úq Goveraador 



// 



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Decada VIII. Cap. XXXVL 343 

Manoel de Soufa , em hum parao com doz^ 
Toldados a furto do Vifo-Rey , e fe apre* 
fentou ao Capitáo. mor ^ pera que ó pu- 
zcífe onde fe cutnpriírem aquelles honrados 
defejos que alli o leváram. Joáo Alvares 
Soares , fobrinho de André Soares , quá 
foi grande vaífallo de ElRcy D. Joao IIL 

aue eftava fervindo o cargo de Efcriváo 
a Alfandega de Dio , ^ue já outro irmáo 
íenríra , em Ihe c^egando as novas , largoil 
tudo , e bufcando huma galeota, efcolheo 
pera o acompaharem trinta foldados , comí 
que fe foi métter em Chaul, e fe offereceo 
ao Capitáo mor que^ Ihe fez muitos gaza* 
Ihados , e o apofentou em huma parte da 
tranqueira defrontc de S. Francifco , e alEm 
chegou tambem Francifco Vélhó , Capitáo 
que eftava na Tanadaria de Mal , que foi 
pofto junto a Joáo Alvares Soares. 

Ignacio das Povoas irmáo do Provedor 
da AÍfandega de LisbcKr, que fe aehbtí ertí 
Bafaim , tambem fe fez preftes pera ir d« 
foccorro , como fez fem Iho impedir a 
Capitáo Maitim AíFonfo de Mello , que 
tambem receava trabalhos , e mandóu lan^ 
far grandes , e públicos pregóes fob penar 
de quinbentos cruzados , e doos annos á9 
degredo, a quem fe fahiíTe daquclla* For- 
taleza v e Cidade^ que tambem era de EL* 
Ke/ Cdma á$ oocsas i e hstr» miátt qf^eot 



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344 A Í5 tA DÉ DiDGO ¿fi Coüto 

á guardafle , porque andavam alguns Car 
pitaes do Nizamoxá por aquellas térras^ 
e fe prcfümia que iriam aíTentar feu cam- 
po fobre aquella Cidade , os quaes parece 
que accendéram mais os ánimos dos que 
defejavam achar-fe em Chaul , como foi 
D. Joáo Bellez , primo eom irmáo de ElRey 
de Bellez , que cu vi entrar em Lisboa , 
cuando veío a pedir Ibccorro a ElRejr D. 
Joáo o IIL o qual D. Joáo ellava cafado > 
c muito rico naquella Cidade , onde fe em- 
barcón em huma galeota coin alguns com-» 
panheiros , ao qual D. Francrfco Mafcare- 
jihas récebeo com grandes gazalhados , aífim 
pela qüalidade de fuá pefloa, como porfer 
grande caviiUeiro. Da mefma maneira fe 
cmbarcoíi Gafpar Velho , enteado de D» 
Pedro de Ménezes o Ruivo , irmáo do 
Conde de Cantanhedé, o qual dilíe publi-; 
camente ao Capitáo de Ba^aim, que elle 
hia foccorrer a' Fortaleza de ElRey ; qué 
quanto á pena de diinheiro em que cahia, 
a podia logo mandar cobrar por fuá fazen- 
da , poi^que a tinha muito boa de raiz , e 
que no degredo pera Maluco , elle fe ha* 
ría por condemnado , porque elle efperava 
de que no cerco mereéia tanto , qué ElRey 
nao fó Ihe perdoaíTe o degredo , nías ainda 
Ihé fizeffe muita mereé: e aílim fe fqi mct-* 
ter em Chaul, onde p Capitáo mor o posí 

em 



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Década VIII. Cap. XXXV t 345 

cm parte , em que pudefle defempenhar-fe 
da latisfa^o de fuas promefla.s : tambem 
acudió logo a Chaul Antonio Rodriguen 
<Je Gamboa , Veador da fazenda daquellas 
Fortalezas , pelToa de muita importancia 
pera o fcrvijo de ElRey , em que por to* 
das as vias o fez aílim ñas armas , como 
ñas letras , por fer grande Jurifta ; de ma- 
neira que com eftes foacorros ficou a Cí- 
dade de Chaul com mil e cento , até mil 
« duzentos Toldados, e entre elles todas as 
fidalgüias dos appellidos do Reino, e com 
a foldadefca niais efcolhida da India. 

Forara táo grandes , e táo continuas 
as baterías ^ que os Mouros deram em to-^ 
das as noíTas eftancias , que multas menos 
«ram bailantes pera arrazar os fortiílimoí 
baluartes das Fortalezas de Europa maig 
inexpugnaveis , quanto mais huns cntulhos 
táo fracos com que os noflbs fe repara- 
yam , e defcndiam , tendo contra íl aquéUes 
Cafapos arruinadores de tudo , que nao 
davám tiro que nao levaífem tudo após íi ^ 
e todavía arrazáram o baluarte Sarita Ca- 
tharina, que defendía a Vafa , porque os 
muitos , e certos tiros que delle fe fizeram 
contra os Mouros , provocáram a ira da- 
qudle Rey pera mandar virar* a elle a 
maior fór^a da fuá potencia , porque dalli 
JJi^ matáram péflfoas multo acceitas á fuá 

* ' pre- 



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34^ ASIA DE DioGO DE Coirro 

prefenja , entre os quaes foi hum Badalu- 
cao Mo^or de na9áo , Capitáo de cavallos , 
cftando junto delle , e aínda dizeiti que fi«^ 
cou ElRey borrifado do feu fangue , coufa 

aue tomou a ruim agouro , e logo fe mu* 
ou daquelle lugar , c encommendou a Far- 
tecao , e aos mais Capitíes que Ihe mof- 
traflem-^inganja daquelle baluarte de que 
tanto damno recebéra , e affim puzeram 
contra elle toda a forja do poder da arti^-' 
Ihefia, que nao fó Ihc cegou todas as pe- 
(as , mas aínda o arrázáram até o meio 
com fer o baluarte de hura groíTo entulho , 
e com paredes de pedra , e cal de qumze 
palmos de groífura , o que quebrantou o 
animo a muitos em verem táo brevemente 
arrazada , e desfeita huma forja de tanta 
coníianca. 

Nefta batería fe efmeráram os artílhei- 
ros tanto , que algumas vezes fuccedeo en- 
contrarem-fe os pelouros no ar, e quebra- 
rem das bombardadas os apparelhos , e 
repairos. Mas as pegas que maior damnó 
fizeram , foram as que os Mouros prantá- 
tam da outra banda do rio , porque def- 
cubriam toda a Cidade , e dentro nella fi- 
zeram grandes eftragos , e de huma iñcz 
matáram o noífo Condeftayel da Fortaleza > 
que foi grande perda , e doutra o Meiri- 
¿10 da Cidade * e de ootrat akams ibld;^ 

dóa 



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— I 



Decapa VIH. Cap, XXXVI. 347 

dós nos navios , c na$ eftancias j fenao 
quando fucccdeo huma vez paíTar hum pe- 
louro muito por alto das noíTas tranquei- 
ras, e atraveilan4o toda a Cidade, ir pen- 
car duas vigías da outra banda na eftancia 
de Pedro Preto , antes que fe foíTe pera Dio ; 
e allím deíles defaftres , e de outros nun- 
ca deixou de haver nos noflbs ao redor de 
duzentos Toldados ^feridos , fenáo quanto 
alguns o foram muitas vez^s , aíTini de bom- 
bardadas , como de feridas , porque como 
paíTáram as primeiras baterias , e víram que 
íicavam as tranqueiras em pé , ficáram os 
noflbs Toldados táoafFoutos, que femlicen- 
ca dos Capitáes fahiam d^ tranqueiras , e 
Jiiam cada dia duas, c tref vezes icommet- 
ter os Mouros , e algumas vezes até fuas 
eftancias , que efta foi a guerra que elles 
mais fcntiam que todas , porque os conb 
mettimentqs eram accelerados , e com tanta 
prefla , que chegavam a fazer feus afl!alto« 
correndo , e da mefma maneira fe reco* 
Ihiam ; e aífim me lembra perguntar poí 
hum foldado muito honrado pera faber o 
que fizera nefte cerco , e difle-me hum feu 
amigo que nunca fahira das eftancias , por-* 
que era nmito zambo das pernas , e lanca- 
ya os pés atraveflados , e que como tocioa 
faziam feu negocio correndo, e elle o nao 
podía &x^r bem , pelo impedimento que 

ti- 



r 



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348 A SI A DE DioGo de Couto 

tinha , fe nao achara nunca naquelles 
aíTaltos : muiros foldados dé valor eram 
multo continuos nelles , como eram Joao 
Barriga Simóes , Luiz Machado Boro , 
Sebaftiáo Goncalves de Alvellos , Gongato 
Rodrigues CaJdeira , Francifco de Sá de 
Menezes Solufmundi , c aífim era táo gran- 
de cavalleiro , que fe podia fó chamar 
entre muitos , Jeronymo Cuito , Francifco 
de Sá de Sanipayo , Thomé de Soufa 
Coutinho, Braz da Silva, Alvaro Peixoto, 
Domingos do Álamo , Francifco de Soufa 
Tavares , D. Henrique de Menezes , pri- 
meiro que fe metteíTe em S. Francifco, 
Nuno Velho Pereira , D, Gonzalo de Me- 
nezes , Heitor de Sampayo : em fim todos 
os que fe acháram naquelle cerco fizeram 
tanto, que nenhum podemos aífirmar, que 
com razáo fez mais, 

Paffados muitos dias de Janeiro defte 
anno de 1571. chegáram os Móuros a eftar 
táo pferto com os de S. Francifco *, que 
quaíi eftavam com elles á falla; e como já 
os noflbs traziam a máo folgada das villo- 
rías que em alguna aílaltos alcancáram dos 
inimigos , affrontados de fe Ihes avizinha- 
reím táo perto , determináram de Ihes. ía- 
hir , pera o que fe preparáram, e vefpera 
do JMiartyr S. Sebaftiáo Ihes fahíraih , e 
deram de fupito na eftancia que eftava jun-s 

to 



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Década^ VIII. Cap. XXXVI; 34^ 

to a huma cafa meiá dermbada , langando^* 
Ihes multas panellas de pólvora, com que 
abrazáram muitos que efravam na cafa meia 
dernibada que diíTe , fem recelo de ferem 
faiteados da gente que elles tinham em 
tanto aperto , ficando daquella feita mui» 
tos morros , c feridos , e com receio de 
em nenliuma parte eftarem feguros dos 
jnoíros , e alfim fe recolhéram com efta hon- 
la , fem fe perder nenhum , pofto que os 
•mais fahíram feridos , pouco , ou multo , 
nao das maos dos Mouros , mas de huma 
loqueira de pcdras , que deo no Rebelim 
entre todos , que derrubou feridos a maior 
parte delles. Acháram-fe nefte feíto com 
Alexandre de Soufa , Ruy Gonjalves da 
Camera , D. Henrique de Menezes , D. Luií 
de CafteUo-b raneo , Diogo Soares de Al- 
bergaría , Manoel Pereira de Lacerda, 
Francifco de Soufa Ta vares, Jorge da Cu- 
nha Coutinho , Francifco de Sá de Mene- 
zes Solufmundi 5 e outro Francifco de Sá 
de Sampayo , Braz da Silva, Alvaro Pei- 
xoto 5 CÍhi-iftováo Curvo , e outros cavalleir 
ros honrados , e aílím efte dia do Berna* 
venturado S, Sebaftiáo amanheceo celebra- 
do com efta vitoria , que fbi maior do que 
eu a foube efcrever. 

Defte fucceífo 6cáram os Mouros mul« 
to aíFrontados ^^ peló^.que determináram a£- 

lal- 



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jjo ASIA DE Üiogó dk Cotnra 

faltar com hum grande podei^ o forte de 
S. Francifco , da qual empreza fe encarre- 
gáram dous Capitaes ; e em huma noit^c 
muito efcura, antes do q^uarto da madorra 
rendido , cercáram a. cala de S. Francifco 
com finco mil homens , e logo comejáram 
a fubida por tres partes. Vigiava aquellé 
cuarto Ruy Gon§alves da Camera com os 
íoldados de fuá obrigacáo , encoílado a 
hum entulho fobre que jogava huma efpe- 
ra , que já eftava cega no Rebelim ; e Ruy 
Gonjalves de candado do fucceíFo paíTado 
eftava repoufando , e ao rumor dos Mou- 
ros defpertou logo brádando por armas, 
ao que acudíram todos com ellas ; e poa- 
do-íe em defensáo , fe travou entre todos 
huma muito afpera batalha , em que os 
Mouros como magoados fizeram denoda- 
dos accommettimentos ; mas em todos fo- 
ram rebatidos com grande esforzó daquel- 
le$ valerofos Fidalgos , e cavalleiros , que 
todos nefte tranfe fizeram altiífimas cavalla- 
rias, lanzando fobre os. cardumes de Mou- 
ros, que fubiam pelas efcadas , mui baftas 
bombas de fogo , e outros artificios; e os 
inimigos infiftíram tanto na entrada , que 
vieram á efpada com os noífos pelas freuas 
de fima das efcadas, os quaes eram debai- 
xo favorecidos com muitos tiros , que já 
tinham as frenas cegas de todo -y e porque 

le 



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Decada VIIL Cap. XXXVI. 3tt 

fé prelUmio que os Mouros picavam a pa« 
rede em baixo, convidou oCapitáo aleuns 
foldados pera por huma frefta verem le os 
enxergavam traoalhar ; mas Chriftováo Cur- 
vo de Siqueira , fem fer chamado , embra* 
90U huma rodella , e com huma tocha na 
máo lanjou o corpó pela frefta fóra pera 
ver o que hia em baiio , brádando altp^ 

Í>era que os Mouros ouviíTem, e fe aíFaftaí- 
em; eeftando naquelle lugar, recebeo on- 
ze frechadas na rodella , que fe foram no 
corpó , fe pudéra parecer com S. Sebaftiáo. 
O Capitáo nao teve aviíb daquella op* 
prefsáo , em que os noíTos na cafa de Sw 
Francifco eftavam , e defejou de mandar 
faber o que lá hia , ao que fahio Jeronymo 
Curvo , irmáo do mefmo Chriftováo Cur- 
vo , com Sebaftiáo Gonjalves de Alvellos , 
Diogo Ribeiro , e Antonio Mexia , e fo- 
ram de longo das paredes até chegarem a 
S. Francifco , e virara eftar Chriftováo Cur- 
vo na frefta brádando , e o irmáo o conhe- 
ceo logo 5 affim na falla , como no roflo, 
que com a claridade da tocha fe via mili- 
to bem ; e brádando pelo irmáo , Ihc per- 
güntou como eftavam ? Ao que elle Ihe re» 
ftK)ndeo que bem. Eftas novas leváram ao 
Capitáo mor , que logo defpedio Nuno 
Velho Pereira com qúarenta foldados , e 
multas mum^Óes pera os ir foccorrer. Os 

do 



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gyi A S I A DE Dioeó TbeGoutíi 

do baluarte eftiveram multo apeftados> 
poraue Ihes durou aquelle conflifto perto 
de unco horas , em que fe gal^ram todas 
as. panellas de pólvora , e depois nao ficou 
^orgoleta , pucaro , talha , nem pote , cjue 
le nao lan^aue fobre os inimigos, até tira- 
rem dos entulhos través y e outras coufas 
^ue lan^avam fobre elles j em fim coiti tan- 
tos inílnimentos de morte ficáram os Mou- 
ros taes, que de puro canjadós, enao po^ 
derem foíFrer tanto damno, fe recolhéraní 
is fuas eílancias , delxando trezentos dos 
-feus abrazados ao redor da cafa de S. Fran* 
cifco , e levando mais de quinhentos feri- 
dos , fem da noífa parte perigar nenhum , 
e fó alguns ficáram feridos , e defcalavr^- 
dos. 

Nuno Velho Pereira foi com o Ibccorro 
por dentro de huma fiada de cafas , quehiam 
ter á S. Francifco , que eílavam turadas de 
humas pera as outras , pera darem paífagem 
aos noflbs , querendo dar foccorro aos de 
S» Francifco; e indo com grande cautela , 
e vigilanci?, por dentro de todas , por Ihes 
parecer que em qualquer dellas poderíam 
eftar Mouros , chegou á porta , e chamou 
pelos de fima que Uie acudíram ;. e per- 
guntando-lhes o que havia paífado , Ihe re*- 
Ipondéram que todos, eftavam bem , e fem 
damno-, mais que alguiis feridos j. c que.aíí 

pé 



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DecAüa Vni Ca?. XXXVI. gjTj 

fé da cafa poderiam ver o que tiniam fei- 
to ; e dando-lhe Nuno Velho grandes vi- 
vas y e louvorés , Ihes deixou as mutii^óes^ 
e fe tornou. Deite fucceífo ficou Nizamozá 
muí afrontado > e deienganado de poder 
ganhar o forte de S» Francifco y e com 
efta melancolía mandou afleftar a elle duas 
pejffls groífas , com que o batéram por tre$ 
días continuos > com grande perigo dos que 
eítavam dentro > porque nenñum deixou de 
fer feíido > e por vezes enterrado ñas rui* 
ñas de pedra , e madeira que a batería deí^ 
baratava , fem terem amparo , nem abrigo 
mais que cozerem^fe ccnn as paredes cuber- 
tos com murrióes > e felladas pera repara- 
rem as caberas das ruinas , que fobre elles 
cahiam daspedras^ vigas, madeÍFamentos-^ 
landos de paredes inteirós , com que os 
noífos fevíram táo atormentados , qUe ch^ 
gárám a defefperar de poderem defé/ider 
aquella forte, e já alguns foldados fehiam 
lem os verem , dizendo que raelfcor : era 
irem morrer ñas eftancias dos MoUros,. on- 
de melJior poderiam moftrar feu valor , o 
que nao podiam fazer allí encurralados ^ 
porque fem pelejarem, os matavam> e fe-» 
riam as mefmas ruinas do forte que.defen-^ 
diam. 

Eftes trabalhos) e defefperaj^s fabiam 
jnuito hem. os Capitáes , peloi que fe ajuu- 
Cfpto. Tom. F. A /, Z tá- 



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3f4 ASIA DE Diobo DE G3uirb 

iáram a cbfirfdho fobre o que £t hrisi ; e 
apont^^s OS' incónvementes y e lifcos em 
0a« eftavam t&o vakrofos Fidalgos ^ e folr 
dfirdüi»^, quepoderiam moftrar feu raior em 
cuti^ |yarte9 mai^ ilecefiaria^y e emque os 
ii^imi^st fir^dhor 06 coirhíecdQFem , e debatí^ 
d^s. a» couías, aíTenitáram posMtaiwsxáettt^ 
mifta^áo que fe largaíTeaqoelle toctty e £s 
ve^jaifotiír^ a artilberia; com a^ maior diíli^ 
mütaeá<y que fer pudeife ,. o que fe fez em 
ím diéís depois da combate y tirando pri- 
méiri^ a ^tilhería ^ e áa depois fe fahirasn 
todos , e ó Capitáo mor foi aquella noite 
dionnir 1¿ , e atráa áále toaos os mais 
GapíiStes;, Cada hum fuá iioite ^ e üaeram 
brevetíienfe huma rranaueira aa pé do mu- 
rD* do Mc^eira, pera daili £b doendisrem, 
Étei:íando« tto Mweiro vigías , e deíl» xna- 
neim le defendéram ílnco dias. 

Vendo , ou fabendo os Mouros que já o 
forte ¿flava deípejado , foram muiros del- 
tas- p€ta fe mecterem dentro ; e chegando 
ao^ Kébelim ¿ em chegando a elle comecá-- 
fam á'fttbip, e acháram ainda mmtos' dos 
Dó^íS^ que* oguardavam tac amvnoünmnte y 
qae daitd«y' tí0S quo hiam' fubimio mui con- 
fíudb& , os deítaram do Rebelim^ abaixo, 
huns defpedajados , e outros muito mal fe^ 
náú^ \ ^'nxsm. eáe* ultimo fucceífo lerrgáram 
od 4|í9Í&s^ R^eli^ « ao qtial acudíraa 



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DCGADA VHL Cap. XXXVL :3ff 

logo o» MouroS) e anroráram oeU^lmiiitas 
ÍKiíiddr;iS4 mfts acudió logo D.iüftálaALrí^ 
Wfi Pereira , e os lanjou fóra, oi^trlaí.^'í ^j ii> 
do^$ levando até os encüi^ralar oas finas eftant 
ciasye -tranqueiras , ficartdo*lhp áí '^andd^. 
rafip e aínda itmitos dalles eftiraxlos.noíjcamptt 
Aquella inefma t^rde hoHve dutrá bata^ 
Iha entre os nolíos, e os Mourosi em cam^ 
po aberto , que durou por cipa jo. de duas 
limas j mas oé íioíTos fizcram ncJles tal eé 
Ciago , que com morte de muitos os ápra» 
eáram do campo > e os que foram fugitídQ 
nao fe houvefam por feguros ,f4^náo den^- 
tro em fuas tranqueiras. Morrebrda noíTa 
paite hirn mancebo Fidalgo de'huAia arca^ 
buzada 5 que parece dnha alii ^limitado feu 
tetmo , no qual fe peideo muito -^ por tei 
por imiitas Vezes pelejadd yalerófflHnente^ 
e morros muitos Mouros ^ porque paree» 
lile adivinhavá o coragáo haría de <nwret 
á$ fuas máos , e quefia toniar vingaii§a 
truel tanto dante mao em vida de fuá mor-i 
te. Chamava-Í^ efte Fidalgo Di- Fetnandd 
de Mene^ed ^ e era neto ác D. Hetiriquó 
o Róxo , qué foi Goverfíadof da India. FÍ4 
táram ddsiióiad muitos féfldo^, d^squa^s 
moríét$ii& logo fcis , a quem fSío achei 09 
iiomes : dorinimlgas pcNrec^am qfuatro* 
^-enn&i) ajando feridos^ «queitnad^s graii^ 

- ¿ Z ii Os 



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3y<5 ASI A DE Diofió de' Cowá 

>5 íOs:MbuTosnáooufavam aínda de cutraf 
«in! 5/.Práhcirco com. eflar defpejado por 
caufa jdo fogo y que osnoíTosdeixárafli no 
maÜeiraxnento: do Mofteiro ; mas como ceP 
4bú a furia , mettéram-fe dentro , e foram 
fintrando' nacjuella parte , que ficava entre 
os nóíFoá í fortes y e a Igreja de S. Francifco , 
€ Qccupámm;; militas xaías ,. e queimáram 
cfuttasimuitasi ; e eftando os Capítáes em 
¿onfelho 'tratando fobre a íahida que de* 
terminavam.fazer aos Mouros com todo o 
poder j'acertou de ver Nuno Velho Pereira 
os inimig<^s^muito perto das fuas cafas que 
elle defenája y e entrou por. huns quintaes 
com algurísoicompanheiros ^ e deo nelles 
com muita'lfuria , travando-fe entre elles 
huma arrezoada batalha, que como osnof* 
fos o fouberam foram acudindo ; e apertá- 
ram tanto com os Mouros , que largáram 
tudo , f e forám fugindo por íima dos telha- 
dos das cafas ^e os noíTos debaixo qom as 
langas os cravavam , e outros muitos fe 
lanjáram pelas janellas , e fe lanjáram em 
fima dehum cardume de alabardas dosnoí^ 
foa que eílavam em baixo , e tudo ifto por 
efcaparem ao fogo , que os noííos Iheslan- 
cavam dentro ñas cafas.; e na ponta de 
huns quintaes ,. aonde foi ter D. Nuno Al- 
vares «rehira , fe matáram, e cahíram to- 
dos com tanta confusáo > que íicavam os 

mor-» 



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DfiCAnA^ VIIL Cak XXXVL 3^7 

mortos ibbre os vivos ; e taiw trabalhoo 
D. Nuno Alvares Peréira efte diaj^que naa 
tníos fe lite quebráram duas alabardas noá 
peitos dos inimi^os ; e fuppofto que os 
Moüros eram tmutps ^ e iñzeram por veséá 
voltas abs noflbs cc»n grande determinad 
cao y foram em todas úo <efcatayrados ^ qué 
largando as redeás á vergonha: foram fugm^ 
do, deixando den^o ñas cafas, e ñas mas 
grande quantidadedelles mortos , fem os 
de cavallo que Ifaes acudiram; os poderen^ 
defender , j)orque fe nao podiam métter en* 
tre as caías , e paredes derrubadar. Foi 
Nuno Velho Pcreira occaliáordéfta vitoria, 
^ue íbi das grandes que os^noífos. alcanzas» 
tam , porque cufiou aos Mootos mais de 
quatrocentos dos melhores , e da mais Ití^ 
zid« gente' que tmxiam. ' ^ 

Quando logo oNizamoxá fe fez preftes 
pera defcer contra Chaul. , mandou hum 
Émbaixador ao Camori a pedir4he huma 
boa Armada contra os noíTos j offerecendo-* 
Ihe grandes pagas ^ e mercés, e cuido que 
pera iáb Ihe mandou huma boa copia da 
diñheiro , o qual mandou cha^mar os arma^- 
dores dos navios , • e Ihes mandou foffem 
^judar o Nizamoxá contra osoioílbs , e que 
trabalhaffem por tomar a Armada que ti* 
nhamos no rio. Eftes Mourois fe fizeram 
|xreftes , negociáram vinte e hum navios \ 
- em 



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35 8 ASI A Ds DiQCSJ Db' Gout<í 

€wi' qiife leMrayam fmcb galeota^ gvmút^i 
e os njiais rtavios de bom porte^'i nosi qvaes 
fe^mbarcáram ad redor de.dottfe mil &)l^ 
dados á ¿ama dos glandes pré^o» , que Q 
Nrzaniox^ 'Ihfis tinha projmettidp. do^'f^cO 
áe ChauU Partida efta Armada , dividiramr 
£e .alguns: naviios , e os trcze chegárain f 
Ghguí na fim do jnez . de Fetereiro , t com 
grande decenriinasáo commistteram aentra-r 
da do.rÍQ de.Doite / rendido p ouarto id^ 
prima y :piuitQ a feu Jalvo ,• por culpa da isÁ 
vigía, dos da- Arpiada que eftava no rio# 
óut era. ddiinco gales y eonze fuihks y.t 
fora naos dé mencadores , dando cUes ocr 
caíióes de defpertarcm. com muitos íftftiur 
mentbs y e ítm>8 que foram. tangend^ > e tor 
davia nao. deixáram de ier íencidos^ aíodsi 

3ue tarde , pelo que arrancáram a» gáleo 
e Leonel de Soula j é a dc: Rodrigo Ho- 
mem da Silra , c os foram, feguindo -até 
defronte» da fuá Gdade ás. bombardadas, 
Paffado efte dia do defcuido ^ dahi a ti^e? 
dias entrárara pelo rio outros tres paraos , 
que eram dos que fe apartáram , que nao 
foram fentidos dos noflos^ e.vindo daM a 
íinco dias' tiutros finco , que era o reno 
dqs navios j que fe armáram pera «fte foo 
corro y 'querendo tambem: entrar de noitc ^ 
foram fentidos , e Ihes fahio.Leondi de 
Soufa na íiiá ^alé y e or co^u de modo¿ 

que 



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DftCADA ym, Cap, XXXVi. 3f» 

qw Ie9& varar hum por. ílioa ds huirt^jB p^ 
4ras da outrg .banda do aiorro » ^ o$ ms^i 
paíTáram a íeu íalw ; mas o. que varojw foi 
tix^o a monte jj .^ eípali¿a4o , « liíjapOj e 
no cabo de trfs> di?*?. piHrpu p^lo rio d«i-* 
UQ m m^io día. j feííeBdo iua«- algaliaras , 
e dando filas coqwadaf . . Ff^nciícp . de 
Toar, ^Rodrigo Homcm daSilya, eGoa- 
gaÍQ Bcanai'd^s 9 'Ciid^ hura ^a| íeu navio , 
arrancái'am após «JUw com tanta prefla, 

?u« os alcaijcái^ara oj- ^ indo a fi^a dft 
ranciíco de Toar p^ <^.in.v«ftif ,)0 ma- 
rinheiío que levara o^lenie^f^.deíVícm d^ 
feij^o , que Ihe ipfc^pou , %m4o r alguna 
dos-fcJÉdados de Franciíco de Toar feridoa 
4e firé^hadas y por despediré!» ^s^ Malaya^ 
t€9 Iitt»a grande ©Hyem dellas .ao^íempo 
que p jQoffo nayi<i,ft ^deíVipü, Os Malava-i 
res ficáram tao- ufanea- de efeapai-em d^ntr^ 
113 litóos aos ijoífos , .quQ cJi^g^P^m a opvpa*- 
gao -«íferunindQ.daí efpada^ , -e: rpd^Vas, a 
deítándf) grandes barbatas p^ra ff.acredka-t 

^s Malavar^P: tiQm/graiade^íjkonrft^ , e pa 
fepaírtto píelas «fta»cÍM j il.^.:qíJ«^ ^ h«T 
«a pu«!9?!am hw»aí b^deára .de>Chrifto co^r 
mó asnoílas , g^aiid<>:fe, áo7NizaiQ^ttc0 
0^ a totó4i-am>ao?,^rtugíjez«S5 e^fazefKi<t 
gr^táé/cab^dal ^d§ .€aya|Taria de paffareni 
pieio rtQ ;de ChaiiCi^^iyid» ©elle a noffa 
.: Ar- 



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^fo ASÍA DE DiOQO DE CoXTto' 

Atmátíá , dé que os Mouros fa^iám grM^ 
des zombarias y perguntando das Eftancias 
ao$ noíTos , porque nao d^fendéram a en* 
trada aos Malavares , chamando-lhes dor- 
tninhocos , que nao fábiam vigiar , e cegos 
que nao viam quem IhespaiTava por diante* 
Os CapitSes dos liaviós Malavares of- 
ferecéram-fe a ElRe^ pera pelejarem á 
fna vifla cóm a noíla Armada y lanzando 
grandes alardos de roncas contra os noP 
los , chamando-lhes -de fracos , e cobar- 
des , e fezendo-fe táo fácil a vitoria que 
delles haviam de alcancar, que diziam nao 

Íjueriám éfperas por dez navios que IJies 
altavam, porque oCJamorini manaáratrin- 
ta aquella empreza, eaffim fe fizeraní pres- 
tes com tantas rebolarias , e defpejos i qué 
obrigáram a ElRey a cuidar poderla fer o 
que ellés prómcttéram ; e pera os obrigaf 
a defempenhareni a palavra , fé oflPereceo 
pera ver a batalha , e aflim^ fe foi por em 
hum lugar alto , e muitos dos feus vaffallos 
pera fe irem áchar com os Malavares na- 
quelle feifft ém húns -canaletes , e entre éf- 
tes- foi hdm.'mais ofdenado de bandeiras, 
c galhardetes', era qóe levavam hum fom- 
breiro branco iníignia ^eal , e nelle hia 
hum fmi grande privado de ElRéy com 
feíTenta fóldadós , gente mui efcolhida, e 
luzida 9 indo embarcados nos parios cbiqt 

oa 



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Decada VIIL Cap. XXXVI: 3Í1 

os Malavares outros muitos Capifáes , e 
foldados de prejo , que dcfejavam de fe 
acharem liaqueÜa batalha naval , pera oar- 
ticiparem daquella Vitoria , que os Mala- 
vares Ihes ceitificavam infallivel. Ellava en- 
carregada a guarda do rio a Leonel deSou*» 
fa com tres gales y em que foram por Ca- 
pitáes, afora elle, Francifco deSá deMe- 
nezes , Gafpar Mimofo , e Rodrigo Ho- 
mem da Silva em huma fufta. Os Malava- 
res faliíram de Chaul de lima todos em 
ala com grandes carrancas, eeftrondos bar- 
baros como eüesj eftando a praia cheia de 
gente , e as arvores de huma , e outra pár^ 
te pera veréta aquella fefta , e regozijo : 
os nolfos vendo aquella demonftragáo , -e 
barbara determiríajáo , Ihes^ fahíraiti do 
porto a efperallos ao meio do rio ; e yin- 
do com todas aquellas carrancas, vitaran* 
t>s noífos a elles : mas como as promeíTatf 
fóram no ar , e cuidáram que por iffo IhéS 
idéffem muito dinheiro , vindo a condusáo 
com os noífos, Ihes viráramias popas, e fe 
foram acolhendo com mais veíocidade da 
<om que vieram , e com míiitos tangéres , 
-e feftas , mas com grandesr gritas que da- 
^ám aos marinheiros , pera que remaffeni 
rijo: os noífosr os foram feguiñdo comhum 
féfmofo jógo de bombardadas , que Ihes 
foram zuniínlo pelas orelhas, e Ihesarrom- 
1: . bá- 



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jéír ASIA Dp Dioco PE CovTcJ 

báram alguns navios , ft matáram gente em 
Outros i o canatale tm qw hi% xn^ttido q 
fombreiro de ElR^y , foi mettido no fiiad<i 
com a gente tqda 3 de cjue ^feapáram pott^ 
eos , os quacfi os noíTos toram tomar vivosi 
¿cando os Malavafes daüi por diante mm 
enooUiidos , e regiftados ñas promeiTa^ reo 
Rei menos confiado ñas que Ikes fízeram i 
e commettendo-lhes por veíes que tornalí 
£em a pelejar com a nofla Areíada > eUe« 
fe efcusiram com as noíTas galea ^ dizendor 
¡he ^que ellas , e os navios grandes amaíTa- 
yam debairo dos pés os pequeños j e 4e- 
poís de terem eílado em CKaul . vinte diaa^ 
ie tornáram a fahir do rio corridos , e eor 
yergonhados ; e ifto id fe pdi<le achar eai 
gfpte baixa gomo eftes barbaron,:. 

Quaíi no mefmo tempo fuccedeo aqueJU 
Je feonrado feito a Efteváo Peareftrello Ca- 
pí táo de Caranja , pouco oíais, de tres lei^ 
gua^ d^ Chaul^^ o qual foi deftaimaneirai» 
Andayam alguns C^apitáes do Nizamoxi 
c'orrcndo a^ jterras. de Chaul até Damao» 
com coufa de qoatro mil cayaUos » faxenr 
do, guerra ás noíTa^ terral , qyeimando aa 
noífas aldeas^ e com ten^o de^paírarem i 
Ilha de Salfete x e de Ba$aíi», ^ue &mpi^ 
ihes, foi. defendida por noíTos navios ,: qu^ 
andavam em gtiarda doa paíTos daquelfa 
Ilha ^ e dos rios i e yeftdo_q«e ;náo por 

diam 



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Pecada VIIL Cap. XXXVL 363 

émn paíTar delia, detemúióram de paflar 
ao forte de Caranja , coxoo fixeraní Sab6- 
cao 9 e FartecaOy dous Capitáes com dous 
piU cavalJo» ^ e feis pe^as de campo , femdas 
por muita gente detrabalho. TinhaEfteváo 
Pereftrello , que era homem Fidalgo , é 
jm'ito hom cavalleiro ^ impedido o paílb 
que faz pera a Ilha com eftrcpes : fizeram 
os Mouros dcprcffa outro paflb entiilhadtí 
de raadeira , e pedra por ler cftreito ^ por 
oode paíTavam toda a fabrica^ e foram 
por cergo ao Forte , que o he fó no nome ; 
^ fomente he roqueiro hum- pequeño bar 
lúarte , qite fe fez pera appfentos do Cat 
pitao .ena tempo que fe naortemiam fenáó 
fl^ alguns ladr6es formigueiros ^ que ás ve^ 
K$, paflavam. da tcfrra firntc^á Ilha , e a 
cercaram á roda com feis^-tranqoeirasr j 'd 
tiro de espingarda deiias y mas Éfteváo' Pftt 
reftrello íc defemieo delleexom imiito ani-» 
mo , e ihes. matou muita.gerate¿ com algii^ 
mas pegas die^ artiiliena' tímida y e com a 
arcabuzaria ; m;as foi logo foccorrido de 
Manoel de Mello Pereira , que hoje e&Á 
por Capitao de Damáo, que^ entáo andavá 
por. Capitáo mor daqoelies rios em guarda 
da Ilha deiSálfete, com algumas manclmas 
que fe armáram em Bacaim , v vinha por 
mandado de Mártim Aífonfo de Mello; 
Capi^o defiajiaim, recolhtt a attüiiería túo 

for* 



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364 ASIA DE D1O6O DÉ COUTO 

forte , e requercr a Efteváo Percftsfello o 
largaíTe* Levava Manoel de Mello naquel- 
las embarca^Óes trinta Toldados , tendo £í^ 
teváo.Pereftrello quarenta dentro no Forte; 
e defembarcando huma noite Manoel de 
Mello , fe metteo na Fortaleza , que Efte- 
váo Pereftrello nao tinha tencáo largar , 
antes fez com Manoel dé Mello que foi^ 
fem dar nos Mouros com aquelles fetenta 
foldados que alli hayia , porcue efperava 
em Déos de fazer hum mmto nonrado fei^ 
to ; e aífim fahiiam de madrugada y e cóma- 
me ttéram as . tranquearas dos Mouros y que 
logo entráram , e matáram muitos ; e cui« 
dando elles que o cabedal era maior , e 
que Ihes viera grande foccorro de Ba;aim y 
roí tamanho o feu medo , e confusáo y que 
logo fe puzeram em desbarato , deixando 
as tranqueiras com a artilheria , e multas 
armas , e com boa quantidade de pólvora , 
chumbo y mantimentos , e muitos corpos 
mortos , que fm^am queimados com as tran* 
qüeiras y e nos íicou a Fortaleza próvida 
de. nido o que .Ihe falta vá , que ficou dos 
Hiimigos , que ficáram táo enganadosr fem 
lila perten^ao , que vindo a tomar aquelle 
Forte , o deixáram próvido á fuá cuua de 
mdo o que nelle ha vía fneceflidade. O prin* 
cipal Capitáo <}ue foi a efte feito ficou táo 
envergonhado daquelle . desbarate y e doi 

pou- 



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Decaüa VIII. Cap. XXXVI. jóy 

^oucos Portuguezes , que .nelle o venced 
ram , que nio fe atrevendo a tornar pera 
o Nizamoxá , iligio pera* Cambaya com 
mil de cavallo , teniendo tambem a ira de 
EIRey y que além de tomat muito abatí- 
iñento do póuco valor de fuas gentes , kn^ 
tio muito a perda de fuá artilheria. 

£m Chaul foram os Mouros continúan*^ 
do , depois que fe Ihes larg^ou S. Francif- 
co , as baterías mais aprefladas por todas 
as partes., empregando nos noílos pobres 
entulhos toda a furia de fuá artimería, 
principalmente dos dous Cafapos , que efta-í» 
vam prantados ás cafas de Diogo Lopes 
com ramadas por lima de taboado , e com 
mantas como gales, que cada vez que ati« 
ravam fe levántavam pera iíTo •, e porque 
feínpre faziam grande damno , tinham oú 
noílos taes vigías , que em fe defcubrin* 
do tangiam hum fino pera fe faber que ati« 
ravam elles , pera que a gente que anda- 
va pelas mas íe amparaíle á fombra das 
paredes ; e ás eftancias fe refguardaíTem 
daquella parte , onde eftavam aíTeftados , 
com o que nao faziam tanto danmo como 
primeiro , de que os Mouros fe ampfiná^ 
ram tanto , que aíTeftáram algumas pe^as 
no lugar aonde eftava o fino , que era na 
Camera , e Ihe deram tantas, bombardadas 
^té que a dcrrobáram ; e porque era no» 

cef; 



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366 ASIA DE DioGO bu Goxrró 

ceffario haver aijiidle defpertadw , o pa& 
i^rain á fombta dos entulJios > aonde a u* 
tiUteria Ure nio podía fazer damno ; mas 
aonde os Mosiros faziam o xnáior amprego 
4a furia de Saz arcilhena y era ñas caUá 
aue defendíam Manoel Percira ^ e Lui2 
Aira Lobo ^ que íempre fe tivtí'am por 
mais arríicadae que codas , por eftarem na 
frontería da nofia Cidade , pera onde íé 
difpararam todos os tiros contrarios y e 
affim eftavan todas arruinadas , e páífadáe 
de parce a parte ; e foi a batería dellaa 
fáo cominüada y oue nSo dava lugar m$ 
nottoi que neílas eftaram ^ a fe repairarem , 
e comereitL hum bocado ; e entendendo 
Manod Pereit'a y que as fuas cafas fe ha^ 
viam de perder^ fez nmitasí lembranca^ ao 
Capitáo mor y pera que ou o provefle dó 
flcceíTario pera fe repairar , ou o defobfí*- 
gaffe dellas , porque nao quería que fe 
diffefle que fe perdéram em íeu poder } e 
sAo deferindo o Capitáo mor a efte reque- 
rimento por ferem os trabáHios em todas 
as partes geraes , Manoel Pertífla fe fabio 
das cafas, e fe foi pera buma das eftancias 
de mor perigo. Heitor de Sampayó tattto 
que vio largar aqudlas caík^ , íe foi metter 
nelias , porque o feu anin» Ihe nao átiM*- 
ra rer o rifco a que fe pimlia. Vendo o^ 
CapícSles comor os Motí4«>í iftíiftiam em ga^ 

nbar 



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Década VUI. Ca?. XXXVI. 5*7 

nhar a& «talas: de Luix Xira Lébf> , pelo 
¿mpedimeiito <}tte Ibdf faziam de fe che« 
garem aM isncu^os; , determinárdm de at 
krgar ^ mhiando-as pi'fmeíro 5 p^ra t^ma;^ 
nm netlas homa grande ccxpk de Monroe t 
e pera efta mina fe oílcreceo Inmi CoDdeír 
ta^el Fikmej^a , que alti viem de Dio> 
gnxide onálheiro j' e f&tz tttszido^ potqnt 
promectia lebMt^tr osCafapos ^ pera o qM 
tÁo adteu inres^áo que aproveiiafie pera 
ifib , por moim que eíludou , e irabainou ^ 
o qual come^ a por as máoa m obra da 
0iijaa , na qual tainbeiit andava M^oei 
Rap^jfo, SafTgento móty que tiftha algutni 
pracíca defte minhlerio ; e aílim como o 
rsígsít «a g&erra p^ejirdica mifito , aíTim 
tambem damoa^ antáápando-'fe d'ema2:i£kla« 
mente mt» do temoa necesario > como 
aquí Moíxoocto a el^e Manoel Rapoío 5 
que por fe moftrar diligente ;, levou antes 
que & ácabaíTe a mina o^ bárris da pol^ 
Tora , qoe fe katiam de ítietter na mina ^ 
es quíaeí metreo em huma eamei^ que fer-^ 
v¿a de a¡lína2eiii das tmni^eú , oísde bavia 
muitis pm:dl^ de polro^a , Im^j e óu* 
tros aróficios de fogo : fuccedc^ aós it^ 
de Fev^ereko peíais f^me hútú^ do día, 
prefu^mírem os^ Mearas Cfote aqtietlas caík« 
eftavam 'defpejadas , porque 1^ appareci-á 
nelka geate^ por^ toM ^fidavst tm baU 

xa 



1 



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3^8 ASI A DE DiOGO DE COUTO 

xó na obra da mina , a qnal Heitor de 
Sampayo efiava vendo pela rotura do fo« 
brado de huma camera ^ deixando em íima 
4ua8 vigías que deviam de adormecer , ou 
ps peccados de todos Ihes taparem os o* 
ihos ; pelo que os Mouros commettendo^as 
pota iufpeita de que eftavam defpejadas^ 
quando já chegáram perto ^ fentiram g^ente 
nos baixos ; e vendo que os nao fentiam, 
grrimáram as eícadas ás janellas ^ e fubidos 
á Tala y muitos delles arvoráram fuas ban** 
deiras , e guióes , que fendo viílos das 
tooíTas tranqueiras, fe abaláram alguns Ca** 
pitaes a foccorrellos , e dos primeiros fo-^ 
ram Fernao Telies , D. Duarte de Lima , 
com muitos Toldados de nome , os quaes 
fe mettéram nos baixos das cafas y íicando 
os Mouros em ílma , e logo os noíTos fo^ 
ram commettendo a efcada pera fubirem 
afllma , fobre o que trabalháram bem , e o 
primeiro , ou dos primeiros foi Joáo Bar-» 
riga SimÓes , que nefte cerco fez grandes 
cavallarias ; o qual indo já em íima y o lan-» 
cáram os Mouros pda efcada abaixo mal 
ferido em huma máo , de que ficou com os 
dedos todos encolhidos, e Ihes defendéram 
yalerofamente a fubida aos noífos y que 
vendo trabalhavam em váo y íe fahirám 
fóra , e foram dar em huma tranqueira^ 
úoñdk os Mouros íahíram ^ <^ Iha ganhán 

ram; 



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DíGAbA VIIL Cap* XXXVL 369 

ram : o que vifto pelos Mouros , foram* 
íe fahindo por Ihe acudir ; mas como os 
noíTos nao podiam fuftentar as tranqueiras ^ 
fehlram-fe , e os Mouros fe tornáram a 
xnetter ñas cafas ; e eftando Heítor de Sam* 
payo com todos os mais efperando em baír 
xo que fe acabaíTe o repuxo da mina per 
ra Ihe darem fogo , permittíram noífos peo« 
cados que ian^aíTem os Mouros de iima 
huma panella de pólvora , a qual cahio em 
outras poucas ñoñas y que la eftavam y que 
tornáram fogo , e dellas faltou logo no9 
barrís , e caixócs que eftavam pera a mi- 
na, quetudo fez hum tao temenoíb eftron- 
do , que foi efpanto > e quarenta e ddus 
Pormguezes , que dentro eftavam , ficáram 
todos abrazados, c torrados fem empecer 
nada aos Mouros que eftavam em íima^ 
fahindo tao ' grande^ lavaredas pela$ por** 
tas , e freftas , que tomando alguns que 
eftavam da banda de fóra , os derrubou 
queimados huns por fima dos oütros, con« 
íumindo-lhes logo as roupas, e ficando-^lhesh 
o fogo entre as armas, e a carne, e aíluir 
ardendo chamavam pelos parentes, eiami-* 
gos , de modo , que Domingos de Álamo 
foldado de Fernáo Telles , yendo fahir da? 
cafas a Jorge de SouÍsl Coutinhó , remet- 
teo a elle ])era o matar, cuidando que era 
Mouro , vindo elle já tal , que nao duron 
Qutfi. Tom. V. P* /• Aa mais 



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^70 ASIA UE DiOCEO DE GOÜTÓ 

maís que até receber os Divinos Sacrameo^ 
tos i e aheganda Pedro Ferreira de Sam-« 
payo o Velno em buíca de ieu fobriiiliQ 
Arres Ferreira , andando pecgi^tándo por 
elle y tendo-o bem perro táo desfigurado, 
cpue o.na6 pode conhecer , nem o pobre 
Fidalgo Ihe pode fallar mais que -por ace- 
nos y pondo a máo no peito, como quem 
dizia que. elle era, efcapando naqueiloutro 
memorarel cerco da Cota, pera vir a aca- 
bar nefte. Antonio Pinto , que efcreveo eíle 
cerco , diz, que Pedro Ferreira era irmao 
die Ayres Ferreira ^ fendo Pedro Ferreira 
íeu tio ^ írmáo de, feu pai ; enganou-fe, 
porque tiniía elle outro irmao chamado 
redro Ferreira , que depois recebeo huma 
bombardada em hum brago , de que fem- 
pre fe queixou até morrer dahi a alguns aiH 
Hos : foram eftes Pidalgos Ayres Ferreira , 
ePedro ,Fermira, filhos de rrancifco Fer- 
reira , que tinha hum morgado em Barre- 
do , e tinha na India outros dous irmaos 
chamados, tambem Pedro Ferreira , e Gor 
mes Fcneira ^ cafados em Chauí , e eftes 
tres irmaos eram filhosf de Ruy Ferreira 
de Barcellos , que era írmáo da mái de 
Simáo Guedes de Soufa. 
- Os' Fidalgos que aquí famm abraza^ 
dos , e mortos y foram os fegmntes : Hei- 
for de Sampayo ^ D. Duarte de Lima > quQ 



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Decada VIIL Caí. XXXVL 37» 

lo que ainda o tiráram yivo > pefgu» 
tando^lne hum Toldado quem «ra , refpon^ 
deo já muito fraco, que fora D. Duarte de 
Lima y a que acudió Lui¿ Freiré de Ax^ 
drade y Capitáo da Fortaleza , e o levou á 
curar a fuá cafa , onde faleceo ao outr6 
dia, e nao em cafa do Capitáo mar, como 
diz Antonio Pinto ; porque D* Luiza Couti-t 
nha , mulher do Capitáo y me contou em 
como Iho leváram a cafa , é como morreo , 
que foi com grandes moftras de ChriMo: 
íoram mais queimados Jorge da Cunha , e 
Ayres Ferreira , como já dlífe, Joáo Dor» 
nellas , Antonio de Sampajro , Luiz Xira 
Lobo , que largou as fuas cafas pera vir 
morrer abrazado neftoutras , o qual ñas fiías 
fez muitas cavallarias ; e-^em huma fahida ^ 
que ficou mal ferido yilh'CBiuccedeo feu pri- 
mo com irmáo Luiz Machado Boto , que 
fempre nefte cerco fe aprefentou dos dian^ 
teiros , e pelejou muito esforzadamente: 
foi alli tambem abrazado , e morto o Sar- 

fjento mor Manoel Rapofo , author daquel- 
e cruel damno : os qye. foram queimados ^ 
e efcapáram , sao Manoel Botelno , Gafpar 
Velho 5 Fernáo Telles de Menezcs , que 
depois foi Governador da India , e Preít* 
dente do Tribunal da India , o qual fahia 
abrazado por muitas partes , principaknen* 
té nas^naáos , de que. fenipre irouxe os ii^ 
Aa ii' naes. 



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^yi ASIA DE DioGo DE Coirfo 

naes', e nao fó recebeo efté damno y más 
tambem ,fobre elle tres cnieis fréchada$« 
Alexandre de Souia tambem ficou queima^ 
do y mas háo de maneira que deixaíTe de 
ficar na fuá tranqueira, Francifco de Mello 
de Sampavo, Francifco de Sá de Menezes 
Solufmundi ^ Agoftinho Nunes , e outros 
Fidalgos. 

PaíTado o terremoto ^ e lavareda , en- 
tráram na cafa , em que o eftrago , e dcf- 
aventura fuccedeo , Gomes Eanes de Fi- 

fueiredo , Francifco de Sá de Menezes, 
rancifco Pimentel , e outros oue recolhé^ 
ram muitas armas por nao ncarem aos 
JMbouros , e mandáram tirar os corpos de 
alguns já torrados , que nao. pudéram co- 
nhecer , e Francifco ae Sá ouvio huma voz 
já canfada chamar Mpor elle ; e acudindo 
onde Ihe foou , achou lium foldado enter- 
rado entre as armafóes da cafa , e a cau- 
ca, ao qual.defenterrou, etirou pera fóra; 
finalmente as caías fícáram em poder dos 
Mouros, ñas quaes logo arvoráram multas 
bandeirás , e guióes, e toda aquella noite 
feftejáram a vitoria. 

' Caufou eñe laftimofo efpedaculo gran- 
des invejas aos mais Capitáes Mouros ^ que 
eftavam pelas mais eftancias; e tocado del- 
k, determinou Xiniricao de combater o ba- 
luarte da Cruz 9 que eftava já mtiito damni-f 



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Decada VIII. Cap. XXXVIi. 3.75 

fícado 5 e desbaratadp de huma hatería , 
que íhe haviam dado , que fe Ihe nao viam 
ntais Gue humas pequeñas paredes. Vigiar 
vam eíte baluarte aos quartosIFernía Tel- 
les y Fernáo Pereira , Henrique de Betan- 
cor 5 por ferem os vizinhos de mais perto : 
•fuccedeo no quarto de Fernáo Pereira, eí-- 
•tando com a gente abatida , vcrem.alguns 
dos noíTos tomarem os Mouros .bandeir<]$ 
ñas máos , e acclamando por armas ; quan^f 
<io os noflbs acudíram , ia os Mouros efta- 
vam em fima dos oitulnos , e trés^delles 
da banda de dentro,. que tao de fupito os 
commettéram ; e remettendo os noíTos coni 
elles , matáram logo os. tres que eftavam 
dentro , e com os dos valos traváram huma 
afpera batalha. Domingos do.AlamQ, que 
eíbva na fuá cama, abrazado da íñina , ou- 
vindo a revolta , mandóu-fe levar aos en-r 
tulhos , e fentado em huma cadeira com 
huma alabarda ñas máois , pelejou yalero- 
famente ; o Capitao mor acudió logo allí ^ 
e' mandou os leus de foccorro , ' Jogp 0$ 
inimigos foram lanigados fora , e: b>em -efcar 
lavrados, e Domingos Cabral tomou huma 
bandeira da máo a hum Mouro: d^fta feir 
ta ficáram mortos mais de cento e fincoen- 
ta dos. Mouros, e algims alvos de cabello 
louro .com arrecadas ñas orelhas , que des- 
jriam.die fcr da noffa, Europa* • 



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374 ASIA DE Diodo. 0e Cov !r9 

¿API TUL O xxxvn. 

Em (jui fe tomm a contiuMor cam a guer^ 
ra ae Gaa^ e o que as uoffos nelia 
fizeram. 

DEuccmos agora por hum pouco aguer* 
ra de Chaul , e ramos-nos a Goa , on- 
de tambem paíTáram cafos notayeis , por 
insids ahornando humas couías com outras. 
Nao procediam as couías da guerra dapar^ 
te dos Mouros com a fdlicidadé que elles 
cuidavam , porque cada dia fe viam aíTalr- 
tados dos noflbs^ onde menps fe temiam> 
ficando fnnpfe efcalarradbs , nao fó dentro 
em fuas eftancias , mas aínda por fóra do 
rio da fuá coíta , como foi D.Fernando de 
VafcoACelios em Dabui, como fíca dito; e 
agora Jorge Cabral , a quem o Vifo-Rey 
mandou com quatro ñiftas dar no rio Cha« 
para dufts legras de Goa , onde defembar* 
cOtt coQ> íindoenta foidados, e queimáram 
quatro aldeas , e mais de trinta navios de 
carga , e- multas embarcacóes miudas , que 
tí láúc&o allí tinha mandado ajuntar pera 
liélla^ paflar a gente á Uha de Goa , tra* 
«eñdó Jorge Cabral d^a feita muito gado. 
D. Pamo dé Lima , que eftava em Ra^ 
chol , no mefmo tempo fez outras caralga* 
das y entrando pelas aldeas do&inimigosj 

em 



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©EcÁbA Vffl. Cap, XX3CVIL 375: 

eih.que mátoü i e catiVou^ müiix)s deltesv 

-nao a feu falvo, porque durando a ^lerrat^ 

recebco por vexcs fincó feíidas, re de md»» 

do fe fez temido dellfís^ qoe todos. fugiam 

de o ehcontrareía. ! ^" M 

O Vifo-;Rey nao repopfava hasn ta» 

tnento , nem le fatisfazia de nada\, fe^mo 

yiffe tudo com jos íbüs olho¿, enao'approí- 

^aíTe com foas máos ,' porque >em nada fe 

-fiava da índuftria, ¡e diligencia de ^ o* 

tf eiti '^ nem daá injforttiajóefií qae fe Ihe 

tlavam , diandd ^por maiof r^záo que tíí^ 

tera jutto que Ihe |>ediffe ElRey- conta- áú 

Eftado da India , e de qualquet pérda que 

por fuá omifsíáó fuccedeíTe', e que fe en- 

carregaíTe efte < cuidado a quem' nao tlnh'it 

obrigajao de dar corttadelle ; e alfim ñas 

vilirafóesqüé^faíia' pelos paffos, Ihis acó»- 

tecérání fuccéíTos^ e cafos milagroiíb^^ dok 

quaes darei conta de alguns mais dignois 

de fe fazcr deiles tnénjáo. Eftando o Vifó^ 

Rey no paíTo de Bteheftarim vendo ]^aíFá|: 

huma peca grofl'a 'pera huma eíbnciá da 

borda da agua , Vendo que a gente ehegtf- 

va mal ao fervijd por caíifa da artillierlíi 

da eftancia dos Mouros ^ que labor&va a 

iniudó^ 5 - e .vénílo O' receio dos trabalhado^- 

Tes, tómóu hüití Jjíáb •, é fe íriettco entré 

?líes', efpertaiidbí-oí V ^ lanzando fúio dbfe 

"¿ordaá peía éxémptó dos que o .viffem y « 

' ' an- 



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37^ ASIA DE Dioao de C oüto 

dudando defte modo muíto affadigado , Ihe 
deram huma arcabuzada pelo bra^ efquer^ 
do, que paflando-lhe.lmma roupeta de 0>^ 
lonia que trazia , o gíbao y e a camifa , ihe 
ficou o pelouro na manga della , fem Ibe 
fazer damno álgum. 

I Outra vczl andando de noite vifitando 
as eftancias^ Ihe deo hum peicyuro de mol* 
quete do tamanho: de huma nóz pelos peí* 
tos y e Ihe cahio aos p^s ^ deixando-lhe hu?* 
sna nodoa na carn^ ; e mandando-lhe ap 
outro dia:0 Arcebífpo D.Gafpar, que efta? 
va na Madre de Peos ^ húni' azafate de fí« 
^os de Ppmigal , uor iferem temporáos , o 
Vífo-Rey Ihe mandou o pelouro no meimo 
a^fate entre as Tofas ddle , mandando-lhe 
dizer em refpoíld , que^. aqtíeile jardim eni 
-oue €lk:ficava fe nao daya outra; fruta que 
Jlie pudeífe mandar em retorno dos figos ^ 
fenaó aquella ; que Ihe pedia a offereceíf^ 
¿é fuá pápte i Madre de Déos , que tao 
grande mercé Jhe fizera. . 

É porque dos rios do Cañará , e de ouf 
iros corriam alguns mantimentos á formi- 
ga , ordenoú o Vifo-Rey a Belchior Ribei- 
ro, que foi Veador da Fazenda, pera que 
andarle pelos ríos de Gp^^Velha,, ,e paos 
da barra ^ tomando a r^l todos os que por 
clles entraílem , pera ié . recqlherem nos 
arjjiazens., -porque n^o quería que Ihe faí- 

tat- 



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Decaoa VIIL Cap. XXXVII. 377 

taffem , que dalli Jiavia de prever o povo , 
e pera mais abaílanca , defpedio Fernáo 
JR^odrigues de Carvalho pera mrcelor com 
huma calila de navios de niercadores pera 
carregarem de arroz , que tomou em Maio 
com boa copia de mantimentós. 

Táo: efcandalizada fícou a Ráinha de 
.Qlalá da Fortaleza que o Viíb-Rejr D. An^ 
táo fez em feu porto , e da deftruijáo que 
Ule fez em fuá Cidade , que tratou de fé 
fatisfazer o melhor que pudeffe , aínda que 
foíTe com máo alheia i e i^bendo andava 
fóra Catíprocá Marca com huma boa Ar- 
mada , ÚiQ defpedio embarcajóes ligeira^ 
com cartas em que Ihe dizia, que a Forta- 
leza de Mangalor eftava fó íem gente j e 
imperfeita , e por acabar , desbaratada , e 
menos próvida : que fe quizeíTe intentar 
aííaltalla huma noite, que eUa Ihe fe^ravá 

Íomalla muito fácilmente ; e que alem da 
lonra que ganharia de tomar huma Forta- 
leza aos Portuguezes , que ella Ihe fatisfar- 
ría os gaftos , e defpezas que fizeíTe nar 
jornada. Eíle recado tomou a efte Coífairo 
defronte de Baticalá , que vinha de noite 
de fe achar naquelle negocio deChaul que 
já contei Ibe fuccedeo com a noffa Arma-' 
.da, onde foi em favor doNizamoxá, e do 
^fiícceíFo ficou defacreditado com elle, pelo 
^múto que prpmettco , e pdo pouco qub 

fez« 



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378 ASIA DE DioGo de Cóüfa 

fez , e trazia boa copia de prez;^ que féL 
por aquella colla , o qual vendo as contar 
daquella Rainha , e fuas promeíTas , e pa- 
recendo-^lhe que tomando aquella Fortaleza 
fe tornava a acreditar, e fícava emendando 
a deígraja- de Chaul , Ihe refpondeo óue 
fcia em caminho, e que pera tal noite Ihe 
tlvefle algumas efcadas , e cordas, o qué 
ella logo mandou negociar, e dahi a dou6 
dias entrou efte Coüairo pela barra com 
nore navios multo chelos de gente ; e feu- 
do principio do quarto d' alva , puzeram ai 
proas em térra ; e achando já tudb o qué 
mandáram pedir apparelhado , e preñes, en^ 
coftáram as efcadas na janeila do Capitáo ^ 
por onde come^ram a fubir coni grande 
determina^áo. Ifto nao pode fer com tanto 
filencio que os nao fentlíFem atgtins cría^ 
dos do Capitao , que dormiam na fala ; ^ 
nao tendo tempo pera acudir ás armas, 
tete hum delles acordó pera reitietter á 
huma caixa encourada , que fervia da pra^ 
ta- de fervifo do Capitao , e lan jalla' pda 
janeila abaixo fobre os que fubiam pel^ 
cicada , e a elles , e a ella deitou em baixo 
bem efcalavrados. O Capitao ouvindo a 
bulha , e revolta acudió a ella, e'nSo tev^ 
jnais tempo que pera tomar huma efpada , 
e huma rodella ; e fahindo fóra com óitoí, 
ca dez criados que tinha y ^ itmettendo 
c coni 



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DECAbA VIII. CAP. XXXVIt. 379 

'fcdm alguns que tinham fubido por outra 
parte y os foram levando ás cutiladas , até 
os lan^arem do muro abaixo , iicando al-& 
guns mortos , e logo acudíram os noíTci 
a apagar o fogo que elles tinham pofto na 
cubertura do3 temados , que eram de fo-^ 
Ihas de palma, e o apagáram com grande 
trabalho. 

Os Mouros vendo que eram fentidos , 
forani-fe aíFaftando ; e paíTandO por huma! 
povoa^ao que havia ao longo da Fortale^ . 
za , em que viviam alguns cafados > deraní 
neíla , e fizeram todo o damno que pudé-í 
ram ; e ainda fora mais , fe nao fentíram 
gente do Rey de Bangel que os óuvíram 
cm íiía povoayáó; e largando tudo, fe f<íH 
rám recolhendo aos navios , leVando ; a cain 
xa da prata do Capitáo , e hum navio de 
remo , que eftava junto da Fortaleza ; e 
dando ávela, paífáram ao outro día pdrCa- 
nanor muíto embandeírados , é falvando ai 
Fortaleza com toda a artilheria , dando ft- 
entender que hiam com alguma vitorií 
grande ; mas efta gloria ihes durou bem 
pouco 5 porque logo á tarde houveram os 
noífos navios da Armada , que D. Diogo de 
Menezes defpedio diante , vifta delles , ó 
dando a vela , o foram feguindó , e ó pti- 
meiro que chegou a elle foi D. Luiz de 
Menexes, que inveftio hum¿ comqucm té* 

ve 



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:38o ASIA DE DiOGO DE Coüt6 

Te huma boa referta y mas em pouco efpa^ 
(O o axorou. Ignacio de Lima fez o mef- 
mo a outro , de míe dizem viuha por Car* 
pitáo hum Rume ; Mathias de Albuquerque 
velejou mui bem , até chegar á galeota de 
Catiprocá , c ferrando nella , Ihe deo huma 
boa falya de arcabuzaria , e de panellas 
de pólvora ; mas o Mouro , que trazia du- 
zentos homens comíigo , Ihe deo outra de 
que o axorou , e abrazou de fei^ao , que 
o fez aíFaftar pera fóra a apagar o fogo , e 
naquelle mefmo tempo chegou D. Joao de 
Lima , e pondo a proa no Catiprocá, Ihe 
deo fuá furriada ; mas elles o tratou táo 
mal, como o tinha feito a Mathias de Al- 
buquerque , o qual tanto que apagón o fo- 
go , tornou a invertir o mimigo , e teve 
com elle huma batalha até o tornar a.foc- 
correr D.Joáo de Lima , e ambos o axo- 
riram , cahindo o Catiprocá de huma eí^ 
pingardada que Ihe deram : os mais navios 
Maiavares vendo o negocio naquelle efia« 
do deram á vela , e foram-fe acolhendo. 
D. Diogo de Menezes chegou aos nóflbs ; 
e vendo que os Maiavares hiam defappa- 
receudo , ppr comejar a anoitecer , def- 
pedio os navios que fe tomáram aos ini- 
snigos pera Caaanor , em companhia dé 
dous dos iroíTos , cm que embarcou os fe- 
ridx>s ^ e queimados , que eraxn. mais dé 

tria-» 



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Década VIIL Cap. XXXVIl. 3S1 

trínta pera fe curarem , e elle com a maís 
Armada voltou pera Tiracole , porque bem 
cntendeo que os paraos que fe acolhéram , 
haviam de ir demandar aquelle rio , ou de 
Cóulete ; e chegando a dles , que eram peri- 
to hum dó outro , fe deixou eftar ao Ion* 
go da térra i e tanto que amanheceo y víram 
vir do mar os paraos, que com a clarida- 
de do Sol queja' fahia , e com a fombra 
da térra nlo víram os noífos , até que fo- 
ram marrar com dles» Antonio Feroandes 
de Chale , que ficou mais perto , foi de- 
mandar Cutíale Marca , fobrinho do Cati- 
procá 5 e inreftio com elle , o qual tanto 
que vio os noífos navios , com muita ligei- 
reza cortou a drija da vela pera dar com 
ella , e com o maílo , e verga ao mar , 
peía ver fe á forja do remo podía efca- 

£ar , fiando-fe em fuá ligeireza ; mas fa- 
LO-lhe a forte multo contraria ao que ima« 
ginou , porque Ihe cahio a vela dentro no 
navio , e ficáram os Mouros todos embara- 
zados com ella , de feij^o que chefi[áram os 
xiavios' de Martim Aironfo de Mello , que 
foi o primeiro que Ihe poz a proa , e logo 
Antonio Femandes Malavar de Cliale hou* 
ve pouco que fazcr em mctter todos á eí^ 
pada 9 ficando-lhe o Cutíale cativo ^ que 
D.Diogo de Menezes eftimou multo. 
Os mais navios ferráram de outros 

dous 



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jSz ASIA DE DioGo DE Cotrro 

dous paraos ^ que logo aroráram , e os tre9 
le mettéram pelo rio , e alguns dos noflbs 
parios ap6s elles ; e como os Mouros hiam 
com aquella j>reíra, lanyáram-fe a térra, e 
os noíTos tiraram os paraos pera fóra, nao 
«ícapando nenhum deila Armada tilo íb« 
berba : na galeota de Catiprocá nao fe 
acbou ninguem mais que a caixa de prata 
de D. Antonio Pereira , e huma mulher 
mifti^a y e dous meninos , e aifim acháram 
aella.mais hum ^apateiro Gallego , cafado 
«m Dio , que foi cativo no Norte , o qual 
era muito graciofo , e me contóu. que vin- 
do neíta jornada, amarrado ao pe do maf- 
tro da galeota do Catiprocá , quando vira 
a Armada.de D.Diogo, bradára alto, dí- 
zendo : Ah Senhor Catiprocá , faca-fe VoíTa 
Senhoria preftes., que aquelíes navios pa- 
recem dos perros dos Portuguezes ; ao que 
elle Ihe refpondéra, levantando huma cana 
de Bengala, que tinha na máo: Eílas sao 
as armas que eu hei de mifter pera elles , 
e que o capateiro pela boca pequeña Ihe 
dizia , peíouro de onja j e aífiííi luccedeo , 
que foi morto de hum pclouro* Acabado 
we feito, fe foi D. Diego de Menexes re-* 
célhendo com os navios á toa; c pallando 
por Cananor , tomou os outros que lá ef- 
tavam. . 

Com todos os trabalhos que* fe paíFa* 
. . vam 



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Decaiga VIIL Caf- XXXVIL 3«j 

yam na guerra de Goa y nao deixáram al« 
guns foldados de fe efcoar das eftancias, 
e irem á Cidade a fuas travefluras , como 
te fempre natural na foldadefca , no que 
Q Vifo-Rey fempre troilxe fuas intelligenr 
^ias y fem. o poder remediar., pelo que Ihc 
foi neceíTjario ufar de fuas eftratagemas , 
porque tefta^ ás vezes aproveitam mais 

?[ue as armas ; e o modo que ñiílo tere 
ói efte. Mandou lanzar bandos com pena 
de morte,,que nenhum foldado foífe a Cif 
diade fem fuá íicenja ; e que a quem ella 
a déífe , le apontafle na volta que fizefle 
com Belchior Boto* , pera ver fe tornara 
dentro do tempo , que fe Ihc concedía; e 
pera os mais atemorizar , mandou por 
peílbas ajuramentudas enforcar nos paífot 
de Beneftarim , e S. Braz alguns Mouros 
muito alvos dos que eftavam cativos , e 
mandou fazer as alvas hum pouco curtas'^ 
pera que fe Ihes enxergaífem os pés, epar-» 
te das penias , pera par ecerem na alvura 
dellas Portuguezes ; e os pregóes , quando 
os enforcáram ^ diziam , que era porqué 
foram á Cidade fem fuá iicenca ; e com 
efta induílria ceíTou a devaffidao dos fol* 
dados , porque o temor da morte os én- 
freava. > . 

. Eftava o Vifo-R^ey apofentado , como 
jidííTe^ na Sacri^a deSant-Iago^ e coma 



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384 A S I A DK DiOGO DE CoüTo 

todos os días fe continuáram as baterías ^ 
e o baluarte dos dous o dianteiro do pa£« 
fo eftava já arrazado , ficáram os Mouro9 
defcubrindo por huma ilharga do que íicou 
em pé parte da Igreja , a qual batérara 
multo a miudo. Succedeo hum día dar hum 
pelouro pelo telhado da Igreja , que deo 
cota parte delle em balxo : eímndo o Viíbr 
Rey efcrevendo no corpo da Igreja, epar-» 
te da arma^áo , e telhas , cahíram fobre eji-* 
le , fem Ihe fazerem mals damno , que ¿f* 
calavrallo das máos. Manoel de §ouía Cou*^ 
tinho , que eftava alH perto , yendo a ar- 
mafáo , lanjou-fe fobre o Vifo-Rey, pera 
tomar o golpe fobre íi , do que o Vifo-Rey 
fe moftrou efcandaíizado , e tambem abran- 
geo a Manoel de Soufa Coutinho parte do 
damno. 

No mefmo tempo foi o Vifo-Rejr a vi- 
fado de como o Idalcáo andará multo trif* 
te , e melancolizado de ver que aquella 
guerra procedía multo differente do que 
imaginou , e que folgaria de hav^ occaíiáo 
de íe tratar de pazes , com tanto que fof- 
fe com honra lúa ; e como de ambas as 
partes havia íguaes defejos por eftarem os 
Ibldados enfadados da gueiTa y e can fados 
della , fuccedeo que eftando os nolfos á^ 
falla com os Mouros , como fempre fa- 
0iam , de humas eitancias ás outras ^ tambem , 

fe 



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DECAbA VIII. Cap. XXXVIL 38^ 

fe apalpáram , e vieram á fallar fobre eíle 
negocio ; e dando^fe conta ao Vifo-Rey 
deltas praticas^ teve confelho fobre o que 
faria fobre elle negocio ^ e aífeñtpu que fe 
mandaffe huma peíToa de refpeito a viíitar 
Mojatecáo, com quem o Vifo-Rey fe car- 
teava , a ver o que achava nelle. Éfte elei- 
to foi D- Jorge Éaroche ^ e com elle Dio- 
go Barradas , que chegáram á outra ban- 
da; e fabendo-o Mojatecáo, defceo á bor» 
da do rio a fallar com elles , e ñas prati- 
cas que tiveram, tratáram da materia fobre 
que hiam!> de que Mojatecáo foi logo dar 
conta ao ídalxá , que mandou que correíFe 
com aquelle negocio Noricliáo ^ e era ifto 
no fim de Fevereiro ; e tratanda*fe no cafo , 
corréram recados de huma, e outra parte, 
aflim pera ElRey , como pera o Vifo-Rey ; 
e no fim veio o Noricháo a apontar par- 
tidos táo defaccommodados 5 que fe nao po- 
diam ouvir , e com tudo o Vilb-Rey dilü- 
mulou , e foi entreteiido o negocio com 
efperanfas pera dous eíFeitos : pera ver fe 
em tanto chegava D. Diogo de Menezes 
com a fuá Armada do Maiavar , e Luiz de 
Mello de Malaca ; e outro pera em quanto 
lá andavam os noífos , terem tempo de no- 
tarem as eftancias dos Mouros , e elle em 
Goa fe fortificar á fuá vontade ; e nao fei 
feouvi dizer que o mefmo Vifo-Rey paA 
Couto. Tom.F.P.L Bb fá- 



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386 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

fára defconhecido á outra banda em corri- 
panhia dos que Iiiam com recados , poraue 
defejava de ver tudo com os olhos. Neltas 
demoras chegou D. Diogo de Menezes a 
Goa com a Armada de Catiprocá á toa, o 
qual foi muitó feftejado do Vifo-Rey , e 
logo o encarregou de Capitáo mor dos 
rios , e defobrigou a D. Jorge , porque 
tambem havia de ir entrar na Capitanía de 
Chaul ; e o Mouro Cutíale , D. Diogo de 
Menezes o mandou metter na galé, onde 
|)orfeus peccados diíTe, que fe atrevía com 
quatro navios a tomar huma galé ; o que 
tebendo o Vifo-Rey , Ihe mandou dar pe- 
jonha , de que morreo. 

D. Diogo tomou a fuá eftancía defronte 
da Uha de Joáo Lopes , donde coftumava 
ir correr os paíFos ; e defejando reconhecer 
huma eftancía de Rumecáo , onde o Vi- 
fo-Rejr defejava dar , indo huma manhá 
aíFentado em Jiuma cadeira defronte da- 
quella eftancía , fe deteve a vella devagar , 
eftando chovendo fobre elle nuvens de ba- 
las de efpingardaría , que eftava na eftan- 
cía , que o nao inquíetavam ; e levantan- 
do-íé pera notar bem o que quería , ficou 
em pé , e por entre as pernas Ihe deo hu- 
ma bala de artílheria ; e tomando-Ihe o 
peloüro bem por dentro de huma coia , 
chegado ao ceflb, foi paífando, erompen- 

dor 



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Década VIIL Cap. XXXVII. 387 

db-lhe a carne , e ainda Ihe ficou huma boa 
chaga ; e vindo-fe recolhendo , acudió o 
Viío-Rey ao defembarcar j e dando4he a 
máo ao fallir da manchua , Ihe perguntott 
que rinha : ao que D* Diogo muito riionho^ 

})ondo a máo por baixo dos tefticulps^ re* 
pondeo : Ainaa os tenho saos ; e levando-0 
o Vifo-Rey á ftia tenda , aflíftio á fuá cii** 
ra , e encommendou a Armada a Manoel 
DiasPicoto, emquanto D» Diogo nao faral* 
fe ; e foi grande mercé de Déos o que Ihe 
fuccedeo y de fe levantar naquelle tempo^ 
em que fe difparou a bombarda ; porque 
fe'eííívera aífentado como hia, tomava-o o 
peiouro pelos peitos ^ e fazia-K> em peda- 
eos. As novas defta bomBardada, que de- 
ram a D* Diogo , corréram pelo exercitd 
dos Mouros; porém nao com voz de que 
fe déra a D. Diogo, fenáo ao Vifo-Rey, e 
que eftava muito mal , pelo que houve eilH 
tre todos grandes regozijos , 'porque ti- 
nham certo que fe morreíTe o Vifo-Rey, 
haveria pouco trabalho em tomarem Goa. 
Nefte mefmo tempo tiveram os Capi- 
tSes do Idalxá occaíiao com que^ paífáram 
tres mil homens á Uha de Joao Lopes em 
almadias , ceftóes , e outras coufas ; e eftan- 
do no mefmo tempo alli perto fete navio» 
noífos , de que eram Capitáes Mathias def 
Albüquerque y D* Luiz de Menezes ¿ Igna^ 

Bb ii cia 



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388 A S I A DE DioGo DE Covro 

cío de Lima , Martim AfFonfo de Lima ^ 
Apollinario de Val de Rama , Pedro Ro- 
drigues Malavar , e Antonio Fernandes 
Chalé , logo acudíram ao paflb , e com* 
jnettéram a Ilha pera lanjarem os inimigos 
fóra , e o primeiro que defembarcou foi 
Antonio Fernandes Chalé ; e porque no 
commetter dos Mouros houve alguns re- 
ceios nos noíTos , adiantou-fe de todos 
Duarte Pereira de Sampayo , Capitao do 

f^aíTo Secco ; e chamando o Apollólo Sant- 
ago, remetteo cornos Mouros ; oque ven* 
do os mais o fcguíram todos : e com fer 
o numero táo deíigual , como cento e fin- 
coenta pera mil e quinhentps Mouros , que 
eram os que tinham palTado á Ilha , aper- 
táram os noíTos tanto com elles que os 
desbaratáram , e fizeram fugir , langando-fe 
todos ao mar, onde muiros fe aíFogáram> 
e outros perecéram na Ilha á efpada. 

Mas todas eílas boas fortunas , e vltorias 
que os noíTos alcanjáram, fe tornárara em 
pezar , e trifteza pelo cafo defaftrado que 
aconteceo a D.Fernando de Vafconcellos , 
que foi defta maneira. Eftava efte Fidalgo 
na fuá galé defronte de huma ellancia dos 
Mouros , em que pareceo podia dar , e fa- 
zer algum bom feito , tendo em fuá com- 
panhia outra galé , e mais duas fullas y a 
cujos Capitáes . pareceo bem feu penfamen-* 

to: 



'9 



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L 



Decada VIIL Cap. XXXVII, 389 

to ; e aflim em huma madrugada defembar^ 
cáram naquella parte, e commettéram a es- 
tancia dos Mouros com tanta determina* 
jáo 5 que logo foi entrada , e ganhada com 
morte de muitos ; mas quiz a defaventura 
que com o gofto defta vitoría fe defman- 
daíTem aiguns Toldados em feguimento de 
alguns Mouros , que Ihes foram fugindo ; 

3iie tornando a voltar com outros , que 
íes vieram de foccorro , e dando nos nof- 
los , os cercáram , e matáram , e os defpí- 
ram , e Ihes cortáram as caberas , que le-, 
váram ao Idalxá com algumas bandeiras, 
que tomáram j e vindo com aquella furia 
á fuá eftancia , déram com D- Fernando, 
que hia recolher os feus , e o commettéram 
novamente , e com os poneos que levava , 
fe defendeo valerofamente , até que com o 
pezo dos inimigos , que cada vez carrega- 
vam mais , foram todos mortos , e Ihes fi- 
zeram o mefmo ' que aos outros nos vefti- 
dos , e caberas ; e acudindo á praia com 
aquella furia , tomáram a fufta em que D. 
Fernando delembarcou, e a batería dagalé 
por ficarem em fecco. Ellas novas chegá- 
ram ao Vifo-Rey , que as fentio muito , e 
logo mandou D. Jorge Baroche, pera que 
foííe á artilheria , e recolher o corpo de 
D. Fernando , dando-lhe alcumas Compa* 
nhias de foldados , o que elle fez^ e por, 

a- 



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390 ASIA D£ DiÓGO DE CouTo 

achar , a fiiíla varada em tena , a queimoit 
por fe nao aproveitarem os inimigos della ^ 
e Ihe mandou tirar , e recolher os corpos 
jnortos fem cabecas y fem poder conhecer 
entre elles o de u. Femando , por eftarem 
nüs ; e coin aquella trífte preza defembar^ 
cou em Beneñarim , onde foram recebidos 
com muita mágoa de todos y e o Víib-Key 
os mandou amortalhar , e enterrar todos 
juntos em huma coya fem fe poder nunca 
conhecei^ o corpo de D. Femando. Foi efte 
Fidalgo filho deD.Luiz Feraandes deVaf- 
conceUos , e neto de D. Femando Arcebif- 

Ío de Lisboa , irmao do Conde de Penel* 
i y e foi filho de D. Branca de Vilhena , 
irmá de Diogo Lopes de Siqueira, Almo* 
tecel mor do Reino , nem dellé , nem de 
feu pai ficou no mimdo pofterídade , e am« 
bos pai , e filho morréram pela honra de 
Déos , e pela defensáo , e férvido do Kej 
feu^pái no anno de feflenta e hum , indo 
pior Govemador do Brazil , ás máos de In- 
glezes Hereges , e feu filho pelejando aqui 
como vimos. Foi efte Fidalgo mui bem 
difpofto , e gentil-homem , muito deftro 
ñas armas , mnito refoado fundidor, e ar« 
tilheiro , e tinha outras honradas , e boas 
partes , as quaes todas efmaltou com a 
honrada morte que aqui Ihe deram , pele- 
jando pela honra de Déos , c pelo fenrijo 

de 



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Decada Vin. Cap. XXXVII. 391 

de feu Rey , e podemos piedoíamente cui- 
dar que eftará gozando na gloria o prejQiio 
della. 

Foram fempre grandes as intelligencias , 
que o Vifo-Rey trouxe no exercito do Idal* 
xá , nao fó com Capitaes , e alguns arrene- 
gados Portuguezes , mas aínda comhum tío 
da principal mulher do Idalxá , á qual man- 
davá alguns prefentes por fuá via , pela 
qual foube fegredos de muita importancia; 
c hum dos.arrenecados efcrevia ao Vifo^ 
Rey tudo o que le lá paíTava com huma 
penna de chumbo , e as cartas Ihe manda- 
va dentro em pelouros de cera , e della» 
foube como o Idalxá tinha tratos com al- 
gumas peíToas de Goa,, allím pera deitarem 
pefonha na agua de Bengari , como pera 
darem fogo á cafa da pólvora , o que en- 
tre os Mouros andava táo roto , que ñas 
praticas que tinham com os dos noíTos 
navios , entre as palavras que Ihes diziam , 
era , que fe deixaífem eftar , que a pólvora 
fe acabaría de todo , e que entáo entra- 
riam a Ilha j e ccmbo o Vifo-Rey com as 
mefmas trabas y e induítrías que os iniml- 
gos bufcavam pera o deftruir , Ihes queria 
fazer guerra , Ihes mandou por via de hum 
arrenegado lanjar pejonha no tanque , de 
que bebiam , com que Ihes fez bem grande 
damno , e coin peitas , e dadivas induzio 

al- 



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39^ ASIA DE DiOGO DE CouTo 

alguns a que Ihes lan^aíTem fogo á pólvo- 
ra , o que nao pudéram fazer pelo grande 
relguardo , e vigilancia que nella havia ; e 
porque tudo o que fazia , logo fe fabia en- 
tre os Mouros , mandou encher com mul- 
to fegredo muitas pipas de aréa por peíToas. 
de quem fe fiou , e depois as manaou le- 
var , e repartir pelos Mofteiros , os quaes 
leváram muitos Cafres, a quem chamam 
Pingos , que sao como os manólas , aos 
quaes qu^ndo Ihas entregavam , Ihes diziam 
que vieífeni como as levavam , e riveíTem 
reíguardo nellas , porque era pólvora pera 
matar Mouro , tao entoados, e compaíFa- 
dos , que era muito pera fe ouvir ; e fup- 

f)ofto que diga que tudo o que eftes Cafres 
evam he cantando , fó quando acarretam 
as pipas de vinho que vem do Reino as le- 
va m com grandes muficas , e feftas , e os 
Religiofos, a quem fe entregavam as pipas 
as punham a muito bom recado ; e man- 
dando tirar grandes inquirijóes fobre os 
que fe cartea vam com oldalxá pera darem 
fogo á cafa da pólvora , em que acháram 
alguns culpados , e os de maior culpa man- 
dou enforcar , e outros metteo ñas gales j 
c divulgando-fe fuas culpas nos pregóes,. 
deo tamanho medo na gente em geral, 
que andavam todos como pafmados , e al- 
gumas peífoas fe palíáram da Gd^de pera^ 

al' . 



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Decada VIIL Cap. XXXVII. 393 

algumas fazendas , e cafas do campo ; e 
todavía ou foíTe certo o cafo da pólvora y 
ou nao , encarregou o Vifo-Rey a guarda 
da cafa della aos Religiofos , que faziam 
iiías fentínellas aos quartos com grande 
cuidado. 

Tanto que os Capitáes de Qiaul det 
pejáram a Igreja de S. Francifco , e fe per- 
déram as cafas de Luiz Xira Lobo , em 

?ue íiiccedeo aquella defaven tura , e como 
lizamoxá ficava com a cafa de S. Frahcif» 
co mais fenhor da Cidade , houve multas 
defaventuras , e defconfianjas de fe Uie 
poderem defender , porque bem fabiam 

Í[ue as baterías dalli por diante haviam de 
er muito mais perigofas , e continuadas , 
porque as noífas tranqueiras tinham até 
acuelle tempo as cafas que fe perdéram 
diante, que recebiam a maior furia da ba- 
tería, que dalli em diante fehavia toda de 
empregar naquelles fracos entullios , que 
nao fabiam le poderiam refiftir , e aturar 
tanta continua9ao de balas ; pelo que pu-^ 
zeram em confelho recolherem a artillie- 
ría á Fortaleza velha , e fortificarem-fe de 
modo que fe reduzilTem as eftancias a mais 
pequeña forma pera ficarem mais defenfa-r 
veis , e que fe mandaífe a Goa Ruy Gonr 

glves da Camera , pera informar ao Vifo- 
ey daquellas coufas , por Ihes parecer 

que ' 



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394 ASIA DE DioGo de Coirro 

que com a autkoridade de hum Fidalgo 
rao honrado, cvendo-o abrazado demaos, 
e rofto y que parecía hum alanre , porque 
nao pelejou em todas as partes , que fe 
achou y fenáo como Elefante bravo , efta* 
vam certos foccorrellos o Vifo-Rey com 
maior cabedal , do que até entao o tinha 
feito ; e pedindo os Capitáes a Ruy Con- 
nives , que por remedio daquella Qdade 
quizeíFe aceitar aquella jomada y pois efta- 
va inhabilitado das maos pera poder pe- 
Jejar 3 elle aínda que bem contra fuá von* 
tade aceitón a jornada, pois. os nao podía 
ajudar a defender , dizendo-Ihes , que ef- 
perava em Déos de tornar muito cedo a 
acompanhallos naquelles trabalhos em que 
os deixava , e logo fe embarcou em hum 
navio pequeño , no qual em breves días 
chegou a Goa , e fe foi ver com o Vifo- 
Rey , que o recebeo com mmtas honras , 
e o agazalhou na fuá propria camera , que 
era a bacriftia de Sant-Iago , como diíTe , e 
delle foube muito particularmente o efta- 
do de Chaul ; e depois dé praticar fó cbm 
elle todas as coufas , de que quiz fer infor- 
mado , juntou os Capitáes a confelho , e 
nelle o tornou a ouvir , e pedio a todos 
que fobre fuá propoíícáo votaflem fe feria 
licito largar-fe Chaul , ou defender-fe , e 
que todos liie deíTem feus pareceres por 

.ef- 



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Decada VIH. Cap. XXXVII. 395: 

icfcrito , pera o que IJies dava de efpajo 
até o outro dia pera melhor o poderem 
difcurfar , e difpór. 

Nillo quiz o Vifo-Rey ufar de feu cof* 
turnado artificio ; porque como tinha em 
feu penfamento defender CJiaul contra to- 
dos os pareceres que houvefle , quiz ver 
o em que todos ellavam , pera alfim ga- 
nhar mais honra com ElRey , e mais fama 
com os homens. 

Ao outro dia fe tornáram ajuntar os 
Capides em confeliio , trazendo todos feus 
pareceres por efcrito ; e tendo-os o Viío- 
Rey todos juntos , Ihes tornou a repetir 
as mefmas propofijóes , dizendo-lhes , que 
bem viam o eftado em que eítavam as 
coufas da guerra de Goa , e Chaul pela 
relajao de hum Fidalgo táo authorizado, 
como Ruy Gonjaives da Camera , que bem' 
tinha á fuá cuíla experimentado as daquei- 
la guerra , e que confideraíTem pelo que 
viam os trabalhos da em que eftavam ; e 
alfim Ihes propoz mais o que fe praticou 
em Chaul íobre fe recolher a artilheria , e 
reduzir-fe a cerca dos vallos a muito me* 
nos forma ; pelo que pedia a todos quo 
além dos pareceres que por efcrito tra- 
ziam , tornaíTem a cuidar naquellas coufas , 
pera que fe pudeíTem retrasar do que ti- 
ikfaam deliberado y em cafo que Ihes aífim 

pa- 



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39^ ASIA D£ DiOGO DE COÜTO 

pareceíTe mais conveniente , e acertado , 
ajuftando-fe em tudo com o fervico de 
Déos , e de ElRey , e com' o que mais 
convinha á reputa^ao do Eftado , porque 
aquellas coufas eram de grande coníidera* 
yao ; e pera o poderem wzer com o acer- 
tó que defejavam , Ihes dava outro dia de 
efpaco. £ com ifto fe tornáram todos a 
recomen 

Eílava em Goa o Padre Braz Dias , 
Deáo da Sé de Goa , peíToa grave , e de 
authoridade , que muitos annos eftivera por 
Vigario em CJiaul. Era efte Padre irmáo 
do Doutor Pedro Fernandes , ConfeíTor da 
Rainha D.Catharina , peflba muito conhe- 
cida por fangue , e por letras. Efte Padre 
vendo as praticas que fe movéram fobre fe 
largar Chaul , eícreveo ao Vifo-Rey huma 
carta do theor feguinte: 

» Pareceo-me obriga^áo fazer a Volfa 
)i Scnhoria algumas lembran^as fobre a 
» materia de que fe trata de fe Jiaver de 

> largar Chaul y cujos fundamentos eu ain« 

> da nao fei ; mas porque tenho noticia 
)» de quanto damno poderá fobrevir ao Ef- 
)i tado da India, fe tal fe fizer, o que nao 
)» cuido , quiz advertir , e reprefentar a 

> Voífa Sennoria os inconvenientes que nif- 
» fo ha. Eu , Senhor , fui muitos annos Vi- 
]» gai'io de Chaul ^ e fei daquella térra me- 

» Uior 



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Decada VIH. Cap. XXXVIL 397 

» Ihor que muitos, etáo bem como todos: 
» tenho muitos annos da India , e multo 

> largas experiencias das coufas della ; pelo 
» que affirmo que fe fe largar Chaul , que 
)i logo a India fe perde , e VoíTa Senhoria 
» muito melhor o entende ; que largando-fe 
)í Chaul , o que nao cuido , nem Déos per- 
)i mitta , que logo Nizamoxá , que o tem de 
» cerco, vai fobre Bacaim comtoda liiapo- 
)» tencia , e paila á líha de Salfete , de que 
» nao ha dúyida fazer-fe fenhof , no que 
)i nao fó tira ao Eílado mais «d^ ^i^co mil 
}» cruzados de renda , e os yaíFallos mais 
5> de quinhentos mil , mas ficará accrefcen- 
» tando ifto a fuas rendas , com que poderá 
)i formar dobrados exerci tos ; eainda fepó- 
» de recear , que vendo-fe fenhor de fea- 
» jaim , e fuas térras , o que Déos nao 
» queira , que ajunte por ellas mais de tre- 

> zentas embarcares grandes , e peque- 
)» ñas , ñas quaes le embarque naquelle fer- 
31 mofo rio de Bombaim , 6 em quatro dias 
)i entrar oela barra de Murmugao dentro , 

> e que lance trinta mil homens na praia 
» de Goa Velha ; e eftando o Idalxá no» 

> paffos , que haveis , Senhor , de fazer ? Eu 

> nao vejo outro remedio á India fenáo 
31 perder-fe tudo ; e fe o ha , he fó , Se- 
31 nhor , defenderdes Chaul , mandar-lhe 
n gente, e munijóes, e ordém pera fefor- 

ti- 



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39? ASIA DE DiOGO DE COUTO 

» tificarem em menor forma , porque en* 
» táo nao fará acuelle inímigo mais que 
» confumir feus thefouros , muni^óes , e 
% gente aue cada día os noíTos Ihe ma^o ^ 
» e a peíte , e enfermidades que fe feguem 

> da guerra tem já em parte desbaítado , o 
)i que tudo ha de quebrantar o Nizamoxá , 

> de modo que nao ha de poder aturar o 
^ cerco mais que todo o invernó , que coni 
» as grandes chuvas háo de ficar todos 
» inhabilitados pera poderem pelejar : e 
» nao imagine VoíTa Senhoria que digo 
» ifto por ter fazenda em Chaul , porque 
» as cafas da Madre de Déos nao sao mi- 

> nhas 5 que sao dos Mouros, e as da Sé 
)» eftáo no chao das continuas baterías que 
» os Mouros Ihes tem dado ; mas digo-o 
)» pela honra de Déos noíTo Senhor , e de 
» feus fantos Templos , e pela de noflb 
31 Rey , e por crédito de noíFa nácáo tao 
)i levantada , e temida no mundo, que fi- 
» cara a mais acanhada , e vituperada delle , 
3» fazendo-fe o contrario, m 

O Vifo-Rey eíHniou muito efta carta 
por fer conforme a feu intento , e a guar- 
dón muito bem ; e vindo os do Confelho 
praticar fobre O' cafo das propoíífóes, de- 
ram os Capitaes feus pareceres por efcri- 
to , e os mais delles deram feu parecer 
cm que parecía acertado largarem Chaul ^ 

por- 



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Decada VIII. Cap. XXXVIL 399 

porque menos mal era largarem , e pen- 
aerem lium membro , que a cabera do 
Imperio Oriental , que era Goa, que efta- 
va no meímo rifco , e trabalho , que fe iíTo 
nao fora, eftavam todos obrígados a ir de- 
fender Chaul ; porém que bem viam o elr 
tado em que eftavam , e o groflb poder 
que os maiores dous Reys do Oriente ti* 
nJiam fobre aquella Ilha em circuito , com 
paíTos táo abortos ', que alguns fe podiam 
paíFar a váo ; e que fuccedendo algum defaf- 
tre, o que Déos nao permittiíTe, fe perdia 
toda India , o que nao feria largando-fe 
Chaul , e que feria coirveniente recolher-fe 
a gente , e artilheria a Goa> daquella Ci- 
dade , e que depois daquelles trabalhos 
paíTados haveria remedio pera fe tornar a 
cobrar a Cidade de Chaul. E fobre ifto de- 
ram outras multas razóes , que deixo de re- 
ferir , porque nao foíFre tanto a brevidade 
com que vamos refumindo as coufas neftc 
Epilogo. 

Alguns que votáram haver-fe de defen- 
der Chaul , deram outras razócs em con- 
trario , e muito urgentes pera fe haver de 
fuftentar Chaul , fenao quando Fernáo de 
Soufa Caftello-branco fe levantou , e votou 
muito largo fobre aquella materia , accref- 
centando que oque dizia nao era poreftar 
^m Goa fóra dos penigos daquella Gdade ^ 

por- 



\ 



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400 ASIA DE DioGo í)E Coxrro 

porque eftava elle muito preftes pera fe ir 
metter nella, emcafo que os Capitáes alar* 
^aíTem y o que nao prefumia delles : e que 
elle fe obrigaria a defender aquella Cidade 
com mil homens á fuá cuita , e que pera 
iíTo daría em refens fuá peíToa, e mulner^ 
e hum fó filho que tinha , com oitenta mil 
cruzados de fazenda , que com tudo fe 
iria logo metter em Chaul em penhor de 
fuá palavra , e que fe mais prendas tivera , 
mais dera ; e íobre o modo como fe ha-* 
viam de defender os da Cdade , votoa 
muito largo. 

D.Jorge de Menezes Baroche , que efta* 
va defpachado com aquella Fortaleza , de 
que fe dava por aggravado por feus fervi- 
:os ferem dignos de maior mercé , de que 
e tinha queixado a ElRey , e dito por 
multas vezes ao Vifo-Rey , e aos Prdados 
que nao havia de fervir naquella Fortale- 
za , vendo-a agora andar como em almoe- 
da , huns larga , outros nao larga, fe le- 
vántou em meio de todos os do Confelho , 
e votou largo fobre fe haver de fuftentar 
Chaul , alfim por fervijo de ElRey , como 
por crédito do Eftado , e tambem por fef 
aífim neceílario á defensáo daquella Uha, 
fobre aqual tinham hum táo grolTo poder; 
porque em quanto os Mouros viífem eftar 
aqudla Cidade em pé , haviam de viver 

em 



i 



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tfecADA VIIL Cap. XXXVII. 40Í 

.^m continuos receios ; porqué fe fuccedef- 
fe mal ao Nizaitidxá ^ nao Ihes podía fue- 
Ceder bem á élles ; e concluio coiri dizer 
tjue bem fabiám todos cómo elld fe dera 
por aggíavddó de o défpáchaf em por Ca- 
pitáo daquella Fortaleza , quei Ihe vinhá 
muito atrás dé feus hlerecimeiitos • mas 
aue agora ^ que ella éíiavanaquelles traba- 
Inos 5 a tinha peló mélhor y e maisí. avahta- 
jado deftíachó de feus merecinicntós ^ é de 
todo o Orienté : que elle quería ir entran' 
á ferVir iia mer¿é que ElRey Ihé fizera ^ e 
coni grande gofto ; é tirando do peito á 
Patejité 5 a ápprefentóu aó Vifo-Rey ^ pe- 
dindo-lhe o defpachaíTe , poraüe fe quería 
logo embartar 5 o que Uié elle ágradeceo 
líldító dá parte de ElRejr , é Ihé diíFe qué 
fe fizeífé preftés r cóm o qué ceíFáram 
aquellas práticás ^ é o Vifó^ltfey güafdbu 
os efcritbs todos dos que votáfám fe lar- 
gaffe Cliaül pera os mandar a ElRé^^ pe« 
ra 'que a éllé fó ágradecéíTe a defeñsáó dá^ 
quella Cidade. 

Eis-aqui qüaritó pode huni artifició 
ácóítípánnadó de piiidencia , e valor , xjue 
teftdó éfté VifaiRey ténjáo , é firme pro-* 
pofitó dé defender aquella Cidáde ^ póz 
aquelle negocia efíí cónfelho j porque fafeia 
Itiüito befti que haviaiíí tódosí de; votar que 
/ér lárgaífé ,• :po.i' éftár já aVifádo dó cafo 
iCouto. Tdtri. F. P, L Ce í)e- 



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40i A S I A PE DíÓGÓ DE CouT^ ' 

pelas praticas que entre todqs corriam^ 

Í)era Ihe ficar fó a elle a gloria de fuá de^ 
ensáo , iicando todos os que Ihe deram 
por efcrito o contrario vo¡to enyergonha- 
dos 9 bufcando muitos modos pera os tor« 
narem a Jiaver ás máos , o que nao pude- 
ram nunca confeguir , e trabalhárain de 
remediar aquella falta com fe avantajarem 
dalli por diante na guerra , e fe oíferecé- 
ram íempre nos cafos de maior perigo, 
nc» quaes obráram melhor do que vota- 
ram ; no que teriám tambem muito bons 
intentos , e- fegundo as coufas cftaram dit» 
poftas , nao cuido que peccáram em fuas 
tenjóes. 

(^aíi nefte mefmo tempo chegou á 
Goa Vafeo Lourenjo de Barbuda de alcu- 
nha o Carracáo , que acabara de fervir os 
cargos de Capitáo , e Veador da fazenda 
de Cócliim , em que ficava Joáp da Fonfe- 
ca , (jue foi Mantieiro da Rainha, pai do 
Arcebifoo de Goa,. D.Fr. Vicente da Fon- 
feca. Trazia Vafeo Lourenjo hum grande 
foccorro de navios , e gente , que o Vifo- 
Rey eíHmou muito , por fer hum homem de 
muita importancia , affim pera a guerra , co* 
mo pera o confelho ; e o apprefcntou em 
hum paíTo , onde teve muita gente , a 
quem dava de comer ; e andando-lhe moí^ 
trando o muro de Sant-Iago ^ choviam di 

- .^ ' , . , s . , pifo 



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1>ÉCADA VIH. Caí. XXXVÍÍ. 403 

mitra banda efpingardadas , € o Vafcd 
Lourenco Ihe diíTe >poi- militas Vezes que 
fe guardaíTe dalli > que nao hia bem, pois 
'dependía a Gonfcrvajao dacjuelle Eilado de 
fuá peíToa , fem que o Vifo-Rey Ihe ref» 

Í)ondeíre palavra , nem mudar o paíTo ^ e 
eguranja do paíTeio que levava ; e ao fu-» 
bir de huma efcada do müío , fendó as eí» 
pingardadas multas 5 hia Vafeó Loutenjo 
a fuá iiharga hum pouco atfás , toftiou o 
Vifo-Rey' por hum brajO) e adiantañdo-fe , 
fe poz lobre o muro diante delle 5. dizen^ 
do-ihe: Ora tenÚe-voí ^ Senhor ^ aue eufoiá 
mais roncador que vas. O Vifo-Key fefte^ 
jou aquillo.5 e todavía Ihe foi moArando o 
muro ; e era tal o feu artificio 5 que fabiá 
encubrir qualqiier receio 1, e por iíTo difío 
Luiz de Mello da Silva algumas vezes que 
o Vifo-Rey D» Luiz de Ataíde de iñduf» 
tria defmentia o medo , porque d nao ti«^ 
ñha por tanto fem medo como moftfava* 
Outra vez fahío o Vifo-Rey por hum día 
de feña de cafa aó terreíto do Payó pera 
paífar as carreirds ; e como Vafeo Loütenjo 
era hum^ dos grandes homens do Reinó , o 
chamoü o VifoRey pera ¿orrer. coiii elle 
as carreiras ; e cómo era müito alto ^ e hia 
em hum grande cávallo ^ íbbejava muito 
por fima do Vifo-^Rey ; é paíTando a car-i 
xelra-^ foi VafcaLourenp biaudíndó a lan^ 
Ce íi 5a," 



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4^4 ASIA DE DroGo de Coirpff 

^a, que dizem he defcortezia , indo coní 
outro mais honrado; o que vendo o Vifo- 
Rey y Ifee diffe , indo corroído : Nao mefa- 
fais defcortezias ; a que eüe refpondea 
muí apreíTado r Conuf vou com a lanfa na 
mao , nüo conbeqo ninguem ; gaboü^fe-lhe 

Í)or galantería , e ronca , e por eftas^ cou- 
ás o eflimava o Vifo-Rey muko^ 

Pou'cós diasr depoisr cbegou^ Luiz de 
Mello da Silva a Goa coto toda fuá Arma- 
da , cónt qlie alcan^ou aquella graiíde Vi- 
toria do Aciiém , que já contei , com* cuja 
chegada o Vifo-Rey ad^bou de fegurar as 
coufas de aiíibos os cerco? pela muitá gen- 
te que trazia ,. e pela peíioa de' Luiz de 
Meflo , que elle eftimoi» fobre tudo^ Elle 
o ag^zalhou no paja de Sant-^Iago pelo 
ter muito' perto pera fe* valer' delle , e de 
feu confelho. Chegou Luiz de Mello a Goa> 
huma quarta feira feis de M^jo ; ^ pare- 
ce que pera o Idaká o feftcjar , logo a: 
quatorsre do mez mandou paUar fuas gen- 
tes- á Ilhá de Mercantor , cafo* que p'óz ém 
grandes receios' a: muitos, poreíia maneira» 
Eftando neftc dia aViío-Rey na* fuá ef» 
tancia , depois da meia dia , oavio tocar 
o tambor do Idalxá, muíto conhécido de 
todos , o q«al nao íe coftuiitava tocar fenáo" 
quando a peífüía de ElRe^r fe aBakvá pera^ 
grande feito j; e aíltm era, que fabenda eller 
- quq 



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Década VIII. Cap. XXXVIL 405^. 

ique ño paíTo da Ilha Mjercantor , que efta^ 
Ta da terja firme menos de tiro de ber§o^ 
havia menos receio de fe commetter pelo 
que eftava com menos guarda , affentotí 
com feus Capitáes de metter poralli gente 
na Ilha de Goa, e o día aprazado que foi 
efte , mandou lanjar pregSes por todas as 
ieftancias que toda a gente paíIaíTc da outra 
parte , e encommendou aquelle negocio á 
^oleimáo Agá Turco de najáo , Capitao 
de fuá guarda ^ £ a hum cumiado do mc& 
mo Rei y a quem nao foube o nome y e ao. 
paffar da gente, fe foiElRey por no paflb 
onde fe embarcara , pera com iíTo os anx« 
mar j e porque nao navia tantas embarca^ 
jóes pera paüar a gente , pofto que em to- 
das as eüancias da horda da agua tinha 
muitás Almadias , que todas aatdiram 
aquella parte , cm que coroej áram a paffar^ 
levando as armas , e muni^Óes 5 e muitos 
ceftdes , e os cavallos a nadov Os no0bs 
navios, queandavara por aquella püragem^ 
acudíram a defender apaflagem, e á^hcm* 
bardadas mettéram muitos nú fundo» O 
Vifo-Rey íeve logo avifo y e acudió a to^ 
da a preíTa ; é vendo que da Ilha de Joáo 
Rangel fe defcubria a de Mercantor^ man-> 
dou paíTar a elle tres falcáes com que co-f 
mejaram a varejar os Mouros , que eílavam 
«a Ilha já paliados , e foi de íeipo > quo 
-. , os 



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í(bd ASIA DE DiOGÓ DE GOUTO " 

os obrigou a fe ampargirem com hum pt^ 
queno cabeco que allí fax a Ilha , e aíiuir 
com eftes faicoes , como com a artilheria 
dos noffo^ navios, huns de roño, e outros 
pelas ilhargas, os atonnentáram muito, e» 
os que andavam na paíTagem fe tornáram 
pera fuas eftancias. 

Succedeo efte día as quatro horas da 
tarde com enchente da maré fobrevir hii* 
ma torínenta nroito grande com chuveiros ; 
e cerragóes , com que houve tempo , e lu*» 
gar de chegarem os noíTos navios á Uba i 
e lanyarem nella trezentos arcabuzeiros ; e 
cm vafando a maré, que ováo comejou a 
defcubrir , paíTáram tambem muiros dos 
RQÍTos , coula que atemorizou muito aos 
Mouros que.eftavam na Ilha, e como. gen- 
te defanimada nao fe atrevéi'am a defen-» 
der a defembarcajáo aos noíTos , nem fe 
jnovéram do poflo em que eftavam, fendo. 
menos de cem paíTos donde defembárca- 
yam. O .Viíb-Rey mandou Luiz de Mello 
que foíTe por General daquella empreza, 
porque D, Diogo de Menezes , cuja ella 
era , eftava aínda ferido j e a D. Fernando 
de Monroy que acudiíFe áquelle negocio , 
que foram em navios de remo , e acertou 
de chegar D- Fernando primeiro á Ilha y 
onde defembarcou , e chamou a fi todos 
OS noífos que tinham 4efembarcad9 , e emí 

mui- 



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Decada VIH. Cap. XXXVII. 407 

multo boa ordem foram dar nos inimigos ; 
que eftavam apinhoados ao longo do cabe- 
50 que diífe , donde vendo-fe commettidos 
defpedíxam grandes nuvens de bombas de 
fogo , e chuveiros de pedradas ; e fobre* 
vindo Luiz de Mello com 4 mais gente, 
foí logo commetter os Mouros com quem 
traváram huma afpera batallia, em que el-^ 
les íizeram grande refiftencia ; mas tanto 
apertáram os noíTos com elles , que nao 
podendo fofirer feu impeto , foram conA 
irangidos a voltar as coftas , fendo os que- 
máis fizeram que todos huns vinte fólda* 
dos,^ a quem nao acliei os nomes, que fo^ 
ram na dianteira de todos abrindo cami« 
nho aos máis com multas pancUas de pul* 
vora, cujo fogo pegou nos acolchoados de 
algodáo , de que os Mouros hiam arma* 
dos , que de huns em outros fe foi atean- 
do como por canaveaes feccos , ou refto- 
Iho , quando Ihe dá o vento ; e como o fo- 

{p fe Ihes mettia pelos acolchoados , hia 
avrando lentamente, enaotinham, mais re- 
medio que irem bufcar o mar , em que fe 
lan^avam como doudos , e huns fe affoga- 
vam , e outros eram alanceados , dos qué 
eftavam nos noíTos navios , e os mais del* 
les fe envasáram na vafa , onde acabáram 
ás efpingardadas , e frechadas dos nolTos 
peáes-Canaris^ que acudíram aquella mon« 
--i ta- 



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4o8 ASIA DE DiÓGO DÉ COTUTO ' 

tana ; e depois de tudo concluido , efte^ 
mefmos os defpojáram do.fato , e armasü^ 
Pardeo o Idalxá ncfte feito muiros homens 
com o feu Capitáo da guarda , o Turco So^ 
leimáo Agá , e feu cunliado , e outros feis 
Capitaes , e quatrp elefantes , da qual vito-' 
ria , que foi grande , ficou o nome da Ilha 
dos Cortos , que fempre ter4 , á imitajao 
da outra que eflá junto a Dio , onde Nuno 
4a Cunha , fendo Governador , matou á gen-» 
te que nella ^ftava pera paíTar a efta lllia, 
<jue eram nove mil; que fenella entráram, 

!>udéram dar aos noílos grandiíGmo traba- 
lio. Eftas novas fe dprara ao Idalxá , es- 
tando elle tambem de hum alto vejido a 
revpltá ; e Ipvantandorfe em pé, lanjou a 
touca no chao, que he a maior demounftra* 
cao de fentimento que podem fazer os 
mouros ; e pondo-fe cm hum ca vallo com 
fer de noite , fe partió pera Ponda, indo 
blasfemando de Mafamede, . . 

]Eí]:a grande vitoria tinha, havia poucQ 
tempo , profetizado o Bifpo de Malaca Fr. 
Jorge de S^nta Luzia , p qual eftai;do jan- 
tando no Domingo paíTado com o Vifo- 
Rey.nó pajo de Sant-Iago , pntre algumas 
coufas que praticáram 49?rpa daquella guer- 
ra , Ihe diffe o Rifpo , que'tiy^ífe muita. 
eonfianca em Deo3 noíTo Senhor , porque 
Jigvia de ter muito bom fucceílb j e píim 



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Década VIIL Cap. XXXVHi 459^- 

Ipnal diíTo elle Ihe daría naq[uella fémans 
huma grande vitoria; e depois quando foi 
a quarta feira , em que vio Laiz de Mello ^ 
Ihe efcreveo huma carta > na qual dizia,^ 
que fe fizeíTe preftes pera ao outro dia rc«s 
ceber a mercé que JDeos Ihe quería fazea*;. 
e aílim fuccedeo , porque logo á quinta: 
feira Ihe déOjCfta vitoria , na qual fe ficá- 
ram, fegurando as coafgs.da guerra. 1 

Nos doU3 exercitos de Chriftáos 5 é 
Mouros houYe eftcs dias por efte fucccíTá 
differentes eíFeitos , porque no noíTo ast 
f ellas , folias^ «t tangcrcs .faziam dobrara 
fentimento no dos Mourós ; entrq os quíiea 
tudo eram prantos > laíUnias y mágoas, o 
íen timen tos ^ que nos noflbs paífos com o 
iilencio da nqité foavam clárMiehte ; 'alfin> 
podemos com razáo dizer que fe iguala vaT 
jioíTa alegría coní fuá trifteza. * 

Na Cidadc , quando chegou a nova d^ 
entrada dos Mouros na noflá Ilha , hou-^ 
veram-rfe todos por perdidos , e deram tu-^ 
do por renwtado , e concluido ; e entre 
mulneres , que sao dé animo mais fracoi. 
houve muitos accidentes , e extremoá , p 
andavam algumas de mais obrígac6es pebá 
rúas,. de Igreja pm Igreja, pedindo ínifem 
cordig a Déos noífo Senhor , e os Religión 
ios fe puzeram diante do Santiffimo Sacran^'. 
fnento com multas ^grimas, rogando pela> 



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'4to A'SI A DE DioGo DE Corro "" 

remedio .daq^uella Cidade ; e nafta confusión 
e trífteza eflaveram mais de duas horas ate 
aue entrou pela Cidade hum mulato , que 
toi dos primeiros que decam nos inimi^ 
¿08 y o quai depois da batalha acabada ,- 
achando hum cavallo dos Mouros , fubio-fe 
selle , e atraveíTou dalli á Cidade ^ pela 
qual entrou correndo por todas as mas 
bridando : Vitoria , Vitoria , com o que acu-» 
dioa eilei toda a gente, e entáo foiiberam 
da Vitoria que Déos deo aos noíTos ; e no 
mefmo inftante fe tornou a converter toda 
a Cidade da maior triftesa , que fe podia 
imaginar , na maior alegría da vida , que 
eftas sao as coufas , e extremos della. 

Havida efta vitsoria , e aiíentado em 
cohfelho defender-fe Chaul ', vendo-fe o 
Vifo-Rey com todas as Armadas recolhi*- 
das, e que tinha em Goa mais de tres mil 
hómens , prdenou mandar hum bom foc- 
corro a Chaul , com o qual defpedio logo 
a Ruy Goncalves da Camera , indo D. Dio- 
go de Ataide por Capitáo mor daquella 
Armada na galé Real ; e outros navios , em 
que hiam quinhentoshomcns , foi D.Jorge 
Baroche entrar, na Capitanía daquella For- 
taleza, e fofam muitos Fidalgos; e Caval-¿ 
kiros nefte foccorro , e hum delíes foi D. 
Joáo de Lima, irmáo deD. Duarte deLima^ 
i|üe ao embarcar diíFe , que faía iaxer com4 
•-^ ; pa-* 



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Década VIII. Cap. XXXVII; 41 r. 

Ipanhia afeü irmáo , fendo nifto Profeta 
de íi mefmo : Jiomens príncipaes que coní 
elle foram , Goncalo ILodrigues CaldernTy 
feu iririao Joáo Caldeira , Simáo Pedroíb 
de Caílanheda , Chriftováo Ferreira, Dio^ 
go Lobo de Soufa , que depois foi CápU 
táo de Bardes , e outros que fe> nomeátam 
pelo diícurfo da hiftoria, que íizeram fei^ 
tos abalizados. D.Jorge deMenezes tomoi; 
logo poíTe da Capitanía , Luiz Freiré fe 
partió pera Goa , e D. Diogo de Ataíde, 
c D. Joáo do Lima foram repartidos pcla^ 
cílancias. - 

• • ■ • . í 

C A P I T U L O XXXVIIL : 

• '• ' i 

Do quefuccedeo no cérea de Chaul no fem^ 
jpo de D. Jorge de Menes^s. ■ 

' ■ '*• 

DEpois da perda das cafas de Heitoí 
de Sampayo , fizeram os Mouros hu* 
ma tranqueira defronte da Mifericordia , ^ 
foram ganliando aigumas cafas cHegadas $ 
S. Domingos ; com o que obrigáram ao# 
Padres a entupir a porta do Mofteiro , c as> 
ferventias de todas as eflancias que havia^ 
dalli até a tranqueira de Gomes Ferreira, 
e abríram camimio por baixo da térra co-^ 
mo cavas até ás cafas de D. Nuno Alva-^ 
KS Pereira , e Nuno Velho, fendo já def?? 

trui- 



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J^Tí ASIA DÉ DiÓGO DB' COTTTO'T 

tniido tudo.quánto havia dalli pera fora> 
Feito ifto 9 det^rmináram os. Capi^es dC' 
irsm dar ñas eftaucias dos Mouros , que 
ficayam defronte da tranqueira de Lui£ 
Traocoíb , o qual negocio epcommendáram 
a D. Con9aio de Menezes , e a Alexandre 
fie Soufa , que logo defiftíram da empreza , 
Téferrando-a pera melhor occafiáo , dando 
por caufa ter fúgido aquella noite hum ef* 
^i?avo pera os Mouros , jque os poderla 
^YÍÍar do que dcterminavam j e como já 
todos cftavam alvorayados ,. e ¡jreftes.pera 
aquelle aíTalto , e o furor dos Toldados he 
máo de refrear , nao tendo elles dever 
com ^ reíolu^o dos Capitaes , jimtaiido-fe 
xnais de duzentos , deram de fupito ñas 
eftancia^ ^ doS Mouros , que veftavam fronñ 
teiras , ,com tío. grande impeto , que com 
morte de muitos as largáram , mettendo-fe 
pelas cafas ppor onde os noíTos entravam 
apds eUe$ , ferindo ^ e matando á fuá yonta- 
de^ conjo em.homens que hiam desbarata-- 
dos. A efta revelta acudió o Capitáo mor y 
c os dpus Capitaes D- Gonzalo , e Alexan* 
dre^de Soufa , ? outrps , que fizeram nos 
Mouros táo gí^de matanfa ^ que fe pode, 
efla Vitoria contar entre as mais aífinaladas 
daquelle cerco , e todavía ficáram mortos 
alguns dos npíTos: , e outros feridos , a: 
/juem nao.afhe¿ pp i>oi»es i dos Mouroíi 



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Década VIIL Ca¿. XXXVlIt 4Y^ 

inorréram mais de cenro é íincoenta ,* eiti 
•<jue entrou' hum Capido de fombreim 
branco, muito privado de ElR^jr^ 

Eftes ruins fucceíTcs feíitio u Kizaino^ 
ti muito y pelo que niandou aos íqus C^ 
pitaes que deíTím hum aflalto geral a toa- 
das as noflas eftancias em roda , de quf 
logo o Capitáo geral teire áyifo^ e foi eni 
peíToa avilar os Capítáeis dá^ íftancias , ¿ 
flnioiar os Toldados pera o traballio 5 que 
efperava 5 dizéndó-lhes , que alli rinham o 
que tanto defejavam ^ que moftfaíTent aoí 
Mouros quanto fe eíiganaváiti em cuida* 
fem que poderiam metter os pés daquellet 
€ntulho9 pera dentro ;^ e líiandoü prever 4 
todoá de munijóes, e de outros provimen- 
tos necfeíTarios ^ dando a tudo muito boa 
órdem com gentil difpoíijáo. Entre o« 
üoíTod nao houve melancolia , fenáo muitos 
tañgeres , feftas , e alegría todo aquello 
dia y e noité, pera que viíFeni os Moui'os 
a alegría com que os efpei'avam. Eftando 
todos preftes ^ fendp no quarto d^ alva , co- 
me^'áram das eftancias dos Mouros a dif« 
parar aquella furia infernal de toda fuá ar-c 
tilherla arruinadora: de tudo. Acabada a- 
íjuella corífcada ^ fahfram todos os Capi-» 
^áes de fuas eñaiicias com fuas bandelrfts 
<defenroladas , e com grandes eftrondos de 
4trorabetas^ e. inÜrumeiitos h^iíooi, reme^n 



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4C4 ASIA D¿ DlÓGO DE COUTO 

téram com as tranqueiras , cubrindo o af 
d€ auvens de frccHas , e atroando com ur- 
ros dos elcfaníes que traziam diante , os 
^uaea chegáram a por as trombas nos noíTos 
4raIlo8^ € os Mouros por entre elles a que- 
j-erem fubir ; mas acháram os noíTos táo 
^romptos , que pafmáram , c foram fobre 
^lles tantos os tiros , panellas de pólvora, 
langas de fogó.) e outros inftrumentos de 
moite , que choviam labaredas y e flizila- 
«ram trOYoes, efcintillavam faifcas defogo 
fobre elles , que como eftavam mui api- 
ijibados^ fez.nelles grandes incendios; do 
mar as gales , e fullas pelas partes , por 
pnde os defcubríam, nao faziam fenáo va- 
rejar , e matar de modo , que do mar , e 
da :terra eram tantas as coufas que atroa- 
vam os ouvidos , que fe nao podia ninguem 
entender. Os inimigos como eram tantos 
nao faziam cafó dos que caliiam, palTados 
dos pelouros das efpingardas , e delpeda- 
^dos da artilheria , c abrazados do tbgo , 
antes por íima dqlíes paflavam até chega- 
rem ás tranqueiras , em que trabalháram 
tanto , que fe puzeram em lima , e logo 
arvoráram nellas multas bandeiras , o que 
Ihes cuftou tantas mortes , que foi efpantOé 
O Capitáo mor acudia ora a huma parte i 
ora a outra , mandando reforjar as trtin* 
«queiras^ com gente que trazia em ííia cóm^ 
-..i pa- 



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Decada VIH. Cap. XXXVnP. 41^ 

Íánhía , e dar ordem pera que fempre 
ouveíTe muni^Óes de fobejo ; e chegado á 
eftancia de Gomes Ferreira, achou nella 
Antonio de Teve , que vinha de foccorrer 
outras eftancias com muitos ibldados de 
fuá obrigapo , e com aquella ancianidade 
eftava pelejando , como íe fora hum folda* 
do mancebo de grande valor ; muitos Fi- 
dalgos , e gente folta acudiram ás partes, 
em que havia maior perigo , e fobre todas 
jefteve em maior aperto a eftancia de Dio- 
go Soares de Albergarla por ter huns por- 
taes táo devaíTos , ^ue nao tinham mais 
tapume que huns feíxes de rama , fenáo 
quanto na paragem mais perigofa tinlia 
. hum limoeiro que fe cortou em hum quin- 
tal 5 á fombra do qual eftavam os noflbs am- 
parados como bugios á fombra de qual- 
quer arvore, ou folha verde j o que vifto 
pelo Capitáo mor , mandou alli trazer a^- 
guns paos de teca , e taboas com que fe 
tapou aquella paragem o melhor que pode 
fer y e dalli fe tornou o Capitáo mor pera 
a tranqueira de Gomes Ferreira , onde a- 
chou os noífos em íima dos vallos pelejan^ 
do com os inimigos rofto a rofto á langa, 
e efpada muito animofamente ; e certo que 
foi coufa milagrofa o pouco damno que 
ps noíTos recebéram neftc conflifto , porque 
nao morrérammais que tres Toldados , haoi 
- r, dos 



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^i6 ASIA DE Diodo DECóütd 

idos quaes foi D. Joáo de Lima , irmáo dé 
X>. Duarte , de huma bombardada , que Ihé 
detam pela cabera , em que tiniía hum 
murriáo, que tudo Ihe levou em claro ^ e 
aigumas laicas de murriáo deram ^orhumá 
lorelha a Gonzalo Rodrigues Caldeira 3 de 
•que ficoü bem efcalavrado , tendo já rece-» 
•bido algnmas feridas ; porque ñas partea 
em que fe achou , fempre pelejou tao va- 
ieroíamente , que nunca fe refguardou doff 
perigos : matáram aqui tambem Simáo Pe- 
-drozo de Caftanheda , tendo-lhe já havia 
poucos dias em oütro combate dado huma 
efpingardada pela boca , que Ihe quebrou 
quatro, ou feis dentes: ficou tambem mul- 
to ferido Oütro foldado chamado o Guar- 
dali , que fempre foi dos pritíieífos que fe 
achou em todos os tranfes , c perigos : fi- 
cáram muitos queimados , e inhabilitados 
pera a guerra , em que fe perded miíito ; i 
mas fobre todos fe fentio a morte de D. 
Joáo de Lima y por fer mancebo de gran- 
des efperan^as , a quaí morte , como já 
diíTe , elle profetizou fempre antes , e foi 
em fim faier companhia a feü irmáo na 
cora , em que eftlva , Cóufa que elle' tan- 
to defejou. Os Mouros vendo-fe táo mal 
tratados dos noíFos^ , fe retiráram com 
l^ande fomma de feridos ^ e quinheñtoí 
mortos^ ^ 

. . NeP 



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Decaua VIIL Cap. XXXVIIL 417 

- Nefte quarto d^ al va , antes qu« os Mou« 
1*08 commetteíTem os vallos ., fo os Cafapos 
xlefpendéram trínta e quatro tiros 5 tendo 
os dous dias antes defpendido mais d«. 
cento : ao outro día que iílo paflbu, Ruy 
Telles de Menezes mandou de foccorro ^ 
^ftando em Dio por Capitáo , embarcacóes 
cheias de inantimentos , gente , e muni^oes ^ 
<e pouco depois chegáram embarcares de 
Damáo , em que Alvaro Pires de Tavor^ 
mandou duas pipas de pólvora y e multan 
.panellas cheias,e grande fomma de outras 
valias ) muitos murrées , e mantimentos ^ 
tendo naquelle terapo neceífidade de pour 
j>ar aquellas coufás , por ter cada día no- 
vas de virem os Mogores fobre aquella 
Cidade induzidos pelos mefmos fleys da 
«liga, e o mefmo fe temía do Rey de Sar- 
ieta , com qucm o Capitáo Alvaro Pires 
de Tavora le h'ouve niefte negocio com 
tanta fagacidade ^ e prudencia ^ ique por 
meio de hum Bragmane multo jntelligenr 
te , como todos sao ^ taes coufas dilTe ao 
Rey Sarfetá , quQ o traAornou de feu penr 
iamento. - 

Cpm eíta largueza fe fuí^entava naquel* 
Je tempo a guerra, porque tinham os Ca?» 
pitaes líberdade pera gaíhrem y. e deípen* 
^derem a fazenda de ElRey neftas. neceflída- 
4es , e ostras femeljiantes , o que; depois 
^Couto. ToffL r. P. L Dd fe 



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'4l8 ASIA DE DlOGO DE CÓÜTO" 

ie veio a eftreitar tantc/, que aínda que as 
Fortalezas fe arrifquem, nao fe podem fa* 
%er mais defpezas das ordinarias ; e fup- 
•pofto que nao negó que muiros Capitács 
fizeram gaftos muito defneceíTarios , e nos 
que eram forados ñas defpeías ordinarias 
J)unham cento por dez , por onde nem re- 
provo , nem approvo os regimentos que 
na fobre efta materia , nem fei regimentó 
que ft pofla fazer que fe ajufte tanto com 
os cafos que podem fucceder, qué fe ache 
ñelle o remaiio a tio glandes inconve- 
nientes , fenáo for o aperto , e neceíEdade 
urgente o mefmo regimentó- 

Com todos eftes trabaihos , mortes, 
rífeos , e perigos nao ddirava entre os 
lioíros de haver zombarias ^ e galanterías, 
de que contarei fó duas. Na eítancia de 
Fartecáo fe armou hum trabuco pera met- 
tcrem pelouros na Cidade , que todas as 
coufas que nos podiam empecer , nSo dei- 
itavam de as intentar ; e parece que ihc 
trráram a cfquadria , porque os primeiros 
pélouros que difparóu , os lan^ou pera 
tras fobre o feu mefmo exercito : nao ca- 
-hio ifto no chao aós noflbs Toldados , por- 
t}ue alguns traveflbs das efiancias aiWram 
tKitro dia nosfeus valios outro trabuco, ou 
•«ngenhó , a que na India chamSo Lates > 
^om qoe \:oltumaTam tirar agua dos tan^» 



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DECA6A VIIL Ca?. XXXVllL 4x9 

4)ües , que sao humas vergas delgadas com 
a poxita pera íima , e o pé groíTo por bai« 
xo , no qual Ihe póe hum pezo armado 
Xbbre huma forquiUia y e na ponta de fima 
delgada amarráram huma porca ; e Iarean« 
do o pezo y letantava a ponta pera urna 
4:om grande furia ; e como nella díbira ata« 
da a porca , a levantava no ar 9 fazendo tat 

S ainada que fe oúvia ^ e via na tftancia de 
artecáo , de que os noíros faziam grandesf 
galhofas , e rifadas y ficando o Mouro mu¿« 
to aftroníado. 

Outro joguete de maís zombariá fe fez 
lias cafas , que defendía Fnincifco de 
Mello o Roncador , que foi ntais proveí^ 
tofo que todos ^ e foi e(le« Defejatam as 
iáouros muito de tomar eftas caías , e ús 
commettéram por multas vetes 5 mas dé 
todas fahiram oem efcalavrados ; t vendo 
que n3o tinham remedio pera as entrar » 
tratáram de as minar ^ pera o que Ihe eo» 
coftáram humas fermofas y e fortes mantas 
de vigts y e taboado táo junto y que todas 
as paneUas de polvera y que aellas, fe Iaa« 

firam dd íima > njto faziam máis que que* 
rar , e as labaredad erpalharem-^fe pelo ar, 
&m £íizerem noio aos debaixo. Vendo 
Frandfco de Mello e cafo ^ encheo mnitas 
panellas de ^ugidade de gente delida com 
Síurina de maxi(ún , oue &:ava aquelle im« 

Dd ii munr 



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420 ASIA drDiógó de Cotrro 

mundo licor muito delgado ; e quebrando* 
as de íima ñas mantas , corría pelas ccihi-* 
ras ^ e aberturas abaixo fobre os que tra- 
balhavam; e em Ihes chegando o licor, fe i 
tal o máo cheiro , que largando as man* 
tas , e ferramenta , fe toram acolhcndo pera 
juas eftancias ; e contando o cafo ao Nir- 
zamoxáv o feftejou muito, dizendo, que 
nunca vira tal modo de armas , e que os 
Portuguezes de tudo fe ajudavam , e toda- 
vía com efta induílria fic^ram os noíTos 
defaoreffados. 

Depois que fe perdéram as cafas de 
Luiz Aira Lobo , viráram os Mouros toda 
a for9a de fuá artilheria contra o Templo 
de S. Domingos ; e depois que fahíram 
desbaratados naquelle aílalto geral , levá-> 
ram aquelie negocio com mais vigor pera 
íe fatisfazerem daquelle bairro. Eftava nelle 
]kay Gon^alves da Camera , que depois 
que chegou de Goa fe metteo nelle , e fez 
o que pode, como já de antes tinha feito 
ao de S. Francifco , que parece defejava 
defender com particular cuidado as cafas 
daquelles dous Patriarcas , que fempre o 
favorecéram em feus intentos. Tinham os 
Mouros dado com o corpo da Igreja no 
chao , e fó Ibe ficava a Cápella , que era de 
abobada., a qual RuvGon^alves da Camera 
«nandou. desmzer pelo mefmo meftre, que 
. *. ha- 



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i 



Decada VIII. Cap. XXXVHL 421 

haviá pouco tempo a tinha feito , ie^man* 
dou terraplenar o corpo da Capella todo i 
e fobre o terrapleno levantou hum baluar^ 
te , que com muito trabalho foi acabado 
em poucas días com huma trincheira da 
parte de dentro ao longo da' parede do 
corpo da Igreja ; mas tudo ifto nao podía 
fazer bailante defensáo , poraue os Mouros 
nao fe contentáram de o oater cx>m os 
dousCafapos, mas tambem o íizeram com 
outras multas pejas groíTas que Ihe aíTeftá-^ 
ram , com que em poucos días puzeram 

f)or térra todas as celias do Mofteiro com 
üas ofEcinas; e em fim o baluarte y que fa 
levantou com tanto trabalho, foi todo ar**- 
rafado. Feita eftadeftruigáo, comegáram de 
novo a entender com as cafas de D. Gon-* 
galo de. Menezes ^ e de D. Nuno Alvares 
reireira, ñas quaes fiz^ram grande damno'i 
porém nao fem muito da fua^ parte. > r 
Eftas cafas de D. Nuno j^vares Pereii» 
ra eram as mais apartadas das tranqueiraí 
que todas , e por iíTo mais perfeguidas , é 
mais arrifcadas ,. e allim defta vez. as baté4 
ram quar.enta »e-dous días continuos ', é íé 
arrasaram de todos .os altos , fai«ndo dellaf 
humamifcelanea de pedras, calija, telbas-J 
nsadeíramento , e até grades de: ferros 
Vendo-as o Nixamoxá naqu^lie' eftado ; 
mandott aor Fa'rte^áo qac- as^ commetteiTe^ 



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j|ai ASIA DE DiÓGO DB COUTO ^ 

e que fe nao apartaíTe dellas fem as ga-^ 
nhar y poraue Ine faziam dellas multas aF* 
frontas ^ e lobran^arias. O Fartecáo fe fe^ 

Í^reftes pera aquelle negocio ; e pera os 
eus verem por onde haviam de entrar y e 
commetter , mandou fazer grandes fogos 
diante das cafas pera os alumear , nao ven- 
do que com elles moftravam aos noílbs , 
onde haviam de p6r o feu ponto ; porque 
em fendo viftos das noíTas gales , que ef* 
tavam daoueUa parte y difpariram naquel^ 
las labareaas muxtas bombardadas , de que 
matáram muitos inimigos* Fartecáo que 
eftava preftes , tanto que foi no quarto daU 
va , mandou commetter aquellas caías por 
quatro mil dos feus efcolhidos , nao fendo 
os noíTos mais *de quarenta y que fe puzen 
ram i defensáo dos lugares por onde ós 
Mouros commettéram a entrada , que foi 
pelas pontas das noíTas lan9as , alabardas y 
e panellas de pólvora , e outros inftrumen^ 
tos mort^es y que todos fe empregavam 
bepi nos Mouros y por ferem tantos y que 
nao havia donde cahirem fi^náó fobre elles* 
O Capitao mor fentíndo o negocio y mandou 
pelo caminho das Minas a Aléxandre de 
poufa, e Pedro da Silva de Menezes c^m 
vinte íoldados , que fe foram metter defi<^ 
fro y e log^ após elles Francifco deSoufa 
Xftirares com outr» ^ompanfaía ^.90 Capi«t 

táo 



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Decada VHL Cap. XXXVIII. 415 

úo mor fe pox na porta da tranqvieira de 
D.JoSo de Soufa, affim pera mandar mai$ 
foccorros , e provimentos , e muni^óes , 
como pera ter mao nos Toldados, que tOr 
dos trabalhavara por fe irem achar naquel- 
le feito , onde loi ter Antonio de Tevc 
por fóra das tranqueiras por h^ma rúa i 
que hia das cafas de D. Gonzalo de Me^ 
nezes pera as de Nuno Alvares Pereira, 
poraue Ihe dilferam que o Capitáo mor 
era lá paíTado , em que o enganáram ; e 
auando chegou , achou D. Nuno Alvares 
íobre as paredes quebradas com todos o^ 
companheiros , pelejando com grande va^ 
lor , e era o lugar tao pequeño , ^ue os 
que chegavam de foccorro nao <;abiam ja 
nelle, Antonio de Teve tomou o pofto por 
fóra em parte que com a fuá gente íicava 
defendendo a porta ; e ajuntando-fe alU 
outros companheiros que niam clisando', 
determinou fazer huma fahida ^os Mou- 
ros ; e abalroando a porta de hum quintal 
das mefmas cafas, donde tambem osnof-? 
fos eiam perfeguidos , deo de fupito nel^ 
íes j fendo elle o primeiro que entre elles 
fe remejou coiii huma gineta n? ií?aQ, qu^ 
logo enfopou na barriga d^hjiOT.Ii^oura 
com qu? f^ Ihe quebrou ; e levandp á^ 
efpada , d^rrubou outro , e 03 oíais cofi)^ 
pajaheiros tpdps faj^iaryi emprpgo bem 4 

fuá 



^ 



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4^4 ASIA DE DiOGO DE COÜTO • 

fuá vontade , e com algumas panellas dé 
pólvora abrazáram muitos com qae os fi« 
zeram aifaftar do combate. D. Nuno Al va-* 
res Pereiía apertou tanto com os que tra-* 
balhavam por Ihe fiibir as paredes , que 
com grande damno os lan^ou fóra , e coni 
tamanna perda , que fe recolhéram defeft 
perados de poderem fazer coufa de fvh^ 
ftancia. Dos noíTos morreo hum fó , mas 
ficáram muitos feridos , entre os quaes foí 
Francifco de Sá de Menezcs , qup recebeo 
duas fréchadas fobre querer recolher o 
corpo do foldado morto ; hum cafado de 
Chaul veio a bragos com hum Mouro , e 
arcando com elle o levou nos bracos , cor- 
rendo ao Capitáo mor , do qual íbube 
muitos avifos , e Ihe affirmou , que Ihe ti- 
nham os noíTos mortos finco mil homens 

Selo difcurfo 4a guerra , e alguns Capitaes 
e nome. 
Com efle rulm fucceíTo ficou o Niza- 
moxá mui quebrantado , e mandou que fe 
nao defiftiíle da empreza daquellas cafas 
até fe ganharem ; e dando a defcotifianja 
a Fártecao, mandou aos feus que fe foJflem 
chegando com os feus vallos até fe abar- 
barem coni aquellas cafas j e em quanto 
itto fe foi fazendo , mandou virar a artilhe- 
ria pera a nolTa Armada pera fe vingar do 
danmo que della recebeo ^ e a come^ou a 

ba^ 



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Década VIH. Cap. XXXVIIT. 42? 

bater, mas ella fe mudou pera outro pof- 
to, e alfim andou de hum era outro fiírtan- 
do-lhe o ponto. Os Mouros fe hiam che* 
gando cada vez mais com paredes muito 
groíTas a modo de baluartes ; mas Agofti* 
nho Nunes armou defronte delles hum car 
valleiro , no qual prantou hum falvagem, 
c no feu Rebeíim poz outra peja groíFa > 
e o tnefmo fez Gomes Ferreira pera der- 
rubarem as cafas , aue foram de Luíz Xira 
Lobo , donde os Mouros Ihes faziam mui- 
to grande damno. Os Cafapos em quanto 
a obra dos vallos durou aeixáram de la- 
borar, com que os noífos íicáram aquelles 
dias defaíFogados , e femprc Ihcs pareceo 

Sue eram retirados , e aífim queriam os 
loufos que fe cuidaífe pera verem fe por 
eífe refpeito podia haver nos noífos algum 
dcfcuido ; más logo tornáram aquellas peí- 
tilenciaes furias a laborar , huma contra ú 
Mofteiro de S. Domingos , e outra ñas ca- 
fas de D. Nuno Alvares Pereira , fem os 
noífos por caufa de feus vallos os poderem 
ver, detrás dos quaes os Cafapos come^á^ 
ram a bater braviílimamente , abrindo na6 
fuas paredes bombardeiras por onde os Cai- 
fapos fe abocavam, e cada vez que difpa- 
ravam parecia que tremia a térra, c o pr»- 
meiro tiro aue o Cafapo difparou , levou 
logo a Capella de S. .Gonzalo , e o pelouro 
V foi 



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426 ASIA DE DiOGO DB GovTa 

foi paíTando por diantc , e fazendo terre* 
motos efpantofos , que durou perto de duas 
horas que haría de dia quando difparou , 
e de outros tiros demibámm tambem oxi* 
tras tres Capellas de que nao fícou pedra 
fobrc pedra. Ao tempo que efta batería fe 
cotnecou, eílavam algumas peíToas nalgrer 
ja fallando na tríncheíra que Luiz Gon^alr 
ves da Camera fazía , com a qual foí cor-* 
rendo com grande trabalho y e mduftría até 
a acabar , com o que o corpo da Igreja 
parecía que ficava hum forte baluarte baf* 
tante pera reíiítir aquella diabólica furia. 

Em quanto Uto ailim fe ordenava nao 
faltavam todas as horas commettimentos 
em outras partes , dos quaes fempre fe re- 
colhiam com vitoria , porque ficavam ou- 
tras eftancias livres das baterías que fe da- 
vam a S. Domingos , e ás cafas de D. Nut 
no Alvares , o que fe fazía continuamente 
4:om táo grande terror, que fe affirma que 
o ar andava defpovoado das aves , e o mgr 
dos peíxes , e os matos dos bichos , e ali- 
enarías fylveftres , que andavam como e£r 
?antados ^ mas os peítos dos valcrofo^ 
ortuguezes , contra quem aquella infernal 
furia fe armava^ nao fe apartavam hum fó 
ponto de feua lugares , antes parecía que 
aquelle eftroodo diabólico os defpertava» 
e fazía niaís pufado^ , e ufanos , aíGtn co^ 
.^. " mo 



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Decada VUI. Cap. XXXVIII. 427 

mo o famofo, e caftijo gincte cm üuvindo 
a trombeta fe alvoro9a , e desfaz pera fa« 
hir á campanha , cavando a térra com as 
snáos y alargando as ventas , fitando as ore* 
Ihas , e fazcndo outras demonftra^Óes de 
feu brio. 

Nefte tempo partió Jorge Pereira Cou- 
tinho de Ba^aim de foccorro com quator*^ 
ze navios , em que fe embarcáram cento e 
quarenta foldados ; e vindo pelos rios den« 
tro por nao paíFar ociofo pela Galiana Ci- 
dade doNizajnoxá, em que havia boaFor^ 
raleza y na qual eftava por Capitao Fame*^ 
cao com mil equinhentos homens , na qual 
determináram os noíFos dar hum toque; e 
amanhecendo fobre acuella Cidade , defemr 
barcou fem adiar reíiuencia , e mandou lo- 
go por fogo aos arrabaldes y em que fe quei» 
mou muita fazenda ; porém acudindo Fa^ 
mecáo, travou ccnn os noíFos huma rezoa^ 
da batalha y da qual fe recolheo ferido 
com outros muitos y e os noíFos fe embar-^ 
cáram a íeu íálvo y e entráram em Chaul 
com ella vitoria , onde foram multo fefte* 
jados 9 e repartidos pelas efiancias em qu« 
iiavia mais neceífidaae. 

As cafas Áe D. Nuno Alvares Pereira 

eram nefte tempo mais combatidas , e p 

mefixio as de Nuno Velho Pereira, porque 

a lencao do Nisamoxá era faz^r^fe Seonot 

^ de 



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4i8 ASIA DE DiÓGo DE'Cotrro ^ 

de todas as cafas de fóra pera aflFaítar dal^ 
li aquelle impedimento , pera fe fenhorear 
logo dos yallos , e tranqueiras ; e pofto que 
as cafas de D. Nuno Alvares iicáram da 
outra batería arrazadas , como fe diífe, 
com tudo ficou hunj pedaco de huma ca-^ 
mera com o fotáo debaixo , em que os 
noíTos fe fortificáram , e já a furia defta 
batería nao tinha em que fe empregar fe^ 
nao naquelles materiaes das ruinas que 
eílavam apinlioados , de que fe levantavam 
grandes nuvens de calida , que tratava mui- 
to mal aos noflbs \ mas com todos eíles 
trabalhos nao deixavam eftes dous Capi-r 
táes de fazer muitas fahidas aos Mouros ^ 
« de huma dellas fahio D. Nuno Alvares 
Pereira com huma arcabuzada , que Ihe 
paífou huma perna , e parte da outra , e 
numa fréchada pelos peitos, deixando elle 
feito grande damno nos inimigos , como 
tambem fez Nuno Velho Pereira ñas fahi- 
das que fez , de que fahió bem aílinalado \ 
deixandoK)s a clles bem efcalavrados. Fa^^ 
ratemaluco ,' que tinha cuidado da batería 
deftas duas calas , mandou^fe algumas ve^^ 
zes queixar a Nuno Velho, porque fempre 
ao jantár o convidava com iguarias de. fo* 

S50, o que Ihe nao fabiam nada bem, qi^e 
he lembrava qují ' náb era primor tratac 
nal os vizínJioSy que correfle melhor cent 



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Decada VIIL Cap. XXXVIIL 4251 

elle dalli em diante , aos quaes recados 
Ihe refpondeo Nuno Velho , que muitas 
^ezes defejava de ir fer feu hofpede , mas 
<]ue ainda o faria, e auejprimexro o ayifa* 
da y pera que o a^azalhaíie bem. 

Das continuas baterías , e fahidas , que 
Nuno Velho fez aos Mouros , perdeo tan* 
tos roldados , que veio a ficar com fete , e 
iiao ter em que fe récoílier fenáo em hu* 
ma logea , porque todos os altos llie ti* 
nham as continuas baterías pofto no chao ; 
e eftava . em tal eftado , que por fe nao 
perder hum Fidalgo táo honrado , tratáram 
os Capitáes de largarem aquellas caías , e 

Srímexro as mandáram minar, pera que os 
iouros nao tomaíFem poíTe dellas tao foU 
gadamente^oque fe fez. com grande prefi 
teza. Feitó tudo, e negociado, largouNu* 
no Velho as cafas : ao . outjto .dia que os 
Mouros as fentíram defpejadas , fe metté* 
ram logo nellas , e áppíafecéram multas 
bandeiraS' aryóradas , e enire ellas huma; 
que tinha a, figura de Mafaméde tao fea, 
como foram fuas obras. Entrando osMou* 
TOS dentro, comó^diíTe, eílando íeftejando 
aquella vitoría , deram os nofibs fbgo por 
caminho , ^que reftava.feíto. de fóra ate k 
{nina , a qual enilhe chegando rebentou^ 
levando pélos.ares.toda& as paredes, cofas ^ 
.JMouros y . bandéiras ^ ^cando todo sxm a 

! ban- 



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JIJO ASIA DE DiÓGO DE COÜTO " 

bandeira de Mafamede abrazado , coma 
elle eftá no inferno. O Capitáo nv&r que efta« 
ra eíperando aquella hora , tanto que o eP 
trondo paíTou , deo nos Mouros y oue efta- 
vam á vifta das cafas , que acudiram ao 
defaftre , fendo elle o dianteiro , e fez nel- 
les huma cruel matan9a« Nuno Velho ^ co-* 
mo dono que foi das cafas , entix)u logo 
Aellas com os feus foldados , e dentro ma^* 
tou íincoenta Mouros , que tinham entrado 
nellas : nefta volta andou Gomes Eanes 
muito gentil-homem , porque endireitott 
com hum Mouro armado y e deo-Ihe por 
fima das armas tal jgolpe , que Ihe quebrou 
a efpada y fícando-íne hiun ter90 della na 
mao y com a qual acabou de o matar ; e tor 
mando^lhe da cinta o traído ,, o qucbroa 
tambem em outro ; e remetiendo com cu* 
tro y que já hia morto , Ihe tomou outro 
trai^do y com que pelejou valerofamente; 
e depois dos inimigos desbaratados , nao 
fe quiz recolher fem o pedazo da fuá el^ 
pada y a qual bufcou y e achou y e com mais 
duas que tomou aos Mouros fe recolheo» 
Hum pagem deD.Joáo deSoufa, chamado 
Francifco , mo^o de quinze aniim y eftando 
fem efpada , remetteo com iium Mouro y e 
ihe travou de huma lan^ que trazía com 
^anta colera , e fbr^a , que deo com o 
Mouro em aterra i e pondo^e, fpbre elle^ 

Jhe 



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gle' 



Decada VIIL Cap. XXXVIIL 431 

llie metteo huma frécha pela garganta tan-> 
tas Tezes até que o matou. Se a mina fora 
melhor cavada , e tivera mais forja , fizem 
maior eftrago , porque ao tempo que Ihc 
deram fogo eítavam nos quintaes , e cafas 
roais de dous mil Mouros. Da noíTa par* 
te nefte táo honrado feito morréram dez 
dos noíTos, e íicáram íincoenta feridos. 

Pouco depois, eftando osnoífos das ca- 
fas de Dt Nuno Alvares vigiando o cam* 
po 5 víram vir tres Mouros de cavallo 
multo airofos , e bem aunados com os 
trabados defembainhados , correndo igual* 
mente pera as noflas tranqueiras até che* 
garem bemperto; efozendo algazaras pera 
os noíTos , ie tornáram a recolher com mui* 
ta feguranja. ^ 

Ao ourro dia víram vir outro de ca* 
vallo pek praia ; e chegando perto das ca- 
fas de D. Ñuño Alvares , accnou aos noi* 
fos que Ihe fahiífcm y defpedindo algumas 
fréchadas pera o ar. Ignacio da Fonfeca , 
que alli-eítava vendo c^ foberba doMou- 
TO , foi-fe diílimuladamente por detrás das 
cafas com huma lanja ñas maos , e foi de* 
inandar o Mouro , que mmca quiz aguar* 
dar , ant^ virando as ancas , fe foi reco«* 
Ihendo y e o mefmo fez o noifo ícm iazer 
cafo días multas efpingardadas que os 

Mouros Ih^atiravam* ¿ 

Per- 



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43* ASIA DE DiOGODE COUTO 

Perdidas as cafas de Nuno Velho y já 
nao ficavam mais que as de Dv Nimo Al« 
vares y que já nao eram cafas feaáo huns 
entulhos , e montes de materiaes das cou- 
fas dellas , e as de D. Gonzalo de Mene« 
£es , que tambem eftavam bem derruba- 
das ; e aílim como as de D. Nuno Alvares 
eftavam , nao oufavam os Mouros de che? 
gar a ellas ^ como fefora.algum multo for- 
te , c temido baluarte ; e todavía o Farte^ 
cao , que tinlia aquelle negocio á fuá con-* 
ta , e eftava já multo defconfiado y deter* 
fiílnou de dar o ultimo aíFalto , no qual 
havia que concluirla com aquelle negocio ^ 
e o día que determináram fazer efta exe* 
cu^áo Ihe deram huma temerofa batería 
com os Cafapos , que coftumavam levantar 
aquellas nuvens de caliga , por meio dos 

3uaes determlnavam commetter a entrada 
aquelles montes de confusáo , que já fo- 
ram cafas bem fermofas , e que cuitáram 
multo a feu dono. Joáo de Mendoza no 
feu cavallelro , onde eftava, entendeo a 
ten^áo dos Mouros ; e vcndo-os occupar 
<ios na obra que queriam fazcr , foi-fe £6 
pela mina com huma panella de pólvora 
na máo pera ir faber de D. Nuno Alvares 
Perclra fe havia mlfter alguma coufa , co* 
mo fez ; e nao querendo fazer aquelle ca* 
mlnho em váo ^ fahio £óra . da mina poc 
-./ hum 



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Década VIIL Cap. XXXVIIÍ. 4^j 

l^uín cantó das cafas ; e vendo éftar muítod 
Mouros juntos pera darem* o aíFalto ^ acar* . 
bada a batería , remeflando entre todos a 
panella de pólvora ^ fe toríiou a recolher 
á mina ; ^ quebrando-^fe a panella- entre 
ellcs , levantou as Coftuinadas labaredas 
com que abrazou alguns , e atemorizou 
grandemente a todos ; e todavía como ví- 
ram tempo , remettéram com os entulhoá 
com grande determinajáo ; mas acháram 
feus vaierofos defenfores taes 5 e táo for-* 
tes , como fe eftiveram em fima do mai^ 
forte baluarte do mundo , e a poder de 
golpes , e fogo os fizeram aíFaftar bem ef- 
calavrados. Ao outro dia , como homens 
que ficáram efcandalizados , e áíFrontados , 
tornáram a commetter nos nolfos , e puaie- 
ram fogo a huma tranqueira , que D* Nuno 
Alvares tinha felta , oonde vigía vam a ef- 
tancia ; e paífando o fogo j tornáram a ba- 
ter os cafapos áquelles entulhos , nos quaes 
fizeram táo grandes terremotos , que íepul- 
táram entre a calica , e a pedra alguns dos 
noffos ; e eftando affiím nefte confliftoí ha- 
vendo Fartecáo que defta feita concluiría 
com aquelle negocio , mandou hum recado 
a D. Nuno Alvares , em que Ihe pedia Ihe. 
krgaífe aquellas calas pera fe elle apofen-, 
tar nellas , porque eftava defagazalliado j 
ao que Ihe mandou refponder que bem 
Gfuta. Tom. F. P. /. Ee ^ 



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434 ASIA DE DioGo de Comro 

podiam caber todos , que foíTe M fer íéu 
liofpe.de , que elle Ihe promettia de o aga- 
zalhar muito bem , e cjue pera iíTo o man- 
darla receber com multas tochas das coíhi- 
xnadas. Flcou Ifto aífim por efte día , e por 
fim fe tornáram os Mouros a recolher bem 
cfcalavrados. 

Ao outro dia , que foi o ultimo de 
Mar^o , tornou outra vez a commetter as 
mefmas ruinas com tanta furia y que fe pu- 
•zeram era fima , e arvoráram logo fobre 
aquelles montes de podras algumas ban- 
delras ; mas allí .naquelles pobres fragmen- 
tos fe travou entre os Mouros , e os noífos 
huma cruel batalha > a que acudió o Capl- 
táo mor; mas quando chegou, já os noílos 
tlnham lanzado os Mouros fóra com gran- 
de alFronta , e damno , fem dos noífos fe 
perder mals que hum íbldado. AíFaftado? 
os Mouros , e vendo que a madeíra das 
cafas , que ficou entre a ruina , Ihes fázla 
grande impedimento pera fe fazerem fe- 
nhores daquellas cafas , tornáram a man- 
dar continuar a batería , e no meio della 
mandáram dar fogo áqulllo que os impe- 
día , porque ao tempo da batería eftav^m 
os noílos recolhidos , e com a batería dos 
caíapos levavam madeiras , pedras , te- 
Ihas 5 e pütras coufas pelos ares , que hlam 
Gahlr no clauílro de S. Domingos ^ onde 



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Decada VIIL Cap. XXXVIIL 43J 

fizeram algum damna^ ferindo alguns dos 
noíToSé 

E porque fehia acabando o y eram, tra* 
táram alguns moradores de mandar per^ 
Goa fuas fazendas , mulheres , e 61hos , que 
tudo embarcáram em huma nao de Iiunf 
Gafpar Ribeiro , a qual fahindo pela, barra 
fóra por culpa do Piloto , fe encoftou ap 
balseo , onde fe perdeo o melhor de qua^ 
trocentos mil cruzados ; porque como a 
nao fe defpedajou , e a conente alli he 
mui furíofa y levou logo tudo pela barra 
fóra. 

Vendo os Mouros que 0$ alTaltos Ihes 
cuftavam tanto, tratáram de minar por al-» 
gumas partes por onde pudeíTem entrar na 
Cidade , de que os noíTos foram logo avi- 
fados por alguns arrenegádos que andavam 
no exercito , que por multas vezes fe pu- 
nham á falla com os das noíTas tranqüei- 
ras , e por figuras , e metáforas Ihes di- 
ziam o que paíTava , como foi defta vez 
que Ihes dílTeram , que fe guardaífem doa 
ratos , e que trábalhaíTem por regar os 
eanaveaes , que fe vigialTem das lapas , que 
cedo haviam de cahir , e outras metáfora^ 
defte modo , que elles depois efcrevéram 
mais claro , deitando as Qattas dentro na 
Cidade com frechas , as quaes por duas 
vezes fe acháram j fobrc que o Capitáqr 

Ee ii mor 



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43<5 A S I A DE DíÓGÓ de Couro ^ 

tnór mandou fazer diligencias , é FráncíA 
co de Mello o Roncador deo em huma 
xñina , a qualcontraminou, e tomou riella 
toda a ferramenta dos officiaes* 

A batería nunca ceflbu y contra a qual 
Ruy Gon^alves da Camera acabou o forte 
que fazia em S. Domingos , e mañdou tra- 
íer hum Mo , que tinna na Fortaleza ve- 
Iha com hum falvagem mais , que prantou 
contra os cafapos , porque o fcondeílavel 
^ue veio de Dio Ihe prometteo de os que- 
brar , e o dia que fe havia de comejar a 
experiencia , fanio Ruy Gonyalves da Ca- 
ínera muito lou^o com coura de golpes, 
C; muitos botóes de ouro , e gorra de t-e- 
ludo com plumas , feftejando as eíperanfas 
que tanto trabalho Ihe tinham cüáado , e 
ós primeirós tiros mandou que fe difpa- 
raíTem ñas eftancias de Fartecao ; pelo que 
o Bragmane Condeftavel mor mandou mu- 
dar os cafapos , defapreíFando com iífo as 
cafas de D. Nuno Alvares*, e mudando-os 
contra as de Ruy Gonjahres da Camera ; 
e querendo comejar a jogar aartilheria de 
huma , e outra parte, íe riám osCondefta- 
ve^s cavalgados fobre as pe^as com os bo- 
tafogos ñas máos , ameapindo-fe, e fazen* 
do-fe bíocos hum ao outro , encrelpando- 
fe como o coíhimam fazer dous caineiros. 
O Condeftavel dos Mouros depois que fez; 
\l.. fuas 



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Decada VIIL Cap. XXXVIIL 437 

fuas roncas ^ e ufanías , mandou derrubar 
a portinhola , que eftava diante do cafapo , 
e íiirtou o ponto ao noíTo , e no melmo 
momento o tornou logo a virar pera as 
noflas pe^as , onde o difparou , indo o pe« 
louro fazendo tamanhas barafundas , que 
foi eípanto , quebrando logo as teihas , e 
os repairos ás noflas pejas , enterrando-as 
nos entulhos , e enchendo-as de térra pe- 
las bocas , ainda que logo as alimpáram, 
e tornáram a jogar ; e pofto que com al- 
guns tiros faziam grande damno nosMour 
ros , todavia logo elles as tornavam a ce- 
gar. Durou efta diabólica porfía tres dias 
continuos , no íim dos quaies hum tiro dos 
cafapos tomou o leao pela boca , e Ihe 
quebrou hum beiyo , e os repairos de am- 
bas as pecas , e em fim tanto fizeram até 
que arrasaram o baluarte , e cegáram de 
todo as pejas , levando pelo ar os ceftóeij 
entulhados , e affim defarmou em váo em 
breve tempo hum trabalho de tantos días. 
Vendo os Mouros arruinado aquella 
baluarte , tornáram a virar os cafapos con*- 
tra as cafas de D. Nuno Alvares , que já 
nao tinham em que p6r os olhos , e certo 
que era já temeridade inliftirem eih ter 
gente nellas ; e ainda que D. Nuno Alva- 
res era o que nao quería largallas , haveii* 
do mais de tres mezes que ss fiiftefitaYé 
:. .1 ^ con- 



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43^ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

contra toda aquella fiíria ; e depois de os 
Mouros defcarregarem allí algumas bate- 
rías , vieram os cafapos contra a eftancia 
de Joáo de Mendo9a , Agoftinho Nunes , 
e Luiz Trancofo , ñas quaes fizeram gran- 
des damnos ; mas tambem os recebéram 
maiores dos noíTos , que como eram tan- 
tos y tinham os noíTos tiros bem em que fe 
cmpregan 

Quarta feira de Trévas , que cabio em 
onze de Abril, fobre a tarde fe foram os 
Mouros chegando ás noíFas eitancias pelos 

Íjuintaes , e cafas que ficáram de fóra até 
e mettercm defronte da Portaría de S. Do- 
mingos , menos de vinte paflbs das cafas 
de D. Goncalo de Menezes , o qual nao 
foíFrendo tao ruim vizinhanga , foi dar nel- 
les com tanto esforzó, e impeto, que com 
morte de muitos os tornou a lanzar fóra , 
de que fe houveram por multo aíFronla- 
dos ; e ajuntando mais gente , tornáram a 
commetter as cafas com grande determi- 
na^áo ; e indo-fe-lhe juntando mais folda- 
dos que alli acudíram , apertáram tanto 
com os Mouros 5 que os entráram, e langa* 
ram fóra das cafas , e ainda os foram £e* 

guindo até ás fuas tranquciras , que tam* 
em Ihes ganháram , e os foram inettendo 
por outras cafas dentro , a cujas portas 
acháram grande rciütencia:; e adiando alli 

bum 



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Decada VIH. Cap, XXXVni. 439 

hum yalente foldado noíTo , a quem nÍo 
achei o nome , vendo o trabalho em que 
os noíTos eftavam , tomou hum cálao de 
pólvora que hum mofo trazia , e como era 
For^ofo , e braceiro , chegou á porta , e o 
lanjou entre os Mouros , aonde fe desfez 
em labaredas , que abrazáram multos ; e 
paíTadas ellas , entrou o foldado pela porta 
com huma chuj^a ñas máos , com que foi 
derrubando muitos , e logo após elle en- 
tráram muitos que fizeram tai eftrago que 
fe affirma matarem quinhentos Mouros y e 
tomando finco bandeir^s , que tinham ar- 
voradas ñas cafas , fe foram recolhendo 
pera os noífos vallos. 

Tres dias depois defte fucceífo , que foi 
fabbado da Pafcoa da Refurrei^ao , que efte 
anno cahio a quinze de Abril , tornáram 0$ 
noíTos a fallir •aós Mouros, aosquaes com- 
mettéram táo de fupito , e com tanta de- 
terminajáo qué Ihes entráram as mefmas 
cafas , em que fe tinham outra vez metti- 
do , e fizeram outro tal eftrago femelhante 
ao paliado , em que algims dos noíTos fe 
affinaláram bem , fazendo feitos dignos de 
maior memoria da que Ihe dou , porque 
nao achei os nomes Relies ; e crefcendo o 
poder dos Mouros , foram-fe os noíTos re- 
colhendo ja mais apertados delles, aó qué 
acudió hum Fradc fcigo de S. Francífcó 

cha* 



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440 ASIA deDiogo deCouto 

chamado Fr. Antonio com huma chu^á 
nasmáos, com que femetteo entre osMou« 
ros , e fez nelles tal deftruijao que parecía 
hum leáo encarnizado ; mas como tinha 
alli cjieio o numero de feus días , foi mor- 
ro , e nao achei fe de arcabuzada , fe de 
entiladas , mas achei na boca de jiomens 
muito verdadeíros , que fe acháram nefte 
cerco , que era varáo de muita virtude : 
perdéram-fe alguns dos noflbs tambera 
nefte feito , e entre elies D. Luiz de Caftel- 
lo-branco , Camereiro que foi de EiRejr 
D. Joáo o III. e pai de D. Jorge de Cat 
tello'branco , que faleceo ha tres annos, 
fendo Capitáo de Ormuz, O qual D. Luiz 
íiiínca fpi cafado , e houve na India efte 
filho , e huma filha de huma mulher viu- 
va , matáram-no com huma bomba de fo- 
go que Ihe deo ; morreo tambem Ruy Pe^ 
reirá de Sá , Fidalgo honrado , Franciíco 
Barradas , e o Padre Pedro Colado da 0)m- 
panhia , varáo de grande virtude , e exem* 
pío. 

Foram os Mouros continuando a bate- 
ría em toda$ as partes das noflas tranquei- 
ras , principalmente contra as cafas de D* 
Kuno Alvares Per eirá , que elle fempre 
fuftentou com o valftr , e esforjo tantas 
vezes repetido ; e com receber multas fe- 
ridas , e adoecer de diíFerentes enferinida- 

des 



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Decada Vm. Cap. XXXVHIí 441 

des nunca fe tirou dellas , e nellas fe cu* 
rou , e foffreo todas as incommodidades 
da guerra que os cercos trazem, aturando 
entre aquellas miferaveis ruinas toda aquel-* 
la infernal furia , e batería de cafapos, 
balilifcos , falvagens , e outros inftrumen- 
tos arruinadores do mundo , moftrando 
fempre efte Fidalgo que nao degenerava 
daguelie grande D. Nuno Alvares Pereira 
derenfor de Portugal, de quem defctíndia» 
Indo , como diííe , os Mouros continuando 
com fuas baterias , fendo huma terga feira 
vinte e dous de Maio , huma hora depoisr 
de meio dia em conjunjao de Lúa , que 
acertou de fazer grande cerrajao , muitó 
ventofo , € com grandes cerrajóes , e tro*- 
vóes , com as quaes carrancas entra fempre- 
o invernó na India , como fez defta vez; 
pelo que vendo os Mouros o tempo apo- 
par elhado pera o que tanto 'defejavam, 
abaiáram de fuas eftancias com grandes vo^;. 
zerias , é algazaras pera irem cammetter 
aquellas ruinas ; o que vifto pelos noíToi 
foldados , que já nao temiam a morte pe» 
las muitas vezes, que coni ella fe víram a 
brafos , fahíram fóra aos receber , e fpi- 
ifto defeicáo, que osfiierani' recolher com' 
tanta preífa , como vieram , pela ruim hof- 
pedagem que Ihes fizeram. Fartecáo venda 
jiquefla yergonhofa retirada , os aflBrontoir 
c de 



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44^ ASIA DE DiOGO DE COXTTO 

de maneira, que tornando a voltar depoís 
das tres horas , chegáram com hum impeto 
diabólico aos que fe recolhéram ñas cafas ^ 
c em breve efpajo fe apoderáram daquellas 
ruinas , e de alguns pedamos de fobrados, 
que fuppofto eftavam em pé nao ferviam 
mais que de fuftentar o crédito dos Portu- 

Íjuezes , ficando os noíTos nos baixos das 
ogeas ás lanzadas , e arcabuzadas com cic- 
les , trabalhando alguns por fubirem aíluna 
pjera, fe verem rofto a rofto com os inimi* 
gos , fobre o que de ambas as partes hou- 
ve muitos mortos , e feridos. O Capitáo 
mor acudió allij e vendo o eftrago que os 
Mouros faziam nos noíTos , que eftavam 
debaixo, mandou a D, Nuno Alvares que 
com todos os feus foldados fe fahiíTe das 
cafas , e fe ajuntaíTe com elle , o que fez 
cqm muito defeofto feu : perdéram-fe deC- 
ta vez vinte loldados noíTos , e fincoenta 
feridos. 

Entregues os Mouros daquelles entu- 
Ihós , viráram toda a artilheria contra o 
Mofteiro de S. Domingos , o qual acabá- 
rani de arrafar de todo , e p6r por térra, 
c^porfim fe fenhoreáram deüe, ficai^do táo 
vxiinhos de Ruy Gonjalves da Camera , 
que. tendo-lhe arralado toda fuá eftancia, 
veio a ficar deíamparado da ilharga da Ca- 
yella que ainda éuava.por fua,^e os inimi-? 

gos 



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Década VIIL Cap. XXXVÜI. 44} 

^os de todo o corpo da Igreja , e da maior 

{)arte do clauftro , e dalli viráram a arti-t 
hería pera a eftancia de D.Joáo deSoufa, 
€ de joáo de Mendoza com hum baftiáo 
na ponta , donde fe defcubria o baluarte 
de madeira , que os cercados tinham na 
ponta da tranqueira da praia , contra o qual 
alTeftáram tres pefas groflas , que logo a 
come^áram a desfazer ; e batendo Junta- 
mente as outras eftancias junto de S. Do* 
mingos , com que os noflbs recebéram 
grande perda , e opprefsáo , e na eftancia 
de D. Sebaftiáo de Teve , que foi huma da» 

3ue batiam , deo huma bala em Jeronymo 
e Teve feu primo , que Ihe levou a ca- 
beja eni pedajios, e os miólos foram bor- 
rifar as veneraveis barbas de Antonio de 
Teve feu tio ; a outra eftancia que fe batia 
era a de D. Henrique de Menezes , que fe 
defendeo valerofamente , eftando muito fé- 
tido dos dias paíTados, porque foiFidalgo 
que em todo efte cerco fe achou fempre 
nos cafos mais perigofos , em que fempre 
moftrou bem o valor de feu brío , e a obri- 
gafáo de feu fangue. 

Nao quiz o Nizamoxá confentir que fe 
commetteíTem mais os noíTos por aiíaltos 
pelo muito que Ihe cuftavam , mas mando'Ü 

3ue fe levaííe aquelle negocio pelo rigor 
a artülienaj que compouco perigo bsuz^ 
• --. / va 



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444 ASIA DE DiOGo Dé Comró^ 

Ta pera concluir com tudo , porque deter^ 
minava , depois que vifle tudo arruinado , en- 
trar a Qdaae por hum aíTalto geral , em que 
quena mctter todo o refto de feu poder ; pe- 
lo que fbi continuando a bateria todo a^uel^ 
le mez , coufa que pera os noíTos foi de 
siaior trabalho que os aíTaitos , porque 
neftes vigiavam-fe das oíFenfas , que rece- 
biam dos inimigos y o que ñas baterías 
nao podiam fazer y antes tinham dobrado 
trabalho em reformarem as partes que fe 
arruinavam, porque fentlam mais andarem 
com os materiaes ñas máos , que peleja-» 
rem com todo o poder daquelle inimigo ; 
porque mais honroíb exercicio era pera 
elles exercitarem-fe no oificio de defenfo^ 
res , que de trabaUíadores , contra o natu-^- 
ral dos Portuguezes. Dúrou efte trabalho 
até dia de S. Joáo , que cahio em Domin^- 
go , e aquelles eres dias depois em todos 
elles tiráram os Mouros o poder todo ao 
campo y como que queriam commetter os 
rallos ; c remettendo a elles já de perto , 
fe tomáram a recolher , e logo tornáram 
a fazer o mefmo commettimento , e reco-^ 
Ihiniento , porque a fuá tensáo era que- 
brahtar os noíTós y e fazellos eftar todo o 
dTa , e noite com as aitnas ñas máos y no 
que fe enganavam , porque eram os vale-^ 
K>fos: Portu^ezes como o gigante Antheq 

}. r ' fin 



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Década VIII. Cap. XXXVIH. 44? 

filho da térra , que luílando com Hercü- 
Jes , todas as vezes que cahia, e tocava a 
térra fe toíTiava a levantar com novas for- 
jas, aífim os noíTos comaquelles accommet- 
timentos táo continuos , e accelerados co^ 
bravam de cada vez mais novo brío y e 
inaior animo* 

Logo á quinta feira vefpera dos Apof- 
tolos S, Pedro , e S, Paulo fe preparáram os 
Mouros pera darem o ultimo aífalto , no 
qual efperavam concluirem aquelle negocio 
de todo , o qual nao houve effeito , por* 
que Ihes mataram os noíTos lium Capitío 
dos principaes com hum,a eípingardada , 
andando vendo a parte , por onde havia de 
commetter com o feu Ter§o ; mas ao ou- 
tro dia dos mefmos Apollólos ^ que parece 
que quizeram elles que nelle alcanfaíTem 
os noíros por fuá intercefsáo huma táo 
milagrofa , e memoravel vitoria , eftando 
os Mouros a ponto , fe poz ElRey no 
Mofteiro de S.Francifco em hum lugar al- 
to pera dalli ver tudo á fuá vontade , e i 
hora que quiz que os feus accommetteíTem, 
mandou fazer final com huma touca de fe- 
da amarrada a huma langa , que come$:ou a 
florear no ar j e fendo vifta de todos , re- 
mettérám com aquella multidáo confufa , e 
defordenada fem ordem alguma , nem Ibm 
de pifaros, e tambores , que enfina os fol- 

dar 



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44^ ASIA DE DiOGO DE COUTO 

dados a remetter, e a retirar, ncm diílin-' 
^áo de Capitiles y cu compaíTo de bandei- 
ras ) e final de Sargentos , e Capitáes , fe« 
nao com as barbaras vozerias , gritos , e 
vifagens , guiados de fuá bnitalidade, co- 
mo todas as fuas coufas ; e como eram 
mais de fetenta mil homens , e todos os 
elefantes diante , cingíram todos os noífos 
vallos aífim apinhoados , íicando mais de 
fete j ou oito mil apinhoados , e oppoftos 
a cada eftancia noíía , em que haveria pou- 
€o mais de fincoenta foldados , e com 
aquella primeira arrancada , e furia fe pu- 
zeram aíguns logo em fima dos vallos y e 
tranqueiras y onde arvoráram fuas bandei* 
ras y levando primeiro a furriada de duas 
cargas da noíía efpingardaria , que Ihes der- 
rubou mais de quinhentos ; e como os noí- 
fos eltavam já com as armas ñas máos , as 
comejáram a jogar com tanta braveza, 
que em muito pouco efpaco os tornáram 
a lanjar fóra dos vallos , deixando aíFron- 
toíamente as bandeiras , que tinham levan- 
tadas , e muitos dos feus eftirados , e def- 
pedajados em fima das tranqueiras , e ao 
pédellas. Osinimigos vendo-fe affimrefifti- 
dos , tornáram com grande impeto , e dobra- 
da determinacao a commetter a entrada , que 
Ihes foi táo bem defendida, como da pri- 
meira vez 9 6 fem fazerem caib do grande 

ef- 



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Decada VIH. Cap. XXXVIIL 447 

eílrago que os noíTos nelles faziam , por 
lima dos mefinos companheiros mortos^ 
liuns palpitando com os últimos arrancos, 
cutros tornáram huma , e multas vezes a 
commetter a entrada das tranqueiras , fo- 
bre a qual defensáo os noíTos fizeram al*" 
tiílimas cavallaFlas , que nao particularizo , 
porque os Capitáes , e Fidalgos gue tenho 
nomeado fizeram , e obrár^m couías dignas 
de feu fangue , as quaes eu me nao atre^ 
YO a particularizar 7 nem fei efcrever , 
pqrque nellas fe confunde a memoria , para 
O entendimento , emmudcce a lingua , e en- 
colhe-fe a máo* Os Toldados que tenlio no« 
meado , e outros que nao tinham nome , 
que por defcuido íe nao fez delles cafo , 
nao nzeram menos , antes muitos dos me- 
nos fizeram coufas , que puderam efpantar 
ao mundo , e efcurecerem os valerofos 
feitos dos famofos Gregos , e Romanos, 
fe elles tiveram hum Lucio , ou hum Plu- 
tarco , que efcrevéram feus feitos, O Ca- 
pitáo mor y e D. Jorge de Menezes Capi- 
táo da Cidade nao oufo a fallar delles, 
porgue cumpríram como deviam as obri- 
gajoes de feu fangue , nSo fó com a obri-^ 
gajao de valerofos Capitles , mas ainda 
com a de esforjados , e valerofos folda- 
dos ; porque correndo cada hum dellea 
por fuá parte as eilancias ,- nao fó animan 

vam^i 



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, '44^ ASIA DÉ D1060 bfi CoxjTó 

vam , e proviam a todos das coiifas que 
traziam pera eíTe eíFeito de fobrecellente , 
mas aínda pelejavam por feu bra^o, conio 
qualquer particular Toldado athbiciofo de 
ganhar honra ^ com o valor que fencipre 
coftumáram. Os eftrondos , os gritos , os 
prros dos elefantes , e os gemidos ^ e ais 
dos que calüam , chammas das labaredas 
das lancas de fogo , panellas de pólvora, 
que os noíTos lanf áram fobre os inimigos , 
os prantos , gritos , e exclamajóes ao Ceo 
das mulheres, e meninos que andavom pe- 
la Cidade pedindo a Déos mifericordia , 
ifto junto reprefentava o final juizo , e era 
huma confusáo deBabylonia, e hum terre-^ 
moto , e fim do mundo univerfal. Durou 
eíte conflifto até ás feis horas da tarde , em 
que os Mouros fe retiráraiti por nao po- 
derem mais foflFrer , ficando t)s noíTos fobre 
os vallos com as armas ñas míos florean- 
do com fuas bandeiras , e chamando os 
inimigos pera que tornaflem , porque ainda 
nao . eftavam fatisfeitos do pouco damno , 
que Ihes tinham feito com Inés terem mor- 
ios mais de tres mil homens , a maior par- 
te delles Mouros brancos , Parfeos , Cara- 
cóes 5 Guilanes , Xiraífes , Turcos , Rumcs , 
e outras diíFerentes najóes da Afia , e 
Abaília: dos feridos foi grande o numero, 
e foram mortos de duas efpingardadas 
:- > hum 



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Década VIIL CaK XXXVIII. 449 

hum íilho de Acalafcáo , e Sujatecáó , &* 
cando - os mais delles aílinalados dó noíTo 
ferro: muito poucos dos noíTos morréram^ 
oue quiz Déos que nao foflem mais que 
íinco ) que valiáo por muitos , que dou$ 
delles foram Francifco de Sá Solüfmundi 
valerofo Toldado , e outró Fránciíco dt 
Tovar , aos tres nao achei od nomes , ficá- 
ram feridos coufa de cento 1 poucos dos 
quaes perigáram, . t 

Vendo o Nizamotá b desbarato . dos 
feus , nao llies quiz aguardar ó fím y antes 
no meio do confliélo fe poz em hüm ca^ 
vallo ) e fe foi recolhendo tao trífte , e ma* 
lencolizado que ñáo oufou nenhum dos 
feus Capitáes^t Ihe ver o rofto> e áffim fe 
foi metter em huma Mefquita , deviá íer 
pera vituperar o feu Mafamede ^ que nao 
preftou pera com táo grande poder ihe dar 
Vitoria de pouco mais de mil Portuguezes 
encurralados em huns ffacós vallos, Depois 
de fazer termo fuá paixáo y nao pelos mui- 
tos vaífallos que Ihe matáram , que niíro 
reparam os Mouros pouco , e fazem me- 
nos caíb , fenao pela opiniáo que per* 
dem ; bem diíFerente dos Reys Chriftaoá 
que he -eíle o feu maiox ferttimento : e di- 
zia o Emperador Carlos V . Máximo , que 
antes nao quería tomar huma Cidade fo-^ 
bre que eftava 1 que perder fobre ella hui^ 
í:QUto.TGm.F.P.L Ff foí- 



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45^0 ASIA DE DioGo de Q)Trro 

-Toldado feu ; mas depois aue fez termo 
<íua paixáo, como hia dizendo , dizem que 
Áeo recado aos feus Capitáes pera aoalpa- 
rem os noíTos com pazes , o que eíles fí- 
2eram ao outro dia, porque alguus vierara 
por todas as tranqaeiras , e comecáram a 
¿radar : Marino^ Mariaa^ que affim cha- 
máo ^lles á Virgem Santiífima Senhora noA 
fa ) como coAumavam^ em todo efte cerco 
todas as vezes que queriam fallar aos noí^ 
los , os quaes logo acudiam a perguntar 
o que queriam , como fizeram agora ; e 
chegados á falla, pedíram com multa hu« 
mildade llies deixaflem recolher aquelles 
coróos mortos pera os fepultarem , a que 
o Capitáo mor Ihes niandou^refporder que 
os Portuguezes nao faziam guerra fenáo a 
viros , que os podiam levar livremente, e 
que nao fó Ihes concedía fácilmente efta 
Jicen^a , mas aínda Ihes mandaría pagar, 
como fez, o trabalho que tiveíTem em Ihe 
tirar dallí aquella corrupjáo , porque po- 
derla caufar pefte ; no qual íervifo andá- 
ram os Mouros táo humildes , e obedien- 
tes , que fem repararem em coafa alguma , 
levavam aos Toldados ás traiiqueíras tudo 
o que Ihe pediam , armas , efpíngardas. 
Cabalas , toucas , e outras pejas dos mor- 
tos : e entre algumas praticas que tiveram 
Com o^ noflbs ^ Ihes perguntáram os Mou^ 



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Decada VIIL Cap. XXXVIII. 4yi 

fos ) que mulher era huma muito fermofa 
veítida de branco y que em toda a batalii^ 
andou pelejando da banda dos noíTos y é 
que deíviava os pelduros , e fettas com 4 
borda do manto , para que nao oíFendeíTetft 
os noíTos ? E depois das pazes feitas , que 
hiam communicar á noíTa Fortaleza , levoa 
o Padre alguns que viram aquella Senho/a > 
á Igreia da Sé ^ e Ihes moftrou huma Ima-^ 
gem de noíTa Senhora ^ e perguntou-lhes fe 
era aquella? Refpondéram^^íque nao ^ por^ 

S[ue a outra era mais fermofá ^ e com tudo 
e proftráram diante daquella Senhora que 
Ihes moftráram y e Ihe iizeram grande ve^ 
nera^o. Havida efta vitoria y logo os Mou- 
ros recolhéram a fuá artilheria , íicando as 
coufas aíltm em treguas até Ce fazerem aa 
pazes , como ao diante direi ; pelo que os 
Capitáes ordenáram huma folemne procif* 
sao y com que foram dar grabas ao Author 
de todos aquelles bens , o verdadeiro Deoa 
dos Ejércitos, e á Virgem Senhora noíTa, 
e aos Santos Apoftoloá S* Pedro y e S. Pau^ 
lo , por cuja intercefsáo em feu dia alean-» 
járam huma úo infigne vitoria : e todavia 
os Capitáes nao le defcuidáram, antes re*» 
nováram aseilanclas do damnifícamento que 
Ihes fícou , aíliftindo feus Capitáes nelUs. 
tanto a ponto , e com tanta vigía y como que 
ais iflimigos cfiiveram abordados ^om ella^* 
. Ffü Fi. 



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45^^ ASIA DE DiOGO D£ COUTO 

Ficáram aífim as coufas naquella tre^ 
goa ^ até que íe> alimpou o campo dos mor^ 
tos ; e como o Nizamoxá fe qiueria ir pera 
a fuá Corte ) e todos feusCapitáes eftavam 
aborrecidos da guerra y íizeram com elle 
que trataife das pazes por nao ficarem as 
coufas aífim em aberto , o que elle com- 
metteo a Fartecáo , e Cafacáo Veador de 
fuá fazenda, que porterceiras peíFoas man- 
dou fallar naquelle negocio com D. Fran- 
cifco Mafcarctohas , e l3. Jorge de Menezes 
Capitáo da Cidade ; e como elles tinham* 
poderes do Vifo-Rey pera accitarem as 

gizes , tanto que Ihe toíTem por aquelle 
ey pedidas , tratáram com os Capitaes 
Mouros de fe verem pera as conclmrem , 
e que as viftas haviam de fer entre as ca- 
fas flue teve D.Nuno Alvares Pereira, e o 
Moíteiro de S. Domingos , no que elles 
íiáo tiveram dúvida ; e allím aos vinte e 
quatro dejuiho, vefpera doApoftolo Sant- 
iago /fe juntáram no dito lugar depntado, 
onde vieram os dous Capitaes do Nizamo- 
xi com pouca companhia , e o Capitáo D* 
Francifco Mafcarenhas , e o da Cidade 
com Antonio de Teve , e Pedro da Silva 
de Menezes por adjuntos ; e depois de ñas 
primeiras viíbas térem os cumprimentos or- 
dinarios y em que eíles Mouros sao mui 
pontuaes ^ apprefentáram os poderes ^ue 



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Decada VIIL Cap, XXXVm. 4^^ 

tínham do feu Rey pera tratarcm daquelle 
negocio , e os noílos Capitáes fizerajta o 
mefmo aos que tinham do Vifo-Rey da 
India ; e viftos , e examinados ,. aíTentáram 
as pazes com as condifóes fegiiintes. 

» Que feriam amigos de amigos , e ini- 
}i migos de inimigos , e fe ajudariam con- 
)i tra todos ' os Senhores inimigos de ani- 
n bos y nao fendo contra aquelies congt 
» quem tiveíTem celebrado, e feito pazes. 

> Que o Rei Nizamoxá nao a^azalhar 
>i ría em fcais porros .Armada$ jnimigas 
91 dps. Portuguezes ; e cjue entracido algu- 
)i mas nelles y as mandariam entregar , « que 
)» o mefino fariam os Vifo-Rejrs, , 

» Que . o Nizamoxá mandaría ém todos 
» os feus portos.dar todos 05 marinheiros, 

> mantimentos , madeira, e todas as mais 
)i cóufas necesarias pera as Armadas por 
» dinheiro , e que o Vifo-Rey. Ihe guarda- 
}» ría a fuá cofta de ladroes pera fuas náo6 
)i navegarem fem receio. ' 

» Que o Vifo-Rey daria áquelle Rey 
)í licenja pera todos- os annos mandar, hu- 
» ma nao a Malaca ^ e que os Portuguezes 

> Ihe fariam bonx tratamento , . e que nao 
)» levariam coufas defezas , nem gente 
4» tranca ; e que O'Capitáo daquella Cida- 
» de , e.feus jtnorádores nao pagariam n^ 
». nhuns direitos do que compraflem. 

ji Que 



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45^4 ASIA DE DioGo de Couto '. 

n Que os Mouros , e Geiitibs pagaiiant 
^ de todas as fazendas- que vieflem por 
> mar os direitos áaucUe Rey , tirado os 
% Portuguraes^ , e Cbriftáos que feriam li^ 
3» bertos, ' 

» Que poderiam todos os annos. os 
•% Portuguezes , e Mouros levar á Gdade 
-» de Chaul quinhentos cavallds , e que 
% pagariam, os direitos a ElRejr de PortiK 

* gal ; e que viudo de Ormuz naos de 
^ Mouros'comcavallos, dariam lá fianza a 
% iirem a Chaul ; e nao o- podendo tomar ^ 
■!» iriam' •* Goa ; e que indo a óutras par*- 

* tes y iftcorreriam ñas penas do regimentó. 

)i Que o 'Tanadar^ de Chaul de- lima 
^ el^eria dous homens dé confianca , e 
» D, jorge de Menezes Capitáoda ódade 
^ outros dbus , pera eftimarem as peídas ^ 
m e damnos que fe fizeñim ñas Igrejas^ 
9» palmares , e hortas daquella Cidade ; e 
^ da avaliacao que fixeíTem; avifariam ao 
» Nizamoxa j pera que em quatro mezes 
Tt fizeíTe fabedor ao ViTo-Rey da India pe- 
» ra niíTo dar o talho^que pareceiTe juíto ; 
o» e arfezoádo yi e outras mais coufas que 
deixo 5 porque sao conformes ás pazes que 
•já com "05 Reys feus antepaíTados fizeram 
-o Goverftádor D, Efteváo da Gama , e o 
-Governador FrancifcQ'Barreto , a qual ak» 
vidrajáo , e:COmpofijáo eu nSo achei por 



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Decada VIII. Caí. XXXVÍII. 4sy. 

cfcrito i nem cjuem me íoubeíTe dar della re-í 
lajáo verdadeira , pelo que fique ifto alfim 
empaz> e vamos continuar com a guerra de 
Goa por concluirmos com ambos eftes cercos4^ 

CAPITULO XXXIX^ 

Da que Juccedeo na guerra de Géa , e doí 
• Jevatáamento da. Rainha de Onor CQfUra 
a Mpffa Fcrtákza, \ e do foccorro 
que o FiJo^Rey Ibe tnandtíu. { 

r ■ • 

A Guerra de Goa no eftado eiSi que a 
deixamos, fe foi continuando. por ban 
tenas de parte a parte , e da. parte dos 
Mouros ja €om menor confianza da com 
qu« a comejáram , e>da npfla corntiñenos 
receio ; porque como a invernada fe met-* 
teo de permeio , eas tempeílades , e chu-* 
vas eram groíTas ^ fixeram «ceflar a ^rtilhe-» 
ria ,' e arcabuzaria ; mas ñera coxii iflb :ce& 
sáram os noíFos de darem continuos aíTalt 
tos ñas eílamrias dos Mouros, desque iem-* 
pre Ihes falziam grande damno; Succedé- 
raiA aqui tambem cafos notaveisi, ejoüe fe 
podiam ter por mrlagixxíbs : a himfoidado 
deo hum pelouroí.de huma pega pequeña 
nos cabos da eípada.:, ,e paíloü fem.fazer 
maisíque amaírallos , aílim como fe conta 
sia materia dos caios \ que adonteceoii dar 

Jium 



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4jr6 ASIA DE DiOGO DE CotTTO • 

hum em huma efpada , derretella dentro^ 
fem a bainha receber le$áo a]guma. An- 
dando Fernáo de Soufa> de Caft^Uo-bran- 
eo a cavallo vendo as eítancias , deo-lhe 
huma bala nos peitps , que o derrubou no 
chao ) e Ievantando*fe , nao achou ferida, 
nem pizadura alguma. Andando o Sargen- 
to mor JóSo de Abreu pafitando defron- 
te da pofta de Sant-Iago, deo huma gran- 
de bala no portal , e hum pedajo delle 
Ihe foi dar na cabera , qü0 llm fez em pe- 
damos , havendo duas horas que fe tinha 
Confeflado , porque parece infpirou Déos 
neÜe aquella vohtade pera ufar com fuá al- 
ma de misericordia. ' 

í Melado, o mez de Julho, que he a for- 
ja do invernó, teve o Vifo-Rej^ recado üor 
térra de Jorge deMoura, Gapitáo da For- 
taleza de Onor , de como a Rainha de 
Garfo, induzida, e favorecida do Idalxá, 
tinha pofto cerco aquella JFortaleza com 
finco mil homens de pé , e quatrocentos 
de cavallo , a maior parte gente do Idal- 
xá , porque todos os íleys da liga intenta- 
ram por jtodas as vias induzir os vizinhos 
das/noíTas Fortalezas cojjtia ellas ,' oo meít 
motcMpo que ellea .tiiiham ^e cerco a 
cabeja dó Eftado , ,pera impoífibilitarem 
os foccórros, e por verem fe podiam lam 
jarraao-de iium/ fó Caftello daquelles >:.pe« 

.. ri ra 



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Década VIIL Cap. XXXIX. 45-7 

ra que de todo llie nao ficaffem em yac os 
gaftos de fuá jornada, c^uandonella nao pvh 
deíTem confeguir o principal intento que 
pertendiam : por Capitáo de toda efta gen- 
te foi Chaticáo , homem aiFouto , e det][uein: 
o Idalxá tinJia boa opiniáo. O Vifo-Rejr 
tanto que teve aquellas novas , quiz- mot^ 
trar ao inimigo que aínda que tiraíTe de á 

Sualquer foccorro , e poder coqi o que 
le ficava , fe havia de defender , e offen- 
dello , .e naandou* com milita preífa nego- 
ciar huma galé com oito fuftas , de cujos 
Capitáes nao achei mais ínemaoiia ^ que dd. 
Diogo de Azambuja em hunía • galé : das 
navios , D. Luiz de Menezes , Apollinario 
de Val: de Ranaa , e ATBtonio^Fer«andés^i> 
Malavar, que hia por Capitáo -mcSr d^'toí: 
dos ; e commettendo a barra , vcme 2nÚayí\ 
mui foberba ^ quiz Déos que paflaffemrféra 
rifco; e dando i vela comtempós ghsílbs:^ 
e ponteiros-, em finco dias chegáram á 
barra deOnor, na. qual lentrácam tx2m:mui<{ 
to TJfco ^ adiando a Fortaleza em iñuiid 
trabalho'; e. véndo-fe Antonio Femandiésr 
com Jorge -^^ de Moura , (aflegtáram 'qi|é á 
certas horas defembarcalTé dle coto. toda 
íi gente que triazia ^ quei erám i^oujáo vntíi 
de düzentois homens, e que J<»rge.deMoo3 
rafahiffe. da Fortaleza comento , eioiíe 
ambos £omnietteíiem os inámigos * poniiía 
•-' ' par^ 



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45^8 ASIA DE DioGó de CouTcr 

parte cada hum , pera aílim os atormenta» 
rem y como iizeram em muito boa ordem ; 
e dando de fupito ñas eftancias dos ¿nimi^ 
gos ^ fizeram nelles tal eftrago , que honve* 
ram por feu partido deixarem tiuio , e aco- 
Iherem-fe , fícando todas as tendas.com a 
artilheria , armas y e mantimentos , que tu* 
do fe recolheo na Fortaleza , com que ficou 
próvida pera muitos días» 

C AP I T U LO XL, 

D9 cerco qut o Cyántori ptíz d nojfa For^ 
taleza de Qhaléy e do que nelle fuccedeo^ . 

Ao lícou couía que pudeífe refultar 
em ruina doEílado , que os Reys cpn- 
jurados «ao intetítaífem , * ;nem humores 
iruiíis/oue faiiáoj moveíTem contra o córpo 
4e noffa Monarquía^ pera verism. por, todas 
as vias fe a podiam acabar 4e extinguir^ 
Bia& Déos «lüb Scnhor ,. como verdadeiro 
Medico os remediou a todos , porque que- 
roí que foíTé iieUe por diante fuá Santa 
tei y e Evángelho ; pode fer^qoe por iílb 
oirdenalTe qiie fuccedeffe ' néfte tempo D# 
liür/: de A^taí de pera porii . fuá prudencia , 
coflJhnda , -e artificio ir curando todas ^s 
ohsgas, o. que í nao fei fo oútro fizera; Fií^ 
cava £í[ na cóílái da India o C^amoñ por íe 
- " ^ jno-» 



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elogie 



Decada VIIí; Cat. XU ' 45*^ 

mover contra nos , fendo o principal con¿ 
vocado per^ iffoi por fer o mais^podemfo 
Rey de toda efta fralda' do mar , o qual 
como fagaz ^ e prudente foi diflimulanda 
fuá inclinado até o meio do invernó , qü^ 
era no fim de Junho , tempo cm que as^ 
noíFas Armadas nao podiam' fahir pela 
barra de Goa fóra , no míe appareceo lü- 
pitamente, fobte á ncmk Fortaleza de 
fchaié , e a rodeou toda cbtñ péítiy decetti 
mil homens ¿ em que fe aflirijia háver oín* 
mil efpingardas 5 cercando-a logo de mkt. 
a mar , de vallos, e trinctefta§ ,-pofi eítáf 
lituada em huma pon ta d& banda» do' Sftt^ 
pela flual aííeftoü quarentí-^ejafe ^de bfoní 
ze,5 das quáes mandou praütaf/Mais d^ 
vinte ao longo do rio até á^bá¥fá^pé!*a de-í 
fensSo deils , • potxme Ihe fiáo pudeffe «ñ-> 
trar dentro coufa alguma^poi'fértalli ótié 
multo eftreitoi ainda que muito fundb ; -e 
nao bañando 'ifto^ no mais eftréítod^' Ca- 
nal 5 por onde' ós noíTos navios podiáfti ^iv»» 
trar , mandou atraveffar hum grande niaft 
tro nelle com muitas ancoras y qiie flcshra 
^m Huma bra^'debaixó da agua? V ;p¿ra fé 
oís' noíTos MvióS'commettefTem -a entf-ada/ 
i^uralhát-em ^í?lleá 3 pera alíi os désfefiei^eíd 
com fuá' artítheria. Era Caprfáo da Foírtá^ 
leza D. JoiÍ5e>de Gaftro b^maiií velfeo Fi? 
fda%o; pnidctoiey e<dc maioÉ cóhielho qUtf 
t ^ • lia- 



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4fo A S I A ,Di: DioGó db Couto 

Jiavia na India y, o oual pelas muitas veze^ 

aue cfteve naquella Fortaleza por Capitáo 
le chamavam o C^amorl » e os mais )keys 
da Coíbi Pai ; e como a effp Ihe tinham 
acatamento , e guardavam grande refpeito y 
e por fuá caufa deixáram por muitas yezes 
de fazetem guerra aquella Foitaleza, e de 
algumas que Iba fizeram fempre fe comnm^ 
BÍcavam , e. D.Jorge ¿ía . fegtiramente ao 
Sm exérdito , e outilas coufas deftas que fe 
coDtáo que pafsáram ambos ^ e como D« 
Jorge eftavá d^^fcuidado de tal fobrefalto 
pelo grande fftsgíedó com que o Qamori fe 
V^jEpociava y'.:. a ,dáo tlabam provimentos, 
porque ?todps ps que fe hariam mifter fe 
bhm jCQ9iprar .^o m¿ar dos Mouros , que 
ieáipre era^ .muito próvidos , ^nem tinha 
comiigQ mais qu^ feíienta^ ho^itftts vellios , 
(1 nK><;o^ j g^nte pobre , como s^. todos os 
qu^ dt recQJhem a ellas ¡Fortalezas , pera 
VíiÁnerwi. de feus quarteis^ e.majatimentos^ 
xpe^muitas vezes deixaqi d^^fe Ihes pagar 
Oor deícuido dos Governado^ses , e Vifo- 
J^eyst Tjjiha p. Jorge; comfigo/ua mulfcer 
J). JPilippa de Caftpo , íilhíi .de Jorge Dias-, 
Éjfcriyáo da fazenda da Jnfahíít D. Mari* ^ 
IjJkg de ElRey ^D. Manoel , que já fora Oüff 
ía4a <:om Jorge 4e Soufa Perora Camelo , 
que íia india- chamavaní O GuitaTra , .pot 
tftri nofiíq bpm Mttiica^^> e wmtQ ^^n^r^óy 
-L.! mem j 



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Decada VIIL Cap. XL. 461 

TOem , a anal D^ Filippa tinfaa comílgo hu* 
ma* fobrinna filha de numa fuá írmr, qud 
fora cafada com Dio^o Pereira , hum Fidal* 
go ^a Uhada Madeira, que cafou fegunda 
vezxom D.Francifca Sardinha, huma orfa 
que fe creou em Lisboa em cafa de minha 
mai , mulher pobre ^ e de mediano eftado ^ 
que por fer muito fermofa cafou com ella ^ 
e he a que elle trouxe á India na nao S* 
Paulo no anno de feífenta , que fe foi per-^ 
der iia contra-cofta de Samatra , onde a 
gente da térra a cativou, e por lá acabou^ 
e os enteados íilhos deDiogo Pereira, que 
aqui eftavam com fuá tia D. Filippa , era 
cafada , ou cafou depois com Thomé de 
Mello de Caftro : fei ellas particularidades , 
porque me criei com efta gente. 

AlTcntado o Camori com aquella po- 
tencia fobre a noíTa Fortaleza , comejou- 
Ihe a dar fuas baterías braviflimamente , e 
com grande terror , e efpanto ; mas p^ 
noífos feffenta homens , que D. Jorge re- 
partió pelos lugares mais neceífarios , fe 
oppuzeram contra aquella multidao diabo^ 
lica , e com a arcabuzaria , e artilheria od 
fuftigavam arrezoadamente. O Capitáo tan- 
to que fe vio cercado , teve modo com 
2ue defpedio recado ao Vifo-Rey , e á 
¡idade de Cochim , pera que o foccorreC- 
íkm ; porque elle ficava ao extremo dos ]>e^ 



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462 A.SIA DE DiOGO DE GOTITO 

txgos ; e como a preíTa defte 4;;erco os to* 
mou .defapercebldos , e faltos de tudo ^ co^ 
me^ou a fome a amea^allos , . e a entralios 
rijamente, oqoe todos fentiammais^qu^ as 
bombardadas ^ e os crueis aíTaltos^ com 
que continuamente eram commettidos ; e 
^ílim foram paíTando , e fuílentando^fe o 
xnelhor que pudéram com as efperan^as de 
ierem foccorridos. O (^amori bcm enten- 
deo que nao hayia de ganhar aquella For«» 
taleza fenao por fome pelos poucos provi^ 
pientos que fabia que tinham , e por iflo 
xiáo tratou de a entrar logo por aíTaltos, e 
aífim os foi dilatando , e continuando com 
%$ baterías , com que come^ou a fazer 
^aquelles pobres muros algumas ruinas ^ a 
Que os noílbs acudíram o melhor que pu- 
aéram ; e como Cochim ficava tao perto 
daquella JFortaleza de Chalé, logo em bre- 
ves di as Ihe chegoü o recado de D.Jorge, 
o qual raetteo a todos em grande . couni- 
sáo ; e vendo-fe o Capitáo Vafeo Louren-* 
JO de Barbuda em Camera com a Cidade, 
trataran! de foccorrer aquella Fortaleza 
com muita brevidadé , e logo dalli mandi- 
ram chamar D. Antonio de Noronha , que 
alli eftava cafado , e Ihe pedíram quizeflc 
ir áquelle negocio , ordenando-lhe huma 
nao 5 que. fe Ihe apreftou em breves dias, 
carregada de arroz » n>uni$6es ^ e outro^ 

pro-» 



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: Decada VIIL Cap. XL. 463 

proviraentos ; e aíEm mais duas fuftas pera 
ver ib com ellas , em cafo que a nao nao 

fmdefle entrar , podiam metter na Fortal- 
eza alguns provimentos , ao que fe deo 
tanta prelTa , que na entrada de Agofto fe 
fez á vela j c como os ventos eram debai'* 
xo , em jpoucos días foi furgir naquella 
barra de Chalé fóra da lagem com tempos 
muito verdes , e carregados , cuja Vifta pe-^ 
ra os cercados foi de grande confola^ao. 
D. Antonio de Noronha trabalhou todo o 
pollivel por metter alguns mantimentos na 
Fortaleza , aíGm ñas ñiítas , como em hu« 
ma palega , que pera iíTo levava y que por 
muitás vezes commettéram a entrada, mas 
nao pudérám paífar adiante , alfim pela 
muita 5 e bafta artilheria , que eftava alíef- 
tada á borda do rio , como por huma Ar- 
n^ada de quarenta paraos , que andava em 
guarda deíle ; e amm fe deixou eftar pera 
ver fe havia alguma boa occafiáo pei^a 
aquelle negocio. 

Chegáram tambem novas do aperto ^ 
cm que ficava efta Fortaleza á de Cana-r 
ñor , onde acertou de invernar Francifco 
de Soufa Pereira Camelo , irmáo de Jorg« 
de Soufa , que já dífle fora cafado com 
D. Filippa , mulher de D. Jorge de Cállro , 
o qual aífim pela obrigagáo de feu fangue, 
4e vaíTallo de ElRej^ e do parentefco que 
■ 1 tet 



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464 ASIA DE DiOGO DE COÜTO 

teve com D. Filippa , logo com toda a 
brevidade fretou huma Almadia ligeira 
mui bem efquipada de marinheiros , e íe 
* metteo nella com quacro Toldados , c hum 
efcravo feu , muito esforjado , levando o 
arroz , e peixe que pode caber na Alma- 
dia, tudo por feu dinheiro, e muitos mur- 
r6es 5 e chumbo que Ihe deo Alvaro País 
de Souto-maior 5 Capitao daquella Fortale-* 
za : aos feis dias do mez de Agofto fe fez; 
á vela com hum tempo mui invernofo, 
com que nao pode chegar mais que até ás 
Ilhas de Tiracoli .... leguas de Calecut 3, 
donde quaíi alagado tornou a arribar aCa- 
nanor , onde efperou a primeira monjáo, 
com que fe tornou a fazer á vela ; e for- 
jando o tempo , chegou á barra de Chalé 
a dezefete do mefmo mez de Agofto, onde 
achou furto D- Antonio de Noronha , fem 
poder raetter nenhum foccorro naquella 
Fortaleza, com o qual fe vio, e diíTe que 
com todo o rifco haVia de ver fe podia 
chegar a ella , o que Ihe louvou , e aífim 
commetteo a entrada do rio com grande 
determinadlo , promettendo aos marinhei- 
ros de Ihes fazer muito bem ^ e animan- 
do-os , porque com o que aqui tinham ou- 
vido hiam quali defconfiados ,. e por fímíl 
dos mares, que rebentavam em flor, com- 
metteo a barra ^ cm que eíleve alagado^ 

En-* 



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Decada VIIL Cap. XL. 465: 

Entrando no rio , comejou a artilheria da 
térra a defcarregar fobre elle huma nuvem 
de pelouros , com^que logo derrubáram 
hum marinheiro do leme, e feríram os ou-'» 
tros , pelo que no maior trabalho Ihe larga- 
ram o remo , e fe baqueáram , indo elle já 
áquelle tempo perfeguido de duas embar- 
cajóes dos Mouros ; e vendo-fe Francifco 
de Soufa naquelle tranfe , como era ani- 
mofo 5 lanjou a máo efquerda ao leme, e 
com a efpada nua na direita mandou aos 
feus foldados que fizeífem aos marinheiros 
tomar os remos , e fazer-lhes novas pro- 
meíías ; e dizendo-lhes , que fe elles haviam 
de mprrer alli debaixo efcondidos , nao 
feria melhór traballiarem hum pouco pera 
verem fe podiam livrar daquelle trabalho ? 
O que elles aílim fizeram, e foram reman- 
do pela veia da agua , e por enchcr a ma- 
ré o hia feguindo por poppa hum navio 
defemmaftreado com muita gente , e hia 
já táo perto , que quaíi Ihe hiam pondo a 

?roa ; o que vifto por Francifco dfe Soufa 
ereira , diíl'e aos foldados , que fe haviam 
de morrer fugindo , que mais honrado Ihes 
feria vender bem caras as vidas j e virando 
ao navio dos Mouros pera tambem o in- 
veftir 5 vendo elles fuá determinajáo , fe 
foram aflPaftando , com o que teve tempo 
de fe ir efcoando , chovendo fobre elles 
Couto. Tom. F. P. /. Gg nu- 



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4^6 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

nuvens de efpingardadas , e fréchadas das 
fuftas , aquella terrivel tormenta de furiofa 
artilheria da térra , que milagrofamente os 
nao defpedajáram a todos. Aquelles tran- 
fes 5 e trabalhos fe eftavam vendo da nao 
de D. Antonio , e da Fortaleza , donde os 
encommendavam á Virgem noíTa Senhora , 
oue os livraíTe daquelle perigo , que foi 
íervida de aífim o fazer , que a todos li- 
Irrou ; e tanto foi obra da Santillima Mai 
de Déos , que ao tempo que chegou a po- 
bre embarcajáo perto da couraja, Ihe deo 
liiuña , ou duas bombardadas que a arrom- 
táram , e aífim defpedagada foi varar á 
porta da Fortaleza , o que fe ihe fuccedé- 
ra hum tiro de efpingarda antes , nao pu- 
déra efcapar. D.Jorge de Caftro acudió ao 
recolher ; e vendo que era Francifco de 
Soufa Pereira com quem tinha tanta razáo , 
feftejou mais aquelle foccorro , e aínda 
do arroz , e peixe fe fuftcntáram aJguns 
poneos dias. O Capitáo pelo, feftejar o en- 
carregou do lanjo do muro , e por toda a 
couraca por onde os inimigos pertendiam 
entrar a Fortaleza , que já tmham muí 
dcsfeitá com a artilheria , e de fei^o que 
Tiao havia amparo , nem poderem alli cne- 
■gar 5 que níío foíTem derrubados com a ef- 
pingardaria ; más. Francifco de Soufa Perci- 
•ra com feüs foidados , e marinheii-os tor- 

nou 



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Década VIH. Cap. XU ' 46^. 

nou logo a levantar tudo de pedra , e bar» 
ro, dé modo que ficou mais defenfaveí. 

Efte foi hum dos maiores feitos , ou 
o maior que fuccedeo na India defta forte, 
e em fatisfajao delle Ihe nao fizeram mer- 
cé alguma , merecendo huina boa Fortale- 
za , e muitas vezes fallava ElRejr D. Se- 
balÚáo nefta entrada , e valerofo feito , lou- 
vando-o ; e fe nao íatisfez a efte Fidalgo, 
foi por nao ter quem fallaíTe niíío , e aiiim 
ficou fempré pobre como Duarte Pacheco 
tambem Pereira , e ainda agora vive aflím 
pobre em Ceiláo , onde Uie deram humas 
aldeas de pouca importancia pera o que 
merecía , as quaes nunca os Geraes daquel- 
la Ilha Ihe deixáram comer , nem Ihe qui- 
zeram nunca dar a poíFe dellas, e eu o vi 
vir aqui com efta quelxa ao Vifo-Rey , e 
tornar coin fupprimento , que tambem en- 
tendeo Ihe nao cumpríram , e lá eftá efte 
valerofo cavalleiro padecendo notaveis mi- 
ferias , e deftas ha cada hora muitas nos 
qiíe governáo , pela qual razáo nao fei com 
que corajáo os homens háo de aventurar 
as vidas em feitos arrifcados , fe Ihes háo 
de remunerar feu valor com ingratidóes ; 
mas fe nao alcanjou o galardáo merecido 
por feus heroicos feitos ,0 terá feu esfor- 
jo nefta minha hiftoria , onde Ihe durar4 
mais que oa defpachos temporaes que Ihe 
Gg ii nao 



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4¿8 ASIA DE DroGo de Cotjt'o 

nao chegáram , porque ha de permktir 
Déos noílo Senhor que quem aflim fe ar- 
rifca por feu fervijo , e pelo de feu Rey , 
c Patria , que por huma , ou por outra o 
venha a ter , como agora tem nefta hiílo- 
ria efte Fidalgo Francifco de Soufa Pe- 
reirá. 

Vendo D. Antonio de Noronha que 
Ihe nao era poffivel metter dentro naquel- 
la Fortaleza o fcccorro que levava , e que 
o tempo era ainda muito groíTo , e pode- 
ria aquella nao defcahir fobre a lagem, 
que feria hum mal fobre outro , havendo 
já nove dias que alli eftava , fe fez á vela 
pera Cochim , deixando os da Fortaleza 
defconfolados , e triftes , com as efperan- 
jas fó em Déos , de cuja mifericordia nao 
defconfiavam , e fó eíperavam feu reme- 
dio 5 e fe foram fuftentando o melhor que 
pudéram, mas muito miferavelmente , por- 
que nem meia medida de arroz tinha cada 
})eiroa de rajao, e muitos comiao os mió- 
os dos cocos feccos , a que na India cha- 
máo Copra , que os corrompía muito por 
fer já tudo azeite. 

As cartas de D.Jorge de Caftro , com 
o perigo em que eftava , chegáram ao Vifo>- 
Rey pouco mais , ou menos em dez de 
Agofto , o que elle fentio muito , e Joga 
com toda a preíTá mandou chamar D. Dio-~ 

go 



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Decada VIII. Caf. XL. * 469 

go de Menezes , pera que foíTe foccorrer 
aquella Fortaleza coiti duas gales , e que 
de caminho paíTaíTe por Onor , e tomaíTe a 
Armada que lá eftava ; e tanta preíTa dea 
cm feu aviamento , aue aos dezefeis do 
dito mez de Agofto fanio pela barra fóra , 
elle na fuá galé , e Mathias de Albuquer- 
que na outra , e huma manchtia de íervi-^ 
50 ; e dando á vela , foram navegando com 
tempos muito rijos , e tempeftuofos , e em 
breves dias chegou fobre a barra de Onor, 
onde furgío : ao outro foi fahindo a Arma^ 
da ; e por a barra eftar foberbiílima , e a 
galé de Diogo, de Azambuja nao poder 
paíTar , tornou pera dentro , e os navios 
de remo nSo deixáram de commetter a fa*- 
hida , que fói tao perigofa , que no banco 
fe perdéram tres fuftas , que os mares, 

aue eram grQÍTos , fojobráram , e D, Luiz 
e Menezes , ApoUinario de Val de Ra- 
ma , e Antonio Fcrnandes Malavar fahí^- 
xaní fóra por grande mercé de Déos com 
os navios alagados ; e dando á vela , che- 
gáram a Cananor , onde fe provéram de 
algumas coufas , e ao outro día foi alli ter 
com elle Diogo de Azambuja na fuá galé , 
que fahio daquella barra com o mefmo rif- 
co 5 e traballio que os navios. Com efta 
Arniada junta foi D. Diogo furgir fobre a 
baiTa de Qialé ; e havendo tres., ou quatro 

dias 



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470 ASIA DE DroGo de Corro 

dias que D. Antonio fe tinha levantado 
della , D.Jorge de Caftro tanto que vio a 
Armada , defpedio huma peíToa a nado com 
¿urna carta mettida em hum pelouro de 
cera pera o Capitao mor della , que nao 
fabia quem era , na qual Ihe dava conta do 
perigo em que eftava, e que nao havia já 
que comer , pedindo-lhe da parte de Déos , 
e de ElRey o foccorreíle com mantimen- 
tos , muni^Óes , Cirurgiáo , e Botica , que 
de tudo eftava muito falto ; mas que em 
nenhum cafo arrifcaífe as gales , porque 
ihas haviam de metter no fundo. D. Diego 
eftimou muito efte avifo , e refpondeo a 
D. Jorge que fe foífe entretendo por aU 
guns dias o melhor que pudeííe , que elle 
chegava a Cochim a buícar mais Armada , 
c que logo voltaria ao foccorrer em peiroa 
por ííma de todos os rífeos , que Ihe re- 
prefentava : e logo fe fez á vela pera Co- 
chim , e defronte de Tanor encontiou D* 
Antonio de Noronha na mefma náp com 
huma fiífta mais , em que hia por Capitao 
D. Triftao de Menezes ; e vendo-fe ambos , 
Ihe dille D. Diogo que fe foífe fobre Cha- 
lé , que logo voltaria a fe ver com elle 
-pera íbccorrerem aquella Fortaleza ; e che- 
.gando a Cochim , fe juntou com o Capitao 
.em Camera, e Ihe reprefentou a necellida- 
«de em que ficava aquella Fortaleza , per- 



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Decada VIII. Cap. XL. 471 

fuadindo aos Vereadoires que quizeflem ar* 
mar alguns navios pera tornarem a foccor- 
relias ; e como aquella Cidade, e as mais 
da India nao he neceíTario mais que repre- 
fentarem-Ilie a. necellidade pera fe empe«* 
nharem , e acudirem a ella , aílim efta lo» 
go armou eom muita brevidade oito navio» 
muito bem petrechados , chelos de muito 
boa foldadeíca , com que D. Diogo fe fez 
á vela , levando treze navios , e tres gales j 
e furgindo na barra daquella Fortaleza^, 
defpedia de noite a fuá manchua , de que 
andava por Capitáo Luiz Fernandes , mui- 
to valente foldado, com cartas a D.Jorge, 
o qual conunetteo á entrada pela barra 

})equena ; e como levava marinheiros Ma- 
avare^j que fabiam aquellas entradas mui- 
to bem , Q favoreceo Déos de feijáo , que 
cheg&u até o pé da Fortaleza , e de fima 
della, donde o eftavam vendo, llie bradá- 
ram que bempodiam chegar maisperto; e 
eftanda á pratica , acudíram por huma , e 
outra banda tanta quantidade de Mouros , 
e Naires , que tiveram tomada a manchua 
pelos remos, e llie tomáram tres, ou qua-' 
tro peíToas ; mas pelo esforjo de Luiz^Fer- 
nandes nao houve efFeito o que os Mou- 
ros pertendiam j porque fe aíFaftou pera 
fóra. No mefmo tempo mandou o C^amori 
dar hum aífalto geral na Fortaleza > en^ 

cof" 



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47^ ASIA DE DiOGO Dl£ CóUTO 

coftando huns nella as efcadas por multas 
partes , e outros a picarem as muralhas 
pelo pé , ao que os noíTos acudíram com 
mijito valor , defendendo huma , e outra 
coufa , e o bom velho D. Jorge de oitenta 
annos armado com huma efpada na máo 
correndo o muro , animando , e favorecen-» 
do os feus pera que pelejaílem, 'jTudo fe 
desfazia ás bombardadas , e ardia em 
chammas de fogo , e gritos , e alaridos , e 
tudo era huma confusao , que mettia me- 
do ; da noíTa Armada eftavam vendo tudo 
com grande mágoa , e pai^ao de os nao 

Ííoderem foccorrer. Ó Luiz Fernandes foi*fe 
ahindo pera fóra mui perfeguido das fuíbs 
do Camori ; e pofto que o& marinheiros 
fabiam muito bem aquellas barras, todavía 
com a opprefsáo em que fe víram , erráram 
© canal , e encalháram fobre huma pédra , 
no qual tempo Luiz Fernandes ciíamou 
muito do corajáo peía Virgem noíTa Se- 
nhora do Rofario; e affirmáo que no mef* 
mo tempo Ihe dera hum mar pela poppa, 
que o lanjou da outra banda da reftinga, 
ficando llvre dos perigos ambos o do bai- 
xo, e dos paraos que o perfeguiam. 

Vendo-fe D. Jorge de Caftro defapre- 
zado do combate , que os Mouros largá- 
ram ja de noite , e que nao pudéra man- 
dar ayifo a D. Diogo pel^ manchua , o que 

9 



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Decada VIII. Cap. XL. 47 j ; 

c tinha milito penfativo , coufa que todos 
o enxergáram , o que vifto por dous Tolda- 
dos de fuá obrigajao , fe Ihe offerecéram 
pera irem á Armada com o recado que 
quizeíFe , o que Ihe D. Jorge agradeceo 
muito , e logo Ihes deo a cada hum feu ef- 
crito mettido _^m pelouros de cera , em. 
que D. Jorge nao dizia mais fenáo que Ihe 
déíTe crédito : eiles foldados , a quem defe- 
jei faber os nomes , fe defcéram por huma 
corda á boca da noite , e fe mettéram en- 
tre humas pedras até fe recolherem as 
manchuas do C^amori , eme andavam pelo 
rio vigiando ; e como viram tempo , lan- 
járam-fe a nado pela agua fóra , gritando 
pera cjue os ouviíTem na Armada , ao que 
D. Diogo mandou a manchua , e barqui- 
nhos a faber o que era , que logo Ihe pa- 
receo o que poderia fer ; e entrando eftas 
cmbarcajóes o rio , os topáram ambos , e 
os recolhéram dentro , levando-os a D. Dio- 
go ; e táo mal tratados hiam , que por 
mais de huma hora de tempo nao torná- 
ram em fi , e os mandou metter em baixo 
cm huma camera , onde os mettéram, 
aquentandO'OS , e veftindo-os até tomarem 
em fi , e delles foube o miferavel eftado 
em que eftavam , aífim de damnificados das 
baterías , como debilitados das fomes ; e 
yiftos os efcritos ^ como nao eram mais 

que 



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474 ASIA DE DioGo de Cotjto 

que pera crédito , mandou chamar á fuá 
galé D. Antonio de Noronha , e todos os 
Capitáes da Armada ; e prefentes todos , os 
curio , e Ihe deram larga relajáo do cer- 
co , e de como o CJamori eftava fortifica- 
do , e que fe os nao foccorreíTem com 
gente, e mantimentos, nao podiarñ tal fa- 
zer, fenáo entregarem-fe todos aos inimi- 
gos , porque contra a fome nao havia ar- 
mas defenlivas , e que em huma maré po- 
día entrar , e íahir-fe em outra ; mas que 
nao arrifcaíTe as gales , porque a artilhería 
era tao baila , que nao poderiam efcapar 
de ferem mettidas no fundo : fobre efta 
rela9ao pedio a todos que yotaíTem no mo- 
do como haviam de foccorrer a Fortaleza 
de ElRey , que no foccorrella nao havia 
que tratar , porque o haviam dé fazer , 
ainda que tudo fe perdeíTe. Praticado o 
cafo , foram os mais de parecer que fe fof- 
fe foccorrer a Fortaleza nos navios ligei- 
ros, e que as gales Ihe foíFem dando guar- 
da , e varejando a praia pera divertirem 
os iniraigos , e fegurarem os navios ligei- 
ros dos paraos dó (Qamori , que andavam 
pelo rio de dia ; e de noite fe recolhiam 
no rio deCaramandi, qué fe métte nomef- 
mo de Chalé , onde eítávam com determi- 
na^ao de pelejarem com a noíTa Armada, 
por aílím Iho ter mandado o Camori, 

Af^ 



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Decada VIII. Cap. XL. 475: 

AíTentado efte negocio , mandou Di 
Diogo a D. Antonio de Noronha que Ihe 
chegalTe o batel da fuá nao cheio de man-» 
timentos , e municoes , e que nelle foíTe o 
Cirurgiáo , e caixa de Botica ; e ordenou a 
Fernao de Mendoja feu fobrinho pera fi- 
car na Fortaleza por Capitáo da gente de 
guerra , e que ficauem com elle Tnomé de 
Mello de ¿aftro , e D. Alvaro de Caftro , 
com cada hum fúa Companhia de Tolda- 
dos , e outros fidalgos aventureiros , que 
3ueriam ficar naquelle cerco , os quáes ao 
iante nomearemos : pelos navios ligeiros 
mandou D, Diogo repartir mais mantimen- 
tos , e munijóes , e as bombardeiras que 
haviam de ficar na Fortaleza ; e citando 
tudo preftes pera o outro dia de madruga- 
da , que era entáo conjunyáo de meia ma- 
ré cheia / commetter a entrada , dando a 
dianteira dos navios ligeiros a Antonio 
Fernandes Chalé , que nomeou por Capi- 
táo rñór de todos , fuccedeo aquella noite 
ir D. Alvaro de Caftro á galé de Mathias 
de AJbuquerque , com quem elle hia em- 
barcado , e dizer-lhe , que os Capitáea 
hiam receofos das gales nao entrarem em 
fuá guarda , e llies parecía que fora artifi- 
cio aíTentar-fe que foíTem ellas ; e que fe 
tal fufpeitava Iho diíTeíTe como amigo ^ 
porque fe paífariaa huma das fullas, por- 
que 



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'47^ A S I A DE DiOGo DE Comro 

que cumpríria á lúa honra metter-fe na- 

3uella Fortaleza, pois nella tinha fuá mu- 
ler. Mathias de Albuquerque ficou efpan- 
tado daquelle negocio , fabendo elle o con- 
trario , porque aquella fufpeita com que 
hiam bafiava pera fe perderera todos ; e 
mettendo-fe na íiía bateira , foi bufcar a 
D. Diogo y e Ihe deo conta do que paíTa- 
ya, deque elle ficou fobrefaltado. Era iílo 
em vinte e fete de Setembro ; e mandan- 
do logo chamar D. Antonio de Noronha , 
e os Capitáes de toda a Armada , Ihes fez 
a todos huma breve pratica , na qual Ihes 
propoz a neceifidade em que aquella For- 
taleza eftava , e que pox nenhum cafo ha- 
via de deixar de a foccorrer com todo o 
rifco Que foíTe : que elle eftava informado 
que aíguns dos Capitáes dos navios efta- 
vam receofos de metterem aquelle foccorro 
por fufpeitarem Ihe nao haviam de dar as 
gales guarda, pelo que pedia a todoS que 
fobre aquelle ponto votaífem livremen.te, 
porque o que alli fe aífentaíTe fe havia de 
executar ; e debatido o ijegocio , votáram 
quafi todos que íe nao arrifcaffem as ga- 
les , e que os noíFos navios baftavam pera 
lanfarem aquelle foccorro na Fortaleza, 
fenáo quanto Mathias de Albuquerque , e 
Diogo de Azambuja accrefcentáram mais , 
que fe alguus Capitáej$ dos navios hiam 

pe. 



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Decada VIIL Cap. XL; . 477 

pejados , ficaffem por Capitáes das fuas 
gales y e que elles íe embarq^riam nos feus 
navios. AíTentado em fim que as gales fe 
nao arrifcalTem , mandou D. Díogo defem- 
maftrear os navios , e deixar os maftós , e 
vergas a bordo da nao pera irem mais li- 
vres , e ligeiros , e ordenou que Fernáo de 
Mendoza defembarcaíTe logo em térra com 
íincoenta homens pera defender a defem- 
barcajáo dos mantimentos , e que Antonio 
Fernandes Chalé levaffe a barcaca , e le 
encarregaíTe da defembarca^o deüa , e or- 
denou oütras coufas que Ihe parecéram 
neceíTarias. Eftando preftes pera entrarem 
na maré de pela manhá , que foi dia de 
S. Miguel 5 que foi em vinte e nove de Se- 
tembro , e ao tempo de quererem partir, 
foi tanta a agua que cahio do Ceo , que 
parecía o íegundo diluvio das aguas : o 
que vifto por D. Diogo , mandou Tobreftar 
na entrada , porque ficáram os navios, 
artilheria , e efpingardaria tudo inhabili- 
tado pera poder laborar , o que nao era» 
na dos inimigos , que eftava tudo debaixo 
de ramas enxutas , , e que faria feu empre^ 
go multo áfua vontade, que paífaria aquel- 
la furia 5 e ao outro dia fariam lúa jorna- 
da , e que parece que Déos noífo Senhof 
quería que elle com todas as gales,, e fuf' 
tas foíTem foccorrer aquella Fortaleza, co- 
mo 



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47^ ASIA DE DiÓGO DE COUTO 

mo havia defazer: que peraiflo fefizeflem 
todos preAcs , porque na maré do outro 
día havia de entrar, ordenando logo allí o 
modo como havla de fer, que foi por efla 
maneira. Diogo de Azambuja na lúa galé 
defenunafireada , por fermais pequeña , fof- 
fe logo após dos navios de remo , que ha- 
viam de ir diante com o batel dos provi* 
mentos , e que Mathias de Albuquerque 
tambem defemmaftreado foíTe na retaguar- 
da das gales , e que elle Capitáo mor foíTe 
no meio , e com ifto fe foram preparar , e 
deíemmaílrear. y o que D. Diogo nao quiz 
que fe fizeíTe á fuá galé , por reputado, 
e .aurhoridade da bandeira de Chrifto que 
levava , e cada hum preparou a fuá galé, 
e encommendou os lugares mais perigofos, 
pofio que todos o eram^ apeifoa demaior 
confian^ , animando os feus forcados , e 
promettendo-Ihes perdoes de feus degredos , 
e alforrias aos cativos Chriilaos. 

Por Capitao mor de todos os navios 
de remo ioi nomeado Antonio Femandes 
Malavar , os mais Capitaes eram os íeguin- 
tes : D. Luiz de Menezes , ApoUinario de 
Val de Rama , Jorge de Paiva , Joáo Perei- 
ra , Joao Pinto , Antonio de Menezes , Gomes 
Carvalho , Sebaitíáo Femandes , Pedro Ro- 
drigues Malavar , Francisco Femandes , c 
Luiz Femandes na manchua do Capitao mór^ 

dos 



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Decada VIII. Cap. XL, 479 

dos mais nao achei os nomes. Preftes tudo 
ao outro dia , que foi do grande Doutor 
S. Jeronymo , conimettéram a entrada na 
ordem que diíTe^ indo os paraos ladrando 
detrás delles , por verem fe os podiam des- 
ordenar , ou fazer dar com alguma galé 
fobre o balxo ; e tanto que os Mouros 
víram entrar a noíTa Armada , comeyáram 
a defcarregar fobre ella com aquella infer- 
nal furia de fuá artilheria , a que nao eC- 
capava coufa alguma , e por meio daquel- 
las trovoadas , carrancas mortaes , chegaram 
até á porta da Fortaleza com todas as ga- 
les varadas de parte a parte , como logo 
direi ; e em defcubrindo as janellas dos 
apofenfos do Capitáo , víram a ellas D. 
Filippa 5 e fobxinha fuas , e outras defca- 
bellacas com Cruciiixos ñas máos pedindo 
mifericprdia a Déos noíFo Senhor , pera 
que.livraíTe a Armada daquella .fiíria infer* 
nal. D. Jorge de Caftro tanto que vio a 
Armada já perto , abrió a porta , e foi-fe 
fóra com alguma gente , e mandou a Fran- 
cifco de Soufa Pereira que com hum guiáo 
de vinte e íinco horaens Portuguezes , e 
quinze Chriftáos déíFe nos vallos dos inir 
migos da banda do Norte , onde havia de 
fer a principal defembarcajao dos noífos 
^era os favorecer , o que Francifco de 
Soufa Pereira fez. com tanto csforjo ¡ e im- 

pe- 



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4S0 ASIA DE D1O6O DE COUTO 

peto que Uies ganhou os rallos . depois de 
ter com elles huma afperakbatalna , ajudafi^ 
do-fe nella de multas panellas de polvera 
com que matou , e abra¿ou mals de qua- 
trocentos ^ aínda que a certidáo que diílo 
tera Francifco de Soufa Pereira , a qual 
cftá em meu poder , diz que foram feiscen- 
tos , em que entráram cento e feíTenta Pa- 
niáes , e cento dos outros , que sao Capi- 
tíes y e peíToas princlpaes da cafa do C^a- 
morí , de maneira que quando Antonio 
Fernandes Malavar, e os mals navios che^ 
gáram , acháram aquella parte deíimpedi- 
da , com o que tiveram tempo de deíem- 
barcarem os mantimentos , e muni^Óes que 
levavam ; e chegou a galé de Diogo de 
Azambuja táo perto de térra , que muitos 
Mouros Ihe ferráram dos remos , metten- 
do-fe por a agua , o batel ficou encalhado 
á i)orta do baluarte por nao poder paíTar 
imais adiante com as bombardadas , e allí 
íahíram os fenridores dá Fortaleza a re- 
colher o que levava , onde acudíram tan- 
tos Mouros 5 e táo foffregos que fe -met- 
tiam dentro no batel com os noífos , e os 
faccos de arroz que fe tiravam, remettiam 
elles aos tomar , fobre o que houve gran* 
des briga« , e multas entiladas entre os 
Jioíros 5 e elles ; e ao defembarcar do cai- 
xáo da botica , cuidando os Mouros que 

era 



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Decada VIII. Cap. XL. 481 

era dinheiro , carregáram fobre elle tantos , 
que o leváram nos ares fem os noíTos o 
poderem defender ; e como hlam com 
aquella cubica de cuidarem que levavam 
muito ouro , foram-fe tantos após elle, 
que tiveram os noíTos tempo de recolherem 
os noíTos mantimentos , de que fe refiíndí- 
ram. rauitos ao entrar da Fortaleza , e de 
cntrarem nella os que haviam deficar, que 
foram Fernáo de Mendoja , D. Alvaro de 
Caítro , Roque de Mello ^ que depois foi 
Capitáo de Malaca , Thomé de Mello de' 
Cauro , Cuftodio Mendes de Vafcoñcellos , 
e Machias Pereira de Sampaio feu irmáo, 
os maiores , e mais fermofos dous Fidal- 
gos que havia na India , e grandes cavallei- 
ros , e Jeronymo de Lima , hum foáo Car- 
rafeo , e outros a que tambem nao achei os 
nome3 : e Antonio Fernandes de Chalé 
tambem teve tempo de tirar fuá mulher, 
que eftava na Fortaleza , e embarcalla no 
íeu navio , o que tudo fe. pode fazer em 

3üanto os Mouros eftiveram com a caixa 
a botica ás voltas ^ que tambem aqui a- 
})roveitáram as fuas mezinhas aos noílos , e 
he deram vida aquelles dias , até que def- 
enganando-fe os Mouros , abrindo o cai- 
xáo ., em lugar do ouro que efperavam fe 
acháram com pandlas de ungüentos, e ou- 
txas coufas defta forte. Vendo o Capitáo 
Couto.Tom.V.F.l Hh mor 



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4^2 ASIA DE DiOGO DE COUTO 

jnór que os pronmentos eftavam recolhi- 
do$ , 09 quaes tinha oreados pera trinta e 
finco dias , fez final a voltarem pera fóra , 
por repontar já a maré , c porque Ihe cuf- 
tavam multas mortes os momentos que allí 
eftavam , e aílim fe voltáram com o mef- 
mo rifco , e perigo , porque a artilheria 
ounca.deixou de fazer íeu emprego , e de 
paifarem os pelouros as gales por muitas 
partes de banda a banda , o que acudió a 
remediar com couros. Na gale do Capitáo 
mor fe matáram vinte peíToas , na de Dio* 
go de Azambuja onze , na de Mathias de 
Albuquerque nove , por ir muito empa- 
vezada. 

Acontecéram nefta entrada , e fallida 
milagres muito evidehtes : a Antonio Fer- 
nandas de Chalé deram algumas bombar- 
dadas por diverfas partes do corpo , fem 
IJie fazerem mal algum ; mas deo-lhe hu- 
ma pelo paiol , onde levava fuá mulher 
que Iha matou , porque nao ha fugir ao 
Que Déos tem ordenado : a Joáo Pereira 
Iñe dco hum pelouro de camelete atravef- 
fado por baixo do ventre , que Ihe levou 
a ponta do embigo fem Ihe fazer outro 
damno : a Diogo de Azambuja deo hum 
pelouro de efpera na coxa direita por fima 
do joellio , fem Ihe fazer mais dañino que 
buma nodoa preta : a Bartholomeu de Le- 

mos^ 



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Decada VIII. Caí. XL, 485 

mos , que hia na galé do Capitáo mor, 
Ihe dco outro pelouro de camelete nos 
peitos , que Ihe nao fez mais que huma 
nodoa vermelha , e Ihe cahio aos pés , fa- 
zendo-lhe a efpingarda em pedamos : a 
hum foldado , a quem defejei fabcr o no- 
me , Ihe levou huma bala numa perna ; e 
quando o eílavam curando , e cerrando-lhef 
a perna , perguntava fe eftava a Fortaleza 
foccorrida , porque Ihc deram a entrada ; 
e dizendo-lhe que fim , refpondeo cóm 
grande esforjo : Jd que a Fortaleza de 
ElRey ejidfegura , morra eu muito emho* 
ra , que pouco val na minha vida , e nao 
quero mais honrada morte. Quanto he mais 
digno de louvor efte foldado, que aqüelle 

§rande Marco Romano , ao qual mandan* 
o-lhe os Médicos cortar hum brajo, por- 
que tinha herpes ncUe, refpondeo que em 
nenhum modo tal havia de confentir , por- 
que nao tinha a vida em tanta eítimajáo , 
nem achava que era tanto pera Cubijar, 
que por elle fe padeceíFem tamanhas do- 
res , e affim morreo ; e com quanta mais 
razáo fe pudera confolar a mái defte noíTo 
foldado , do que o fez a daquelle Trafidas , 
Capitáo dos Lacedemonios , o qual morreo 
na batallia em que levou aos Gregos de 
Tracia ; e dando efta nova a fuá mái fem 
fe turbar , perguiitou fe morréra feu filho 



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484 ASIA DE D^OGO DE CouTo 

^sforcadamente pelcjando ; e dizendo-lhe 
que lim , refpondeo com animo mais qiie 
varonil : EJfa confola^aa me Jicara de Jua 
morte. A eíta muJher chama Plutarco Ar- 
gelona, e outros Archelionada, 

Tornando a continuar com as coufas 
que deixci , hum pelouro de hum camello 
de marca maior deo a hum foldado cha- 
mado André de Barros ^^ e o tomou por 
huma coxa , em que Uie nao fícou maisi 

Su^ huma nodoa vermelha , e o pelouro 
le cahio aos pés. Na. galé de Matnias de 
Albuquerque deo hum pelouro de huma 
efpcra, que paíTou o collado de huma ban- 
da, e foi-fe metter em hum caixáo depol^ 
vora no paiol , fem tomar fogo : levara 
tambem efte Capitao a fuá galé toda em-r 
bandeirada de bandeiras , que fe coftumam 
dar nos armazens , o que já hoje nao ha , 
as quaes eram quadradas , de tres palmos 
de quadro , de panno de algodao branco 
^om a Cruz de Chrifto de panno verme^ 
Iho 5 as quaes aíFim ao entrar, como aofa-. 
hir deram em cada bandeira a quatro, e a 
lineo efpingardadas , fem nenhuma tocar 
pa Cruz , e em huma d^o huma bala de 
artilheria , que , levou o branco por todas 
as partes , íicando a Cruz vermelha toda, 
inteira fem lesáo alguma: coufa milagrofa, 
pQr(ju§ nao fei fe cqh^ . a máo fe puder^ 



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Decada VIIL Cap. XL. 485: 

cortar tanto ao jufto , fem tocar hiim fio no 
panno vermelho da Ciniz : na galé do Ca- 
pitáo mor deo huma bala , que levou oito 
forjados todos pelas pernas ; na galé de 
Mathias de Albuquerque dco outra bala 
por huma bancada , que levou quatro for- 
cados Mouros pela cinta *, e hum fó Chri- 
íráo 5 que eftava no meio delles , por fe 
abaixar nefte mefmo tempo a fazer feus 
feitos , nao Ihc fez mais que rocar-lhe os 
cabellos da cabeja : em conclusao na galé 
defte Capitáo deram allim á entrada , co- 
mo á fahida vinte e fere bombardadas , 
que a pafsáram de parte a parte ; e pri- 
meiro que D. Diogo fe foíle da barra pera 
ir a Goa bufcar mais foccorro , teve huma 
carta de D. Jorge de Caftro por hum ho- 
mem da térra , que Iha levou a nado , na 
qual Ihe dizia , que fizera ornamento do 
arroz que recolhéra , e que nao achara 
mantimento pera mais de quinze dias a 
meia medida cada peíToa , encarecendo-Ihe 
niño tornallo a prover dentro nefte tempo ; 
com o que fe fez á vela pera Goa , e D. 
Antonio de Noronha pera Cochim , onde 
o deixaremos hum pouco , por continuar- 
mos com o Vifo-Rey novo , que nefte tem- 
po chegou á barra de Goa. 

FiM DA Década Oitava. 



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NOY 2 3 ]m 



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